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Só não deixa

Ecos do Despertar e o Aroma da Liberdade

A luz da manhã infiltrava-se pelas frestas da cortina de linho, pintando listras douradas sobre o lençol bagunçado. Pela primeira vez em muito tempo, o peso que Jungkook sentia ao acordar — aquela pressão invisível no peito que o obrigava a repassar mentalmente todas as regras de como se comportar, como falar e como parecer perfeito — havia evaporado. Em seu lugar, havia um calor sólido e reconfortante às suas costas.

Jimin estava ali. O cheiro de madeira e canela era agora a sua atmosfera, um abraço invisível que o mantinha seguro. Jungkook moveu-se levemente, sentindo a textura do novo corte de cabelo roçar no travesseiro. Ele não precisou de um espelho para saber que estava despenteado, e a percepção de que Jimin não se importaria com isso trouxe um sorriso involuntário aos seus lábios.

— Já acordado, Kookie? — A voz de Jimin surgiu rouca pelo sono, vibrando contra as costas de Jungkook.

— Hum... — Jungkook se virou no aperto do Alfa, encontrando olhos pequenos e inchados, mas carregados de uma adoração que o fazia sentir-se a pessoa mais importante do mundo. — Eu estava apenas pensando.

— Pensando em quê? — Jimin esticou o braço, afastando uma mecha rebelde da testa de Jungkook com uma delicadeza que beirava o sagrado. — Se for no café da manhã, eu posso providenciar panquecas.

Jungkook soltou uma risadinha, o som límpido ecoando pelo quarto.

— Não é comida. Pelo menos não ainda. — Ele fez uma pausa, fixando o olhar no pomo de adão de Jimin. — Estava pensando que ontem foi a primeira vez que eu dormi sem sentir que precisava pedir desculpas por existir.

O braço de Jimin se apertou ao redor da cintura do Ômega, trazendo-o para mais perto, se é que isso era possível.

— Você nunca deveria ter sentido isso, meu bem. Nunca. — Jimin beijou o topo da cabeça dele, inspirando profundamente. — O seu cheiro... ele mudou.

Jungkook franziu o cenho, curioso.

— Mudou como?

— Está mais puro — explicou Jimin, fechando os olhos para apreciar. — Antes, parecia que o jasmim estava tentando florescer no meio de uma tempestade de granizo. Estava tenso, sufocado por aquele perfume caro que você usava para agradar quem não merecia. Agora... agora é como se você tivesse florescido em um jardim sob o sol. É doce, calmo. É você.

Jungkook escondeu o rosto no pescoço de Jimin, aspirando a essência do Alfa. Era inebriante.

— Eu sinto que posso respirar de novo, Jimin. Mas... — Ele hesitou, os dedos brincando com a barra da camiseta de Jimin. — Eu tenho medo de ser apenas um momento. De que, quando eu sair por aquela porta, o mundo me force a ser aquele Ômega pequeno e inseguro de novo.

Jimin segurou o queixo de Jungkook, obrigando-o a olhar em seus olhos. A intensidade ali era de um Alfa que moveria montanhas, mas a suavidade era apenas para ele.

— Escuta o que eu vou te dizer — começou Jimin, a voz ganhando uma cadência firme. — O mundo pode tentar, Kookie. As pessoas vão sempre ter expectativas, vão tentar colocar rótulos. Mas você não está mais sozinho para enfrentar isso. E mais importante: a trava no seu sorriso foi quebrada por você mesmo ontem à noite. Eu só segurei a lanterna, mas quem caminhou para fora daquela escuridão foi você.

— Eu não teria conseguido sem você me lembrando de quem eu sou — sussurrou Jungkook.

— Talvez. Mas a força já estava aí. — Jimin sorriu, os olhos sumindo em fendas charmosas. — Agora, que tal começarmos o dia provando para esse mundo que você é o dono da sua própria vida?

— O que você tem em mente? — Jungkook perguntou, sentindo uma centelha de animação que não sentia há anos.

