Sob o peso das estrelas
O Sacrifício do Ouro e a Redenção da Prata
O campo de batalha de Hogwarts ainda cheirava a ozônio, fumaça e o metálico persistente de sangue. O que deveria ter sido o fim trágico de uma era transformou-se, graças à intervenção de uma única alma vinda do futuro, em uma vitória esmagadora, embora custosa. Voldemort, o monstro que assombraria gerações, fora derrotado definitivamente antes mesmo de seu auge, suas Horcruxes caçadas e destruídas uma a uma pela aliança improvável entre os Marotos e a astúcia de Regulus Black.
Mas, para Regulus, o mundo parou no exato momento em que o corpo de Jhe Potter colidiu contra o dele, não em um abraço, mas como um escudo humano.
O clarão verde da maldição de Bellatrix Lestrange não a atingira em cheio — o feitiço ricocheteara em uma proteção que Jhe conjurara no último milissegundo —, mas o impacto da magia negra e a queda contra as pedras do pátio haviam sido devastadores.
Agora, dois dias depois, o silêncio da Ala Hospitalar era quebrado apenas pelo tique-taque rítmico de um relógio de parede e pelo som da respiração pesada de Regulus. Ele não havia saído do lado dela. Nem para comer, nem para trocar as vestes sujas de fuligem e poeira. Seus olhos cinzentos, outrora frios e aristocráticos, estavam vermelhos e encovados, fixos no rosto pálido de Jhe.
— Você é uma idiota — sussurrou ele, a voz rouca, segurando a mão dela com uma força que beirava o desespero. — Uma completa e absoluta idiota, Potter.
Ele sentiu um leve tremor nos dedos dela. Foi sutil, quase imperceptível, mas para Regulus foi como o primeiro raio de sol após um inverno eterno. Os olhos de Jhe começaram a se mover sob as pálpebras cerradas e, com um suspiro que pareceu carregar todo o cansaço do mundo, ela os abriu.
A luz das janelas altas a fez franzir a testa, e sua visão demorou a focar, mas a primeira coisa que ela viu foi o rosto de Regulus. Ele parecia terrível, desgrenhado e exausto, e foi a visão mais bonita que ela já tivera.
— Reg... — A voz dela saiu como um sussurro seco, quase inaudível.
Regulus congelou. Por um segundo, ele pareceu não acreditar que ela estava acordada. Então, a angústia dos últimos dois dias transbordou em uma fúria defensiva, a única forma que ele conhecia de esconder o quanto estava aterrorizado.
— Como você ousa? — Ele disparou, levantando-se da cadeira tão abruptamente que ela arrastou com um som estridente no chão de pedra. — No que você estava pensando, sua grifinória inconsequente? Você atravessou décadas, mudou o tempo, enfrentou o Lorde das Trevas e quase morreu para me proteger de um feitiço pelas costas?
Jhe tentou sorrir, mas uma pontada de dor no peito a fez soltar um gemido baixo.
— Eu disse... que não ia deixar você congelar — murmurou ela, tentando se ajeitar nos travesseiros.
— Não brinque com isso! — Regulus começou a andar de um lado para o outro ao lado da cama, gesticulando freneticamente. — Você poderia ter morrido! Bellatrix não estava brincando. Se aquele feitiço tivesse te pegado em cheio, não haveria poção ou viagem no tempo que te trouxesse de volta. Você me salvou para depois me deixar sozinho neste mundo desgraçado? É esse o seu plano de resgate?
Jhe observou-o com uma calma que só irritou Regulus ainda mais. Ela via além das palavras duras; via as mãos dele tremendo, via o medo visceral em seu olhar e a forma como ele parecia prestes a desmoronar a qualquer momento.
— Regulus, venha aqui — pediu ela, estendendo a mão fracamente.
— Não. Eu estou furioso com você. Sirius está furioso. James quase destruiu metade do Salão Principal quando Madame Pomfrey disse que você estava em coma. Você não tem o direito de nos assustar assim.
— Regulus Arcturus Black — disse ela, usando o tom que sabia que o faria parar. — Venha aqui agora.
Ele parou. O ombro dele caiu, e toda a postura defensiva se esvaiu, deixando apenas um jovem de dezoito anos que acabara de ver a guerra terminar e quase perdera a única razão pela qual queria viver nela. Ele caminhou até a beira da cama e sentou-se, escondendo o rosto nas mãos.
— Eu achei que tinha te perdido — confessou ele, a voz agora abafada e quebrada. — Eu olhei para você no chão e, por um momento, o mundo ficou escuro de novo. Exatamente como você disse que era no seu futuro. Eu senti o frio da caverna, Jhe. Sem você aqui, eu já estou morto.
Jhe deslizou a mão pelos cabelos dele, puxando-o para que ele olhasse para ela.
— Mas eu estou aqui — disse ela, com firmeza. — E você está aqui. Meus pais... os pais de James e seus... eles se foram, a guerra acabou. Não há mais quadros tristes, Regulus. Não há mais marcas negras. Nós vencemos.
— A que custo? — perguntou ele, beijando a palma da mão dela. — Você quase se sacrificou por mim. De novo.
