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O Reflexo do Desejo no Espelho da Academia
A manhã de segunda-feira na academia tinha um peso diferente. Para a maioria, era o dia oficial do recomeço, das promessas de dieta e dos treinos de perna sofridos. Para Is e By, era o primeiro dia em que o mundo — ou pelo menos o ecossistema daquela unidade — veria o resultado da química explosiva que vinha sendo cozinhada entre anilhas e olhares profundos.
Is chegou primeiro. Vestia um conjunto de legging e top em tom verde-militar que realçava seu corpo esculpido e contrastava com seus cabelos mel, que hoje estavam presos em um coque alto e despojado. Ela estava na frente do espelho principal, ajustando os fones de ouvido, quando o reflexo de By apareceu logo atrás dela.
Ele estava com uma regata cavada que deixava claro o porquê de Is ter ficado tão impressionada na noite anterior. Os cachos estavam levemente úmidos e o olhar penetrante encontrou o dela pelo espelho, um sorriso de canto brincando em seus lábios.
— Bom dia, moça — disse ele, aproximando-se o suficiente para que ela sentisse o calor do seu corpo. — Pronta para o desafio ou vai pedir arrego antes de começar?
Is virou-se, apoiando as mãos nos quadris e encarando-o com aquela sobrancelha arqueada que ele tanto amava.
— Eu? Pedir arrego? — Ela deu uma risada curta e provocativa. — Acho que você esqueceu com quem está falando, By. Eu vim para ganhar esse jantar.
— É o que veremos — ele rebateu, aproximando-se ainda mais, a voz baixando para um tom que só ela podia ouvir. — Mas confesso que, depois de ontem, eu já me sinto o maior vencedor dessa cidade.
Is sentiu o rosto esquentar, mas não desviou o olhar.
— Menos conversa e mais peso, By. Vamos para o leg press.
Eles caminharam até o aparelho. O clima de flerte era palpável, mas havia algo novo: uma cumplicidade de quem agora conhecia os segredos um do outro. Enquanto Is se posicionava no banco, By começou a carregar as anilhas.
— Você sabe que eu não vou facilitar só porque você é... você — disse ele, colocando a quarta anilha de vinte quilos de cada lado.
— Eu ficaria ofendida se facilitasse — Is respondeu, ajeitando os pés na plataforma.
Ela começou a série. A concentração era total. By ficou parado logo à frente, os braços cruzados, observando cada movimento. Ele não estava apenas cuidando da segurança; ele estava admirando a força dela. Quando ela terminou as doze repetições com uma execução perfeita, ele soltou um assobio baixo.
— Ok, eu admito. Sua base é impressionante — ele disse, estendendo a mão para ajudá-la a levantar.
— Impressionante o suficiente para você admitir que eu sou mais forte? — ela provocou, aceitando a mão dele e sentindo o aperto firme.
— Calma lá. Eu disse que é impressionante, não que é maior que a minha — By riu, puxando-a para perto por um segundo antes de ela se soltar. — Mas agora é a minha vez de provar um ponto.
Enquanto By fazia sua série, Is aproveitou para checar o celular. O vídeo que haviam postado no sábado, da trend na barra fixa, tinha se tornado uma avalanche. Milhares de curtidas, centenas de comentários de pessoas perguntando se eles eram um casal ou "apenas amigos de treino com muita química".
— By, olha isso — disse ela, mostrando a tela para ele assim que ele terminou. — A gente virou "couple goals" da noite para o dia.
By limpou o suor da testa com a gola da regata e olhou para o celular.
— O pessoal tem bom gosto — ele comentou, pegando o celular da mão dela e lendo alguns comentários. — Olha esse aqui: "Se não for para treinar assim, eu nem vou". Mal sabem eles que a melhor parte nem foi gravada.
Is deu um tapa leve no braço dele, rindo.
— Shhh! Alguém pode ouvir. Mas, falando em gravar... eu vi uma trend nova hoje cedo. É um desafio de força e confiança.
— Se envolver você pendurada em mim de novo, eu já topo — By respondeu prontamente.
— É quase isso. O primeiro é o supino de casal. Eu fico sobre você para dar estabilidade e carga, e você faz a série. Mas o segundo... o segundo é o que eu quero ver. É a barra fixa, mas de frente um para o outro, com as pernas entrelaçadas.
By arqueou as sobrancelhas, um brilho de desafio nos olhos.
— A gente já fez algo parecido, não?
— Não como essa. Nessa, eu me penduro primeiro, e você vem por baixo, me abraça com as pernas e a gente faz o movimento juntos. Exige muita sincronia. E, no topo de cada repetição... — Ela fez uma pausa dramática.
— No topo de cada repetição? — By instigou, aproximando-se.
— Tem um beijo.
By soltou uma gargalhada e balançou a cabeça.
— Você quer me matar no meio do treino, Is? Meu coração já não está aguentando a sua presença, imagine fazer barra e te beijar ao mesmo tempo.
— Está com medo de não ter fôlego, By? — ela provocou, dando um passo para trás em direção à área de calistenia.
— Medo? — Ele a seguiu, a postura mudando para aquela de quem ia provar que era capaz de qualquer coisa por ela. — Eu te mostro quem tem fôlego aqui.
Eles se dirigiram para a gaiola de agachamento, que tinha uma barra fixa alta. Is posicionou o celular em um tripé no banco de trás. Alguns frequentadores começaram a observar, curiosos com a dinâmica dos dois que já eram conhecidos pelas brincadeiras e agora pela proximidade óbvia.
— Pronta? — By perguntou, posicionando-se logo abaixo dela.
— Pronta.
