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Só quero

O Sacrifício da Rainha de Vidro

O caos de Hogwarts era algo que Clara Riddle nunca poderia ter imaginado em seus pesadelos mais profundos. O castelo, que em sua memória era um refúgio de pedra quente e risadas juvenis, agora sangrava. As paredes de pedra estavam fendidas, o ar cheirava a ozônio, poeira e morte, e o céu era cortado por feixes de luz verde e vermelha que iluminavam as ruínas como fogos de artifício macabros.

Horas antes, na quietude sufocante da mansão, Clara tomara sua decisão. Ela beijara a testa da pequena Mérope, cujos olhos escuros pareciam entender a gravidade do momento, e a entregara à elfa doméstica, Tipsy.

— Leve-a para o porão mais profundo — ordenara Clara, a voz firme como nunca fora em cinquenta anos. — Não saia de lá, não importa o que ouça. Se Tom não voltar... cuide dela. Conte a ela que a mãe a amava mais do que a própria vida.

Usando o conhecimento que roubara das observações noturnas de Tom, Clara quebrara as proteções da mansão. O esforço quase a matara; o tempo, retido por décadas, tentara colidir com seu corpo de uma só vez. Ela sentia cada osso doer, cada músculo protestar, mas a magia de Tom, aquela possessividade terrível que ele imbuíra nela, ironicamente a mantinha inteira. Ela era a sua âncora, e a âncora não poderia quebrar até que o navio afundasse.

Agora, ela caminhava pelos jardins de Hogwarts. Seu vestido de seda azul, tão deslocado entre os escombros, estava manchado de cinzas. Ela não tinha varinha, não tinha armadura, apenas a determinação de encontrar o marido e implorar pelo fim daquela loucura.

— Ora, ora... o que temos aqui? — Uma voz arrastada e cruel ecoou à sua direita.

Clara parou, o coração disparado. Um grupo de bruxos usando máscaras de prata e vestes negras emergiu das sombras de uma estátua caída. Eles riam, um som desprovido de qualquer humanidade.

— Uma gordinha perdida? — zombou um deles, aproximando-se. — Veja essas roupas, essa pele... ela cheira a sabão caro e isolamento. Deve ser uma dessas sangues-ruins que se esconderam no mundo trouxa e acharam que a guerra não as encontraria.

— Por favor — disse Clara, tentando manter a voz estável —, eu preciso falar com Tom. Com o Lorde das Trevas.

Os Comensais da Morte gargalharam. O som era como vidro quebrado.

— Ela quer falar com o Lorde! — gritou o bruxo mais alto. — Você ouviu isso, Avery? A porquinha quer uma audiência com o Rei.

— Você não é digna nem de olhar para a sombra dele, sua imundície — sibilou Avery, erguendo a varinha. — Vamos ver como você grita antes de morrer. *Crucio!*

A dor foi imediata e absoluta. Clara caiu de joelhos, o grito rasgando sua garganta. Era como se milhares de facas em brasa estivessem cortando cada nervo de seu corpo simultaneamente. O mundo desapareceu em um borrão de agonia branca. Ela sentia o peso dos anos que Tom lhe roubara tentando esmagá-la enquanto a maldição a retorcia.

— Pare! — gritou ela entre os espasmos, mas os Comensais apenas riam mais alto.

— Olhem como ela dança! — gritou outro, lançando sua própria maldição de tortura.

Clara sentiu o gosto de sangue na boca. Ela estava morrendo. Ela sabia que, se morresse ali, a última âncora de Tom Riddle se partiria, e ele se tornaria nada além de um espectro de ódio puro. Mas ela não queria morrer como uma vítima. Ela queria que ele visse o que seu mundo de "pureza" fazia com o que ele dizia amar.

— O que está acontecendo aqui? — Uma voz fria, monótona e perigosamente calma cortou o ar.

Os Comensais da Morte pararam instantaneamente. O feitiço cessou, e Clara desabou no chão, tremendo violentamente, o rosto sujo de terra e lágrimas.

Severo Snape aproximou-se, suas vestes negras flutuando como as asas de um morcego gigante. Ele olhou para os bruxos mascarados com um desprezo que os fez recuar.

— Diretor Snape — gaguejou Avery —, apenas uma intrusa. Uma nascida trouxa que vagava pelos jardins. Estávamos apenas... limpando o lixo.

Snape não respondeu de imediato. Seus olhos negros e penetrantes baixaram para a mulher caída no chão. No início, ele viu apenas uma vítima comum, mas então, ele notou o padrão do tecido do vestido, a joia de esmeralda no pescoço dela — uma relíquia dos Gaunt que ele vira apenas em ilustrações e nos pesadelos do Lorde — e, acima de tudo, a aura mágica que emanava dela. Era a mesma assinatura de poder que ele sentia toda vez que estava na presença de Voldemort.

O sangue de Snape gelou. Ele sabia. Dumbledore lhe contara sobre a "Rainha Oculta", a única fraqueza que o Lorde das Trevas protegera com mais zelo do que suas Horcruxes.

