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Só quero

O Labirinto de Vidro e a Flor de Lótus

O sol da manhã filtrava-se pelas janelas da Mansão Riddle, banhando o berçário em tons de pêssego e ouro. O ambiente era um oásis de tranquilidade, decorado com móveis de mogno entalhado e sedas da mais alta qualidade. No centro do quarto, em um berço de carvalho que parecia flutuar levemente acima do chão, dormia a pequena Mérope. Com apenas cinco meses, a bebê era uma cópia perfeita e inquietante de Tom: a pele pálida, os cabelos negros como a asa de um corvo e, mesmo no sono, uma expressão de seriedade que parecia velha demais para uma criança.

Clara sentou-se na poltrona ao lado, sentindo o peso do cansaço em seus ombros. Seus olhos tinham olheiras suaves, e o corpo, sempre curvilíneo e macio, parecia implorar por algumas horas de silêncio absoluto. A maternidade, embora fosse o maior presente que Tom lhe dera, era exaustiva.

A porta abriu-se com a suavidade de um sussurro. Tom entrou, vestindo uma túnica de seda escura que acentuava sua elegância atemporal. Ele olhou para a esposa e, por um breve momento, a frieza habitual de seus olhos foi substituída por uma preocupação genuína.

— Você não dormiu nada, Clara — disse ele, aproximando-se e colocando as mãos frias e longas sobre os ombros dela.

— Ela teve cólicas a noite toda, Tom — suspirou Clara, encostando a cabeça na mão dele. — E quando finalmente dormiu, eu perdi o sono. Sinto como se meus ossos fossem feitos de chumbo.

Tom ajoelhou-se à frente dela, um gesto de devoção que ele reservava apenas àquela mulher.

— Vá descansar. Eu cuidarei dela hoje.

Clara sorriu, embora houvesse uma ponta de hesitação em seu olhar.

— Você tem certeza? Você disse que tinha reuniões importantes com seus... sócios.

— Meus "sócios" podem esperar — respondeu Tom, a voz gélida por um segundo antes de suavizar-se novamente para ela. — Nada é mais importante do que o seu bem-estar. Eu levarei Mérope para um passeio pelos jardins. O ar fresco fará bem a ela, e o silêncio fará bem a você.

— Você é maravilhoso, Tom — murmurou ela, inclinando-se para beijar-lhe a testa. — Mas não a leve para muito longe. E certifique-se de que ela esteja bem agasalhada.

— Eu cuidarei de tudo, minha querida. Vá dormir.

Tom esperou que Clara se retirasse para o quarto principal antes de se voltar para o berço. Ele observou a filha por um longo tempo. Mérope abriu os olhos — orbes escuros e inteligentes que pareciam ler a alma de quem a olhava. Tom sentiu uma centelha de orgulho. Ela era o seu legado de sangue, a prova de que ele vencera a morte e o tempo.

Com um aceno de sua varinha, um carrinho de bebê de prata e couro apareceu. Ele acomodou a menina com uma delicadeza que faria qualquer Comensal da Morte desmaiar de choque.

Enquanto isso, no andar de cima, Clara não conseguia dormir. O silêncio da casa, em vez de acalmá-la, trazia de volta as perguntas que ela tentava enterrar. Por que eles nunca recebiam visitas? Por que Tom ficava tão tenso quando ela mencionava o mundo exterior? Por que ela sentia que estava vivendo em uma redoma de vidro enquanto o resto do mundo seguia em frente?

Ela se levantou, trocou o vestido de dormir por um traje de passeio simples e desceu as escadas. Ela precisava de ar, mas não do ar controlado dos jardins internos. Ela queria sentir a floresta, o cheiro da terra úmida que ficava além dos limites das proteções que Tom tanto insistia em manter.

Clara caminhou em direção à orla da floresta, cruzando a barreira invisível que Tom mantinha. Ela sabia que ele não gostaria, mas a necessidade de liberdade era maior que o medo de uma reprimenda carinhosa.

A floresta de Little Hangleton era densa e antiga. Clara caminhava devagar, seus pés afundando levemente no musgo. De repente, ela parou. Vozes. Vozes que não eram de Tom, nem dos elfos domésticos.

— Hermione, as proteções aqui são insanas. É como se o espaço-tempo estivesse dobrado — disse uma voz masculina, rouca de cansaço.

— Eu sei, Harry. Mas se Dumbledore estava certo, ela está aqui. E se ela estiver aqui, ele estará também. Temos que ser cuidadosos.

Clara deu um passo à frente, os galhos secos estalando sob seus pés.

Harry Potter e Hermione Granger viraram-se instantaneamente, as varinhas erguidas. Eles pareciam terríveis — roupas rasgadas, rostos sujos de fuligem e olhos injetados de quem não dormia há dias.

Ao verem Clara, o choque foi mútuo.

— Quem são vocês? — perguntou Clara, a voz trêmula, mas mantendo uma dignidade natural.

Harry baixou a varinha lentamente, os olhos fixos no rosto dela. Ele reconheceu a mulher da foto de 1943. Ela não envelhecera. Era gordinha, com bochechas rosadas e um olhar de bondade que parecia impossível naquele lugar.

— Você é... Clara? — perguntou Harry, a voz falhando.

— Sim — respondeu ela, franzindo a testa. — Como sabem meu nome? E por que estão vestidos assim? Parece que saíram de uma guerra.

Hermione deu um passo à frente, os olhos arregalados de horror e fascinação. Ela analisou Clara com uma intensidade clínica.

— Você é uma nascida trouxa — sussurrou Hermione, mais para si mesma do que para os outros. — Eu sinto a sua magia... é pura, mas não é de sangue puro. Como... como ele não matou você?

Clara recuou, confusa.

— Matar-me? Do que você está falando? Tom me ama. Ele me protegeu de tudo. Ele disse que o mundo bruxo estava em colapso por causa de doenças e revoltas trouxas...

— Tom? — Harry soltou uma risada amarga, quase histérica. — Você quer dizer Lorde Voldemort?

— Esse nome... — Clara sentiu um calafrio. — Eu já ouvi esse nome em sussurros. Tom disse que era um bruxo das trevas que ele estava tentando derrotar com o Ministério.

— Clara — disse Hermione, a voz cheia de uma pena profunda —, Tom Riddle *é* Lorde Voldemort. Ele não está derrotando ninguém. Ele é o homem que está assassinando milhares. Ele é o homem que matou os pais do Harry. Ele é o homem que transformou o nosso mundo em um cemitério.

— Mentira — sussurrou Clara, as lágrimas começando a brotar. — Tom é um bom homem. Ele cuida de mim. Ele cuida da nossa filha!

Harry e Hermione trocaram um olhar de puro terror.

— Filha? — Harry engoliu em seco. — Ele tem uma filha?

— Sim, Mérope. Ela tem cinco meses. Tom está com ela agora no jardim...

— Clara, escute-me — Harry aproximou-se, ignorando o perigo. — Ele manteve você presa aqui por décadas. Olhe para si mesma. Você não envelheceu. Ele usou magia negra para congelar você no tempo. Você é o troféu dele, Clara. A única coisa humana que ele possui para se sentir como um deus.

— Ele faz tudo o que eu quero! — gritou ela, a negação lutando contra a verdade que sempre estivera ali, no canto de sua mente.

— Ele faz tudo o que você quer para que você nunca queira sair — rebateu Hermione. — Ele escondeu a verdade de você porque sabe que, se você visse o monstro que ele é, você o deixaria. E ele prefere escravizá-la em uma mentira do que ser abandonado.

O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo som de passos lentos e rítmicos.

— Uma conversa fascinante — disse uma voz fria e melodiosa que fez o sangue de Harry e Hermione congelar.

Tom Riddle emergiu das sombras das árvores. Ele ainda mantinha sua aparência jovem e bela de vinte e dois anos, mas a aura ao seu redor era de uma escuridão absoluta. Em seus braços, ele carregava a pequena Mérope, que olhava para o cenário com uma calma perturbadora.

— Tom! — Clara correu para ele, mas parou a poucos metros, vendo algo no olhar dele que nunca tinha visto antes. Não era amor. Era uma possessividade tão vasta que parecia devorar a luz ao redor.

