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O Despertar dos Sentidos e o Peso do Ciúme

A luz da manhã de domingo infiltrava-se pelas frestas da persiana de Is, desenhando linhas douradas sobre o tapete do quarto. Ela acordou antes do despertador, sentindo uma leveza que não experimentava há muito tempo. Ao seu lado, By dormia profundamente, um braço jogado por cima do travesseiro, os cachos escuros bagunçados e o rosto sereno, desprovido daquela expressão de deboche que ele costumava usar na academia. Is ficou alguns minutos apenas observando-o, sentindo o coração aquecido pela lembrança da noite anterior.

Com cuidado para não acordá-lo, ela se levantou. Seus músculos reclamavam levemente — uma mistura do treino intenso de glúteos e da "atividade extra" que se seguiu —, mas era uma dor prazerosa. Ela caminhou descalça até a cozinha, colocou o café para passar e sentiu o aroma reconfortante preencher o apartamento. Enquanto a bebida fumegava, ela decidiu tomar um banho para despertar de vez.

O banho foi demorado. A água quente relaxava seus ombros enquanto ela repassava mentalmente cada toque de By, cada confissão sussurrada entre beijos. Ela se sentia radiante. Ao sair do box, enrolou-se em uma toalha branca felpuda, prendendo-a logo acima dos seios, e usou outra menor para secar os cabelos mel.

Acreditando que By ainda estaria no décimo sono, Is saiu do banheiro cantarolando baixo, com a pele ainda úmida e exalando o perfume de baunilha do seu sabonete favorito. No entanto, ao cruzar o corredor em direção ao quarto, ela estancou.

By estava encostado no batente da porta da cozinha, segurando uma caneca de café. Ele estava apenas de calça de moletom, o torso nu exibindo a musculatura definida que parecia ainda mais impressionante sob a luz matinal. Quando seus olhos se encontraram com os de Is, o olhar dele escureceu instantaneamente, perdendo o sono e ganhando uma intensidade predatória.

— Pensei que você ainda estivesse dormindo — disse ela, a voz falhando levemente enquanto segurava a borda da toalha com mais força.

— O cheiro do café me acordou — By respondeu, deixando a caneca sobre a mesa e caminhando lentamente em direção a ela —, mas a visão que eu estou tendo agora é muito melhor do que qualquer cafeína.

Ele parou a poucos centímetros dela, o calor que emanava de seu corpo fazendo a pele de Is arrepiar. By levou a mão ao rosto dela, afastando uma mecha de cabelo úmido.

— Você não tem ideia do quanto é covardia sair do banho assim na minha frente, Is.

— É? E o que você vai fazer a respeito? — provocou ela, recuperando a confiança e dando um sorriso de canto.

By não respondeu com palavras. Ele envolveu a cintura dela com as mãos, puxando-a para perto até que a toalha fosse o único obstáculo entre eles. O beijo começou urgente, com gosto de café e desejo renovado. Em um movimento ágil, ele a ergueu, e as pernas de Is envolveram sua cintura automaticamente.

— O café vai esfriar — murmurou ela entre os beijos, enquanto ele a carregava de volta para o quarto.

— Deixa esfriar — disse ele, a voz rouca contra o pescoço dela. — Eu prefiro o fogo que você acende em mim.

A toalha caiu no chão do corredor, esquecida, enquanto eles se entregavam novamente um ao outro, transformando a manhã de domingo em uma continuação daquela conexão profunda que haviam descoberto na noite anterior.

***

Duas horas depois, o clima na academia era o oposto da tranquilidade do apartamento. Sendo domingo, o local não estava lotado, mas havia um fluxo constante de frequentadores. Is e By chegaram juntos, trocando olhares cúmplices que diziam mais do que qualquer palavra.

— Hoje o treino é superior, né? — perguntou By, ajustando as luvas enquanto caminhavam para a área de pesos livres.

— Sim, mas vou fazer um pouco de cardio antes para soltar as pernas de ontem — respondeu Is, prendendo o cabelo em um rabo de cavalo firme. — Vai lá pegar um lugar no banco de supino que eu já te encontro.

By assentiu e deu um tapinha leve na cintura dela — um gesto de posse sutil que não passou despercebido por quem estava perto. Is caminhou até as esteiras, mas antes de começar, percebeu que sua garrafa de água estava vazia.

— Vou só encher a garrafa e já volto — avisou ela.

By foi para o bebedouro que ficava no lado oposto da academia, perto da área de musculação pesada, enquanto Is ficou esperando perto de uma das máquinas de cabos, mexendo no celular para escolher uma playlist.

Foi então que ele se aproximou. Era um rapaz alto, com braços excessivamente grandes e uma expressão de autoconfiança que beirava a arrogância. Ele se posicionou ao lado de Is, fingindo ajustar um peso.

— Treino pesado hoje, moça? — perguntou ele, com um sorriso que tentava ser charmoso, mas que só fez Is arquear uma sobrancelha.

— O normal — respondeu ela, curta, voltando a atenção para o celular.