— Saiam daqui — ordenou Snape, a voz baixa e letal. — Agora. O Lorde exige sua presença nas linhas de frente. Eu cuidarei desta... prisioneira.

Os Comensais da Morte não ousaram questionar. Eles desapareceram nas sombras, ansiosos para derramar sangue em outro lugar.

Snape ajoelhou-se ao lado de Clara. Ele a tocou no ombro, e sentiu a descarga elétrica da magia de proteção de Tom que ainda tentava curá-la.

— Clara? — sussurrou ele, a voz desprovida de sua habitual aspereza. — Você é Clara Riddle?

Ela abriu os olhos com dificuldade, focando no rosto pálido e severo do homem.

— Tom... onde está o Tom? — perguntou ela, a voz mal passando de um suspiro.

— Ele está na floresta, preparando-se para o fim — disse Snape, ajudando-a a se sentar. — Você não deveria estar aqui. Este lugar é a antítese de tudo o que ele construiu para você. Se ele souber que eles a tocaram... se ele souber que você sofreu...

— Ele precisa ver — disse ela, segurando o braço de Snape com uma força surpreendente. — Ele precisa ver o que o amor dele causou. Ele me manteve em uma caixa de música enquanto o mundo era destruído. Me leve até ele, Severo. Eu sei quem você é. Tom falava de você... ele dizia que você era o único que entendia o sacrifício pela causa.

Snape sentiu um amargor na língua. Ele entendia o sacrifício, mas não da forma que Voldemort imaginava.

— Se eu a levar até ele agora, a guerra acaba — disse Snape, olhando para o castelo em chamas. — Ele perderá o controle. Ele verá você ferida e o mundo não significará mais nada para ele.

— É por isso que eu vim — disse Clara, as lágrimas limpando trilhas na fuligem de seu rosto. — Eu sou a única que pode parar o monstro, porque eu sou a única que ele ainda tenta fingir que é humana.

Snape a levantou. Ela era pesada, o corpo ainda sofrendo os efeitos do *Cruciatus*, mas ele a sustentou. Eles caminharam lentamente em direção à Floresta Proibida, cruzando o campo de batalha onde amigos e inimigos jaziam imóveis sob o luar.

Enquanto caminhavam, o ar começou a vibrar. Uma presença opressiva, fria e vasta começou a se manifestar. Voldemort estava perto. Ele estava cercado por seus seguidores mais leais, esperando que Harry Potter se entregasse.

— Espere aqui — instruiu Snape, escondendo-a atrás de um carvalho antigo, perto o suficiente para ver o clareira, mas protegida das vistas imediatas. — Eu anunciarei sua presença. Se eu simplesmente a levar para o meio deles, os instintos de proteção dele podem causar um massacre ainda maior.

Clara assentiu, encostando-se no tronco da árvore. Ela viu Tom. Ele estava de pé, a varinha de sabugueiro na mão, sua aparência não era mais a do jovem de vinte e dois anos. Sem a presença de Clara para ancorar sua ilusão, ele parecia mais ofídico, mais pálido, uma criatura de pesadelo.

— Harry Potter não veio — disse Voldemort, a voz amplificada magicamente, ecoando como o sibilar de uma serpente. — Eu esperava mais do Menino que Sobreviveu. Parece que ele prefere que seus amigos morram em seu lugar.

— Milorde — Snape aproximou-se, curvando-se profundamente.

— Severo. Você traz notícias do castelo? A resistência finalmente quebrou?

— Milorde... há algo que exige sua atenção imediata. Algo que ultrapassa a importância desta batalha.

Voldemort virou-se, os olhos vermelhos brilhando com impaciência.

— Nada ultrapassa este momento, Severo.

— Nem mesmo Clara? — perguntou Snape, a voz clara e audível para todos os Comensais presentes.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Bellatrix Lestrange, que estava ao lado de seu mestre, franziu a testa.

— Quem é Clara? — sibilou ela, desdenhosa. — Do que este traidor está falando, Milorde?

Voldemort não respondeu a Bellatrix. Ele congelou. A varinha de sabugueiro tremeu levemente em sua mão. Em um segundo, ele cruzou a distância até Snape, agarrando-o pelas vestes.

— O que você disse? — rosnou ele, a voz carregada de uma fúria que poderia incendiar a floresta. — Se você estiver mentindo, Severo, eu farei sua morte ser a mais lenta da história da magia.

— Ela está aqui, Milorde. Ela foi atacada por seus próprios homens nos jardins. Eles não sabiam quem ela era. Eles a torturaram.

Um rugido desumano escapou da garganta de Voldemort. A magia explodiu dele em uma onda de choque que jogou os Comensais da Morte para trás. Ele não esperou. Ele seguiu o rastro da essência dela, o vínculo que os unia através do tempo e do espaço.

