Só não deixa
A Dança Sutil das Almas e o Peso da Liberdade
O som do celular vibrando sobre a penteadeira de madeira escura pareceu um trovão no silêncio que se seguiu à decisão de Jungkook. Nós dois olhamos para o aparelho. O visor brilhava com o nome de *ele*. Jungkook hesitou por um segundo, os dedos pairando sobre a tela, mas não havia mais aquele brilho de expectativa ansiosa em seus olhos. Havia apenas uma exaustão profunda, o tipo de cansaço que vem de carregar um fardo que nunca foi seu para carregar.
— Atenda — encorajei, mantendo minha voz suave, mas firme. — Termine o ciclo, Kookie. O seu lobo precisa de espaço para respirar.
Ele assentiu, respirando fundo. O cheiro de jasmim, que antes estava sufocado por notas artificiais, começou a se expandir, ainda tímido, mas ganhando força enquanto ele deslizava o dedo pela tela para atender a chamada. Ele colocou no viva-voz, e a voz do outro lado veio carregada de uma impaciência que me fez trincar os dentes.
— Jungkook? Onde você está? Já estou no restaurante há dez minutos. Você sabe que eu odeio atrasos, atrapalha minha agenda de amanhã.
Jungkook olhou para mim. Eu não disse nada, apenas mantive meu olhar fixo no dele, oferecendo toda a âncora que ele precisava. Ele não desviou.
— Eu não vou, Taeshin — disse Jungkook. Sua voz não tremeu. Foi uma nota clara e cortante, como o cristal que ele tanto temia quebrar.
Houve um silêncio do outro lado, seguido por uma risada nasalada, incrédula.
— Como é? Do que você está falando? Deixe de drama, deve ser o seu período de pré-cio te deixando sensível de novo. Venha logo, eu pedi aquele vinho que você diz que gosta.
— Você nem sabe o nome do vinho que eu gosto — rebateu Jungkook, e um pequeno sorriso triste surgiu em seus lábios. — E você não me ouviu. Eu disse que não vou. Nem hoje, nem amanhã, nem nunca mais. Acabou, Taeshin.
— Você está terminando comigo por telefone? — A voz do Alfa do outro lado subiu de tom, a arrogância sendo substituída por uma indignação ferida no ego. — Depois de tudo o que eu fiz por você? Depois de te levar aos melhores lugares? Você é um ômega, Jungkook, deveria ser grato por ter alguém como eu cuidando da sua imagem.
Eu senti meu lobo rosnar baixo no fundo da minha garganta. O cheiro de canela e madeira em volta de mim esquentou, tornando-se denso e protetor. Jungkook sentiu, e isso pareceu lhe dar o empurrão final.
— Você nunca cuidou de mim — Jungkook disse, e agora havia uma força vibrante em suas palavras. — Você cuidou da ideia que tinha de mim. Você nem percebeu que eu cortei o cabelo hoje. Você nem percebeu que eu mudei minha rotina inteira para te agradar. Eu não sou um acessório, Taeshin. Eu sou um ômega que merece ser visto. E você... você é cego.
Sem esperar por uma resposta, sem dar espaço para mais manipulações ou desculpas vazias, Jungkook encerrou a chamada. Ele bloqueou o número e colocou o telefone virado para baixo na mesa.
O silêncio que caiu sobre o quarto desta vez foi diferente. Não era pesado ou opressor; era um silêncio de alívio, como o primeiro suspiro depois de emergir de águas profundas. Jungkook soltou o ar que parecia estar prendendo há meses e se sentou na beirada da cama, as mãos repousando sobre os joelhos.
— Eu fiz... — ele sussurrou, olhando para os próprios pés. — Eu finalmente fiz.
Eu me aproximei lentamente e me ajoelhei entre suas pernas, ficando em uma posição onde eu tinha que olhar para cima para encontrar seus olhos. Peguei suas mãos nas minhas. Elas estavam geladas, mas o tremor estava diminuindo.
— Você foi incrível — eu disse, e quis dizer cada letra. — A coragem que você teve agora vale mais do que qualquer gesto de submissão que ele exigiu de você.
— Parece que um peso saiu das minhas costas, Jimin — ele admitiu, os olhos começando a brilhar com lágrimas de verdade, não de tristeza, mas de libertação. — Mas ao mesmo tempo... eu me sinto tão vazio. Passei tanto tempo tentando ser o que ele queria que eu nem sei mais quem eu sou quando estou sozinho.
— Você não está sozinho — lembrei-o, apertando suas mãos. — E o vazio é apenas o espaço que você abriu para que coisas melhores entrem. Para que o verdadeiro Jungkook floresça.
Ele inclinou a cabeça, observando-me com uma curiosidade renovada.
— E quem é o verdadeiro Jungkook para você, Jimin?
Eu sorri, sentindo meu coração bater em um ritmo calmo e constante.
— O verdadeiro Jungkook é o ômega que ama desenhar nos cantos dos cadernos quando acha que ninguém está vendo. É aquele que prefere leite de banana a vinhos caros. É o que tem uma risada que ilumina até o dia mais sombrio e um coração tão grande que às vezes esquece de guardar um pouco de amor para si mesmo. É o ômega que é forte o suficiente para dizer "chega" quando o mundo tenta diminuí-lo.
Jungkook soltou uma risada curta, uma lágrima finalmente escapando e correndo por sua bochecha. Eu estiquei o braço e a limpei com o polegar, deixando minha mão descansar ali, sentindo o calor da sua pele.
— Você realmente presta atenção em tudo, não é? — ele perguntou, a voz suave.
— Como eu poderia não prestar? — devolvi. — Você é a melodia mais bonita que eu já ouvi, Kookie. Eu não perderia uma nota sequer.