Is saltou e segurou a barra com uma pegada firme. Suas costas se definiram imediatamente. By, então, aproximou-se. Ele segurou na cintura dela primeiro, as mãos grandes e quentes contrastando com a pele firme de Is. Ele a levantou levemente e então, com uma agilidade de atleta, entrelaçou suas pernas na cintura dela.
A proximidade era absoluta. Is sentia a respiração dele contra o seu pescoço, o calor do peito dele pressionando o seu.
— No três — sussurrou By perto do ouvido dela. — Um... dois... três!
Eles subiram. O esforço coordenado foi lindo de ver. Quando chegaram ao topo, com os rostos nivelados, By não hesitou. Ele selou os lábios nos dela em um beijo rápido, mas intenso, antes de descerem de forma controlada.
— Uma — disse Is, a voz um pouco ofegante.
— Só faltam nove — By respondeu com um sorriso vitorioso.
Eles repetiram o movimento. A cada subida, o beijo ficava mais demorado, a tensão entre eles crescendo a cada repetição. Na quinta, Is sentiu seus braços tremerem, mas a força de By a sustentava. Ele a apertava contra si, garantindo que ela não caísse, os olhos fixos nos dela com uma adoração que transcendia o desafio físico.
Na última repetição, By a segurou no topo por mais tempo. O esforço era visível em seus bíceps e costas, mas ele não parecia querer descer. Ele a beijou com vontade, um beijo que fez os poucos espectadores desviarem o olhar ou sorrirem com a cena.
Quando finalmente desceram e os pés tocaram o chão, Is estava sem fôlego, mas com um sorriso radiante.
— Ok... você tem fôlego — ela admitiu, apoiando as mãos nos joelhos para recuperar o ar.
By se aproximou e passou o braço pelos ombros dela, puxando-a para um abraço lateral.
— Eu te disse. Por você, eu faria cem repetições daquelas.
— Não abusa, By — ela riu, encostando a cabeça no ombro dele.
Eles terminaram o treino de superiores com uma energia que parecia inesgotável. Cada vez que Is passava por ele para trocar de aparelho, By encontrava uma forma de tocá-la — um toque no braço, um carinho na cintura, ou aquele olhar de "triângulo" que a desarmava completamente: olho esquerdo, olho direito, boca.
Na hora de ir embora, desceram as escadas da academia juntos. O movimento de segunda-feira estava no auge, mas para eles, o corredor era apenas um caminho privado.
— E então? — By perguntou enquanto chegavam ao estacionamento. — Sobre aquele jantar... eu ganhei ou a gente empatou?
Is parou ao lado do carro dele e fingiu pensar.
— Bom, você foi muito bem na barra. E admito que o supino com carga "humana" foi impressionante. Mas eu ainda acho que minhas pernas são mais fortes.
— Você é teimosa, hein? — By riu, prensando-a levemente contra a porta do carro, as mãos apoiadas na lataria, cercando-a.
— Sou persistente — ela corrigiu, olhando para cima para encontrar os olhos dele. — Mas... como eu sou uma pessoa justa, eu pago o jantar hoje. E você paga o de amanhã.
— Justo — ele concordou, aproximando o rosto do dela. — Mas eu quero escolher o lugar.
— E onde seria?
— No meu apartamento. Eu cozinho para você. Sem alarmes, sem interrupções e sem público.
Is sentiu um frio na barriga que nenhuma queda na cadeira flexora poderia causar. Ela passou os braços pelo pescoço dele, puxando-o para baixo.
— É uma oferta tentadora, By.
— É uma promessa, Is.
Ele a beijou ali mesmo, no meio do estacionamento, sob o sol forte da manhã. Não era mais o beijo de uma trend ou de um desafio de academia. Era o beijo de duas pessoas que haviam encontrado algo real entre o suor e o esforço.
— Sabe — disse By, afastando-se apenas o suficiente para olhá-la nos olhos —, há dois anos eu te olhava lá de cima daquela escada e achava que você era inalcançável. Que era apenas uma imagem bonita que eu nunca teria coragem de tocar.
Is acariciou o rosto dele, sentindo a barba por fazer.
— E agora?
— E agora eu percebi que a parte mais bonita não é o que eu via de longe. É isso aqui. É a sua risada quando eu falo besteira, é a sua força quando a gente treina junto e é o jeito que você me olha quando acha que eu não estou vendo.
Is sentiu os olhos marejarem levemente, tocada pela sinceridade dele.
— Você é um fofo quando quer, sabia?
— Não espalha — ele piscou, voltando ao tom brincalhão. — Minha reputação de "maromba implicante" está em jogo.
— Sua reputação está segura comigo, By. Contanto que você continue me ajudando com os pesos do leg press.
— Eu te ajudo com qualquer peso, Is. Pelo resto da vida, se você deixar.
Ela sorriu, um sorriso que By guardaria na memória como seu troféu mais valioso.
— Eu deixo, By. Eu com certeza deixo.
Eles se despediram com a promessa do jantar, mas ambos sabiam que o que os unia ia muito além de uma refeição ou de um treino de perna. Era o início de uma série longa, sem data para acabar, onde cada repetição seria uma nova descoberta e cada descanso seria um momento para celebrar o que haviam construído.
Enquanto via o carro de By se afastar, Is olhou para o próprio reflexo no vidro da janela. Ela não via apenas a "menina da academia" com corpo de treino e olhar marcante. Ela via uma mulher que tinha encontrado alguém capaz de enxergar sua força e sua doçura na mesma medida. E, no final das contas, aquele era o melhor resultado que qualquer treino poderia proporcionar.