Sob a luz do medo e do amor
O Batismo de Sangue e a Flor de Gelo
O campo de treinamento ficava em um vale natural logo abaixo das muralhas do castelo, uma arena de terra batida cercada por estacas de madeira pontiagudas e guardas que pareciam esculpidos em granito. O ar ali era diferente do interior do castelo; fedia a suor, ferro e a testosterona agressiva de dezenas de alfas e betas em combate.
Jimin caminhava um passo atrás de Jungkook, tentando manter sua dignidade enquanto o vento frio da montanha chicoteava seus cabelos loiros. Ele se sentia um intruso, uma mancha de cor clara em um mundo de cinza e fumaça. Os soldados paravam seus treinos conforme Jungkook passava, batendo o punho fechado contra o peito em uma saudação que ressoava como batidas de tambor.
— Por que me trouxe aqui? — perguntou Jimin, a voz quase sumindo diante do barulho das espadas colidindo ao longe.
— Para que você entenda a natureza do mundo, Jimin — respondeu Jungkook, sem diminuir o passo. — Na sua vila, vocês acreditam que a paz é o estado natural das coisas. Aqui, nós sabemos que a paz é apenas o intervalo entre duas guerras. E ela só existe porque eu sou o mais forte.
Jungkook parou em uma plataforma elevada de madeira, de onde se tinha uma visão privilegiada de todo o vale. Ele sinalizou para que Jimin ficasse ao seu lado. Lá embaixo, dois alfas lutavam ferozmente. Não era um treino coreografado; havia sangue no chão e rosnados que faziam o estômago de Jimin revirar.
— Eles estão se matando! — exclamou o ômega, cobrindo a boca com a mão.
— Eles estão evoluindo — corrigiu Jungkook, seus olhos carmesim brilhando com uma satisfação sombria. — O fraco morre para que a alcateia não seja atrasada por ele. É a lei mais antiga que existe.
Um dos lutadores, um homem de ombros largos e uma cicatriz que atravessava o rosto, conseguiu derrubar o oponente e colocou a ponta da espada em sua garganta. Ele olhou para cima, para a plataforma, esperando o comando de seu líder.
Jungkook permaneceu em silêncio por longos segundos, deixando a tensão crescer até se tornar insuportável. Jimin sentiu o suor frio escorrer por suas costas. Ele olhou para o alfa ao seu lado, esperando ver algum sinal de hesitação ou piedade, mas o rosto de Jungkook era uma máscara de indiferença absoluta.
— Poupe-o — ordenou Jungkook finalmente, a voz projetando-se por todo o vale. — Mas ele deve ser rebaixado para as patrulhas da fronteira sul. Não quero perdedores no meu círculo interno.
O vencedor recolheu a arma com um movimento brusco e cuspiu no chão. Jimin soltou um suspiro de alívio que não passou despercebido pelo alfa.
— Você acha que eu fui bondoso, não é? — Jungkook se virou para ele, encurtando a distância entre ambos. — Eu não fui. Eu apenas decidi que a vida dele ainda tem alguma utilidade como bucha de canhão. A bondade não tem lugar aqui, Jimin. Lembre-se disso.
— Eu não consigo acreditar nisso — disse Jimin, reunindo uma coragem que nem sabia que possuía. — Você fala como se não tivesse coração. Mas eu vi como você me olhou na floresta. Você poderia ter me matado lá mesmo, mas escolheu me trazer. Existe algo mais em você do que essa crueldade.
Jungkook soltou uma risada curta e amarga, aproximando-se tanto que Jimin podia sentir o calor emanando de seu corpo massivo.
— O que você viu foi curiosidade, pequeno ômega. Como um predador que encontra uma presa exótica e decide brincar com ela antes de dar a mordida final. Não confunda meu interesse com afeto.
— Então por que me deu isso? — Jimin tocou o pingente de prata que pendia em seu pescoço. — Você disse que era para me proteger.
