Sleepy hollow
O Julgamento do Sangue e a Redenção do Nome
A névoa na Ponte de Hessian não era apenas um fenômeno climático; era um sudário que parecia querer sufocar qualquer esperança de fuga. Ichabod e Katrina mal haviam recuperado o fôlego quando o som de cascos de cavalos e o brilho de tochas cortaram a escuridão. Não era o Cavaleiro. Eram homens de carne e osso, mas movidos por uma crueldade que o sobrenatural raramente alcançava.
— Ali estão eles! — gritou uma voz ríspida.
Eram os capangas contratados por Lady Van Tassel, liderados por um homem de feições brutas e olhos injetados. Eles cercaram o casal com a eficiência de lobos acuando uma presa ferida. Ichabod colocou-se à frente de Katrina, seus braços abertos em um gesto de proteção que parecia patético diante das armas que os homens empunhavam.
— Afastem-se! — ordenou Ichabod, sua voz tremendo, mas carregada de uma dignidade desesperada. — Como oficial da justiça, eu ordeno que baixem suas armas!
— Você não manda em nada aqui, forasteiro — cuspiu o líder, descendo do cavalo. — A patroa deu ordens claras. A herdeira volta para casa para ser... limpa. E você, bem, você é apenas um estorvo.
— Vocês não vão tocar nela! — Ichabod avançou um passo, mas o som seco de um disparo de pistola rasgou o silêncio da noite.
O impacto foi brutal. Ichabod sentiu um soco incandescente em seu ombro esquerdo, a força do projétil jogando seu corpo magro para trás. Ele caiu pesadamente no chão lamacento, o grito de dor morrendo em sua garganta enquanto o choque tomava conta de seus sentidos.
— Ichabod! — O grito de Katrina foi um lamento que pareceu rachar o próprio céu.
Ela se atirou ao chão ao lado dele, ignorando os homens que a cercavam. Suas mãos, agora manchadas com o sangue quente que jorrava do ombro de Ichabod, tentavam desesperadamente estancar a ferida.
— Não, não, não... Ichabod, olhe para mim! — soluçava ela, o rosto banhado em lágrimas. — Fique comigo!
— Levem-nos de volta — ordenou o líder dos homens, sem um pingo de remorso. — E tragam o corpo dele também, se ele não durar até a mansão.
O trajeto de volta foi um borrão de dor e agonia. Ichabod alternava entre a consciência e o delírio, sentindo o balanço da carroça onde fora jogado. Katrina permanecia ao seu lado, segurando sua mão com uma força sobrenatural, sussurrando palavras de encorajamento que ele mal conseguia processar.
Ao chegarem à mansão, o cenário era de puro caos. Lady Van Tassel esperava no pátio, observando a cena com uma satisfação gélida. Baltus Van Tassel, o patriarca, havia acabado de chegar de uma reunião com os anciãos da vila e observava tudo com uma confusão que rapidamente se transformava em horror.
— O que é isso? — trovejou Baltus, correndo em direção à carroça. — O que fizeram com o senhor Crane?
— Ele tentou resistir, Baltus — mentiu Lady Van Tassel, sua voz soando como mel envenenado. — Seus homens apenas protegeram a honra de nossa filha. Ela estava sendo levada contra a vontade.
— Mentira! — gritou Katrina, descendo da carroça com o vestido ensopado de sangue. — Eles atiraram nele a sangue frio! Ele está morrendo, pai! Chame o médico! Chame o reverendo! Alguém ajude-o!
Baltus olhou para o corpo pálido de Ichabod, que agora tremia violentamente sobre as tábuas de madeira.
— Tragam-no para dentro imediatamente — ordenou Baltus.
— Não! — Lady Van Tassel interveio, bloqueando o caminho. — Baltus, pense na reputação da família. Se deixarmos um médico entrar e ver o estado dele, e o estado dela... o escândalo nos destruirá. Deixe que ele expire aqui fora. É o destino de um sedutor.
— Sedutor? — Katrina avançou contra a madrasta, seus olhos brilhando com uma fúria que fez até Baltus recuar. — Ele é o pai do meu filho, sua mulher amaldiçoada! Se ele morrer, eu juro que não restará uma pedra sobre outra nesta casa!
Baltus Van Tassel parou. O tempo pareceu congelar enquanto ele processava a informação. Sua filha, sua única luz, estava grávida do forasteiro. O escândalo já era um fato, mas a morte de Ichabod seria uma tragédia que ele não poderia carregar na consciência.
— Um médico, Baltus! — Sarah, a governanta, sussurrou ao lado de Lady Van Tassel. — Não permita que a heresia entre em nossos quartos. Deixe que a justiça de Deus seja feita.
— A justiça de Deus não é feita por assassinos! — Baltus empurrou Sarah para o lado com uma força que ninguém sabia que ele possuía. — Tragam o senhor Crane para o meu escritório! Agora! E tragam o médico de Tarry Town, ou eu mesmo o buscarei!
