Sleepy hollow
O Veneno das Línguas e o Refúgio da Carne
A névoa de Sleepy Hollow sempre fora espessa, mas naquela semana ela parecia carregar algo mais do que apenas umidade e o cheiro de folhas em decomposição. Carregava sussurros. Ichabod Crane, ainda recuperando-se do ferimento no ombro, sentia o peso dos olhares toda vez que cruzava o pátio da mansão ou quando, por necessidade de sua investigação, precisava ir até o centro da vila.
Os homens paravam de falar quando ele passava, trocando sorrisos sugestivos e batendo com os cotovelos uns nos outros. As mulheres, cobertas por seus xales escuros, desviavam o rosto com uma expressão de asco teatral, apenas para voltarem a cochichar assim que ele lhes dava as costas. O termo "puta" não era dito em voz alta na presença de Baltus, mas ecoava nas tavernas e nas cozinhas, colado ao nome de Katrina como uma marca de ferro em brasa.
Dentro da mansão, Katrina mantinha a cabeça erguida, mas Ichabod, com sua sensibilidade aguçada para os detalhes e as nuances do comportamento humano, percebia a rachadura na armadura dela. Ele a via parar diante dos espelhos, observando o próprio reflexo com uma melancolia profunda, ou apertar os talheres durante o jantar até que os nós de seus dedos ficassem brancos, enquanto Lady Van Tassel lançava farpas disfarçadas de preocupação materna.
Naquela tarde, Ichabod encontrou Katrina na biblioteca. Ela estava sentada perto da janela, um livro aberto no colo, mas seus olhos estavam fixos no horizonte cinzento.
— Eles não param, Ichabod — disse ela, sem se virar. Sua voz era um fio de seda prestes a romper.
— As mentes pequenas sempre buscam diminuir o que não conseguem compreender, Katrina — respondeu ele, aproximando-se com passos cautelosos, o braço ainda tipóia sob o casaco.
— Não é apenas incompreensão. É ódio — ela se virou, e Ichabod viu que os olhos dela estavam marejados. — Sarah me disse hoje que as mulheres da igreja estão pedindo que eu seja banida das reuniões. Dizem que meu estado é uma "abominação visível". Elas falam de mim como se eu fosse um animal de estábulo que entrou no cio e profanou a pureza da vila.
Ichabod sentiu uma pontada de fúria racional. Ele, que sempre temera o sangue e a violência física, sentia agora uma vontade primitiva de silenciar cada língua maldizente de Sleepy Hollow.
— Você é minha esposa, Katrina. O que aconteceu entre nós foi... — ele hesitou, buscando a palavra científica, mas descartando-a — ...foi a vida se afirmando contra a morte.
— Para eles, eu sou apenas a mulher que se rastejou em cima de um estrangeiro — ela se levantou, o livro caindo no chão. — Eu sinto o cheiro do julgamento deles. Ele é mais sufocante do que a fumaça das lareiras.
Ela caminhou até ele, as mãos trêmulas subindo pelo peito de Ichabod, evitando o ombro ferido, mas buscando o calor que só ele lhe proporcionava.
— Às vezes — sussurrou ela, colando o rosto ao dele —, eu sinto que a única maneira de não desaparecer sob o peso dessas palavras é me perdendo em você novamente. Só quando estamos assim, sem as roupas, sem os nomes, sem a vila... só aí eu me sinto limpa.
Ichabod a abraçou com o braço bom, puxando-a para o abrigo de seu corpo. Ele entendia. O desejo nela não era apenas luxúria; era uma resposta ao trauma, um refúgio onde a vergonha imposta pelos outros não conseguia penetrar.
— Venha — disse ele, a voz rouca. — Vamos para o nosso quarto. O mundo pode falar o que quiser, mas atrás daquela porta, só existe a nossa verdade.
Eles subiram as escadas sob o olhar vigilante e reprovador de Sarah, que permanecia no corredor como uma estátua de julgamento moral. Ichabod não desviou o olhar; ele sustentou o rosto da governanta com uma frieza que a fez recuar um passo.
Uma vez dentro do quarto, ele trancou a porta. O som do ferrolho correndo trouxe um alívio imediato a Katrina. Ela começou a desabotoar o vestido com uma urgência febril, as mãos ainda trêmulas.
— Deixe-me ajudar — pediu Ichabod.
Ele usou a mão direita para desfazer os laços e botões, um processo lento e deliberado. À medida que as camadas de tecido caíam, a tensão nos ombros de Katrina parecia se dissipar. Quando ela ficou apenas com a combinação de seda, a luz pálida da tarde revelou a curva sutil, quase imperceptível, de seu ventre.
Ichabod ajoelhou-se diante dela. Ele encostou o rosto naquela região, fechando os olhos.
— Aqui está o futuro — murmurou ele contra a pele dela. — Deixe que falem. Enquanto este coração bater, o resto é apenas ruído.
Katrina soltou um suspiro longo, enterrando os dedos nos cabelos negros e desalinhados de Ichabod. A melancolia em seus olhos deu lugar a algo mais escuro, mais faminto. Ela o puxou para cima, seus lábios encontrando os dele em um beijo que sabia a desespero e redenção.
— Eles dizem que eu agi como uma puta — ela sussurrou contra a boca dele, enquanto desamarrava o lenço do pescoço de Ichabod. — Dizem que eu perdi o pudor.
— O pudor é uma invenção dos medíocres para controlar os corajosos — respondeu Ichabod, sua respiração tornando-se errática enquanto as mãos de Katrina exploravam seu corpo.
Ela o levou até a cama, empurrando-o suavemente. Ichabod sentou-se, e Katrina, com um movimento fluido, livrou-se da última peça de roupa. Ela subiu no colchão, rastejando-se sobre ele com a mesma intensidade que despertara os boatos da vila. Mas ali, na privacidade de seu santuário, não havia julgamento.
