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A Noite dos Pilotos e o Ciúme Platinado

A fachada da Jimmy’z brilhava como se tivesse sido polvilhada com pó de diamante. O som dos carros esportivos manobrando no valet se misturava à batida grave que escapava pelas portas da boate mais exclusiva de Mônaco. Chico ajeitou o boné preto pela décima vez, sentindo o suor frio da adrenalina de quem sabe que está entrando em território inimigo — ou, pelo menos, em um lugar onde o champanhe custava mais que o aluguel de um apartamento no Rio.

— Caralho, vida, olha o tamanho desse lugar — murmurou Chico, passando a mão no rosto de leve. Ele deu uma tragada rápida no cigarro antes de descartá-lo. — Parece cenário de filme de James Bond, porra.

Ana Julia riu, ajeitando o vestido de seda que parecia ter sido costurado diretamente em seu corpo. Os fios de ouro em seu cabelo moreno iluminado brilhavam sob os neons da entrada, criando uma aura que fazia até os seguranças monegascos pararem por um segundo.

— Para de reclamar, amor — disse ela, aproximando-se e passando a mão pelo peito dele. — Você está lindo. E eu quero dançar até minhas pernas pedirem arrego.

— Se você dançar do jeito que eu tô pensando, quem vai pedir arrego é o meu coração, vida — Chico respondeu, o tique nervoso atacando: ele passou a ponta da língua pelo lábio inferior, devagar, enquanto seus olhos escaneavam as curvas fartas da namorada.

— Ih, caralho! O casal vinte resolveu entrar ou vão ficar se comendo na porta? — gritou Beltrão, já vindo lá de dentro com uma taça de cristal na mão. — Entra logo, Chico! O Alvinho já tá tentando explicar pro barman o que é uma caipirinha de verdade!

O grupo entrou na boate como um furacão brasileiro em meio à elegância contida da Europa. Maciel, Pig e Ramon já ocupavam um camarote lateral, cercados por baldes de gelo e garrafas que custavam pequenas fortunas. A energia era caótica.

— Puta que pariu, olha quem tá ali na mesa do lado — sussurrou Alvinho, apontando discretamente com o queixo. — Aquele ali não é o Lando Norris? E o outro... caralho, é o Charles Leclerc!

Chico olhou de soslaio. Realmente, uma parte considerável do grid da Fórmula 1 estava ali, aproveitando a folga antes dos treinos oficiais. Eram caras novos, ricos e com aquela aura de quem está acostumado a ser o centro das atenções.

— Foda-se os pilotos, Alvinho — Chico resmungou, sentando-se e puxando Ana Julia para o seu colo. — Eu só quero minha bebida e minha mulher.

— Amor, busca um gim tônica pra mim? — pediu Ana Julia, deixando um beijo molhado no pescoço dele que o fez arrepiar até a alma. — Esse champanhe do Pig tá com gosto de xarope.

— Agora, vida — Chico levantou-se, dando um tapa na bunda dela de leve antes de sair. — Ô seus arrombados, não deixem ninguém chegar perto dela, hein?

Chico se afastou em direção ao bar principal, que estava entupido. Ele teve que esperar alguns minutos, lutando contra a multidão de modelos e herdeiros. Enquanto o barman preparava os drinques, Chico acendeu outro cigarro na área permitida, passando a mão no rosto, sentindo-se um peixe fora d'água, mas um peixe com a mulher mais gata do aquário.

Na mesa, Ana Julia ficou sozinha por um instante enquanto os meninos discutiam aos gritos sobre quem era o melhor batedor de falta do Brasileirão, ignorando completamente o luxo ao redor. Foi quando uma sombra se projetou sobre ela.

Era Charles Leclerc. O piloto da Ferrari, com seu charme monegasco e um sorriso que derretia câmeras no mundo todo, aproximou-se da mesa. Ele tinha visto Ana Julia de longe e, como qualquer homem com olhos funcionando, ficou hipnotizado pelos fios de ouro no cabelo dela.

— *Bonsoir* — disse Leclerc, com um sotaque suave. — Desculpe interromper, mas eu não pude deixar de notar... seu cabelo é incrível. São fios de ouro reais ou é apenas o brilho de Mônaco?

Ana Julia, que não era boba e falava inglês fluente, deu um sorriso de canto, jogando o cabelo para o lado.

— São reais, piloto — respondeu ela, divertida com a audácia. — E o brilho é de família.

Leclerc riu, inclinando-se um pouco mais.

— Magnífico. Eu sou o Charles. Você gostaria de se juntar à nossa mesa? É um pouco mais reservada e temos bebidas que fazem jus à sua beleza.

Nesse exato momento, Chico vinha voltando com dois copos de gim na mão. Ele parou a poucos metros, vendo o sujeito de camisa social impecável e rosto de galã de cinema debruçado sobre a sua namorada. O sangue de Chico subiu para a cabeça mais rápido que um motor V6.