Ele a encontrou atrás da árvore. Clara estava sentada no chão, o vestido rasgado, o rosto pálido e marcado pela dor. Quando ele a viu, a imagem de Lorde Voldemort, o conquistador do mundo bruxo, desmoronou.

— Clara... — sussurrou ele, caindo de joelhos ao lado dela.

Ele tentou tocá-la, mas suas mãos pararam no ar. Ele viu as marcas da maldição nela. Ele viu a poeira de Hogwarts em sua pele.

— O que você fez? — perguntou ele, a voz quebrada. — Por que você veio para este lugar de morte?

— Porque eu não podia mais viver na sua mentira, Tom — disse ela, estendendo a mão para tocar o rosto dele. — Olhe para você. Olhe para o que você se tornou enquanto me mantinha escondida.

— Eu fiz isso por você! — gritou ele, as lágrimas — se é que um monstro poderia chorar — brilhando em seus olhos vermelhos. — Eu queria um mundo onde você fosse a rainha!

— Eu nunca quis ser rainha, Tom. Eu queria ser sua esposa. Eu queria envelhecer ao seu lado, ver nossas rugas aparecerem como marcas de uma vida bem vivida. Você me roubou isso. Você roubou isso de todos eles.

Os Comensais da Morte observavam à distância, boquiabertos. Eles viam seu mestre, o ser mais temido do século, agindo como um homem desesperado aos pés de uma mulher comum, gordinha e ferida.

— Eu vou curar você — disse Voldemort, a voz tremendo. — Eu vou matar cada um que tocou em você. Eu vou queimar este castelo até o chão e construiremos algo novo...

— Não — disse Clara, segurando o rosto dele com as duas mãos, forçando-o a olhar para ela. — Se você me ama, Tom... se ainda resta um fragmento daquele rapaz que eu conheci no orfanato e em Hogwarts... pare. Pare agora.

— Eu não posso parar! — exclamou ele. — Eu fui longe demais! Eu dividi minha alma, eu matei, eu conquistei!

— Então você me perdeu — disse ela, a voz cheia de uma tristeza infinita. — Porque eu não posso amar um homem que se alimenta da dor dos outros. Se a guerra continuar, eu não voltarei para a mansão. Eu ficarei aqui e morrerei com o resto dos "impuros".

Voldemort sentiu o mundo oscilar. Ele olhou para Clara, e então para o exército de sombras atrás dele. Ele vira o poder, vira a imortalidade, mas naquele momento, ele percebeu que nada disso preenchia o vazio que a ausência de Clara deixaria. Se ela morresse, ou se ela o odiasse, suas Horcruxes seriam apenas âncoras para uma alma condenada à solidão eterna.

— Milorde! — Bellatrix gritou, aproximando-se com a varinha erguida. — Mate essa mulher! Ela é uma fraqueza! Ela está enfeitiçando você com magia trouxa!

Voldemort virou-se para Bellatrix com um olhar de puro ódio.

— *Crucio!* — gritou ele, e Bellatrix caiu, gritando de agonia sob a maldição de seu próprio mestre. — Ninguém toca nela! Ninguém fala o nome dela!

Ele voltou-se para Clara.

— Se eu parar... você volta comigo? Você me deixará tentar ser o homem que você quer?

— O mundo precisa de justiça, Tom. Não apenas de uma trégua. Você precisa desfazer o que fez.

— Eu não posso desfazer as mortes, Clara — disse ele, a voz baixa. — Mas eu posso parar o derramamento de sangue. Por hoje. Por você.

Ele levantou-se e encarou seus seguidores.

— Retirem-se! — ordenou ele, sua voz ecoando por toda a floresta e chegando aos ouvidos dos defensores de Hogwarts. — A batalha acabou!

Um murmúrio de choque e protesto percorreu os Comensais, mas ninguém ousou desafiar a fúria nos olhos do Lorde das Trevas. Snape, observando das sombras, sentiu um peso ser retirado de seus ombros. Dumbledore estava certo. O amor — mesmo o amor distorcido e possessivo de um monstro — era a única força capaz de desviar o destino.

Voldemort pegou Clara nos braços. Ele a carregou com uma delicadeza que desafiava sua natureza.

— Vamos para casa — sussurrou ele no ouvido dela.

— Para a casa real, Tom — disse ela, encostando a cabeça no ombro dele. — Sem mentiras. Sem congelar o tempo.

— Sem mentiras — prometeu ele, embora soubesse que o caminho para a redenção seria mais doloroso do que qualquer maldição.

Enquanto eles desapareciam na escuridão da floresta, Harry Potter emergia das sombras, observando a cena com incredulidade. A guerra não terminara com uma explosão de magia verde, mas com o sussurro de uma mulher que se recusara a ser apenas uma peça no jogo de um deus.

Naquela noite, Hogwarts não caiu. E nas profundezas de uma mansão em Little Hangleton, um relógio que estivera parado por cinquenta anos finalmente começou a tiquetaquear, marcando o início de um tempo novo, incerto e, pela primeira vez, humano.

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