— Sabe, eu te vejo sempre por aqui, mas nunca tive a chance de dizer que sua execução no agachamento ontem foi impecável. Além de ser a mulher mais bonita dessa academia, você ainda é dedicada.

Is sentiu um desconforto imediato. Ela estava acostumada com olhares, mas a abordagem direta e o tom de voz do rapaz a incomodavam.

— Obrigada — disse ela, já fazendo menção de sair.

— Espera aí, não precisa ter pressa. Meu nome é Rodrigo. Qual o seu? — Ele deu um passo para mais perto, invadindo o espaço pessoal dela. — Eu estava pensando se você não gostaria de trocar umas dicas de treino... ou quem sabe o número do WhatsApp?

Is abriu a boca para dar uma resposta atravessada, mas antes que pudesse falar, sentiu uma presença poderosa se materializar às suas costas. O perfume cítrico e amadeirado de By a envolveu antes mesmo de ele falar.

By parou logo atrás de Is, colocando uma mão firme em seu ombro. Ele não estava sorrindo. O olhar penetrante que Is tanto amava estava agora frio e fixo no rapaz à frente.

— Ela já tem um parceiro de treino — disse By, a voz baixa e perigosamente calma. — E o WhatsApp dela também já está bem ocupado.

Rodrigo mediu By de cima a baixo. By era musculoso de uma forma funcional e atlética, e sua postura exalava uma autoridade que o outro rapaz claramente não possuía. O clima ficou tenso em questão de segundos.

— Calma, cara. Só estava conversando — disse Rodrigo, levantando as mãos em um gesto defensivo, mas ainda com um tom de deboche.

— Pois a conversa acabou — By deu um passo à frente, diminuindo a distância. — Algum problema com isso?

O rapaz percebeu que não ganharia aquela briga, nem no argumento e nem no físico. Ele murmurou algo inaudível e se afastou apressadamente em direção aos vestiários.

Is se virou para By, que ainda bufava levemente, os olhos fixos no caminho por onde o cara tinha saído.

— Nossa, que protetor — disse ela, tentando aliviar a tensão, embora no fundo tivesse gostado de ver By defendendo o que era "dele".

By desviou o olhar para ela, e a expressão dura suavizou-se instantaneamente, substituída por um brilho de ciúme que ele tentava esconder.

— Eu saio por dois minutos para encher uma garrafa e já aparece um engraçadinho? — Ele passou a mão pelo cabelo, frustrado. — Dois anos esperando por você, Is. Não vou deixar qualquer um chegar assim.

Is riu e envolveu a cintura dele com os braços, ignorando as poucas pessoas que olhavam.

— By, olha para mim. Você acha mesmo que depois de ontem — e de hoje de manhã — eu daria atenção para qualquer outro cara nessa academia?

Ele suspirou, relaxando os ombros e puxando-a para um abraço apertado.

— Eu sei que não. É que... eu ainda estou me acostumando com o fato de que você é real. E de que você está comigo.

— Eu sou real, By. E sou muito difícil de levar, lembra? — Ela se afastou um pouco e piscou para ele. — Agora, vamos treinar. Preciso descontar essa adrenalina no supino e você vai ser meu spotter.

By sorriu, o olhar voltando a ser aquele safado e carinhoso que Is conhecia bem.

— Com todo prazer, moça. Mas se alguém mais se aproximar, eu não respondo por mim.

— Menos drama, By. Mais peso — brincou ela, puxando-o pela mão.

Eles seguiram para o treino, mas a dinâmica havia mudado. A cada série, a cada troca de pesos, o toque era constante. Uma mão nas costas para corrigir a postura, um aperto no braço para incentivar a última repetição, um sussurro no ouvido que fazia Is perder a força por um segundo.

A academia, que antes era o lugar onde By a observava com tristeza e Is treinava alheia a tudo, agora era o palco de uma cumplicidade vibrante. Eles não eram apenas um casal que treinava junto; eram o resultado de dois anos de desejo reprimido que finalmente encontrara vazão.

Ao terminarem o treino, enquanto faziam o alongamento final, By olhou para Is através do espelho.

— Sabe, Is... eu estava pensando naquilo que você disse sobre ser mais forte que eu na perna.

— O que tem? — perguntou ela, alongando os braços.

— Acho que amanhã, no leg press, vamos ter que tirar isso a limpo. Quem perder, paga o jantar.

— Prepara a carteira, By — respondeu ela, com um sorriso vitorioso. — Porque eu não aceito perder.

Ele se aproximou e deu um beijo rápido no pescoço dela, aproveitando que estavam em um canto mais reservado.

— Eu já ganhei o melhor prêmio de todos, pequena. O resto é lucro.

Eles saíram da academia de mãos dadas, sob o sol de domingo, prontos para enfrentar o que quer que viesse pela frente. O passado de observação silenciosa tinha ficado para trás, dando lugar a um presente de suor, risadas e um amor que, como um bom treino, só tendia a ficar mais forte com o tempo.