— Primeiro, as panquecas. Depois... — Jimin deu um beijo rápido nos lábios dele. — Vamos nos livrar de tudo o que não pertence ao novo Jungkook.

Horas depois, o apartamento de Jungkook parecia diferente. Eles haviam passado a manhã em uma espécie de ritual de purificação. O frasco de perfume que Taeshin o obrigava a usar foi jogado no lixo sem cerimônias. As roupas que eram "adequadas para um acompanhante de nível" foram separadas para doação.

Jungkook sentava-se no chão da sala, cercado por caixas, enquanto Jimin o ajudava a organizar seus materiais de desenho que estavam enterrados no fundo do armário.

— Você não desenha há quanto tempo? — perguntou Jimin, examinando um bloco de esboços antigo.

— Quase um ano — admitiu Jungkook, sentindo uma pontada de tristeza. — Ele dizia que era perda de tempo, que eu deveria me focar em aprender sobre vinhos ou etiqueta para os jantares de negócios dele.

Jimin parou o que estava fazendo e olhou para um desenho específico: um esboço detalhado de uma floresta sob o luar. A técnica era impressionante, mas a emoção impressa no papel era o que realmente tocava.

— Ele é um idiota completo — afirmou Jimin, com uma convicção que fez Jungkook rir. — Isso aqui não é perda de tempo. Isso é a sua alma, Jungkook. Nunca mais deixe ninguém dizer que a sua arte é menos importante do que um rótulo de vinho.

Jungkook pegou um lápis grafite, sentindo o peso familiar entre os dedos.

— Você realmente acha que eu sou bom?

Jimin caminhou até ele e sentou-se atrás dele, envolvendo-o com as pernas e servindo de encosto.

— Eu acho que você é extraordinário. Em tudo o que faz. — Ele apoiou o queixo no ombro de Jungkook. — Desenha algo para mim? Agora?

Jungkook sentiu o coração acelerar. Não era a pressão de ser perfeito, era o desejo de compartilhar algo real. Ele abriu uma página em branco e, por alguns minutos, o único som na sala era o riscar do grafite no papel e a respiração compassiva de Jimin em seu ouvido.

Lentamente, traços começaram a formar um perfil. Não era o de Jimin, mas sim o rosto de um Ômega com um corte de cabelo curto, olhando para o horizonte com um brilho de esperança nos olhos. Era ele mesmo, mas a versão que ele via através dos olhos de Jimin.

— É lindo — murmurou Jimin, beijando a têmpora de Jungkook. — Esse é o meu Jungkook favorito. O que se vê.

— Obrigado por me ver, Jimin. De verdade.

O momento foi interrompido pelo som de notificações incessantes no celular de Jungkook, que estava sobre a mesa de centro. O nome de Taeshin brilhava na tela repetidamente, acompanhado de mensagens que oscilavam entre súplicas passivo-agressivas e insultos velados.

Jungkook olhou para o aparelho, sentindo uma pontada residual de ansiedade. O velho hábito de querer apaziguar, de querer evitar o conflito, tentou emergir.

— Você quer que eu cuide disso? — perguntou Jimin, sua voz tornando-se perigosamente baixa, o cheiro de madeira tornando-se mais escuro, mais protetor.

Jungkook respirou fundo, sentindo o aroma de Jimin e o seu próprio jasmim se misturando. Ele esticou a mão e pegou o telefone.

— Não — disse ele, com uma calma que surpreendeu a ambos. — Eu cuido.

Ele desbloqueou o aparelho. Leu a última mensagem: *"Você não vai durar uma semana sozinho, Jungkook. Ninguém vai te tratar como eu tratei. Você é instável e esse seu amiguinho Alfa só quer se aproveitar da sua crise."*

Jungkook sentiu uma onda de indignação, mas ela não o afogou. Ele apenas digitou uma resposta curta: *"Você tem razão sobre uma coisa, Taeshin. Ninguém vai me tratar como você tratou. Porque eu nunca mais vou permitir que alguém me trate tão mal. Não me procure mais."*

Ele bloqueou o contato definitivamente e, num gesto de encerramento, desligou o aparelho.

