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O Amanhecer dos Renegados e o Café com Gosto de Pecado
— Porra, Naju, se esse despertador tocar mais uma vez eu vou jogar o seu celular pela janela e dizer que foi um guaxinim de Nova York que roubou — resmunguei, afundando o rosto no travesseiro enquanto sentia a vibração maldita do aparelho contra o colchão.
— Calma aí, cara — a voz dela veio abafada, rouca de sono e deliciosamente sexy. — É o nosso plano de fuga, lembra? Ou você quer esperar o Casimiro esmurrar a nossa porta às oito da manhã perguntando se você quer um donut de bacon?
Abri um olho só, sentindo a claridade pálida do amanhecer de Manhattan filtrando pelas cortinas. Olhei para o lado e vi a Naju sentada, os cabelos loiros totalmente bagunçados, a alça da camisola caída no ombro e aquele olhar de quem estava pronta para aprontar. Lamba o lábio inferior, sentindo o corpo despertar num solavanco só de olhar para ela.
— O plano de fuga é maravilhoso, amor — falei, puxando-a pela cintura para que ela caísse de volta por cima de mim. — Mas essa cama tá muito mais convidativa do que o frio lá de fora. E você tá muito cheirosa pra quem acabou de acordar.
— Nem vem, Chico Moedas — ela riu, tentando se desvencilhar, mas sem fazer muita força. — Se a gente não sair agora, o Beltrão vai brotar do ralo do banheiro com aquela câmera ligada. Você sabe que ele não tem limites.
— Aquele ali é um psicopata da imagem — concordei, passando a mão no rosto e sentindo a barba pinicar. — Tá bom, você venceu. Vamos fugir dessa creche de marmanjo por algumas horas.
Levantei da cama na força do ódio, calçando meus chinelos e indo em direção ao banheiro. Passei pelo espelho e dei uma encarada no meu reflexo: o cabelo platinado estava parecendo um ninho de mafagafos, a cara inchada, mas o sorriso de quem tinha tido uma noite épica não saía do rosto. Lamba o lábio de novo, lembrando de cada detalhe, e soltei um suspiro pesado.
— Chico! — ela gritou do quarto. — Para de se admirar no espelho e agiliza! Eu quero café e quero silêncio!
— Já vou, caralho! — respondi, rindo.
Nos arrumamos como dois ninjas. Eu coloquei um boné por cima do cabelo bagunçado, meu casaco mais pesado e, claro, o maço de cigarros no bolso. A Naju estava impecável, mesmo de calça legging e um moletom gigante que, se não me engano, era meu. Saímos do quarto na ponta dos pés, rezando para não encontrar o Pigzada sonâmbulo em busca de um frigobar para assaltar.
O corredor do hotel estava silencioso, um milagre divino. Quando o elevador chegou ao lobby, soltamos o ar que nem sabíamos que estávamos segurando.
— Liberdade — sussurrei no ouvido dela, dando uma mordidinha no lóbulo da orelha que a fez dar um pulinho.
— Safado — ela murmurou, mas entrelaçou os dedos nos meus.
Lá fora, Nova York estava naquele estado cinzento e gelado de início de manhã. O ar cortava o rosto, mas era revigorante. Caminhamos algumas quadras em direção ao Upper West Side, fugindo da muvuca da Times Square. O silêncio da cidade acordando era o luxo que a gente precisava.
— Ali, Chico! — ela apontou para uma cafeteria pequena, com fachada de madeira e um cheiro de grãos torrados que dava para sentir de longe. — É aquele que eu te falei. Sem filas, sem turistas gritando e, o mais importante, sem o Alvinho fazendo piada sobre a minha obsessão pela Taylor Swift.
— Amém por isso — falei, abrindo a porta para ela.
O lugar era aconchegante, com poucas mesas e uma luz quente. Pedimos dois cafés grandes e uma porção de croissants que pareciam ter saído do paraíso. Sentamos numa mesa de canto, escondidos por uma planta grande.
— Calma aí, cara — eu disse, vendo-a atacar o croissant com vontade. — Assim você vai engasgar e eu vou ter que fazer manobra de salvamento aqui no meio da cafeteria. Se bem que... eu não reclamaria de fazer um boca a boca em você agora.
— Você é muito idiota, sabia? — ela disse, limpando uma migalha do canto da boca com o polegar. — Eu tô com fome, Chico! Ontem a gente gastou muita energia, se é que você me entende.
— Eu entendo perfeitamente, Ana Julia — respondi, minha voz baixando um tom. — E se depender de mim, a gente vai gastar muito mais hoje à noite.
