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Paddock Club, Motores e o Charme da Clean Girl
A sexta-feira em Mônaco não era apenas um dia de calendário; era um estado de espírito. O principado havia se transformado em um labirinto de grades, arquibancadas temporárias e o som ensurdecedor dos motores V6 Turbo Híbridos que ecoavam pelas encostas dos Alpes Marítimos. O sol brilhava forte, refletindo no azul turquesa do porto, onde iates do tamanho de prédios balançavam suavemente.
Chico estava encostado na mureta de vidro do Paddock Club, tragando seu cigarro com os olhos semicerrados. Ele tinha abandonado o paletó pesado da noite na Jimmy’z, optando por uma vibe mais "euro-street": uma camisa de linho branca levemente aberta, calça de alfaiataria bege e, claro, o inseparável boné preto que escondia o platinado. Ele passou a ponta da língua pelo lábio inferior, observando a movimentação frenética lá embaixo.
— Caralho, o cheiro de pneu queimado e gasolina de rico é diferenciado, né? — comentou Beltrão, que usava uma camisa polo preta e óculos escuros de grife, sentindo-se o próprio dono da escuderia.
— É cheiro de dinheiro, Beltrão. Dinheiro que a gente não tem, mas tá fingindo que tem hoje — respondeu Maciel, ajeitando o relógio no pulso.
O grupo estava impecável. Alvinho, Pig e Ramon tinham deixado a bagunça de lado para se vestirem como se fossem herdeiros de alguma vinícola francesa. Mas nada, absolutamente nada, superava a presença de Ana Julia.
Ela tinha adotado a estética *clean girl sexy* para o dia de treino. O cabelo moreno iluminado estava preso em um coque perfeitamente alinhado, sem um fio fora do lugar, destacando as joias minimalistas de ouro. A maquiagem era leve, aquela pele com viço que parecia não ter esforço, mas o vestido de tricô canelado off-white que ela usava abraçava suas curvas fartas de um jeito que fazia qualquer um perder o foco. Ela exalava uma elegância perigosa.
— Amor, para de me olhar assim ou eu vou achar que tem alguma coisa no meu rosto — disse Ana Julia, aproximando-se de Chico com um sorriso de canto.
— Tem sim, vida. Tem muita perfeição pra um metro quadrado só — Chico respondeu, puxando-a pela cintura e ignorando os olhares dos vips ao redor. — Puta que pariu, você tá muito gata. Essa vibe de "não fiz nada pra ser linda" me quebra.
— É o conceito, vida — ela riu, dando um selinho rápido nele. — Agora vamos? O convite da Ferrari é para os boxes agora no TL2.
— Bora, seus foda-se! — gritou Alvinho. — Quero ver se o carro vermelho corre mesmo ou se é só marketing!
O grupo desceu para o nível do paddock, onde o acesso era restrito. Passar pelas catracas com o crachá da Ferrari era como entrar no Olimpo. Mecânicos corriam com carrinhos de pneus, jornalistas do mundo todo falavam em microfones e o calor do asfalto subia.
Ao entrarem na garagem da Ferrari, o barulho se tornou visceral. O impacto sonoro dos carros saindo para a pista fazia o peito vibrar. Eles foram levados para a parte de trás do box, onde as telas mostravam a telemetria em tempo real.
— Caralho, olha o tanto de botão naquele volante — sussurrou Pig, maravilhado. — Se eu aperto um troço daquele, eu ejetaria o Leclerc direto pro mar.
Chico estava fascinado. Ele amava automobilismo, e estar ali era a realização de um sonho de moleque. Ele passava a mão no rosto, nervoso com a proximidade das máquinas.
— Calma aí, cara... — murmurou Chico para si mesmo, vendo o carro de Carlos Sainz ser levantado pelos mecânicos. — Isso aqui é cinema puro, porra.
Ana Julia estava encostada em uma das bancadas de ferramentas, observando a concentração dos engenheiros. Ela parecia uma modelo de editorial de moda perdida em uma oficina de alta tecnologia. Foi nesse momento que o burburinho no paddock aumentou.
Lewis Hamilton, o heptacampeão mundial, estava atravessando a área comum entre os boxes para ir ao motorhome da Mercedes, mas parou para cumprimentar um conhecido na porta da garagem da Ferrari. Seus olhos, protegidos por óculos escuros estilosos, varreram o ambiente e travaram em Ana Julia.
Lewis, conhecido por seu faro para moda e beleza, não hesitou. Ele deu alguns passos para dentro do box vermelho — uma ousadia permitida apenas a alguém do seu calibre — e parou diante dela.
— *Excuse me* — disse Hamilton, com aquela voz calma e britânica que todo mundo conhecia. — *I usually only look at the cars, but your style is incredible. Very clean, very chic.*
Ana Julia arregalou levemente os olhos. Ela sabia quem ele era, obviamente.
— *Thank you, Sir Lewis* — ela respondeu, mantendo a pose de *clean girl*, mas com um brilho de diversão nos olhos. — *Coming from a fashion icon like you, that’s a huge compliment.*
Hamilton sorriu, mostrando os dentes brancos.
— *Are you here with the team?* — ele perguntou, inclinando a cabeça levemente, ignorando o caos das pistolas pneumáticas ao redor.
Os meninos, que estavam a poucos metros, congelaram.
— Mano... o Hamilton. O Lewis Hamilton tá xavecando a Ana Julia — sussurrou Beltrão, a voz falhando. — Agora o Chico morre. O Chico vai pular no pescoço do Sir!
