Só quero
O Despertar dos Ponteiros
A luz da manhã em Little Hangleton não era mais a mesma claridade estática e artificial de outrora. Agora, o sol entrava pelas janelas da mansão trazendo consigo o cheiro de terra úmida, o som real dos pássaros da floresta e, ocasionalmente, o barulho distante de um trator trouxa trabalhando nas colinas vizinhas. O tempo, aquele rio implacável que Tom Riddle tentara represar, agora corria livre, marcando sua passagem nas pequenas coisas.
Clara Riddle estava sentada no banco de pedra do jardim, observando as pétalas de uma rosa murcharem. Para qualquer outra pessoa, aquilo seria um sinal de decadência; para ela, era um milagre. Era a prova de que o mundo estava vivo. Ela mesma sentia as mudanças. Seus cabelos castanhos começavam a exibir os primeiros fios prateados nas têmporas, e pequenas linhas de expressão, como fios de seda, surgiam ao redor de seus olhos quando ela sorria. Ela estava envelhecendo. Ela estava morrendo, aos poucos, como todo ser humano, e nunca se sentira tão radiante.
— Mamãe! Olhe! — O grito cristalino veio de uma pequena figura que corria desajeitadamente pelo gramado.
Mérope, agora com quase dois anos, era um turbilhão de energia. Seus cabelos negros eram curtos e rebeldes, e seus olhos, embora mantivessem a intensidade do pai, brilhavam com uma curiosidade doce que pertencia inteiramente à Clara. Ela tropeçou em uma raiz exposta, mas antes que pudesse atingir o chão, uma força invisível a segurou no ar, colocando-a suavemente de pé.
— Cuidado, pequena serpente — disse uma voz aveludada, vinda da varanda.
Tom Riddle desceu os degraus com a elegância de um predador que aprendera a recolher as garras. Ele não usava mais as vestes pesadas de Lorde Voldemort; vestia uma túnica de linho escuro, simples e bem cortada. Sua aparência ainda era a de um homem jovem, mas não era mais a máscara de porcelana de um rapaz de vinte e dois anos. Ele permitira que sua imagem refletisse a maturidade que sua alma, agora parcialmente remendada por um arrependimento tortuoso, carregava. Havia linhas de preocupação em sua testa e uma sombra permanente em seu olhar, o peso de um armistício que ele mantinha a duras penas com o resto do mundo bruxo.
Ele se aproximou de Clara e depositou um beijo em sua testa. O toque dele ainda era frio, mas havia uma ternura que não era mais possessiva, e sim grata.
— Você está cansada — observou Tom, sentando-se ao lado dela. — Eu sinto sua magia oscilar.
— É um cansaço bom, Tom — respondeu ela, encostando a cabeça no ombro dele. — É o peso da vida acontecendo.
Tom olhou para as mãos de Clara. Ele ainda lutava contra o impulso de lançar um feitiço de preservação toda vez que via uma nova mancha de idade ou uma ruga. Para ele, cada sinal de envelhecimento nela era um lembrete de sua própria mortalidade e do acordo que fizera: ele parara a guerra, entregara os nomes dos Comensais mais radicais e se retirara para o isolamento em troca da vida dela e da segurança de sua filha. Ele era um prisioneiro de luxo em sua própria casa, monitorado por feitiços do Ministério, mas, pela primeira vez em sua longa existência, ele não sentia vontade de quebrar as correntes.
Mérope correu até eles, parando entre as pernas da mãe. Ela olhou para Clara com uma seriedade repentina, inclinando a cabeça para o lado. Com um dedinho gordo e pequeno, ela apontou para a barriga da mãe, que estava levemente mais proeminente sob o vestido de algodão.
— Papai... neném — disse a menina, a voz cheia de uma certeza absoluta que só as crianças e os videntes possuem.
O silêncio que se seguiu no jardim foi quebrado apenas pelo farfalhar das folhas. Tom congelou, os olhos fixos no dedo da filha e depois subindo para o rosto de Clara. Sua expressão era uma mistura de choque, temor e uma esperança que ele tentava desesperadamente esmagar.
— Clara? — A voz dele saiu em um sussurro rouco.
