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Sleepy hollow

O Altar Profano da Memória e do Medo

A luz do sol em Nova York era diferente da de Sleepy Hollow. No vale, a claridade era sempre filtrada por uma névoa perene, uma luz difusa que parecia vir de lugar nenhum e de todos os lugares ao mesmo tempo. Na metrópole, o sol batia de forma agressiva contra as fachadas de tijolos e o ferro das carruagens, expondo cada imperfeição, cada grão de poeira e cada pecado que a noite tentara esconder.

Ichabod Crane estava debruçado sobre sua mesa de carvalho, cercado por diagramas de um novo sistema de arquivamento criminal. Seus dedos, manchados de tinta, moviam-se com a precisão de um relojoeiro, mas sua mente estava em outro lugar. Ele sentia o peso do silêncio de Katrina vindo do outro lado da sala. Ela estava sentada junto à janela, segurando um pequeno livro de orações encadernado em couro desgastado, um objeto que ele não a via tocar desde que deixaram as terras de seu pai.

— Ichabod — disse ela suavemente, sem desviar os olhos da rua movimentada lá fora.

Ele parou a pena no meio de uma palavra, uma gota de tinta caindo e manchando o papel.

— Sim, Katrina?

— Ouço os sinos da Trinity Church todas as manhãs — continuou ela, finalmente virando-se para ele. Seus olhos castanhos pareciam carregar uma melancolia que Ichabod não conseguia decifrar. — Eles me lembram do tempo em que o mundo parecia ter uma ordem... uma ordem sagrada.

Ichabod sentiu um aperto familiar no peito. O assunto da religião era uma ferida aberta em sua alma, uma cicatriz deixada pelas mãos de um pai fanático e pela visão da dama de ferro que tirara a vida de sua mãe.

— A ordem de Nova York é ditada pela lei e pela lógica — respondeu ele, tentando manter a voz firme, embora suas mãos tremessem levemente sob a mesa. — Sinos de igreja são apenas vibrações sonoras projetadas para marcar o tempo de quem não possui um relógio de precisão.

Katrina levantou-se e caminhou até ele, o vestido de seda cinza sussurrando contra o chão. Ela colocou a mão sobre a dele, cobrindo a mancha de tinta.

— Não fale como um autômato, Ichabod. Eu sinto falta da paz de um santuário. Quero que você vá comigo amanhã. É domingo.

Ichabod puxou a mão como se tivesse sido queimado. Ele levantou-se abruptamente, a cadeira arrastando-se com um ruído estridente.

— Não — disse ele, a voz subindo um tom. — Eu não entrarei em uma igreja. Não aqui, não agora, nunca mais.

— Por que esse pavor, mestre Crane? — perguntou ela, aproximando-se até que Ichabod pudesse sentir o calor de seu corpo. — Você enfrentou o Cavaleiro Sem Cabeça. Enfrentou conspirações e assassinatos. Por que teme um teto de pedra e o cheiro de incenso?

— Porque as pedras têm memória, Katrina! — exclamou ele, gesticulando nervosamente. — E o incenso é usado para disfarçar o cheiro de sangue e hipocrisia. Eu vi o que a "adoração" faz com os homens. Eu vi o que ela fez com a minha mãe.

Katrina tocou o rosto dele, seus dedos frios traçando a linha de sua mandíbula tensa.

— Aquilo foi crueldade, não fé — sussurrou ela. — Sleepy Hollow nos ensinou que o mundo é feito de luz e sombra. Se celebramos a sombra no cemitério, por que não podemos buscar a luz no altar?

— Porque eu não pertenço àquele lugar! — Ichabod afastou-se, caminhando de um lado para o outro na biblioteca. — Eu sou um homem de ciência. Minha catedral é este escritório. Meus santos são os princípios da dedução. Quando entro em uma igreja, sinto as paredes se fecharem. Sinto os olhos de figuras de gesso me julgando por segredos que... que você e eu compartilhamos.

Katrina sorriu, um sorriso que misturava doçura e uma malícia antiga.

— Você teme o julgamento de Deus ou o seu próprio desejo, Ichabod? — Ela deslizou para trás dele, abraçando-o pela cintura e encostando o rosto em suas costas. — Você acha que o que fazemos na calada da noite, o modo como você adora o meu corpo como se fosse um sacrifício, é algo que as paredes de uma igreja não suportariam?

