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Ouro, Asfalto e o Rugido do Ciúme

A noite em Mônaco não pedia licença; ela simplesmente acontecia, atropelando qualquer noção de tempo ou economia. O céu sobre o principado estava tingido de um azul marinho profundo, mas as luzes da cidade brilhavam tanto que parecia dia. O destino da vez era o Jimmy’z, a boate que era o epicentro do luxo mundial, onde o champanhe custava o preço de um carro popular e o ar condicionado lutava bravamente contra o cheiro de perfume caro e tabaco de luxo.

Chico caminhava com aquela marra que só quem é do Rio de Janeiro sustenta num lugar onde todo mundo fala francês ou inglês polido. O boné preto estava perfeitamente encaixado, escondendo o cabelo platinado, mas o brilho nos seus olhos quando olhava para Ana Julia era impossível de disfarçar. Ele tragou o cigarro, soltando a fumaça lentamente enquanto observava a entrada cercada de seguranças que pareciam armários de terno.

— Caralho, vida, olha esse lugar — disse Chico, passando a mão no rosto enquanto observava os carros esportivos estacionados na porta. — Os caras aqui não brincam em serviço, porra.

— Você também não está nada mal, amor — Ana Julia respondeu, ajeitando o vestido de seda que moldava suas curvas de forma perigosa. — Aliás, está um gato com esse boné. Me dá uma vontade de te tirar daqui agora mesmo.

Chico parou, sentindo o tique nervoso. Ele passou a ponta da língua pelo lábio inferior, devagar, encarando a namorada com uma intensidade que fez as pernas dela fraquejarem.

— Não fode, vida. Se você continuar me olhando assim, eu vou ignorar o bando e a gente volta pro hotel agora — sussurrou ele, a voz rouca, antes de afundar o rosto no pescoço dela e dar um beijo estalado.

— Ih, caralho! Começou a melação! — gritou Beltrão, surgindo logo atrás com o resto do grupo. — Bora entrar, Chico! Hoje o pai quer ver o champanhe jorrar na conta do campeão da roleta!

— Vai tomar no teu cu, Beltrão! — rebateu Chico, rindo e passando a mão no rosto. — Calma aí, cara. Deixa eu curtir minha mulher em paz, porra.

O grupo entrou na boate como um furacão brasileiro. Alvinho, Maciel, Pig e Ramon já chegaram falando palavrão, gesticulando e atraindo olhares dos ricaços europeus. Eles foram instalados em uma mesa estratégica, cercada por cordões de veludo, com vista privilegiada para a pista e para a área VIP onde as celebridades costumavam ficar.

Não demorou muito para que o clima esquentasse. Ana Julia estava radiante. Os fios de ouro em seu cabelo moreno iluminado pareciam ganhar vida sob os canhões de luz da Jimmy’z. Ela dançava levemente, segurando uma taça, fazendo Chico perder a sanidade a cada movimento de quadril.

— Amor, minha taça acabou — disse Ana Julia, aproximando-se do ouvido dele. — Busca um gim tônica pra mim? Aquele champanhe do Pig é muito doce, me dá enjoo.

— Agora, vida. Não sai daí, hein? — Chico deu um selinho demorado nela e se levantou. — Ô seus arrombados, cuidem da Ana aí que eu vou no bar. Se alguém encostar nela, eu quebro a boate.

— Vai lá, xerife! — zoou Ramon. — Relaxa que a gente tá de olho. Ou não, né? Depende de quanto uísque eu virar.

Chico se afastou, mergulhando na multidão em direção ao bar. Enquanto esperava o barman preparar o drinque, ele acendeu outro cigarro, observando o movimento com o tique constante de lamber o lábio. Ele estava inquieto. Mônaco era areia demais pro seu caminhão, e ele sabia que Ana Julia chamava atenção até no escuro.

Enquanto isso, na mesa, a resenha seguia forte. Foi quando um movimento diferente aconteceu na área VIP vizinha. Charles Leclerc, o príncipe de Mônaco e piloto da Ferrari, estava com um grupo de amigos. Ele passou os olhos pela pista e parou exatamente em Ana Julia. O piloto disse algo para um amigo, deu um sorriso de canto e se aproximou da mesa dos brasileiros com a confiança de quem faz pole position todo domingo.

— *Bonsoir* — disse Leclerc, inclinando-se levemente em direção a Ana Julia. — Eu não pude deixar de notar... seu cabelo. É incrível. São fios de ouro reais?

Ana Julia, que falava inglês fluente e não perdia a chance de um flerte inofensivo para testar o terreno, deu um sorriso matador.

— São sim — respondeu ela, em inglês. — Gostou, piloto?

— Magnífico — ele continuou, aproximando-se mais um pouco, o charme monegasco exalando pelos poros. — Eu nunca vi nada parecido em Mônaco. Você gostaria de uma bebida na minha mesa? É um pouco mais privativa.

Beltrão cutucou Alvinho com o cotovelo, quase derrubando o copo.

