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Sob o peso das estrelas

Ouro, Prata e Cinzas de Ontem

— Se você organizar esses frascos de veneno de quimera por ordem alfabética de novo, eu juro por Merlin que vou enfeitiçar suas mãos para que elas só consigam segurar colheres de chá pelo resto da semana.

A voz de Regulus Black ecoou pelas paredes de pedra da biblioteca da Mansão Black, carregada daquele tom aristocrático e sarcástico que Jhe aprendera a amar mais do que sua própria sanidade. Ela nem sequer se deu ao trabalho de olhar para cima do pergaminho onde rabiscava notas sobre o comportamento migratório dos testrálios.

— E se você continuar reclamando do meu método de organização — Jhe retrucou, finalmente erguendo os olhos e encontrando o olhar cinzento e intenso dele —, eu vou contar para o seu irmão que você ainda guarda aquela edição autografada de "Poemas para um Bruxo Solitário" debaixo do assoalho do quarto.

Regulus estreitou os olhos, mas o canto de sua boca se contraiu. Dois anos haviam se passado desde a queda de Voldemort. Dois anos desde que o mundo bruxo fora virado do avesso e reerguido sobre as cinzas de uma guerra que nunca chegou a atingir seu ápice sangrento. Agora, a vida era... corrida.

Ele trabalhava como Desfazedor de Feitiços para o Gringotes, uma profissão que exigia viagens constantes para ruínas egípcias ou tumbas esquecidas nas Highlands, enquanto Jhe mergulhara de cabeça nos estudos de Magizoologia, passando semanas em reservas florestais ou debruçada sobre livros empoeirados. Eles eram dois jovens tentando descobrir como viver em um mundo que não exigia mais que eles morressem.

— Eu não vejo você há três semanas, Jhe — disse Regulus, fechando o pesado tomo que estava lendo com um estrondo seco. Ele se levantou, a silhueta alta e elegante recortada pelas luzes das velas. — Três semanas em que o máximo que recebi foram corujas curtas reclamando de picadas de mofletes ou perguntando se eu tinha visto seu exemplar de "Animais Fantásticos".

Jhe suspirou, largando a pena. O cansaço pesava em seus ombros.

— O estágio na Romênia foi intenso, Reg. Eu te disse que os dragões estavam com uma epidemia de varíola. Eu não podia simplesmente...

— Foda-se a varíola de dragão — interrompeu ele, caminhando em direção a ela com uma determinação predatória. — E foda-se o Gringotes. Eu passei a manhã inteira no banco desfazendo uma maldição de apodrecimento em um cofre de ouro, e a única coisa em que eu conseguia pensar era que eu preferia estar apodrecendo aqui, desde que você estivesse no quarto ao lado.

Jhe piscou, surpresa pela crueza das palavras. Regulus sempre fora contido, medindo cada frase como se fosse uma poção perigosa.

— Regulus?

— Eu cansei, Jhe — ele parou diante dela, as mãos nos bolsos da calça de alfaiataria, a expressão endurecida. — Cansei de esperar por visitas agendadas e de dormir em uma cama que parece grande demais. Esta casa é um mausoléu, mas é o meu mausoléu. E eu quero você nele. Permanentemente.

— Você está me convidando para morar aqui? — Ela sorriu, uma sombra de diversão cruzando seu rosto. — Na Mansão Black? Onde os retratos ainda xingam quem não é sangue-puro e os elfos domésticos têm crises existenciais?

— Eu não estou convidando — ele se inclinou, apoiando as mãos na mesa dela, cercando-a. — Estou declarando. Você vai se mudar para cá amanhã. Suas coisas já estão metade aqui de qualquer maneira. Metade dos seus livros de criaturas nojentas estão ocupando espaço na minha estante, e eu encontrei um dos seus elásticos de cabelo dentro do meu sapato de gala ontem.

Jhe riu, uma risada clara que pareceu iluminar as sombras da sala. Ela se levantou, passando os braços pelo pescoço dele, sentindo o cheiro de sândalo e magia antiga que emanava de sua pele.

— Você sempre foi um audacioso, Regulus Black. Um sonserino ditador.

— E você adora isso — ele murmurou, pressionando a testa contra a dela. — Sim ou não, Jhe? Sem desculpas sobre dragões ou estágios.

— Sim — ela sussurrou, sentindo o coração disparar. — É claro que sim. Eu já me sinto em casa aqui de qualquer maneira.

A mudança aconteceu no dia seguinte, de forma caótica e rápida. Jhe trouxe o restante de seus pertences em um malão enfeitiçado com um feitiço de extensão interna. A Mansão Black, que um dia fora o cenário de seus pesadelos no futuro, agora parecia diferente. O ar não era mais tão pesado; as janelas estavam abertas, deixando o sol de outono entrar, e o retrato de Walburga Black fora coberto por uma cortina de veludo encantada para nunca mais se abrir.

Quando Jhe terminou de desempacotar o último frasco de essência de ditamno no banheiro da suíte principal, ela sentiu um par de braços fortes rodearem sua cintura por trás.

