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Sob o peso das estrelas

Ouro Líquido nas Masmorras

A luz da manhã em Hogwarts sempre teve um jeito particular de realçar as cores, mas naquela semana, o brilho parecia concentrado em um único ponto de discórdia: a mesa da Sonserina. Jhe Potter, com seu uniforme da Grifinória impecavelmente desgrenhado e um sorriso que desafiava séculos de rivalidade, sentou-se ao lado de Regulus Black como se aquele fosse o seu lugar por direito de nascimento.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. As colheres de prata pararam no ar, e o som de torradas sendo mastigadas cessou abruptamente. Bellatrix Black, alguns metros adiante, apertou o cabo de sua faca com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos, enquanto Lucius Malfoy apenas arqueou uma sobrancelha, como se estivesse observando um espécime exótico de inseto.

Regulus, por sua vez, nem sequer levantou os olhos de seu exemplar do *Profeta Diário*. Ele apenas moveu sua tigela de mingau alguns centímetros para o lado, abrindo espaço para os cotovelos de Jhe.

— Você sabe que eles estão planejando como esconder seu corpo na Floresta Proibida, não sabe? — murmurou Regulus, a voz baixa e monocórdica.

— Eles quem? — Jhe perguntou, servindo-se de uma generosa porção de geleia de morango. — Os sonserinos ou o meu irmão? Porque o James parece que vai ter um aneurisma a qualquer momento.

Ela apontou discretamente com a cabeça para a mesa da Grifinória. James Potter estava parado, segurando um jarro de suco de abóbora que tremia visivelmente, enquanto Sirius parecia dividido entre a gargalhada histérica e o desejo de arrastar Jhe pelos cabelos para fora dali.

— Ambos — respondeu Regulus, finalmente fechando o jornal e olhando para ela. Seus olhos cinzentos estavam cansados, mas havia uma faísca de algo novo ali: uma resignação divertida. — Potter, por que você está aqui? E não me venha com aquela conversa de "preocupação persistente".

— Eu gosto da iluminação daqui — mentiu ela, dando uma mordida na torrada. — E você é um ótimo ouvinte, Regulus. Principalmente porque não fala quase nada.

— Eu não falo nada porque estou esperando você se cansar desse teatro e voltar para o seu salão comunal barulhento — ele retrucou, embora não houvesse veneno real em suas palavras.

Nos dias que se seguiram, a rotina de Hogwarts foi subvertida. Jhe Potter tornou-se a sombra de Regulus Black. Se ele ia para a Biblioteca, ela aparecia com uma pilha de livros de Aritmancia e se sentava à sua frente, ocasionalmente chutando seus pés por baixo da mesa "sem querer". Se ele buscava refúgio nos jardins para ler, ela o encontrava, trazendo maçãs verdes e contando histórias absurdas sobre as tentativas de James de impressionar Lily Evans.

Ela era como uma força da natureza, impossível de ignorar e exaustiva de combater.

— Por que você faz isso? — perguntou ele em uma tarde chuvosa, enquanto estavam sentados em um nicho de pedra no corredor do terceiro andar.

— Faço o quê? — Jhe estava ocupada tentando equilibrar a varinha na ponta do nariz.

— Isso. Estar em todo lugar onde eu estou. Defender um Sonserino na frente de toda a escola. Arriscar sua reputação e a paciência do seu irmão por... por mim. O que você ganha com isso?

Jhe deixou a varinha cair e olhou para ele. A pergunta dele não era carregada de arrogância, mas de uma confusão genuína. Regulus vivia em um mundo de transações, onde cada aliança tinha um preço e cada gesto de bondade escondia uma adaga.

— Eu não ganho nada, Regulus — disse ela, suavizando o tom. — Eu só... eu simplesmente gosto de você. E eu quero ver você feliz. É tão difícil de acreditar nisso?

Regulus desviou o olhar, o maxilar tenso.

— Sim. É. As pessoas não "gostam" de outras sem motivo. Especialmente quando essas outras pessoas são destinadas a coisas que... que você desaprovaria.

— Ninguém é destinado a nada até que aceite o caminho — rebateu Jhe, aproximando-se um pouco mais. — Você ainda não aceitou, Regulus. Eu vejo isso toda vez que você olha para o Sirius com saudade antes de disfarçar com ódio.

— Você não sabe de nada — sibilou ele, mas não se afastou.

A persistência de Jhe começou a render frutos que nem ela esperava. Regulus parou de tentar fugir. Ele ainda era frio, ainda usava o sarcasmo como um escudo, mas havia momentos de trégua. Como na noite em que ele a ajudou com um pergaminho complexo de Transfiguração, corrigindo seus erros com uma paciência que ele negaria ter se alguém perguntasse. Ou quando, sem dizer uma palavra, ele empurrou um frasco de poção revigorante para ela depois que ela passou a noite estudando para os N.O.M.s.

Mas a paz era frágil. A tensão na escola crescia conforme as notícias sobre Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado se tornavam mais frequentes e violentas. E a pressão sobre Regulus era palpável. Ele recebia cartas com o selo da família Black quase diariamente, e cada uma delas parecia deixar seus ombros mais pesados e sua pele mais pálida.

Certa noite, Jhe o encontrou no topo da Torre de Astronomia. O vento soprava forte, agitando seus cabelos escuros. Ele estava olhando para o horizonte, onde os relâmpagos de uma tempestade distante iluminavam o céu.

— Eles me chamaram — disse ele, sem precisar se virar para saber que era ela. O cheiro de pergaminho e baunilha que sempre a acompanhava era inconfundível.

O coração de Jhe falhou uma batida. Ela sabia do que ele estava falando. O chamado para a iniciação. A marca.

— Você não precisa ir — disse ela, a voz embargada pela urgência.

Regulus soltou um riso amargo, um som que pareceu se perder no vento.

— Você é tão ingênua, Jhe. Se eu não for, o que acontece? Meus pais me deserdam? Sirius já fez isso, e olhe para ele... ele é livre, mas ele é um traidor de sangue aos olhos deles. Se eu fizer o mesmo, a linhagem acaba. O peso cai sobre mim. Eu não sou corajoso como ele.

— Não é coragem fugir, Regulus. Às vezes, a coragem é ficar e lutar pelo que é certo, mesmo quando tudo parece perdido — Jhe caminhou até ele, segurando sua mão. A pele dele estava gélida. — Você não é um traidor. Você é apenas um rapaz que merece uma vida própria.

— Eu queria... — ele começou, a voz falhando. Ele apertou a mão dela, um gesto quase imperceptível de desespero. — Eu queria ter te conhecido em outra época. Em um mundo onde essas cores nas nossas vestes não significassem que somos inimigos naturais.

— Nós não somos inimigos — insistiu Jhe, as lágrimas começando a arder em seus olhos. — Olhe para mim, Regulus.

Ele se virou, e o que ela viu não foi o herdeiro orgulhoso dos Black, mas um garoto aterrorizado, preso em uma armadura de expectativas que estava começando a esmagá-lo.

— Eu não vou deixar você se perder — prometeu ela. — Eu não me importo se tiver que sentar na mesa da Sonserina todos os dias pelos próximos dez anos. Eu não vou deixar você sozinho.

Regulus olhou para a mão dela entrelaçada na sua. Por um momento, a máscara caiu completamente. Ele se inclinou, encostando a testa na dela, fechando os olhos como se estivesse tentando absorver um pouco da força que ela irradiava.

— Você é a coisa mais irritante que já aconteceu na minha vida, Potter — sussurrou ele.

— Eu sei — ela respondeu com um riso fraco.

— E a mais perigosa — ele continuou, abrindo os olhos, que agora brilhavam com uma determinação sombria. — Porque você me faz querer acreditar que existe uma saída.

Naquele momento, sob as estrelas encobertas por nuvens, o pacto silencioso entre eles se fortaleceu. Jhe Potter não era apenas uma intrusa na vida de Regulus; ela era sua âncora. E enquanto ela estivesse ali, segurando sua mão e desafiando o mundo com seu sorriso grifinório, as sombras da Mansão Black pareciam um pouco menos assustadoras.

A batalha pelo futuro de Regulus Black estava apenas começando, e Jhe sabia que teria que enfrentar seu próprio irmão, a fúria de Sirius e a escuridão que crescia fora dos muros de Hogwarts. Mas ela olhou para o rapaz ao seu lado e soube, com a certeza de quem cruzou o tempo, que ele valia cada sacrifício.

— Vamos entrar — disse Regulus, recompondo-se, embora não soltasse a mão dela. — Se o Filch nos pegar aqui, eu vou dizer que você me sequestrou com um feitiço de confusão.

— E eu vou dizer que você me implorou para ver as estrelas com você — Jhe piscou para ele, puxando-o em direção às escadas.

Regulus não sorriu, mas o aperto em sua mão foi a resposta que ela precisava. O ouro da Grifinória e a prata da Sonserina desceram a torre juntos, desafiando a escuridão que tentava separá-los.