Clara sorriu, as lágrimas brilhando nos olhos. Ela pegou a mãozinha de Mérope e a beijou, depois pegou a mão de Tom e a colocou sobre o próprio ventre.
— Eu ia te contar hoje à noite — disse ela. — Faz algumas semanas que eu sinto. O tempo não está apenas passando por nós, Tom. Ele está criando algo novo.
Tom sentiu, sob a palma da mão, uma pulsação minúscula, um calor que parecia desafiar a frieza de sua própria magia negra. Ele fechou os olhos, e por um momento, o Lorde das Trevas desapareceu completamente. Restou apenas um homem confrontado com o milagre da criação que ele passara a vida tentando imitar ou destruir.
— Um neném — repetiu Mérope, rindo e tentando subir no colo da mãe. — Irmão?
— Talvez, querida — disse Clara, ajudando a menina a subir.
Tom retirou a mão, levantando-se e caminhando até a borda do jardim, de costas para elas. Seus ombros tremiam levemente.
— Outra vida — murmurou ele para o vento. — Neste lugar manchado de sangue. Com uma alma como a minha.
Clara levantou-se com cuidado, deixando Mérope brincar com as flores, e foi até ele. Ela o abraçou por trás, sentindo a tensão nos músculos dele.
— Este lugar não é mais o que era, Tom. E você também não.
— Eu ainda sou o homem que dividiu a alma, Clara — disse ele, sem se virar. — Eu ainda sinto o eco dos gritos na minha mente. Como posso trazer outra criança para este mundo? Mérope foi um acidente da nossa eternidade congelada. Mas este... este é fruto do tempo real.
— É a nossa chance de fazer certo desde o início — disse ela, forçando-o a se virar para encará-la. — Sem gaiolas de ouro. Sem segredos. Uma criança que crescerá vendo o pai tentar ser um homem melhor, não um deus perfeito.
Tom olhou para o rosto dela, para as rugas que ele agora considerava sagradas. Ele percebeu que a maior magia que Clara Riddle já realizara não fora quebrar suas proteções em Hogwarts, mas sim transformar sua sede de poder em uma sede de permanência simples.
— Harry Potter virá aqui na próxima semana para a inspeção das barreiras — disse Tom, mudando de assunto, embora seus olhos ainda estivessem úmidos. — Ele trará a Granger. Eles vão sentir a nova vida. O Ministério vai querer monitorar a criança antes mesmo dela nascer.
— Deixe que venham — respondeu Clara. — Não temos nada a esconder. Eles verão que a maior ameaça ao mundo bruxo está ocupado demais aprendendo a ser pai para se preocupar com tronos.
Tom soltou uma risada curta, a primeira risada genuína em muito tempo.
— Um destino irônico para o herdeiro de Slytherin.
— Um destino feliz, Tom.
Ele a puxou para um abraço apertado, escondendo o rosto no pescoço dela. Ele ainda tinha medo. O medo da perda era a única coisa que a redenção não conseguira apagar. Mas, ao sentir o movimento suave de Mérope puxando sua túnica e a promessa de uma nova vida pulsando contra ele, Tom Riddle aceitou que a mortalidade era um preço pequeno a pagar pela paz.
— Eu farei tudo o que você quiser — sussurrou ele, repetindo a promessa de anos atrás, mas desta vez com um significado totalmente novo. — Mas desta vez, eu farei o que você *precisa*.
— E o que eu preciso, Tom?
— De um futuro — disse ele, olhando para o horizonte onde o sol continuava sua descida implacável, marcando o fim de mais um dia real. — De um futuro onde nossos filhos não saibam o que é uma Horcruxe, mas saibam exatamente o que é o amor de uma mãe que salvou o mundo sem disparar um único feitiço.
Mérope, alheia à gravidade da conversa, apontou novamente para a barriga da mãe e depois para o céu.
— Sol, mamãe! Sol!
— Sim, querida — disse Clara, segurando a mão de Tom enquanto caminhavam de volta para a mansão. — O sol está brilhando. E amanhã, ele nascerá de novo.
Pela primeira vez em sua vida, Tom Riddle não sentiu vontade de parar o tempo. Ele estava ansioso pelo amanhã.