Chico viu a cena. Ele viu o homem com mais títulos na história da Fórmula 1 sorrindo para sua namorada. Mas, ao contrário da noite na Jimmy’z com o Leclerc, Chico não fechou a cara imediatamente. Ele era fã do cara. Ele tinha pôster do Hamilton quando era mais novo.
Ele caminhou até o casal, passando a mão no rosto, com o tique da língua batendo no lábio inferior por puro nervosismo de fã.
— *Hey, Lewis!* — Chico disse, aproximando-se. — *Huge fan, man. You are the GOAT.*
Hamilton se virou e apertou a mão de Chico com cordialidade.
— *Thanks, man. Appreciate it. Is she with you?* — Lewis perguntou, apontando para Ana Julia com um sorriso galanteador.
— *Yeah, she is my life* — respondeu Chico, abraçando Ana Julia pelo ombro. — *But I get it, man. If I were you, I’d talk to her too. She’s the most beautiful woman in Brazil.*
Hamilton riu, deu um tapinha no ombro de Chico e piscou para Ana Julia.
— *You have great taste, my friend. See you on the track* — disse o britânico, antes de sair acenando para os mecânicos da Ferrari que o olhavam com respeito.
Assim que Lewis sumiu de vista, o box da Ferrari parecia pequeno demais para a gargalhada que o grupo de amigos soltou.
— PUTA QUE PARIU, CHICO! — gritou Alvinho, dobrando o corpo de tanto rir. — "I get it, man"? Tu deu autorização pro Hamilton dar em cima da tua mulher, caralho?
— O Chico virou fã-clube do talarico! — berrou Ramon, batendo palmas. — Na Jimmy’z ele quase bateu no Leclerc, mas pro Lewis ele falta pedir pra tirar foto dos dois juntos!
— "You are the GOAT, Lewis! Pode levar minha mulher, Lewis!" — ironizou Maciel, imitando a voz de Chico.
Chico passou a mão no rosto, rindo de nervoso, sentindo a orelha esquentar.
— Calma aí, cara! — gritou Chico, tentando se defender enquanto os meninos o cercavam. — Porra, é o Lewis Hamilton! O cara é o patrão! Eu ia fazer o quê? Arrumar briga com um Sir da coroa britânica? Calma aí, porra!
— Ele ficou todo bobo, viu, Ana? — provocou Beltrão. — Se o Lewis pede o WhatsApp dela, o Chico anotava pra ele e ainda perguntava se ele queria que entregasse em mãos no motorhome!
— Vai tomar no teu cu, Beltrão! — Chico riu, puxando Ana Julia para perto. — Vida, você viu isso? O cara é foda, né? O perfume dele deve custar o meu apartamento.
Ana Julia estava se acabando de rir da situação. Ela passou os braços pelo pescoço de Chico, ajeitando o boné dele que tinha ficado torto na agitação.
— Ele é um charme, amor. Mas ele não tem esse seu tique na boca que me deixa maluca — ela sussurrou, fazendo Chico lamber o lábio inferior instantaneamente. — E eu adorei você sendo "fã compreensivo". Foi fofo.
— Fofo o caralho, Ana Julia! — Pig interrompeu. — O Chico abriu o GP de Mônaco pro Hamilton! O primeiro treino foi na garagem da Ferrari e o Chico perdeu de 1 a 0!
— Calma aí, cara! — repetiu Chico, dando um tapa na nuca de Pig. — Eu só fui diplomático. O cara é lenda. E a Ana sabe que o lugar dela é aqui, no box do platinado.
— Sei é? — ela provocou, arqueando uma sobrancelha. — Olha que a Mercedes tem um motor muito bom, hein?
— Não fode, vida! — Chico a puxou para um beijo rápido e barulhento, enquanto os amigos continuavam a zoação. — Se você começar com esse papo, eu te sequestro daqui agora e a gente vai ver a corrida da televisão do hotel.
— Ih, ó o ciúme voltando! — gritou Alvinho. — O efeito Hamilton passou! O Chico voltou ao normal!
O treino recomeçou com um rugido ensurdecedor. Os carros da Ferrari saíram dos boxes, jogando ar quente e o cheiro de borracha queimada para cima deles. O grupo se acomodou nas cadeiras altas, acompanhando as voltas rápidas.
A cada vez que a Mercedes de Hamilton passava pela reta principal, Beltrão ou Maciel cutucavam Chico.
— Olha lá, Chico! Teu melhor amigo tá vindo! Dá tchauzinho pra ele!
— Calma aí, porra! — Chico resmungava, mas no fundo estava rindo.
Ana Julia encostou a cabeça no ombro de Chico, observando a velocidade absurda dos carros. Ela se sentia protegida ali, no meio daquele caos barulhento e luxuoso, cercada pela energia caótica dos amigos e pelo amor possessivo, mas agora mais relaxado, de Chico.
— Amor — ela chamou, baixinho, para que só ele ouvisse por baixo do som dos motores.
— Fala, vida.
— Se o Lewis ganhar a corrida no domingo... você vai querer comemorar com ele?
Chico olhou para ela, passou a mão no rosto e deu aquele sorriso safado que só ele tinha.
— Se ele ganhar, eu fico feliz por ele. Mas a comemoração de verdade, quem vai ganhar é você, no quarto, depois que essa porra toda acabar. E eu garanto que meu motor não quebra na última volta.
Ana Julia riu, mordendo o lábio, sentindo que, em Mônaco, entre boxes de Ferrari e xavecos de campeões mundiais, ela já tinha ganhado o grande prêmio.
— Calma aí, cara... — ela imitou, fazendo Chico rir alto e puxá-la para mais um beijo, enquanto o sol de sexta-feira começava a baixar sobre o principado, prometendo uma noite ainda mais intensa que o dia de treinos.