— Eu faria tudo de novo — respondeu ela, sem hesitar. — Eu não vim para cá apenas para cumprir uma missão, Reg. Eu vim porque você é a minha alma. Salvar você não foi um fardo, foi o meu maior privilégio. Se eu tivesse que ficar em coma por cem anos para garantir que você pudesse ver o sol hoje, eu ficaria.
Regulus soltou um suspiro longo, encostando a testa na dela. O cheiro de ervas medicinais da Ala Hospitalar era forte, mas o calor da pele de Jhe era a única coisa que importava.
— Você é a pessoa mais teimosa que eu já conheci. E eu odeio o fato de que você é tão boa em me proteger.
— Alguém tem que fazer isso — ela brincou, sentindo-se um pouco mais forte. — Os Black têm uma tendência dramática para o martírio. Eu só estou equilibrando as coisas.
Regulus riu, uma risada curta e sem fôlego, e finalmente relaxou o peso do corpo contra a lateral da cama. Ele não saiu do lado dela. Pelas horas seguintes, ele a ajudou a beber água, contou sobre como Sirius e James haviam finalmente se abraçado após a queda de Voldemort e como a Ordem da Fênix estava limpando os últimos focos de resistência.
— James quer te ver — disse Regulus, enquanto descascava uma laranja para ela com uma precisão quase cirúrgica. — Mas eu disse a ele que, se ele entrasse aqui antes de você dormir mais um pouco, eu o azararia tão forte que ele esqueceria como se joga quadribol.
— Você não faria isso com o seu cunhado — Jhe sorriu, provocando-o.
Regulus arqueou uma sobrancelha, o brilho sarcástico voltando aos seus olhos cinzentos.
— Cunhado? Não se apresse, Potter. Eu ainda não pedi sua mão formalmente. E, dadas as suas tendências suicidas em campos de batalha, eu teria que redigir um contrato de casamento com muitas cláusulas de segurança.
— Eu aceito — disse ela, subitamente séria.
Regulus parou com a faca de prata no ar, olhando para ela com surpresa.
— O quê?
— Eu aceito — repetiu Jhe. — O contrato, o casamento, a vida com você. Tudo o que vier depois disso. Eu não atravessei o tempo para ser apenas sua namorada de escola, Regulus. Eu vim para construir uma vida que você nunca achou que teria.
Regulus largou a fruta na mesa de cabeceira. Ele olhou para Jhe, para o brilho de determinação nos olhos dela que nem mesmo o coma conseguira apagar. Ele percebeu, naquele momento, que não importava o quanto ele brigasse com ela por sua imprudência, ele nunca seria capaz de amá-la menos por isso. Ela era o fogo que o aquecia e a luz que o guiava.
— Você é um perigo para a minha sanidade — murmurou ele, inclinando-se para beijá-la.
O beijo foi suave, com gosto de alívio e promessas silenciosas. Não havia mais a urgência do medo, apenas a doçura de um tempo que agora lhes pertencia por direito.
— Prometa-me uma coisa — disse Regulus, afastando-se apenas alguns centímetros, a mão traçando o contorno do rosto dela.
— O que você quiser.
— Da próxima vez que alguém tentar me atacar pelas costas... deixe que eu cuide disso. Eu sou um Black, Jhe. Nós fomos ensinados a lidar com a escuridão muito antes de aprendermos a andar. Eu não quero ser o motivo da sua dor nunca mais.
Jhe olhou para ele, vendo o homem forte e resiliente que ele se tornara. Ela sabia que ele tinha razão, que ele não era mais o menino assustado do retrato. Mas ela também sabia que sua natureza protetora nunca mudaria.
— Eu prometo tentar — disse ela, o que era o máximo que ele conseguiria extrair dela. — Mas não espere que eu fique sentada assistindo se você estiver em perigo.
Regulus revirou os olhos, mas havia um sorriso brincando em seus lábios.
— É o melhor que eu vou conseguir de uma Potter, suponho.
— Com certeza.
Ele se acomodou na cadeira novamente, puxando a mão dela para repousar sobre seu colo. O sol começava a se pôr no horizonte de Hogwarts, banhando o quarto em tons de laranja e violeta. Pela primeira vez em meses, o futuro não era uma névoa de incerteza e morte. Era uma página em branco, esperando para ser escrita por uma grifinória que sabia demais e um sonserino que aprendera a amar.
— Sabe, Reg — disse Jhe, fechando os olhos enquanto o sono começava a puxá-la novamente, desta vez um sono natural e curativo. — O retrato na Mansão Black... ele vai ser muito diferente agora.
Regulus apertou a mão dela suavemente.
— Eu espero que sim. Espero que ele mostre um homem velho, rabugento e muito, muito feliz.
— E com uma esposa muito bonita ao lado dele — acrescentou ela, quase dormindo.
— Com certeza — sussurrou Regulus, observando-a adormecer. — A mulher mais bonita de todos os tempos.
Ele permaneceu ali, vigiando o sono dela, como fizera nas últimas quarenta e oito horas e como faria pelo resto de seus dias. A guerra terminara, o destino fora vencido e, nas masmorras ou nas torres, o ouro e a prata finalmente haviam encontrado seu lugar comum: um futuro onde o amor era a única magia que realmente importava.