— Eu disse para você ficar dentro de casa, Clara — disse Tom, a voz suave, mas com um fio de aço por baixo. — Veja como esses estranhos a deixaram perturbada.

— Tom, eles disseram... eles disseram que você é um assassino. Que você é Voldemort.

Tom olhou para Harry. Um sorriso lento e cruel surgiu em seus lábios.

— Harry Potter. O menino que sobreviveu. Você sempre teve o hábito de se intrometer onde não é chamado. E trouxe a pequena sangue-ruim com você.

Clara arquejou ao ouvir o termo.

— Sangue-ruim? Tom, você nunca usou essa palavra. Você disse que isso era coisa de gente ignorante.

Tom suspirou, como se estivesse explicando algo a uma criança teimosa.

— E é, querida. Mas eu sou o mestre, e eu decido quem é ignorante. Eu criei um paraíso para você, Clara. Dei a você uma vida eterna, uma filha, segurança. O que importa o que acontece com o resto desses vermes?

— Você os matou? — perguntou ela, a voz mal saindo.

Tom deu um passo à frente, a presença dele sufocando a floresta.

— Eu construí um império para nós. Tudo o que fiz, fiz para que ninguém pudesse tirar você de mim. Dumbledore tentou. O Ministério tentou. Eu os esmaguei.

Harry ergueu a varinha, mas Tom nem se deu ao trabalho de sacar a sua.

— Tente, Potter. Mas lembre-se de quem está nos meus braços. Você arriscaria a vida de uma criança inocente para me atingir?

Harry hesitou, o braço tremendo.

— Você é um monstro — sibilou Harry. — Usar a própria filha como escudo...

— Ela não é um escudo. Ela é o futuro — corrigiu Tom. — E Clara é o presente eterno.

Clara olhou para o marido — o homem que ela amava, o pai de sua filha — e depois para os dois jovens exaustos que arriscaram tudo para encontrá-la. Ela viu a verdade nas cicatrizes de Harry e no terror nos olhos de Hermione.

— Você mentiu para mim todos os dias — disse Clara, as lágrimas escorrendo livremente. — Cada beijo, cada presente... tudo era uma mentira para me manter cega.

— Foi amor — disse Tom, e pela primeira vez, havia uma nota de desespero em sua voz. — Eu não posso permitir que você me olhe como eles olham. Você é a única que me vê como Tom. Se eu perder isso, não restará nada de mim.

— Não resta nada de você há muito tempo — disse ela, a voz ganhando uma força inesperada. — O homem que eu amava não existiria em um mundo onde crianças são órfãs por causa dele.

Tom estreitou os olhos. A máscara de beleza começou a oscilar, revelando por um milésimo de segundo a face ofídica e pálida por trás da ilusão.

— Você não vai a lugar nenhum, Clara. Você é minha.

Com um movimento rápido, Tom aparatou, levando Clara e a bebê consigo de volta para dentro das proteções da mansão, deixando Harry e Hermione sozinhos na floresta.

— Temos que entrar — disse Harry, tentando avançar, mas sendo repelido por uma onda de força mágica que o jogou para trás.

— Não conseguimos, Harry — disse Hermione, ajudando-o a levantar. — As proteções foram reforçadas. Mas agora ela sabe.

Dentro da mansão, Clara foi colocada em seu quarto. A porta se trancou magicamente. Tom estava do outro lado, segurando Mérope, que agora chorava.

— Você vai aprender a me perdoar, Clara — disse a voz de Tom através da madeira. — Eu farei você esquecer. Há poções para isso. Há feitiços. Amanhã, tomaremos chá no jardim e o mundo lá fora não passará de um sonho ruim.

Clara encostou-se na porta, escorregando até o chão. Ela olhou para as mãos, as mãos que Tom tanto beijava. Pela primeira vez em cinquenta anos, ela não se sentia protegida. Ela se sentia em uma tumba.

E no silêncio da mansão, enquanto Tom Riddle cantava uma canção de ninar sinistra para a filha, Clara Riddle começou a planejar como destruiria o paraíso que seu marido construíra sobre o sangue de inocentes. A guerra ainda não chegara àquela casa, mas a semente da rebelião fora plantada no único lugar que Voldemort nunca pensou em vigiar: o coração da mulher que ele amava.

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