Katrina posicionou-se sobre ele, as pernas de cada lado dos quadris de Ichabod. Ela sentia o volume dele sob o tecido das calças e um gemido de antecipação escapou de seus lábios.
— Se eles querem uma puta, eu serei a sua puta, Ichabod — disse ela, os olhos brilhando com um fogo desafiador. — Eu vou cavalgar em você até que eu esqueça as caras de cada uma daquelas mulheres. Eu vou te dar tudo o que elas têm medo de sentir.
Ela agia novamente como se estivesse no cio, uma urgência biológica que parecia ignorar as convenções sociais que tentavam esmagá-la. Katrina guiou a entrada dele, sentindo o preenchimento que a ancorava na realidade. Ela começou a se mover, um ritmo circular e profundo, jogando a cabeça para trás.
— Oh, Ichabod... — ela arquejou. — Sinta como eu te aperto... sinta o que eles chamam de pecado.
Ichabod segurou a cintura dela, sua mão direita apertando a carne macia de seus quadris. A dor no ombro ferido era um eco distante, abafado pela sinfonia de sensações que Katrina provocava. Ele olhava para ela e não via a mulher caída que a vila descrevia; via uma deusa gótica, uma criatura de luz e sombras que havia escolhido a vida em um lugar onde a morte era a única moeda de troca.
— Você é perfeita — disse ele, a voz falhando. — Você é a única coisa lógica neste mundo insano.
Katrina aumentou a velocidade, seus movimentos tornando-se quase violentos em sua busca por esquecimento. Ela queria que o prazer fosse tão intenso que apagasse as memórias dos sussurros nos corredores e dos olhares de Sarah. Cada estocada era um "não" dito à sociedade de Sleepy Hollow.
— Mais... — ela pedia, inclinando-se para frente, deixando que seus seios roçassem no peito dele. — Não pare, Ichabod. Me possua até que não reste nada de Katrina Van Tassel, apenas a sua esposa... apenas a sua mulher.
O suor misturava-se em seus corpos, criando um brilho úmido sob a luz das velas que Katrina insistira em acender. Ela se entregava com uma selvageria que Ichabod, em sua vida anterior em Nova York, jamais imaginaria possível. Ele aprendera que a ciência explicava o funcionamento dos órgãos, mas apenas Katrina explicava o propósito da existência.
No auge do ato, Katrina cravou as unhas nos braços de Ichabod, soltando um grito que foi abafado pelo travesseiro. Ela desabou sobre o peito dele, o coração batendo como o de um pássaro assustado, enquanto Ichabod se perdia dentro dela, liberando tudo o que guardara durante os dias de julgamento silencioso.
Eles ficaram em silêncio por um longo tempo, o único som sendo o da respiração pesada de ambos e o estalar da lenha na lareira.
— Você ainda os ouve? — perguntou Ichabod, acariciando os cabelos loiros dela.
Katrina levantou o rosto, um pequeno sorriso de satisfação surgindo pela primeira vez em dias.
— Não. Agora só ouço o meu próprio sangue.
— Eles não podem nos tocar aqui, Katrina. Baltus nos protege, e eu protegerei você com cada grama de intelecto e força que eu tiver.
— Eu sei — ela se aninhou mais perto dele. — Mas a vila... eles nunca vão esquecer. Eles vão olhar para o nosso filho e ver o rastro dessa noite.
— Então ensinaremos nosso filho a caminhar entre as sombras com a cabeça erguida — disse Ichabod com uma determinação que surpreendeu a si mesmo. — Ele será o herdeiro de Sleepy Hollow, nascido da união entre a razão e a paixão. Deixe que eles fofoquem. As lendas que contarão sobre nós serão muito mais duradouras do que a maldade deles.
Katrina fechou os olhos, sentindo-se finalmente segura. Mas a paz foi interrompida por uma batida forte na porta.
— Senhor Crane? Senhorita Katrina? — Era a voz de Baltus, soando urgente. — O magistrado Philipse acaba de chegar. Ele diz ter informações vitais sobre o testamento de Peter Van Garrett... e sobre o Cavaleiro.
Ichabod e Katrina se olharam. O mundo exterior, com seus mistérios sangrentos e suas línguas venenosas, estava batendo à porta novamente.
— Temos que ir — disse Ichabod, começando a se vestir com a ajuda de Katrina.
— Sim — respondeu ela, agora com uma calma gélida. — Mas desta vez, eu irei ao seu lado. Não como a filha protegida de Baltus, mas como a mulher que não teme nada do que eles possam dizer.
Eles saíram do quarto minutos depois. No corredor, Sarah ainda estava lá, limpando um móvel desnecessariamente. Quando viu Katrina passar, a governanta abriu a boca para dizer algo, talvez uma reprimenda sobre o cabelo desalinhado ou o rubor nas bochechas.
Katrina parou diante dela. Ela não disse uma palavra, apenas sustentou o olhar de Sarah com uma intensidade tão profunda e obscura que a governanta deixou cair o pano de pó, empalidecendo.
— O chá será servido no salão, Sarah — disse Katrina, a voz fria e autoritária. — E certifique-se de que as xícaras estejam limpas. Não queremos que nenhuma impureza estrague a nossa reunião.
Ichabod sorriu de canto, um brilho de orgulho nos olhos. Eles desceram as escadas juntos, um homem de preto e uma mulher de luz, prontos para enfrentar a névoa, o Cavaleiro e, acima de tudo, a hipocrisia de Sleepy Hollow. A fofoca poderia ser um veneno, mas eles haviam descoberto que o antídoto era feito de carne, sangue e uma coragem que nenhuma lógica poderia explicar.