O ambiente mudou. A tensão do término foi substituída por uma intimidade elétrica, algo que vinha crescendo entre nós há anos, mas que sempre fora barrado pela lealdade equivocada dele e pelo meu respeito ao espaço que ele pedia. Mas agora, não havia mais barreiras. O cheiro de canela e jasmim começou a se entrelaçar no ar, criando uma fragrância única, reconfortante e embriagante.
Jungkook se inclinou para frente, diminuindo a distância entre nossos rostos. Eu conseguia sentir sua respiração, o calor emanando de seu corpo.
— Jimin... — ele murmurou, seus olhos alternando entre os meus olhos e meus lábios. — Por que você esperou tanto? Por que não me tirou dele antes?
— Porque tinha que ser sua escolha — respondi, minha voz baixando para um tom quase inaudível. — Um Alfa que se preza não rouba a vontade de seu ômega. Eu queria que você visse seu próprio valor, não porque eu te disse, mas porque você sentiu. Eu esperaria uma vida inteira se fosse necessário, contanto que no final, você soubesse que merece o mundo.
Jungkook soltou minhas mãos e as levou ao meu pescoço, puxando-me gentilmente para cima até que eu estivesse sentado ao seu lado na cama, mas ainda virado para ele. Seus dedos brincaram com os fios de cabelo na minha nuca, enviando arrepios por toda a minha espinha.
— Eu fui tão bobo — ele disse, encostando a testa na minha. — Eu tinha o sol bem na minha frente e estava tentando me aquecer com uma vela apagada.
— O sol não vai a lugar nenhum — prometi.
Nossos lábios se tocaram pela primeira vez. Não foi um beijo de luxúria desenfreada, embora o desejo estivesse ali, pulsando sob a superfície. Foi um beijo de reconhecimento. Foi como se duas peças de um quebra-cabeça finalmente encontrassem seu lugar após anos de tentativas erradas. Tinha gosto de alívio, de promessa e de um amor que havia sido temperado pela paciência.
Jungkook suspirou contra minha boca, um som baixo e satisfeito que fez meu lobo uivar de alegria. Eu o puxei para mais perto, envolvendo meus braços em sua cintura, sentindo-o se moldar perfeitamente contra mim. Ali, naquele abraço, a marca que ainda não existia fisicamente parecia queimar na alma de ambos.
Quando nos afastamos, ele estava com as bochechas coradas e os olhos brilhando com uma vida que eu não via há muito tempo.
— Acho que não quero mais usar aquele perfume — ele disse, olhando para o frasco caro na penteadeira. — O seu cheiro é muito melhor. Ele me faz sentir... em casa.
— Você é a minha casa, Jungkook — respondi, beijando a ponta de seu nariz. — E de agora em diante, ninguém vai te fazer sentir que você precisa mudar um único fio de cabelo para ser amado. Se você quiser cortar, corte por você. Se quiser pintar, pinte por você. Eu estarei aqui para aplaudir cada versão sua.
Ele sorriu, um sorriso largo que mostrou seus dentes de coelho, o tipo de sorriso que ele costumava esconder porque Taeshin dizia que era "infantil". Para mim, era a coisa mais linda do universo.
— O que fazemos agora? — ele perguntou, encostando a cabeça no meu ombro.
— Agora? — Eu acariciei seus cabelos, sentindo a textura macia do novo corte que ele tanto se preocupou se seria notado. — Agora nós vamos pedir aquela comida coreana gordurosa que você ama e assistir a todos os filmes de super-heróis que ele se recusava a ver com você. E amanhã... amanhã nós acordamos e começamos a descobrir quem é o Jungkook que não precisa de travas no sorriso.
Jungkook se aconchegou mais, fechando os olhos e respirando fundo o meu cheiro.
— Eu gosto desse plano — ele murmurou.
Ficamos ali por um longo tempo, apenas sentindo a presença um do outro. O mundo lá fora poderia continuar seu curso, o tempo poderia passar, mas dentro daquele quarto, algo novo havia nascido. Um ômega havia recuperado sua voz, e um alfa havia finalmente encontrado o seu destino.
Enquanto eu observava o reflexo de nós dois no espelho da penteadeira — o mesmo espelho que momentos antes refletia apenas insegurança e dor —, vi algo diferente. Vi dois seres que se complementavam, vi a força na vulnerabilidade de Jungkook e a doçura na minha proteção.
Eu sabia que haveria dias difíceis. Sabia que a sombra daquele relacionamento tóxico poderia tentar voltar em momentos de insegurança. Mas eu também sabia que, enquanto eu tivesse o cheiro de jasmim impregnado em minha pele e ele tivesse a minha canela para acalmá-lo, nada seria capaz de apagar o brilho que tínhamos acabado de resgatar.
— Jimin? — Jungkook chamou baixinho, já quase pegando no sono em meu colo.
— Oi, meu anjo.
— Obrigado por não desistir de mim. Mesmo quando eu não via o que você via.
Eu beijei o topo de sua cabeça, sentindo uma paz imensa.
— Eu nunca desistiria do meu marido, Jungkook. Mesmo antes de você saber que era ele.
Ele não respondeu com palavras, apenas apertou minha mão com mais força antes de se entregar ao sono. E ali, no silêncio da noite, eu fiz uma promessa silenciosa ao universo: eu passaria cada segundo da minha vida garantindo que Jungkook nunca mais tivesse que se olhar no espelho e se perguntar se era o suficiente. Porque, para mim, ele sempre foi o universo inteiro, e eu seria o seu eterno admirador, notando cada detalhe, cada mudança, e amando cada parte dele com a fúria e a doçura que ele sempre mereceu.