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Sob o peso das estrelas

O Reflexo nas Águas Escuras

A névoa rastejava sobre a superfície do Lago Negro como um fantasma inquieto, abraçando as raízes das árvores e abafando os sons distantes do castelo. O inverno estava chegando, e o ar cortante da noite parecia carregar o presságio de tempos sombrios. Jhe caminhava com passos leves pela grama úmida, o cachecol da Grifinória apertado contra o pescoço. Ela sabia que ele estaria ali. Regulus Black tinha o hábito de buscar o silêncio da margem quando o peso de seu sobrenome se tornava insuportável.

Ela o avistou sentado em uma rocha saliente, uma silhueta solitária e perfeitamente imóvel contra a imensidão escura da água. Ele não usava o casaco pesado de inverno; parecia querer sentir o frio, como se a dormência física pudesse aplacar a agitação interna.

— Você vai acabar pegando um resfriado, Regulus — disse Jhe, sua voz suave quebrando a quietude da noite.

Regulus não se virou de imediato. Seus ombros apenas ficaram mais tensos, a postura aristocrática tornando-se rígida como pedra. Ele soltou um suspiro longo, uma nuvem de vapor escapando de seus lábios.

— Por Salazar, Potter... — Ele finalmente se levantou, girando nos calcanhares com uma expressão de puro cansaço e fúria contida. — Você é algum tipo de criatura mágica que eu desconheço? Uma maldição que se manifesta toda vez que eu tento ter um segundo de paz?

— Eu prefiro pensar em mim como uma preocupação persistente — respondeu ela, aproximando-se sem hesitar, apesar do olhar gélido dele.

— Preocupação? — Regulus deu um passo à frente, e a luz pálida da lua revelou as olheiras profundas sob seus olhos cinzentos. — Você não tem o direito de se preocupar comigo! Você não tem o direito de me seguir! O que você quer? Dinheiro? Atenção? Ou será que o James te deu uma lista de Sonserinos para "salvar" como se fôssemos projetos de caridade?

— James não sabe que estou aqui — afirmou Jhe, parando a poucos passos dele.

— Então você é apenas louca! — gritou ele, perdendo a compostura costumeira. Ele se aproximou de forma ameaçadora, tentando usar sua altura e sua linhagem para intimidá-la. — Você é uma Potter! Você deveria estar lá em cima, rindo de piadas idiotas e planejando pegadinhas. Você não pertence aqui, na sombra. Você não sabe o que está acontecendo no mundo lá fora. Você é irritante, intrometida e... e eu odeio o jeito que você me olha como se visse algo que nem eu mesmo consigo encontrar!

Regulus estava ofegante, o rosto a centímetros do dela. Ele esperava que ela recuasse, que chorasse ou que respondesse com a mesma agressividade que Sirius usaria. Mas Jhe apenas permaneceu ali. Ela não demonstrou medo. Ela não demonstrou raiva.

Pelo contrário, ela sorriu. Foi um sorriso pequeno, genuíno e incrivelmente doce, daqueles que pareciam iluminar o ambiente mais do que qualquer feitiço *Lumos*.

— Eu gosto de você, Regulus — disse ela, a voz carregada de uma sinceridade que o desarmou mais do que qualquer duelo. — E eu realmente quero ser sua amiga. Não porque você é um Black, ou porque sou uma Potter. Mas porque eu acho que você é a pessoa mais corajosa e solitária que eu já conheci.

Regulus recuou como se tivesse levado um tapa físico. Ele piscou, confuso, a boca entreaberta. A lógica dele, construída sobre anos de desconfiança e etiquetas sociais rígidas, não conseguia processar aquela declaração.

— Você... você o quê? — gaguejou ele, a máscara de frieza rachando completamente. — Você é demente? Eu acabei de te insultar. Eu sou o inimigo do seu irmão. Eu sou...

— JHE! SAI DE PERTO DELE AGORA!

O grito cortou o ar como um chicote. James Potter surgiu da escuridão, a varinha em punho e o rosto vermelho de fúria. Atrás dele, Sirius vinha logo em seguida, a expressão oscilando entre o choque e a traição ao ver a cena.

James avançou como um touro, colocando-se entre Jhe e Regulus, empurrando a irmã para trás de si com um braço protetor e agressivo.

— O que você estava fazendo com ela, Black? — rosnou James, a ponta de sua varinha brilhando perigosamente. — Se você tocou nela, eu juro que nem seus pais vão reconhecer o que sobrar de você.

— James, pare! — Jhe tentou intervir, segurando o braço do irmão. — Ele não fez nada. Estávamos apenas conversando.

— Conversando? — Sirius se aproximou, olhando para o irmão mais novo com um desprezo que escondia uma dor profunda. — Com ele? Jhe, esse garoto já está com a alma vendida. Ele é um deles. O que você tem na cabeça?

— Eu tenho vontade própria, Sirius! — rebateu Jhe, soltando-se de James. — Eu decido com quem falo.

Regulus, que havia recuperado sua máscara de indiferença, soltou uma risada seca e irônica enquanto ajeitava as vestes.

— Veja só, o circo chegou — debochou Regulus, os olhos brilhando com uma malícia defensiva. — O grande James Potter vindo salvar a donzela de um monstro que sequer se deu ao trabalho de sacar a varinha.

