Sobre um bagulho complicado
Cinco Minutos de Perdição
A música eletrônica pulsava nas paredes da sala de estar de Chloe, criando uma vibração que Samara sentia até na sola de seus sapatos. O ar estava saturado com o cheiro de perfume doce, salgadinhos e aquela energia caótica que só uma festa de dezoito anos poderia proporcionar. Samara, sentada no tapete felpudo em um círculo improvisado, tentava controlar a respiração. Seus olhos castanhos esverdeados, que costumavam brilhar como esmeraldas sob o sol, agora refletiam a luz neon do ambiente, revelando um nervosismo que ela lutava para esconder por trás de seu sorriso gentil.
Ela sempre foi a garota que todos amavam. Engraçada, falante, a pessoa que ajudava os colegas com os resumos de biologia, mas que, ao chegar em casa, se trancava no quarto para chorar em silêncio quando o peso do mundo parecia demais. Ninguém sabia de suas inseguranças, e muito menos de sua obsessão silenciosa por Asher.
Asher estava sentado exatamente à sua frente. Com seus 1,80m de altura e aquela postura relaxada de quem sabe que é o centro das atenções, ele parecia um predador observando sua presa. Os cabelos pretos, curtos e cacheados, brilhavam sob as luzes, e seus olhos negros eram tão profundos que Samara sentia que poderia se afogar neles se olhasse por muito tempo. Ele tinha dezenove anos, um ano a mais que ela por ter repetido o segundo ano, e uma reputação de ser perigosamente sedutor.
Até aquele momento, a interação entre eles se resumia a frases monossilábicas durante os trabalhos em grupo. "Passa a caneta", "Onde coloco meu nome?", "Obrigado". Mas o desejo estava lá, latente, queimando como brasa sob as cinzas.
A garrafa de vodka vazia girou no centro do círculo, parando lentamente. O gargalo apontava para Chloe, a aniversariante, e a base para Samara.
— Samara, meu amor! — Chloe exclamou, com um brilho malicioso no olhar. — Verdade ou consequência?
Samara hesitou. Ela sabia que as "verdades" naquele grupo eram invasivas demais.
— Consequência — respondeu, tentando manter a voz firme.
Um murmúrio percorreu o grupo. Chloe olhou para Asher, que permanecia em silêncio, brincando com um anel de prata no dedo, mas sem tirar os olhos de Samara.
— Tudo bem — disse Chloe, com um sorriso de quem estava prestes a causar um terremoto. — Eu desafio você a ficar cinco minutos trancada no closet do corredor com o Asher. E o detalhe: vocês têm que passar esses cinco minutos se beijando. Sem parar. E como o Asher é um cavalheiro que vai aceitar esse desafio difícil... ele tem o direito de te pedir um favor extra depois.
O coração de Samara deu um solavanco. Ela sentiu o rosto esquentar instantaneamente. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pela batida da música ao fundo. Ela olhou para Asher, esperando que ele recusasse ou fizesse uma piada para aliviar a tensão.
Em vez disso, Asher se levantou lentamente. Ele não sorriu. Ele apenas estendeu a mão na direção dela, os olhos negros fixos nos dela com uma intensidade que a fez estremecer.
— Eu aceito — disse ele, a voz rouca e profunda.
Samara engoliu em seco. Ela colocou a mão pequena na dele e sentiu a descarga elétrica percorrer seu braço. Ele a puxou para cima com facilidade, e o grupo começou a gritar e assobiar enquanto os guiavam até o closet de casacos no final do corredor.
Chloe fechou a porta atrás deles, e a escuridão os envolveu, restando apenas um filete de luz que passava por baixo da porta. O espaço era apertado, cheirando a madeira e ao perfume amadeirado e caro de Asher.
— Samara — ele murmurou. O som do nome dela saindo da boca dele soava como uma oração perversa.
— Asher... a gente não precisa fazer isso se você não quiser — ela sussurrou, a voz trêmula.
— E quem disse que eu não quero? — Ele deu um passo à frente, eliminando o espaço entre eles. Samara sentiu as costas baterem na parede fria, mas o corpo de Asher, quente e sólido, estava logo ali. — Eu estou esperando por um pretexto para te tocar há dois anos, Samara. Você não tem ideia.
Antes que ela pudesse processar a informação, a mão dele subiu para o seu pescoço, os dedos se enroscando em seus cachos castanhos. Ele se inclinou, e o beijo começou.
Não foi um beijo tímido ou hesitante. Foi uma explosão. Asher a beijava com uma fome que beirava o desespero, como se estivesse reivindicando algo que sempre lhe pertencera. Samara soltou um suspiro contra os lábios dele, as mãos subindo para os ombros largos de Asher, puxando-o para mais perto.
A língua dele explorava a dela com uma possessividade que a deixava sem fôlego. Asher era safado, como todos diziam, mas havia algo mais ali — uma necessidade profunda, uma obsessão que ele não tentava mais esconder. Ele pressionou o corpo contra o dela, e Samara sentiu a força da atração mútua explodindo em cada centímetro de sua pele.
— Você é tão linda — ele murmurou entre os beijos, a voz falhando. — Eu observo você o dia todo na escola. Eu vejo como você sorri para todo mundo, mas como seus olhos ficam tristes quando você acha que ninguém está olhando. Eu queria ser o único a ver essa tristeza. Queria ser o único a te consolar.
Samara sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Como ele podia saber? Como ele podia enxergar o que ela passava tanto tempo escondendo? Ela o beijou de volta com mais intensidade, despejando ali toda a sua solidão e o seu desejo secreto. As mãos de Asher desceram para a cintura dela, apertando-a com firmeza, puxando-a para cima até que ela tivesse que ficar na ponta dos pés.