O caos se instalou. Ichabod foi carregado para dentro, deixando um rastro de sangue pelo mármore frio. Ele foi depositado sobre o divã de couro de Baltus. Katrina não saiu do seu lado por um segundo sequer. Ela limpava o suor de sua testa, enquanto Ichabod murmurava nomes e fórmulas científicas em seu delírio.
— Katrina... a lógica... — ele balbuciou, os olhos escuros focando por um breve momento no rosto dela. — O sangue... não deveria ser tão quente...
— Shhh, Ichabod — sussurrou ela, beijando seus dedos frios. — A ciência não importa agora. Só importa o seu coração. Continue batendo, por favor... por nós.
Lady Van Tassel observava da porta, seus planos de silenciar o casal desmoronando diante da autoridade de Baltus. Ela tentou uma última cartada.
— Baltus, você está cometendo um erro. Ele é um estranho, um homem que não acredita em nada do que prezamos. Ele vai levar Katrina para a ruína.
Baltus Van Tassel virou-se para a esposa. O homem que sempre parecera um tanto lento e complacente agora exalava a autoridade de um verdadeiro senhor de terras.
— Chega, mulher! — sua voz ecoou pelas paredes. — Eu ignorei suas intrigas por tempo demais. Eu vi como você olhava para minha filha. Eu vi a maldade em seu coração sob o pretexto de virtude. Se o senhor Crane morrer, a culpa será sua por ter enviado homens armados atrás de um homem desarmado.
O médico chegou horas depois, sob a escolta pessoal de Baltus. O procedimento foi doloroso; a bala estava alojada perto da clavícula. Ichabod gritou, um som excruciante que fez Katrina desmaiar brevemente nos braços do pai. Mas, no fim, o metal foi extraído.
— Ele é forte — disse o médico, limpando as mãos. — Perdeu muito sangue, mas a vontade de viver parece ser maior do que a ferida. Ele precisa de repouso absoluto.
Na manhã seguinte, a luz pálida do sol de Sleepy Hollow tentava penetrar as janelas pesadas do escritório. Ichabod estava pálido, mas consciente. Baltus estava sentado à sua frente, enquanto Katrina segurava a mão de Ichabod, recusando-se a soltá-la.
— Senhor Crane — começou Baltus, sua voz pesada com o cansaço. — Minha filha me contou tudo. Sobre o que aconteceu, sobre a criança... e sobre as ameaças que sofreu nesta casa.
Ichabod tentou se sentar, mas a dor o fez recuar.
— Senhor Van Tassel... eu... eu amo sua filha. Eu nunca pretendi causar desonra...
— A honra é um conceito fluido em tempos de morte, senhor Crane — interrompeu Baltus. — O que vi ontem à noite foi uma mulher disposta a morrer por você, e um homem que quase morreu por ela. Em Sleepy Hollow, isso é mais raro do que qualquer tesouro.
Ele olhou para a filha, vendo a determinação e o amor nos olhos dela.
— Eu não permitirei que minha filha seja alvo de fofocas ou que meu neto seja chamado de bastardo — continuou Baltus. — O reverendo virá aqui ao entardecer. Vocês se casarão diante de Deus e de mim.
Ichabod olhou para Katrina, um brilho de esperança surgindo em meio à dor.
— Casar? — sussurrou ele.
— Sim — disse Katrina, um sorriso suave finalmente aparecendo em seus lábios. — Se você me aceitar, Ichabod. Um homem de ciência com uma mulher de mistérios.
— Eu aceitaria você em qualquer mundo, Katrina — respondeu ele, apertando a mão dela.
Lady Van Tassel observava do corredor, a sombra de sua derrota obscurecendo seu rosto. Ela sabia que sua influência sobre Baltus havia acabado. O plano de herdar as terras através da eliminação de Katrina falhara diante da inesperada coragem de Ichabod Crane.
Ao pôr do sol, em uma cerimônia simples e silenciosa no escritório de Baltus, Ichabod e Katrina trocaram votos. Ichabod estava pálido, apoiado por travesseiros, mas sua voz era firme quando prometeu proteger e amar Katrina. O reverendo, embora relutante devido aos boatos, não ousou desafiar a vontade de Baltus Van Tassel.
Quando o "sim" foi pronunciado, um vento súbito soprou pelas janelas, apagando as velas, mas deixando o quarto iluminado por uma luz prateada. Não havia medo naquela escuridão.
— Agora você é meu marido — sussurrou Katrina, inclinando-se para beijá-lo após o reverendo sair.
— E você é minha esposa — respondeu Ichabod. — A ciência pode não ter uma explicação para o que sinto, Katrina... mas meu coração, pela primeira vez, não precisa de lógica para saber que está em paz.
Lá fora, a névoa de Sleepy Hollow continuava a serpentear, e o Cavaleiro Sem Cabeça ainda reclamava suas vítimas. Mas dentro da mansão Van Tassel, uma nova linhagem havia começado. Uma união forjada no sangue, na doença e na paixão indomável, pronta para enfrentar qualquer horror que a noite pudesse trazer. Ichabod Crane, o detetive cético, havia finalmente encontrado a única verdade que importava: em um mundo de sombras e morte, o amor era a única magia real.