Ele caminhou até a mesa com passos pesados, o boné abaixado cobrindo o olhar fuzilante.

— Perdeu alguma coisa aqui, parceiro? — perguntou Chico em português, com a voz grossa, parando ao lado de Ana Julia e colocando os copos na mesa com força.

Leclerc olhou para Chico, confuso pelo tom, mas entendendo a linguagem universal de um homem com ciúme.

— *Oh, sorry. I was just complimenting the lady* — explicou o piloto, mantendo a classe.

— *Lady* o caralho — Chico rosnou, buscando o inglês que mal lembrava. — *She is with me. My woman. My vida. Go drive your car, brother.*

Ana Julia estava segurando o riso, achando a cena a coisa mais deliciosa do mundo. Ela adorava quando Chico ficava possessivo.

— Calma, amor — ela disse, segurando o braço dele. — Ele só estava sendo educado. É o piloto da Ferrari!

Leclerc, percebendo que o "platinado de boné" estava pronto para começar uma guerra diplomática, levantou as mãos em sinal de paz e se retirou com um sorriso amarelo de volta para o seu setor VIP.

Assim que o piloto saiu, o camarote dos brasileiros explodiu.

— PUTA QUE PARIU, CHICO! — gritou Beltrão, dobrando o corpo de tanto rir. — Tu deu um "perdeu" no príncipe de Mônaco!

— O cara tem uma Ferrari e o Chico tem um boné e uma marra de bicheiro! — berrou Alvinho, batendo na mesa. — "Go drive your car, brother"! Caralho, eu vou tatuar isso!

— O Chico tá tremendo! Olha a mão dele! — zoou Maciel, apontando para o amigo que estava visivelmente alterado.

Chico sentou-se bruscamente, passando a mão no rosto repetidas vezes. O tique da língua no lábio inferior estava frenético.

— Calma aí, cara — disse Chico, a voz rouca. — Calma aí, porra. O maluco chega na minha mesa, fala no ouvido da minha mulher e eu tenho que ficar de boa porque ele corre de carrinho? Vão tomar no cu vocês também.

— Ele ficou com ciúme do piloto! — Pig gritou pro resto da boate. — O Chico tá com medo de perder a Ana Julia pro grid de largada!

— Vai se foder, Pig! — Chico rebateu, nervoso. — Calma aí, cara. O maluco é bonitão, mas não tem o meu molho. Né, vida?

Ana Julia sentou-se no colo dele, passando os braços pelo pescoço de Chico e ignorando a gritaria dos amigos.

— Você é muito mais homem que ele, amor — sussurrou ela, sentindo o perfume de tabaco e colônia dele. — Mas confessa... você ficou com medinho.

Chico lambeu o lábio, os olhos castanhos fixos nos dela, cheios de um desejo que beirava a agressividade.

— Eu não fico com medo, Ana Julia. Eu fico com ódio. Se aquele maluco encosta em você, eu ia mostrar pra ele o que é uma batida de verdade.

— Ih, ó lá! O pitbull de Mônaco! — provocou Ramon. — Cuidado, hein, Chico! O Hamilton tá chegando ali, se ele olhar pra Ana Julia, o Chico pula no porto!

— Calma aí, cara — Chico repetiu, tentando se acalmar enquanto os meninos continuavam a zoação impiedosa. — Vocês são muito arrombados, na moral. Eu trago vocês pra Europa e é assim que me tratam?

— A gente te ama, Chico! — gritou Beltrão, levantando uma garrafa de champanhe. — Mas ver você peitando um multimilionário da F1 com esse boné de dez reais não tem preço, porra!

Chico finalmente relaxou um pouco, dando um sorriso de canto e passando a mão no rosto. Ele puxou Ana Julia para um beijo profundo, ignorando as vaias e assovios dos amigos.

— Você é minha, porra — murmurou ele contra os lábios dela. — Não esquece disso.

— Sou sua, amor. Sempre — ela respondeu, puxando o boné dele um pouco mais para baixo. — Agora para de falar "calma aí, cara" pros meninos e me dá atenção, porque eu ainda quero aquele prêmio que você me prometeu no cassino.

Chico lambeu o lábio inferior, o tique denunciando que a noite estava apenas começando.

— Calma aí, cara... — ele disse, mas desta vez com um sorriso safado, olhando para Ana Julia como se ela fosse a única coisa que importasse em todo o principado de Mônaco. — Se você continuar com esse papo, a gente sai daqui agora e os meninos que se virem pra pagar essa conta.

— PAGA A CONTA O CARALHO, CHICO! — gritou Alvinho do outro lado da mesa. — TU GANHOU NA ROLETA, HOJE TU É O NOSSO PATROCINADOR!

Chico riu, abraçando Ana Julia com força. Ele podia não ter uma Ferrari, mas naquela noite, na Jimmy’z, ele se sentia o verdadeiro rei de Mônaco.