O tempo parecia ter parado. Os cinco minutos poderiam ser uma eternidade ou apenas um segundo. Para Samara, o mundo lá fora — a escola, as pressões do último ano, a fachada de garota perfeita — havia desaparecido. Só existia o calor de Asher e o gosto de sua boca.
De repente, a luz invadiu o closet quando a porta foi aberta por uma Chloe eufórica.
— Tempo esgotado, pombinhos! — gritou ela.
Asher se afastou lentamente, mas não soltou a cintura de Samara de imediato. Ele limpou o canto da boca com o polegar, o olhar ainda fixo nela, agora com um brilho vitorioso e faminto. Samara estava ofegante, os cabelos bagunçados e os lábios inchados.
Eles saíram do closet sob os aplausos dos amigos, mas Asher não parecia se importar com a plateia. Ele se inclinou perto do ouvido de Samara, sua respiração quente arrepiando cada pelo do corpo dela.
— Eu não esqueci do meu favor, Samara — sussurrou ele, a voz carregada de uma promessa perigosa.
Eles voltaram para o círculo, mas o clima havia mudado. Samara sentia o olhar de Asher queimando sobre ela a cada segundo. Ela tentava participar da conversa, mas sua mente estava presa naquele closet, na sensação das mãos dele em seu corpo.
— E então, Asher? — perguntou um dos rapazes, dando um empurrão amigável no ombro dele. — Qual vai ser o favor que você vai cobrar da nossa querida Samara?
Asher deu um sorriso de lado, aquele sorriso que fazia o coração de Samara errar a batida. Ele se recostou, cruzando os braços, exibindo os músculos definidos sob a camiseta preta.
— Meu favor é simples — disse ele, olhando diretamente nos olhos de Samara. — Quero que a Samara vá embora da festa comigo. Agora.
O silêncio caiu sobre o grupo novamente. Samara sentiu o coração disparar.
— Asher, a festa mal começou... — Chloe tentou intervir.
— O desafio foi claro — Asher cortou, o tom de voz não aceitando contestações. — Eu ganhei um favor. E meu favor é levar ela para casa. Ou para onde eu quiser.
Ele se levantou e estendeu a mão para Samara mais uma vez.
— Você vem? — perguntou ele.
Samara olhou para as amigas, depois para a mão de Asher. Ela sabia que, se cruzasse aquela porta com ele, nada mais seria o mesmo. O segredo de sua paixão seria exposto, e ela estaria se entregando ao garoto que parecia conhecer seus demônios melhor do que ninguém.
Ela colocou a mão na dele.
— Eu vou — disse ela, a voz mais firme do que nunca.
Eles saíram da casa sob os olhares chocados dos convidados. O ar da noite estava fresco, um contraste gritante com o calor da festa. Asher a conduziu até o seu carro, um Mustang antigo e impecável que brilhava sob a luz dos postes.
Ele abriu a porta para ela, e Samara entrou, sentindo o cheiro de couro. Quando Asher deu a volta e se sentou no banco do motorista, ele não deu a partida imediatamente. Ele se virou para ela, o rosto sério.
— Você está bem? — perguntou ele, a voz suavizando. — Eu vi que você quase chorou lá dentro.
Samara desviou o olhar, sentindo a vulnerabilidade habitual voltar.
— É só que... eu não estou acostumada com isso. Com as pessoas olhando. Com você me notando.
Asher esticou a mão e tocou o queixo dela, forçando-a a olhá-lo.
— Samara, eu te noto desde o primeiro dia em que você entrou naquela sala com esse cabelo bagunçado e esse sorriso que nunca chega totalmente aos olhos. Eu sou louco por você. Sou obcecado por cada detalhe seu. Eu repeti de ano porque não conseguia me concentrar em nada que não fosse você sentada duas fileiras à minha frente.
Samara arregalou os olhos.
— Você... o quê?
— Eu sou um idiota por você — admitiu ele, aproximando-se novamente no espaço confinado do carro. — E aquele beijo? Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida nos últimos dois anos. Mas eu não quero que você se esconda mais. Não de mim. Se você quiser chorar, chore na minha frente. Se quiser gritar, grite comigo. Só não se isole mais.
Samara sentiu uma lágrima solitária escorrer, e Asher a limpou com o polegar, beijando o lugar onde a lágrima estivera.
— Para onde você vai me levar? — perguntou ela, a voz em um sussurro.
Asher deu um sorriso predatório, mas cheio de afeto.
— Para um lugar onde eu possa cobrar o resto do meu favor sem ninguém para nos interromper. E onde eu possa te provar que você nunca mais vai precisar chorar sozinha.
Ele ligou o motor, o ronco potente ecoando pela rua silenciosa. Samara se encostou no banco, sentindo uma liberdade que nunca experimentara antes. Ela sabia que Asher era intenso, talvez até um pouco maluco, mas pela primeira vez em dezoito anos, ela sentia que alguém realmente a via.
— Asher? — chamou ela, enquanto ele manobrava o carro para longe da festa.
— Sim, Samara?
— Aqueles cinco minutos... — Ela sorriu, os olhos brilhando verdadeiramente agora. — Foram os melhores da minha vida também.
Asher riu, um som rico e satisfeito, e acelerou, levando-os para a escuridão da noite, onde os segredos de Samara finalmente encontrariam um porto seguro nos braços do garoto que sempre a desejou nas sombras. A jornada deles estava apenas começando, e Samara sabia que, com Asher, ela não seria apenas a garota gentil e engraçada que todos conheciam, mas a mulher completa que ele estava disposto a amar, com todas as suas luzes e sombras.