— Pronto — disse ele, voltando-se para o abraço de Jimin. — O passado ficou sem bateria.

Jimin soltou um suspiro de alívio e orgulho, apertando-o com força.

— Você é o Ômega mais corajoso que eu já conheci, Kookie.

— Eu só quero ser feliz, Jimin. — Jungkook virou-se nos braços dele, ficando de frente para o Alfa. — Com você. Se você ainda me quiser, depois de toda essa bagunça.

Jimin riu, uma risada calorosa que vibrou no peito de Jungkook.

— Se eu te quero? Jungkook, meu lobo escolheu você no momento em que te viu pela primeira vez, anos atrás. Eu só estava esperando você perceber que o seu lugar era aqui, no meu abraço, e não tentando caber no bolso de alguém que não sabe o valor do tesouro que tinha.

Jungkook acariciou o rosto de Jimin, traçando a linha da mandíbula dele com o polegar.

— Eu sempre soube que havia algo diferente em você. O jeito que você me olhava... nunca me fez sentir pequeno. Pelo contrário, parecia que você estava sempre tentando me lembrar que eu era grande.

— Porque você é — afirmou Jimin. — E agora, nós temos todo o tempo do mundo para você descobrir o quão grande pode ser. Sem travas, sem moldes, sem perfumes que não sejam o seu.

Eles ficaram ali, no meio das caixas e dos desenhos, um Alfa e um Ômega que haviam encontrado seu equilíbrio não pela dominação, mas pelo respeito e pelo reconhecimento mútuo. O corte de cabelo de Jungkook, que antes era uma tentativa desesperada de ser notado por quem não via, agora era o símbolo de sua nova identidade.

— Jimin? — chamou Jungkook, com um brilho travesso nos olhos.

— Sim?

— O que você acha de sairmos? Quero ir àquela sorveteria que tem o sorvete de menta com chocolate que você odeia, mas que eu amo.

Jimin fez uma careta cômica, mas seus olhos brilhavam de felicidade.

— Por você, eu enfrentaria até o sorvete de menta. Mas com uma condição.

— Qual?

— Que você use aquela sua jaqueta jeans velha, a que tem os desenhos que você fez nas costas. — Jimin sorriu. — Quero que todo mundo veja o artista incrível que está caminhando ao meu lado.

Jungkook sentiu o rosto esquentar, mas não desviou o olhar.

— Combinado.

Enquanto se preparavam para sair, Jungkook passou pelo espelho do corredor. Ele parou por um segundo. Não para ajustar o cabelo obsessivamente, nem para conferir se a gola estava impecável. Ele parou para sorrir para si mesmo. E, pela primeira vez, o sorriso não tinha travas. Era largo, mostrava os dentes de coelho, e alcançava os olhos, iluminando todo o seu rosto.

Jimin parou atrás dele, exatamente como na noite anterior, mas a energia era completamente diferente. Ele não estava ali para curar uma ferida aberta, mas para celebrar a cicatriz que estava se formando, forte e resiliente.

— Você está lindo, Kookie — sussurrou Jimin no seu ouvido.

— Eu sei — respondeu Jungkook, e a confiança em sua voz foi o som mais bonito que Jimin já tinha ouvido. — Eu finalmente sei.

Eles saíram do apartamento de mãos dadas, deixando para trás os fantasmas de uma vida de aparências. O mundo lá fora ainda era o mesmo, mas o Ômega que caminhava por ele agora era livre. E ao seu lado, o Alfa que sempre soube o seu valor não apenas o protegia, mas o incentivava a voar, sabendo que, não importa o quão longe Jungkook fosse, o cheiro de madeira e canela seria sempre o seu porto seguro, o seu lar, e o seu marido de alma.