Jungkook segurou a corrente com dois dedos, puxando Jimin para mais perto, até que seus narizes quase se tocassem.
— Proteção é uma forma de propriedade — sussurrou o alfa, o hálito quente batendo no rosto de Jimin. — Eu protejo o que é meu. E você, por um erro do destino, cruzou a minha fronteira. Agora, você é uma extensão do meu domínio. Se alguém o ferir, estará ferindo a minha honra. E eu não permito que ninguém desafie minha honra.
Jimin sentiu o coração martelar contra as costelas. A intensidade de Jungkook era como um incêndio florestal: assustadora, mas estranhamente hipnotizante. Ele queria se afastar, mas seus pés pareciam colados ao chão.
— Você é um monstro — murmurou Jimin, embora seus olhos estivessem fixos nos lábios bem desenhados do alfa.
— Eu sou o monstro que mantém os outros monstros longe da sua porta — retrucou Jungkook. — E você deveria ser grato por isso.
O alfa soltou a corrente e deu as costas, descendo da plataforma em direção aos soldados.
— Venha. O treino acabou para eles, mas o seu está apenas começando.
Jimin o seguiu, confuso.
— Meu treino? Eu não sou um guerreiro. Eu sou um ômega.
Jungkook parou diante de uma mesa de armas e pegou uma adaga pequena, de cabo de marfim e lâmina curvada. Ele a estendeu para Jimin.
— Pegue.
— Eu não quero isso — disse Jimin, recuando.
— Pegue! — a voz de comando de Jungkook estalou como um chicote, e o lobo de Jimin submeteu-se instantaneamente, fazendo suas mãos agarrarem a arma. — Se você vai viver no meu castelo, não será como uma vítima. Eu não aceito fraqueza sob o meu teto. Você aprenderá a se defender, ou o medo acabará por consumi-lo.
— Eu não sei usar isso — protestou Jimin, olhando para a lâmina afiada com pavor.
— Eu vou ensinar — disse Jungkook, posicionando-se atrás de Jimin.
Ele envolveu o corpo do ômega com o seu, suas mãos grandes cobrindo as mãos pequenas de Jimin sobre o cabo da adaga. O contato físico foi imediato e avassalador. Jimin sentiu a firmeza do peito de Jungkook contra suas costas e o cheiro de sândalo tornando-se uma névoa inebriante em sua mente.
— Sinta o peso — instruiu Jungkook, a voz baixa e rouca perto do ouvido de Jimin. — A arma não é um objeto estranho. Ela deve ser uma extensão do seu braço. Se você hesitar, já está morto.
Jungkook moveu os braços de Jimin em um movimento de corte lateral.
— Mais firme — comandou. — Não trema.
— É difícil não tremer quando você está... assim — confessou Jimin em um suspiro, a pele de seu pescoço arrepiando-se com a proximidade dos lábios do alfa.
Jungkook parou o movimento, mas não o soltou. Pelo contrário, ele apertou o abraço por um breve momento, sentindo a delicadeza de Jimin contra sua força bruta. Era uma dicotomia perigosa. O ômega era tão macio, tão frágil, que Jungkook sentia uma vontade contraditória de esmagá-lo e de escondê-lo do resto do mundo.
— O medo é uma ferramenta — disse Jungkook, sua voz vibrando contra as costas de Jimin. — Use-o para aguçar seus sentidos, não para paralisá-los.
Ele soltou Jimin abruptamente, como se o contato estivesse começando a afetar seu próprio autocontrole.
— Pratique os movimentos que eu lhe mostrei. Voltaremos para o castelo em uma hora. Se eu vir você chorando ou largando essa arma, passará a noite nas masmorras para aprender o que é o verdadeiro medo.
Jungkook afastou-se para falar com um de seus generais, deixando Jimin sozinho no meio da arena. O ômega olhou para a adaga em sua mão. Ele se sentia exausto, confuso e terrivelmente atraído pelo homem que o mantinha prisioneiro.
