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Sobre um bagulho complicado

Marcas de Posse e o Despertar do Real

A luz da manhã de segunda-feira era impiedosa. Ela atravessava as frestas da persiana no quarto de Asher, pintando listras douradas sobre a bagunça de lençóis e os corpos que, finalmente, haviam sucumbido ao cansaço. Samara despertou com a sensação de que cada centímetro de sua pele estava eletrificado. O peso do braço de Asher sobre sua cintura era uma âncora, firme e possessiva, lembrando-a de que o "faz de conta" da festa de aniversário havia morrido para dar lugar a algo visceral.

Ela tentou se mexer, mas um resmungo rouco ecoou atrás de sua nuca. Asher a puxou para mais perto, enterrando o rosto em seus cabelos cacheados, inalando o cheiro de baunilha que agora estava misturado ao dele.

— Onde você pensa que vai? — a voz dele, enterrada no sono e na luxúria remanescente, era um comando vibrante.

— Asher, precisamos nos levantar. Temos aula... é segunda-feira — Samara sussurrou, embora seu corpo protestasse contra a ideia de se afastar daquele calor.

— Eu não dou a mínima para a escola — ele murmurou, a mão subindo da cintura para a curva do seio dela, apertando com uma familiaridade que a fez arfar. — Eu poderia ficar aqui, trancado com você, por uma semana inteira.

— Você repetiria o ano de novo — ela brincou, tentando trazer um pouco de leveza à intensidade sufocante do momento. — E eu quero me formar.

Asher finalmente abriu os olhos. Aquelas orbes pretas e profundas não tinham o brilho sonolento de um despertar comum; elas estavam alertas, devorando-a como se estivessem conferindo se ela ainda era real. Ele a virou de frente para si, forçando-a a encarar a realidade do que haviam feito.

— Se você for, eu vou — ele disse, a seriedade voltando ao seu rosto esculpido. — Mas entenda uma coisa, Samara. Quando cruzarmos aquele portão, você não é mais a garota que "troca frases em trabalhos escolares". Você é minha.

Samara sentiu um frio na barriga que não era de medo, mas de uma antecipação perigosa. Ela se levantou, sentindo as pernas bambas, e caminhou até o espelho do banheiro. O reflexo que viu a deixou sem fôlego. Não eram apenas os cabelos desalinhados ou os lábios inchados; seu pescoço e a curva de seus ombros estavam marcados. Pequenas manchas arroxeadas, digitais de um desejo que não conhecia limites.

— Asher... — ela chamou, tocando uma das marcas. — Como eu vou esconder isso?

Ele apareceu atrás dela, nu e sem qualquer pingo de vergonha, a silhueta de 1,80 de altura dominando o espaço. Ele envolveu os braços em volta dela, olhando para as marcas no espelho com um orgulho predatório.

— Você não vai — ele decretou, beijando o topo da cabeça dela. — Use o cabelo solto se quiser, mas eu quero que o mundo saiba que eu estive lá. Que eu sou o único que tem o direito de te marcar assim.

O trajeto até a escola foi silencioso, mas carregado. Asher dirigia seu carro antigo com uma mão no volante e a outra firmemente apertada na coxa de Samara, como se temesse que ela pudesse saltar do veículo em movimento. Ela, por outro lado, tentava controlar a respiração. A Samara gentil e falante estava dando lugar a uma mulher que carregava um segredo ardente sob o uniforme escolar.

Ao estacionarem, o pátio estava cheio. O burburinho habitual de alunos do último ano preenchia o ar. Samara viu suas amigas de longe, mas antes que pudesse dar um passo, Asher a puxou pelo braço, colando o corpo dela ao seu contra a lateral do carro.

— Samara — ele disse, a voz baixa para que apenas ela ouvisse —, se eu vir você sorrindo para aquele idiota do capitão do time de natação de novo, eu vou cobrar o meu "favor" bem aqui, na frente de todos. