Só quero
O Silêncio da Gaiola de Ouro
O ar dentro do quarto de Clara parecia ter se tornado sólido, uma massa pesada que dificultava cada respiração. Ela estava sentada na beira da cama, os olhos fixos na porta de carvalho reforçada por feitiços que ela, mesmo sendo uma bruxa, não conseguia sequer compreender. O choro de Mérope havia cessado no corredor, substituído por um silêncio sepulcral que era muito mais aterrorizante.
Momentos depois, o clique da fechadura ecoou. Tom entrou. Ele não carregava mais a criança; provavelmente a entregara aos cuidados de uma elfa doméstica. Ele trazia uma bandeja com chá e pequenos bolinhos de limão, os favoritos dela. Sua aparência era impecável, a pele jovem e marmórea, os cabelos negros sem um único fio fora do lugar. Ele agia como se a cena traumática na floresta nunca tivesse acontecido.
— Você precisa comer, Clara — disse ele, colocando a bandeja sobre a mesa de cabeceira com uma delicadeza calculada. — O estresse faz mal à sua saúde.
Clara não olhou para o chá. Ela olhou diretamente nos olhos dele, procurando o brilho vermelho que vira por um instante entre as árvores.
— Aqueles jovens, Tom... o rapaz com a cicatriz. Ele disse que você mata pessoas como eu. Nascidos trouxas. Ele disse que você os caça.
Tom suspirou, sentando-se na poltrona à frente dela. Ele cruzou as pernas longas, mantendo uma postura de absoluta calma.
— Harry Potter é um elemento perturbador, uma criança confusa que foi alimentada com mentiras por Dumbledore.
— Não fuja da pergunta — interrompeu Clara, a voz firme apesar do tremor nas mãos. — Se você odeia tanto os trouxas e aqueles que vêm deles, se você mata pessoas como eu... por que eu ainda estou viva? Por que eu sou a única que você poupou?
Tom inclinou-se para a frente. O rosto dele, tão belo e tão falso, estava a poucos centímetros do dela.
— Porque você não é como eles, Clara. Você é minha. No momento em que aceitei você, você deixou de pertencer àquela categoria inferior. Eu a elevei. Eu a retirei da lama do mundo comum e a coloquei em um pedestal de eternidade. Eu não vejo o seu sangue; eu vejo a sua alma, e ela me pertence.
— Isso não faz sentido! — exclamou ela, levantando-se abruptamente. — Você não pode odiar uma espécie inteira e amar um único exemplar dela. Isso é hipocrisia, ou é uma loucura que eu não consigo entender. Você diz que o mundo é perigoso, mas o perigo é você, não é? O nome que eles disseram... Voldemort.
No instante em que o nome saiu dos lábios dela, a atmosfera da sala mudou drasticamente. A temperatura caiu vários graus. As sombras nos cantos do quarto pareceram se esticar e ganhar vida, serpenteando pelas paredes como se respondessem a uma convocação sombria.
Tom levantou-se em um movimento fluido, a expressão de benevolência desaparecendo para dar lugar a algo gélido e autoritário.
— Nunca — sibilou ele, a voz vibrando com um poder que fez os vidros das janelas vibrarem — pronuncie esse nome novamente.
Clara recuou, batendo as costas na parede.
— Por que? Você tem medo de um nome?
— Eu não tenho medo de nada! — rebateu ele, aproximando-se até encurralá-la. — Mas esse nome é um chamado. Ele carrega um feitiço de Tabu. Cada vez que é pronunciado no mundo lá fora, meus servos, os Comensais da Morte, sabem exatamente onde a pessoa está.
— Seus servos? — Clara sentiu um nó na garganta. — Então é verdade. Você lidera um exército.
— Eu lidero uma revolução — corrigiu Tom, recuperando o controle da voz, embora seus olhos ainda brilhassem com uma intensidade perigosa. — E embora eles não consigam atravessar as barreiras desta casa — pois eu as teci com sacrifícios e magias que nenhum deles ousaria tocar —, o som desse nome dentro destas paredes é uma profanação. Este lugar é sagrado. Aqui, eu sou apenas Tom. E você é apenas Clara.
— Mas você não é apenas Tom! — gritou ela, as lágrimas finalmente transbordando. — Você é um monstro que congela o tempo para não ter que enfrentar a realidade! Você me mantém gordinha, jovem e feliz nesta redoma enquanto o mundo queima! Você diz que faz tudo o que eu quero... pois bem, eu quero sair. Eu quero ir para Londres. Eu quero ver se os meus pais ainda estão vivos!
Tom soltou uma risada curta e sem humor, um som que gelou a espinha de Clara.
— Seus pais, Clara? Eles morreram há quarenta anos. O tempo não parou para eles. Eles envelheceram, adoeceram e viraram pó enquanto você brincava de casinha neste jardim. Se você sair por aquela porta, você verá um mundo que não a reconhece. Você verá ruínas e túmulos. Você quer mesmo trocar esta paz pela visão de um cemitério?
Clara soluçou, cobrindo o rosto com as mãos. A crueldade das palavras dele era como chicotadas.
— Você me tirou o direito de me despedir deles.
— Eu tirei de você a dor da perda! — exclamou Tom, segurando os pulsos dela e forçando-a a olhá-lo. — Eu dei a você o que ninguém mais no mundo possui: a ausência de sofrimento. Eu mato para que você não precise morrer. Eu destruo para que o seu mundo permaneça intacto. Cada pessoa que eu eliminei lá fora foi um passo para garantir que ninguém jamais desafiasse o meu poder de manter você segura.
— Você é louco — sussurrou ela.
— Eu sou o seu marido — disse ele, suavizando o aperto e acariciando o rosto dela com o polegar. — E eu sou o pai da sua filha. Mérope crescerá em um mundo onde ela nunca terá que temer nada, porque o pai dela é o rei desse mundo.
— Ela vai odiar você quando souber a verdade — disse Clara, recuperando um pouco de sua coragem. — As crianças sentem a escuridão, Tom. Eu vi como ela olha para você. Ela não olha com amor, ela olha com reconhecimento. Ela é como você.
O rosto de Tom se iluminou com um orgulho distorcido.
— Sim, ela é. Ela tem o meu sangue e a sua doçura. Ela será perfeita.
Ele se afastou, caminhando até a porta. Antes de sair, ele parou e olhou por cima do ombro.
— Não tente sair novamente, Clara. As proteções da floresta foram alteradas. Se você tentar atravessar a barreira sem a minha presença, a magia não a impedirá... ela a consumirá. Eu não quero ter que reconstruir você do nada.
— Você me ama ou apenas gosta da ideia de me possuir? — perguntou ela, a voz fraca.
Tom hesitou por um segundo. A sombra de Lorde Voldemort pareceu vacilar, deixando transparecer o órfão carente que ele fora um dia.
— Qual é a diferença? — respondeu ele, antes de fechar a porta e trancá-la novamente.
Clara desabou no chão, o silêncio da mansão voltando a envolvê-la como um sudário. Ela olhou para o chá esfriando sobre a mesa. Tom Riddle fazia tudo o que ela queria, exceto deixá-la ser livre. Ele a amava como um colecionador ama uma peça única: mantendo-a longe da luz para que não desbotasse, longe do ar para que não apodrecesse.
Mas ele cometera um erro. Ele a ensinara magia básica em Hogwarts, e embora ele a proibisse de usar a varinha na casa, ele se esquecera de que uma bruxa desesperada não precisa de madeira de teixo ou pena de fênix para manifestar sua vontade.
Clara fechou os olhos e concentrou-se no vínculo que tinha com a casa. Se Tom usara a vida dela para ancorar suas proteções, então ela era parte daquelas paredes. Ela começou a sussurrar, não o nome de Voldemort, mas o nome de batismo de cada elfo doméstico que servia à mansão, nomes que Tom considerava indignos de nota, mas que ela conhecia bem.
Lá fora, o vento começou a uivar em torno da Mansão Riddle. A guerra estava chegando, e pela primeira vez em décadas, a rainha da gaiola de ouro estava pronta para abrir as portas para o inimigo, se isso significasse derrubar o rei.