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Sob a luz do medo e do amor

O Silêncio das Correntes de Seda

O quarto leste era uma cela de luxo, mas ainda assim, uma cela. Paredes de pedra nua, altas e frias, eram adornadas por tapeçarias pesadas que retratavam batalhas esquecidas e lobos devorando estrelas. Jimin estava sentado na beira da cama imensa, cujos lençóis de seda negra pareciam líquidos sob a luz bruxuleante das tochas. O silêncio do castelo era absoluto, interrompido apenas pelo estalar ocasional da lenha na lareira que, apesar de acesa, não conseguia dissipar o calafrio que percorria a espinha do ômega.

Seus dedos pequenos e trêmulos apertavam o tecido da túnica rasgada. Ele olhou para o ferimento no joelho, agora limpo após a visita silenciosa de um servo que parecia mais uma sombra do que um homem. O corte não era profundo, mas a marca da mão de Jungkook em seu queixo parecia queimar mais do que qualquer ferida física.

A porta rangeu. Não foi um som alto, mas no vazio daquele quarto, soou como um trovão. Jimin se encolheu, puxando as pernas para cima da cama, os olhos arregalados fixos na figura que preenchia o batente.

Jungkook não usava mais a capa de peles. Ele vestia uma túnica de linho escuro, aberta no pescoço, revelando a pele âmbar e a força bruta de seus músculos. Ele não pediu permissão para entrar; ele era o dono de cada centímetro daquela montanha.

— Você ainda não dormiu — afirmou o alfa, sua voz ecoando de forma aveludada, porém carregada de uma autoridade que fazia o ar pesar.

— Eu... eu não consigo — sussurrou Jimin, desviando o olhar. — É tudo muito escuro aqui.

Jungkook caminhou lentamente em direção à cama. Cada passo era deliberado, uma demonstração de poder predatório. Ele parou a um passo de distância, observando a forma como Jimin parecia minúsculo contra a cabeceira esculpida.

— A escuridão é o lugar onde a verdade se esconde, pequeno ômega — disse Jungkook, inclinando-se ligeiramente. — Na vila de onde você veio, eles ensinam a temer o escuro porque não conseguem controlá-lo. Aqui, a escuridão me serve.

— Eu não sou como você — Jimin murmurou, sentindo o cheiro de Jungkook — sândalo e tempestade — invadir seus sentidos, nublando seu raciocínio. — Eu não pertenço às sombras.

Jungkook soltou um riso baixo, um som que vibrou no peito de Jimin.

— Você pertence a quem for forte o suficiente para mantê-lo. E, no momento, não há ninguém mais forte do que eu em quilômetros de floresta.

O alfa estendeu a mão, e Jimin fechou os olhos, esperando um golpe ou um aperto bruto. Em vez disso, sentiu o toque frio de algo metálico contra sua pele. Ele abriu os olhos e viu Jungkook segurando um pingente de prata, uma corrente fina que carregava o emblema de um lobo uivando para uma lua minguante.

— Use isso — ordenou Jungkook, passando a corrente pelo pescoço de Jimin. — É o meu selo. Qualquer um que ousar tocar em você dentro destas paredes sentirá o gosto do meu aço antes mesmo de conseguir gritar.

— Por que está fazendo isso? — Jimin perguntou, a voz embargada. — Por que me manter aqui se sou apenas um "brinquedo patético", como você disse?

Jungkook parou com as mãos próximas à nuca de Jimin, seus dedos roçando levemente os fios loiros e macios do ômega. O contato enviou uma descarga elétrica pelo corpo de ambos. O alfa estreitou os olhos, a íris carmesim brilhando com uma intensidade perigosa.

— Porque o seu cheiro me irrita — mentiu Jungkook, a voz subitamente mais rouca. — Ele é doce demais, puro demais. É uma ofensa a tudo o que este castelo representa. E eu quero ver quanto tempo levará para que esse cheiro de lavanda seja substituído pelo cheiro da minha marca.

Jimin sentiu o rosto arder. A menção a uma marca era o ápice da possessividade de um alfa, algo que ligava duas almas de forma permanente e, muitas vezes, cruel.

— Você nunca vai me marcar — desafiou Jimin, embora seu lobo interior estivesse uivando em submissão, implorando para que ele se inclinasse para o toque do alfa dominante.

Jungkook apertou levemente a nuca de Jimin, forçando-o a inclinar a cabeça para trás.

— Você tem língua afiada para alguém que estava chorando no chão da floresta há uma hora — observou o alfa, aproximando o rosto do pescoço exposto de Jimin. — O medo o torna corajoso, ou você é apenas tolo?

— Talvez os dois — respondeu Jimin, a respiração curta.

Jungkook aspirou o aroma de Jimin profundamente, fechando os olhos por um segundo. Era inebriante. Ele tinha tido centenas de ômegas à sua disposição, mas nenhum exalava aquela mistura de inocência e resistência ferrenha. Ele sentiu o pulso de Jimin batendo acelerado contra sua pele, como o coração de um pássaro capturado.

— Coma o que trouxerem para você amanhã — disse Jungkook, soltando-o abruptamente e recuperando sua postura fria. — Meus servos não têm paciência para fraquezas. Se você ficar doente, será inútil para mim.

— E o que eu farei aqui? — Jimin perguntou enquanto o alfa se dirigia à porta. — Serei apenas uma decoração para o seu castelo de pedra?

Jungkook parou no umbral e olhou por cima do ombro. O clarão da tocha desenhou as linhas duras de seu perfil, tornando-o assustadoramente belo.

— Você aprenderá quem eu sou, Jimin. E aprenderá que, neste mundo, a bondade é uma fraqueza que eu não permitirei que você cultive. Amanhã, ao amanhecer, você será levado ao salão principal. Não me faça esperar.

A porta se fechou com um baque surdo, e o som da chave girando na fechadura ecoou como uma sentença. Jimin soltou o ar que nem percebera que estava prendendo. Ele levou a mão ao pingente em seu peito; o metal estava frio, mas a pele onde Jungkook o tocara parecia estar em chamas.

Ele se deitou, cobrindo-se com as sedas negras, sentindo-se pequeno e perdido. Lá fora, o uivo de um lobo rompeu o silêncio da noite, um som longo e melancólico que parecia responder ao tumulto em seu coração.

No dia seguinte, a luz cinzenta da manhã penetrou pelas frestas das janelas altas. Jimin foi acordado por uma criada de meia-idade, cujos olhos eram baixos e os movimentos, mecânicos. Ela deixou roupas novas sobre uma cadeira — tecidos finos em tons de azul profundo e prata — e saiu sem dizer uma única palavra.

Jimin vestiu-se com as mãos trêmulas. As roupas serviam perfeitamente, abraçando suas curvas delicadas de uma forma que o fazia se sentir exposto, apesar de estar totalmente coberto. Ele foi conduzido por corredores labirínticos até o salão principal, onde uma mesa imensa de carvalho estava posta.

No topo da mesa, Jungkook estava sentado. Ele lia um pergaminho, uma taça de vinho tinto ao seu lado, apesar da hora precoce. Ele não levantou os olhos quando Jimin entrou.

— Sente-se — ordenou.

Jimin obedeceu, escolhendo a cadeira mais distante possível.

— Mais perto — rosnou o alfa, sem desviar os olhos do documento.

O ômega arrastou-se para a cadeira imediatamente à direita de Jungkook. O silêncio era opressor. Jimin começou a mexer na comida — frutas silvestres, pães frescos e mel —, mas seu apetite era inexistente.

— Por que todos aqui parecem ter medo de falar? — Jimin perguntou, quebrando o silêncio. — Seus servos parecem estátuas.

Jungkook finalmente baixou o pergaminho e fixou seus olhos escuros em Jimin.

— Porque eles sabem que o silêncio é a única coisa que preserva suas vidas. Palavras levam a erros. Erros levam a punições.

— Você é um tirano — disse Jimin, a voz firme apesar do tremor interno.

Jungkook arqueou uma sobrancelha, um brilho de divertimento cruzando seu olhar gélido.

— Sou um líder. Minha alcateia é a mais poderosa destas terras porque não há espaço para a desordem. Você acha que a vila de onde veio está segura por causa das suas flores de lavanda? Não. Ela está segura porque eu decidi que as fronteiras não devem ser movidas... por enquanto.

Jimin sentiu um frio na barriga. A sobrevivência de sua família e de seus amigos dependia do capricho daquele homem.

— O que você quer de mim, Jungkook? — O nome dele saiu de seus lábios com uma familiaridade que o assustou.

Jungkook se inclinou para perto, apoiando os cotovelos na mesa. O poder que emanava dele era como uma maré alta, pronta para afogar Jimin.

— Quero ver se você pode ser moldado — respondeu Jungkook. — Quero ver se essa sua doçura resiste à realidade do meu mundo. Ou se, no fundo, você é tão faminto por poder quanto eu.

— Eu nunca serei como você — rebateu Jimin, os olhos brilhando com uma determinação que surpreendeu o alfa.

— Veremos — disse Jungkook, estendendo a mão e limpando uma gota de mel que havia ficado no canto dos lábios de Jimin com o polegar. O gesto foi lento, quase íntimo, e terminou com Jungkook levando o próprio dedo à boca, provando a doçura. — Você tem um gosto interessante, Jimin. Mas cuidado... flores que crescem na sombra costumam ser as mais venenosas.

Jimin engoliu em seco, o coração disparado. Ele percebeu, naquele momento, que Jungkook não queria apenas seu corpo ou sua obediência. Ele queria sua alma. E, o que era mais aterrorizante, uma parte de Jimin — a parte que sempre se sentira deslocada na vila pacata — estava começando a acordar sob o olhar predatório do Alfa de Sangue.

— Hoje você me acompanhará até o campo de treinamento — anunciou Jungkook, levantando-se. — Quero que veja o que acontece com aqueles que não têm a proteção do meu nome.

Jimin seguiu o alfa, sentindo o peso do pingente de prata contra o peito. Ele estava entrando mais fundo na toca do lobo, e a cada passo, a saída parecia mais distante, e a presença de Jungkook, mais indispensável. O medo ainda estava lá, mas algo novo estava surgindo: uma curiosidade perigosa sobre o homem por trás do monstro.