— Finalmente — Regulus sussurrou em seu ouvido, a voz rouca. — Uma Potter infiltrada no coração da nobreza Black. Meu irmão teria um enfarte se visse isso.

— Seu irmão já aceitou que eu sou o único juízo que você tem, Reg — ela se virou nos braços dele, mas parou ao ver a expressão no rosto dele.

Regulus não estava brincando. Ele parecia tenso, uma vulnerabilidade rara brilhando em seus olhos cinzentos. Ele se afastou um pouco e, com um movimento fluido, tirou uma pequena caixa de veludo negro do bolso do colete.

— Jhe, eu mudei o meu destino por você — ele disse, a voz firme, embora suas mãos tremessem quase imperceptivelmente. — Eu quebrei todas as regras que me ensinaram e construí um caminho que eu nunca achei que merecia. Mas eu não quero caminhar nele se você não estiver segurando a minha mão. Eu não quero apenas que você more aqui. Eu quero que você seja a senhora desta casa. Eu quero que você seja minha esposa.

Ele abriu a caixa. Dentro, um anel de platina com uma esmeralda central cercada por pequenos diamantes brilhava intensamente. Era uma joia antiga, mas que parecia ter sido limpa de toda a amargura do passado.

— Regulus... — O fôlego de Jhe escapou.

— Case-se comigo — ele pediu, quase como uma ordem, mas com o desespero de um homem que sabe que sua vida inteira depende daquela resposta. — E eu prometo que nunca mais deixarei você se sentir sozinha, em nenhum tempo ou realidade.

— Sim — ela disse, as lágrimas começando a embaçar sua visão. — Mil vezes sim, Regulus.

Ele não esperou. Deslizou o anel no dedo dela com uma urgência febril e a puxou para um beijo que carregava toda a saudade das semanas distantes e a promessa de uma vida inteira. O beijo era faminto, uma colisão de dentes e línguas que rapidamente escalou de romântico para algo muito mais primitivo.

Regulus a pegou no colo, as pernas de Jhe envolvendo sua cintura instintivamente. Ele a carregou para a imensa cama de dossel, deitando-a sobre as cobertas de seda escura.

— Eu esperei o dia inteiro por isso — ele rosnou contra a pele do pescoço dela, as mãos descendo para a barra da blusa de Jhe, despindo-a com uma eficiência impaciente.

O sexo que se seguiu foi uma tempestade. Foi selvagem, marcado pela necessidade de reafirmar que eles estavam vivos, que pertenciam um ao outro e que o mundo lá fora não importava. Regulus a possuía com uma intensidade que fazia Jhe perder o fôlego, suas unhas cravando-se nos ombros largos dele enquanto ela gemia o nome dele como se fosse uma prece. Havia uma urgência em cada movimento, um ritmo frenético de corpos que se conheciam perfeitamente, mas que ainda assim pareciam estar se descobrindo pela primeira vez.

Mas, sob a selvageria, havia uma camada profunda de adoração. Regulus beijava cada cicatriz, cada centímetro da pele dela, como se estivesse venerando uma deusa. E quando o ápice chegou, arrastando ambos para um abismo de prazer e exaustão, eles desabaram um nos braços do outro, os corações batendo em uníssono.

Minutos depois, ou talvez horas — o tempo na Mansão Black sempre fora fluido —, Regulus puxou o lençol para cobri-los, trazendo Jhe para mais perto, aninhando a cabeça dela em seu peito. Ele acariciava o braço dela com uma ternura infinita, os dedos traçando o contorno do anel de noivado que agora brilhava em sua mão.

— Você está bem? — Ele sussurrou, a voz carregada de um carinho que ele só mostrava entre quatro paredes.

— Estou perfeita — ela respondeu, fechando os olhos e ouvindo o batimento constante do coração dele. — Só estou pensando em como a minha vida mudou. De um retrato empoeirado em 1995 para os braços do homem mais teimoso de 1979.

Regulus soltou uma risada baixa, beijando o topo da cabeça dela.

— Eu sou o homem mais feliz de qualquer século, Jhe. E eu vou passar o resto da minha vida garantindo que você nunca se arrependa de ter feito aquele desejo.

Jhe sorriu, sentindo o calor dele envolvê-la. Ela sabia que ainda haveria desafios, que a vida de um Black e uma Potter nunca seria totalmente calma, mas ali, naquele quarto, cercada pelo silêncio reconfortante da casa que eles haviam redimido, ela soube que o passado fora apenas um prólogo.

— Eu te amo, Regulus — ela murmurou, já entregue ao sono.

— Eu te amo mais do que o tempo pode medir — ele respondeu, fechando os olhos e, pela primeira vez em muitos anos, dormindo sem nenhum pesadelo para assombrá-lo.

Ouro e prata. Grifinória e Sonserina. O destino fora desafiado, e o amor, em sua forma mais crua e persistente, vencera a partida final.