Ela me olhou por cima da borda da xícara de café, aqueles olhos castanhos me provocando, me despindo.
— Você fala muito, Moedas. Quero ver se tem fôlego pra aguentar o roteiro de hoje. Depois daqui, a gente vai no Central Park, naquela ponte onde gravaram...
— Nem termina a frase — interrompi, rindo. — Se tiver alguma coisa a ver com a loira, eu vou cobrar um pedágio muito caro.
— E qual seria o pedágio? — ela perguntou, inclinando o corpo para a frente, o decote do moletom deixando transparecer o que eu já conhecia de cor.
— Muitos beijos, muita mão boba e você dizendo que o meu platinado é mais bonito que o do Joe Alwyn — falei, passando a mão no rosto, sentindo o calor subir mesmo com o ar-condicionado no frio.
— O seu platinado é único, amor — ela disse, esticando a mão por cima da mesa e acariciando meu rosto. — E você é o único que me faz acordar às seis da manhã num frio de cinco graus e ainda achar que a vida é maravilhosa.
Ficamos ali por um tempo, apenas curtindo a presença um do outro, sem câmeras, sem roteiros de live, sem a pressão de ser o "Chico Moedas" da internet. Era apenas o Chico e a Naju. Tirei um cigarro do maço, olhando para a porta.
— Vamos lá fora rapidinho? Preciso de um trago pra engrenar o dia — pedi.
Saímos para a calçada lateral. O frio bateu forte, mas o primeiro trago foi como um abraço nos pulmões. Acendi o dela logo em seguida. Ficamos ali, encostados na parede de tijolinhos, dividindo a fumaça e o silêncio.
— Sabe o que eu tava pensando? — comecei, olhando para os táxis amarelos passando. — Que o pessoal da Cazé TV vai ter um treco quando vir o vídeo que o Beltrão gravou ontem da gente na Grand Central. Eu tava muito rendido, Naju.
— Você tá sempre rendido, Chico. A diferença é que ontem tinha uma lente de cinco mil dólares registrando — ela brincou, soltando a fumaça pelo nariz. — Mas eu gosto. Gosto de ver que, por trás desse personagem de malandro marrento, tem um homem que não consegue ficar dois minutos sem encostar em mim.
— É difícil não encostar, amor. Você é uma tentação constante — falei, puxando-a pela cintura e prensando-a de leve contra a parede. — Às vezes eu acho que você faz de propósito. Escolhe a roupa mais justa, o perfume mais doce, só pra me ver passar mal nas gravações.
— E eu faço — ela confessou, passando a língua pelos lábios, um gesto que me deixou louco. — É divertido ver você tentando explicar um impedimento enquanto olha pra minha bunda.
— Você é uma peste — murmurei, antes de selar nossos lábios num beijo que começou calmo e logo se tornou urgente.
O gosto do café e do tabaco se misturavam, e a mão dela subiu para a minha nuca, puxando meu cabelo com aquela força que ela sabia que eu amava. Eu estava quase perdendo a noção do lugar quando o meu celular começou a vibrar loucamente no bolso.
— Não atende — ela implorou entre o beijo.
— Deve ser o Cazé — falei, tentando ignorar, mas o aparelho insistia. — Se eu não atender, ele liga pra polícia de Nova York.
Peguei o celular e vi o nome "Casimiro" brilhando na tela. Atendi com um suspiro pesado.
— Fala, gordo. O prédio tá pegando fogo?
— CHICO! ONDE É QUE TU TÁ, SEU FILHO DA PUTA? — O grito dele foi tão alto que a Naju conseguiu ouvir ao meu lado. — O PIGZADA ACORDOU, VIU QUE VOCÊS NÃO ESTAVAM E JÁ TÁ DIZENDO QUE VOCÊ FOI SEQUESTRADO PELO PESSOAL DO QATAR POR CAUSA DAS CRÍTICAS À COPA! O BELTRÃO TÁ GRAVANDO O DESESPERO DELE, É CONTEÚDO PURO, MAS EU PRECISO SABER SE VOCÊ TÁ VIVO!
— Eu tô vivo, Casimiro! — respondi, passando a mão no rosto e rindo de nervoso. — Eu e a Naju viemos tomar um café em paz, longe de vocês, seus animais. Calma aí, cara!
— Café em paz o cacete! — Cazé continuou. — A gente tem que estar no Central Park em quarenta minutos pra gravar o quadro "Aqueles Caras na Neve", mesmo que não tenha neve! O Maciel tá reclamando que o café do hotel é ralo e o Ramon tá tentando consertar o tripé que o Pigzada derrubou. Volta logo!