— Cale a boca, Regulus! — gritou James. — Você está tentando manipular a minha irmã. Você quer usá-la para chegar até nós, ou para cumprir algum plano doentio daqueles que você chama de amigos.

James agarrou o pulso de Jhe com força, começando a puxá-la em direção ao castelo.

— Vamos embora daqui. Você nunca mais vai chegar perto desse lixo sonserino.

— Me solta, James! Você está me machucando! — Jhe protestou, tentando se desvencilhar, mas o irmão estava cego pela raiva e pelo instinto de proteção distorcido.

Foi então que algo inesperado aconteceu. Antes que James pudesse dar mais um passo, Regulus se moveu com uma agilidade impressionante. Ele segurou o braço de James, forçando-o a parar.

— Ela disse para soltá-lo, Potter — disse Regulus, sua voz agora baixa, fria e carregada de uma autoridade que até Sirius estranhou.

— Tire as mãos de mim, Black — ameaçou James, virando a varinha para o peito de Regulus.

Regulus não recuou. Em vez disso, ele usou a outra mão para puxar Jhe delicadamente, mas com firmeza, para o seu lado, tirando-a do aperto de James. Jhe tropeçou levemente, terminando encostada no ombro de Regulus. Ela sentiu o coração dele batendo acelerado através do tecido fino da camisa, uma prova de que ele não era tão indiferente quanto fingia.

A surpresa tomou conta de Jhe, mas por dentro, uma centelha de esperança brilhou. Ele a estava protegendo. Mesmo que fosse para irritar James, ele agira.

— O que pensa que está fazendo? — Sirius deu um passo à frente, os punhos cerrados. — Solte ela, Regulus. Agora.

— Por que eu deveria? — Regulus arqueou uma sobrancelha, um sorriso de canto de boca surgindo em seu rosto pálido. Ele passou o braço protetoramente pelos ombros de Jhe, mantendo-a firme ao seu lado. — Ela disse que gosta da minha companhia. Ela disse que quer ser minha amiga. E, honestamente, ver a cara de vocês dois agora é o melhor entretenimento que tive em anos.

— Você está morto, Black! — James avançou, mas Jhe se colocou na frente de Regulus.

— Chega, James! — gritou ela, a voz firme e autoritária. — Você está agindo como um tirano. Eu não sou um objeto que você carrega de um lado para o outro. Regulus foi mais cavalheiro nos últimos cinco minutos do que você foi a noite inteira.

James parou, o rosto transfigurado pela mágoa e pela incredulidade.

— Você está defendendo ele? — perguntou James, a voz falhando. — Jhe, ele é um Black. Ele é o que há de pior.

— Ele é meu amigo — afirmou Jhe, sentindo a mão de Regulus apertar levemente seu ombro. — E se você não consegue aceitar isso, o problema é seu, não meu.

Sirius olhava para o irmão mais novo como se o visse pela primeira vez em anos. Havia um conflito mudo em seus olhos cinzentos, uma mistura de raiva e uma curiosidade relutante. Regulus, por sua vez, mantinha o olhar fixo em James, saboreando a vitória. Ele ainda não entendia por que Jhe Potter insistia tanto nele, e certamente ainda não confiava nela, mas se tê-la por perto significava desafiar a autoridade de James e mostrar a Sirius que ele não era o único que podia quebrar regras, então ele aceitaria o jogo.

— Acho que a conversa acabou — declarou Regulus, sua voz recuperando a sofisticação aristocrática. — Vamos, Jhe. O ar aqui ficou subitamente... pesado.

Ele começou a caminhar, ainda mantendo Jhe ao seu lado. Para a surpresa de todos, Jhe o acompanhou, deixando James e Sirius parados na margem do lago, em um silêncio carregado de tensão e derrota.

Enquanto se afastavam, Jhe olhou de relance para Regulus. O rosto dele ainda era uma máscara de gelo, mas ele não a soltara.

— Você só fez isso para irritar o James, não foi? — sussurrou ela.

Regulus olhou para frente, o queixo erguido.

— Principalmente — admitiu ele, o sarcasmo retornando à voz. — Ver o seu irmão quase ter um colapso nervoso é um prazer que eu não poderia recusar.

— Mas você me defendeu — insistiu ela, sorrindo.

Regulus parou de caminhar e a soltou, olhando-a nos olhos. O brilho da lua refletia-se neles, e por um breve momento, Jhe viu o menino do retrato novamente.

— Não se acostume com isso, Potter — disse ele, embora o tom não fosse mais tão cruel. — Você é uma peça muito barulhenta e colorida em um tabuleiro que deveria ser preto e branco. Mas... talvez eu não me importe de ter um pouco de barulho por perto, se isso mantiver o James longe de mim.

Ele se virou e seguiu em direção às masmorras, a capa balançando atrás de si. Jhe ficou ali, observando-o partir. Ela sabia que o caminho para salvá-lo ainda seria longo e perigoso, e que a fúria de James e Sirius era apenas o começo de seus problemas. Mas, naquela noite, as águas escuras do lago haviam testemunhado algo impossível: um Black e uma Potter caminhando no mesmo ritmo.

A guerra estava chegando, a Marca Negra estava à espreita, mas Jhe Potter finalmente conseguira plantar uma semente de dúvida no coração de Regulus. E para ela, isso era o suficiente para começar a mudar o destino.