As horas seguintes foram um borrão de esforço físico. Jimin tentava repetir os movimentos, seus músculos protestando contra o esforço incomum. Ele sentia o olhar de Jungkook sobre ele o tempo todo, uma pressão constante que o impedia de desistir.
Quando finalmente retornaram ao castelo, o sol já estava se pondo, pintando o céu de um roxo sangrento. Jimin estava sujo de terra e com os braços doloridos, mas havia uma faísca nova em seus olhos.
— Você não desistiu — observou Jungkook enquanto subiam a grande escadaria. — Achei que você fosse implorar para parar nos primeiros dez minutos.
— Eu disse que não ia quebrar — lembrou Jimin, limpando o suor da testa.
Jungkook parou no topo da escada e olhou para ele, uma expressão ilegível em seu rosto esculpido.
— Muitos dizem isso. Poucos cumprem.
Eles chegaram à porta do quarto de Jimin. O alfa parou, bloqueando o caminho.
— Por que você não fugiu hoje? — perguntou Jungkook subitamente. — No campo de treinamento, houve momentos em que eu estava distraído. Você poderia ter tentado correr para a floresta.
Jimin olhou para o pingente em seu peito e depois para os olhos profundos de Jungkook.
— Para onde eu iria? — perguntou Jimin com uma sinceridade que desarmou o alfa. — A floresta me assusta. Minha vila não pode me proteger de você. E... — ele hesitou, baixando a voz — ... acho que, de alguma forma, eu não quero mais ir embora.
O silêncio que se seguiu foi denso. Jungkook deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Jimin. Ele estendeu a mão e tocou a bochecha do ômega, limpando uma mancha de terra com uma delicadeza que contradizia tudo o que ele havia dito no campo de treinamento.
— Você é uma criatura fascinante, Jimin — disse Jungkook, a voz carregada de uma tensão sombria. — Mas não se engane. Eu ainda sou o monstro das histórias. E se você ficar, acabará se tornando parte da minha escuridão.
— Talvez a escuridão não seja tão ruim se eu não estiver sozinho nela — respondeu Jimin, inclinando o rosto contra a mão do alfa.
Jungkook retirou a mão como se tivesse sido queimado. Seus olhos brilharam em um vermelho intenso, e ele soltou um rosnado baixo.
— Vá para o seu quarto. Agora.
Jimin obedeceu, mas antes de fechar a porta, ele olhou para trás. Jungkook ainda estava parado no corredor, sua silhueta imponente envolta pelas sombras das tochas. Ele parecia um rei solitário em um império de gelo, e Jimin percebeu que, por trás de toda aquela crueldade, havia uma solidão tão profunda quanto a própria Floresta do Medo.
Naquela noite, Jimin não sonhou com monstros ou florestas escuras. Ele sonhou com o calor de um peito largo contra suas costas e o som de uma voz rouca prometendo que ele seria protegido.
Enquanto isso, em seu escritório, Jungkook encarava o fogo da lareira, a adaga de marfim que Jimin usara sobre sua mesa. Ele sentia o cheiro de lavanda ainda impregnado em suas roupas, um contraste irritante com o aroma de sangue e aço que definia sua vida.
— Ele vai ser a minha ruína — murmurou Jungkook para as chamas. — Ou a minha salvação.
Ele apertou o cabo da adaga até que seus nós dos dedos ficassem brancos. O Alfa de Sangue nunca havia conhecido a derrota, mas ali, no silêncio de sua fortaleza, ele percebeu que a batalha mais difícil não seria travada com espadas, mas contra o coração de um ômega que não tinha medo de olhar nos olhos do monstro.
A guerra estava apenas começando, e as fronteiras entre o medo e o desejo estavam prestes a desaparecer para sempre. No coração da Floresta do Medo, algo novo estava florescendo: algo tão perigoso quanto Jungkook e tão delicado quanto Jimin. E o destino de ambos estava agora selado pelo sangue, pela prata e por um segredo que as sombras do castelo juraram guardar.