— Tá bom, tá bom! Já estamos indo — desliguei o celular e olhei para a Naju, que revirava os olhos.
— O dever chama, né? — ela disse, suspirando.
— Infelizmente. Mas ó, o Central Park é grande — falei, guardando o celular e puxando-a para um último abraço. — A gente faz as gravações, atura as piadas do gordo, e depois eu te levo naquela ponte da Taylor. Mas com uma condição.
— Qual?
— Que no caminho de volta, a gente pare numa loja de conveniência e compre um vinho. Porque hoje à noite, no quarto, eu não quero ouvir nem a voz do Casimiro e nem música de ex-namorado da loira. Só a sua voz gemendo meu nome.
Ela deu um sorriso largo, safado, e me deu um tapa estalado na bunda.
— Fechado, Moedas. Agora vamos, antes que o Pigzada coma o meu café da manhã por vingança.
Caminhamos de volta, mas dessa vez mais rápido. O sol já estava mais alto e a cidade fervia. Quando chegamos perto do ponto de encontro no parque, vimos de longe a figura inconfundível do Casimiro, gesticulando com um copo de café na mão, e o Beltrão já com a câmera no ombro, apontando na nossa direção assim que nos avistou.
— OLHA LÁ! OS FUGITIVOS! OS AMANTES DE MANHATTAN! — Beltrão gritou, já começando a narrar. — Chico Moedas abandona a firma por um croissant e um beijo na boca! Veja as imagens exclusivas!
— Vai tomar no cu, Beltrão! — gritei, rindo e abraçando a Naju de lado, enquanto ela mandava um beijo para a câmera.
— Chico, tu tá com cara de quem não dormiu, bicho! — Pigzada chegou perto, olhando para as minhas olheiras. — A Naju tá te destruindo, hein? O homem tá murcho!
— Murcho é o teu cérebro de tanto comer gordura trans, Pigzada! — retruquei, sentindo o clima caótico do grupo nos envolver novamente.
— Calma aí, cara — o Casimiro chegou perto, colocando o braço no meu ombro. — Eu sei que é difícil ser o galã da Cazé TV, mas o trabalho não para. Naju, desculpa roubar teu homem, mas o Brasil precisa saber se o gramado do Central Park tá bom pra um futevôlei.
— Tudo bem, Cazé — ela riu, dando um passo para trás. — Eu vou ficar aqui com o Ramon e o Maciel assistindo o mico de vocês.
Me posicionei para a gravação, mas antes de começar, olhei para a Naju. Ela piscou para mim e passou a mão nos lábios, um sinal claro de que a promessa do vinho e do quarto ainda estava de pé. Lamba o lábio inferior, sentindo o sangue pulsar mais rápido.
— Três, dois, um... Gravando! — Beltrão anunciou.
— Fala, galera da Cazé TV! — comecei, com a minha melhor voz de malandro carioca. — Estamos aqui no Central Park, o pulmão de Nova York, e eu vou dizer pra vocês: o frio tá de foder, mas o coração do homem tá quente!
O grupo explodiu em gargalhadas ao fundo, o Casimiro começou a zoar minha introdução e o Pigzada tentou roubar o microfone. Era o caos de sempre, o nosso caos brasileiro em solo americano. E no meio de tudo aquilo, entre um palavrão e outro, entre uma análise tática furada e uma piada interna, eu só conseguia pensar em como aquela Copa do Mundo em Nova York estava sendo, de longe, a melhor cobertura da minha vida. Porque no final do dia, não importava o placar do jogo ou a audiência da live; o que importava era o calor da mão da Naju na minha e a certeza de que, em algum lugar entre a Cornelia Street e a Times Square, a gente tinha encontrado o nosso próprio ritmo.
— Valeu, galera! — finalizei a entrada, enquanto o Beltrão fazia o sinal de "cortou".
— Ficou uma bosta, Chico! — Casimiro disse, rindo e me dando um tapa nas costas. — Mas o público vai amar. Agora vamos, que o Pigzada viu um carrinho de hot dog e eu não quero ser responsável por um crime de fome aqui no parque.
Caminhamos todos juntos, a Naju grudada no meu braço, rindo das reclamações do Maciel sobre o preço do dólar. O dia estava apenas começando, e Nova York ainda tinha muito a oferecer, mas para mim, a melhor parte já tinha acontecido naquela cafeteria silenciosa, e a segunda melhor parte estava guardada para quando as luzes do quarto 402 se apagassem novamente.