— Caralho, o maluco da Ferrari tá dando em cima da mulher do Chico — sussurrou Beltrão, incrédulo. — O Chico vai infartar, porra!

— Deixa o pau quebrar! — Maciel riu, já preparando o celular. — Isso aqui vai ser histórico.

Nesse exato momento, Chico vinha voltando com dois copos na mão. Ele parou a dois metros da mesa e viu a cena: um cara bonitão, de camisa social impecável, quase sussurrando no ouvido de Ana Julia, enquanto ela ria e jogava o cabelo.

O sangue de Chico subiu para a cabeça mais rápido que um carro de Fórmula 1. Ele caminhou até a mesa, colocou os copos com força na madeira e parou bem ao lado de Ana Julia, passando o braço pela cintura dela com uma possessividade absoluta.

— Qual é a do papo aí, campeão? — perguntou Chico, em português mesmo, encarando Leclerc com os olhos semicerrados.

O piloto franziu a testa, sem entender, mas percebendo a energia pesada que vinha do homem de boné.

— *Oh, sorry. I was just complimenting her hair* — explicou Leclerc, mantendo a elegância.

— *Hair* o caralho, parceiro — Chico rosnou, tentando buscar o inglês no fundo da memória. — *She is with me. My girlfriend. Entendeu ou quer que eu desenhe?*

Ana Julia sentiu a tensão no corpo de Chico e, embora estivesse adorando a cena, resolveu intervir.

— Calma, amor! — ela disse, segurando o braço dele e rindo. — Ele só foi educado. É o Charles, o piloto que eu te mostrei na TV.

Leclerc, percebendo que o "platinado de boné" não estava para brincadeira, deu um passo atrás, levantando as mãos em sinal de paz.

— *My apologies, man. No disrespect. Have a good night* — disse o piloto, retirando-se com um sorriso amarelo.

Chico não se sentou de imediato. Ele ficou de pé, passando a mão no rosto de forma frenética, o tique da língua batendo no lábio sem parar. Ele olhou para a mesa e viu os amigos se acabando de rir.

— Puta que pariu, Chico! Tu expulsou o dono da cidade! — gritou Pig, batendo na mesa. — O cara ganha milhões pra correr e tu chega com essa marra de bicheiro e bota o maluco pra correr!

— O Chico tá tremendo! Olha a mão dele! — zoou Alvinho, apontando para a mão de Chico que ainda segurava a cintura de Ana. — Ficou com medinho do piloto, foi?

— Calma aí, cara — disse Chico, a voz ainda carregada de adrenalina. — Calma aí, porra. O maluco chega na minha mesa, fala no ouvido da minha mulher e eu tenho que ficar de boa? Vão tomar no cu vocês também.

— Ele só queria ver os fios de ouro, Chico! — Beltrão gargalhou. — O cara entende de aerodinâmica, ele queria saber se o cabelo da Ana ajudava no vácuo!

— Vai se foder, Beltrão! — Chico rebateu, passando a mão no rosto de novo. — Calma aí, cara. Eu não sou otário. O maluco tem mó cara de talarico.

Ana Julia puxou Chico para o sofá, fazendo-o sentar ao lado dela. Ela se aninhou no peito dele, sentindo o coração do namorado batendo a mil por hora.

— Amor, olha pra mim — ela pediu, puxando o queixo dele. — Você acha mesmo que eu trocaria meu platinado de boné por um piloto de terno?

Chico olhou para ela, a expressão suavizando, mas o ciúme ainda queimando no fundo dos olhos.

— Não fode, vida. Aquele maluco é bonitão, tem dinheiro... — ele começou, mas ela o interrompeu com um beijo de tirar o fôlego.

— Ele pode ter o dinheiro que for, amor — sussurrou ela contra os lábios dele. — Mas ele não sabe o que você sabe.

Chico lambeu o lábio inferior e deu um sorriso de canto, finalmente relaxando.

— É bom mesmo. Porque se ele voltasse, eu ia ter que mostrar pra ele como é que a gente resolve as coisas no Rio — ele disse, voltando a abraçá-la por trás e enterrando o rosto no pescoço dela.

— Ih, ó lá! Já voltou a ser gado! — gritou Ramon. — Dois minutos de brabeza e já tá cheirando o pescoço da mulher de novo. Tu é uma vergonha pros solteiros, Chico!

— Calma aí, cara — Chico respondeu, sem tirar o rosto do pescoço de Ana Julia. — Vocês não sabem o que é ter uma mulher dessas. Vão beber e me deixem em paz, seus arrombados.

A noite seguiu com o grupo zoando Chico impiedosamente. A cada vez que alguém mais bem vestido passava perto da mesa, Alvinho gritava: "Olha lá, Chico, esse aí parece piloto de kart, hein!", fazendo o grupo explodir em risadas.

Chico apenas passava a mão no rosto, balançava a cabeça e dizia "calma aí, cara", enquanto mantinha Ana Julia o mais perto possível, garantindo que em Mônaco, o único prêmio que importava estava bem ali, em seus braços.