— Katrina, por favor... — ele arquejou, sentindo a vontade vacilar.

— Eu sinto falta da comunhão — continuou ela, sua voz vibrando contra a coluna dele. — Mas não a comunhão do vinho e do pão. Sinto falta da sensação de algo maior que nós dois. Se você não for comigo para a igreja, então terá que me dar o seu próprio santuário aqui mesmo.

Ela o puxou para a poltrona de couro, forçando-o a sentar. Ichabod estava paralisado pela mistura de trauma e desejo. Ele via as imagens da infância — o pai rezando enquanto a mãe sofria — misturarem-se à visão de Katrina agora, desfazendo os laços de seu corpete com uma calma ritualística.

— Se não haverá orações — disse ela, deixando o vestido cair pelos ombros, revelando a pele alva que brilhava sob a luz filtrada da tarde —, então haverá confissão.

— Confissão? — Ichabod perguntou, a respiração ficando curta.

— Confesse o quanto você me deseja — ordenou ela, sentando-se no colo dele, as pernas envolvendo sua cintura. — Confesse que, para você, esta pele é o único pergaminho que importa.

Ichabod agarrou os quadris dela, seus dedos se enterrando na carne macia. A lógica estava sendo expulsa de sua mente por uma maré de paixão possessiva. Ele a beijou com uma fome que beirava o desespero, como se estivesse tentando silenciar os sinos da Trinity Church que ainda ecoavam em sua memória.

— Eu a desejo mais do que a minha própria alma — confessou ele contra os lábios dela. — Eu a desejo tanto que o pensamento de qualquer outro deus me parece uma heresia.

Katrina inclinou a cabeça para trás, soltando um suspiro longo enquanto Ichabod enterrava o rosto em seu pescoço.

— Então este é o nosso altar — murmurou ela.

Ele a levou para a mesa de trabalho, empurrando os diagramas e os frascos de tinta para o chão. O som do vidro se quebrando foi como um sinal. Ele a deitou sobre a madeira fria, o contraste entre o material inanimado e o calor pulsante de Katrina fazendo seus sentidos latejarem.

— Ichabod... — ela chamou, suas mãos guiando-o para as camadas de suas anáguas.

Ele a despiu com uma urgência febril, seus olhos escuros devorando cada detalhe. Quando ele finalmente alcançou o centro de sua obsessão, sentiu que estava diante do único mistério que valia a pena ser resolvido. A intimidade de Katrina estava úmida e convidativa, um oráculo rosado que prometia esquecimento.

— Você é magnífica — sussurrou ele, a voz rouca. — Nenhuma catedral no mundo possui tal beleza.

Ele se ajoelhou entre as pernas dela, mas não para rezar. Ichabod mergulhou o rosto na feminilidade de Katrina, sua língua buscando o sabor dela com uma avidez que o fazia esquecer o próprio nome. Ele ouviu o gemido dela, um som que ecoou pelas estantes de livros como um salmo profano. Katrina arqueou o corpo, as mãos apertando os ombros dele, as unhas deixando marcas no tecido de seu casaco.

— Sim... assim — ela ofegou, a voz carregada de um prazer que era, por si só, uma forma de transcendência.

Para Ichabod, aquele ato era sua única redenção. Cada movimento de sua língua, cada sucção cuidadosa, era uma tentativa de apagar as sombras do passado com o calor do presente. Ele sentia o gosto de Katrina, doce e metálico, e sentia a vibração de seu clímax iminente contra seu rosto. Quando ela finalmente estremeceu, gritando o nome dele em um êxtase que fez os cristais da luminária tilintarem, Ichabod sentiu uma paz que nenhuma oração jamais lhe proporcionara.

Ele subiu o corpo, seus olhos encontrando os dela. Katrina estava radiante, o rosto corado, os cabelos dourados espalhados sobre os seus relatórios criminais.

— Você ainda quer ir à igreja amanhã? — perguntou ele, a respiração pesada.

Katrina sorriu, puxando-o para baixo para um beijo profundo.

— Eu encontrei o que buscava, Ichabod. O santuário não está nas pedras. Está na entrega.

Ele se livrou de suas roupas com movimentos rápidos, o nervosismo habitual transformado em uma força bruta. Quando ele entrou nela, o impacto foi tão intenso que ele teve que fechar os olhos para não perder o equilíbrio. Ele se movia dentro dela com um ritmo constante, uma cadência que parecia sintonizada com o pulsar da própria vida.

— Katrina... — ele gemia, sentindo que cada estocada o afastava mais daquele menino assustado que vira a mãe morrer.

Ela o envolvia, suas pernas cruzadas sobre as costas dele, puxando-o para o fundo de si mesma.

— Esqueça os sinos, Ichabod — sussurrou ela em seu ouvido. — Ouça apenas o meu coração.

O clímax veio como uma tempestade. Ichabod sentiu uma onda de calor que o deixou momentaneamente cego, um grito contido morrendo em sua garganta enquanto ele se derramava dentro dela. Ele desmoronou sobre o peito de Katrina, o suor misturando-se às lágrimas que ele não conseguia mais conter.

Ficaram ali por muito tempo, dois corpos entrelaçados sobre a mesa de um magistrado, cercados pelos destroços de uma ciência que não conseguia explicar o que acabara de acontecer. O sol começou a se pôr, lançando sombras longas e douradas pelo escritório.

— Você está bem? — perguntou Katrina, acariciando os cabelos negros dele.

Ichabod levantou a cabeça, limpando o rosto com as costas da mão. Ele olhou para a mesa, para a tinta espalhada e para a mulher que era seu mundo inteiro.

— Eu estou... em paz — admitiu ele, surpreso com a própria voz. — Mas não me peça para entrar naquela igreja, Katrina. Eu não suportaria o silêncio de Deus depois de ter ouvido a sua voz.

Katrina riu suavemente e ajudou-o a se levantar.

— Tudo bem, mestre Crane. Guardaremos nossos rituais para a privacidade de nossa casa. Afinal, a fé é um assunto privado, não é?

— No meu caso — disse ele, começando a recolher as roupas —, é uma questão de sobrevivência.

Na manhã seguinte, quando os sinos da Trinity Church começaram a tocar, Ichabod não pulou da cama com o susto habitual. Ele estava acordado, observando Katrina dormir ao seu lado. O som dos sinos ainda trazia memórias, mas elas pareciam mais distantes, abafadas pelo calor do corpo dela contra o seu.

Ele levantou-se silenciosamente e foi até a biblioteca. A mesa havia sido limpa pelos criados, mas ele ainda podia ver a marca onde a tinta caíra. Ele sentou-se e pegou uma nova folha de papel.

— A ciência — escreveu ele, sua caligrafia agora mais firme e fluida — é a busca pela verdade no mundo exterior. Mas a verdade do homem... essa reside nos mistérios que ele escolhe adorar quando as luzes se apagam.

Katrina apareceu na porta, envolta em um robe de seda branca, parecendo mais uma vez a aparição que ele encontrara em Sleepy Hollow.

— Escrevendo suas deduções, Ichabod?

— Apenas uma observação final — disse ele, fechando o diário.

Ele caminhou até ela e a beijou na testa. Os sinos pararam de tocar, e no silêncio que se seguiu, Ichabod Crane não sentiu medo. Ele percebeu que, embora nunca pudesse pisar em um solo sagrado sem tremer, ele havia construído seu próprio templo. E, enquanto Katrina Van Tassel fosse sua suma sacerdotisa, ele nunca mais estaria perdido na escuridão de sua própria razão.

— Vamos tomar o café da manhã? — sugeriu ela.

— Sim — respondeu ele, oferecendo o braço. — E depois, talvez possamos investigar mais a fundo aquela teoria sobre a... resistência dos materiais.

Katrina sorriu, sabendo exatamente a que ele se referia.

— Mestre Crane, o senhor é um homem de estudos incansáveis.

— Tenho o melhor objeto de estudo do mundo — concluiu ele, enquanto caminhavam juntos para fora da sala, deixando para trás os fantasmas do passado e abraçando o mistério vívido do presente.

Nova York continuava lá fora, barulhenta e impessoal, mas dentro daquelas paredes, a lógica e a magia haviam feito um pacto de sangue e prazer, um acordo que nem mesmo o tempo ou a religião poderiam quebrar. Ichabod Crane era um homem de ciência, sim, mas era, acima de tudo, um homem que encontrara sua divindade na carne e no espírito de uma mulher que o amava o suficiente para deixá-lo ser exatamente quem ele era: um pecador redimido pelo toque de uma bruxa.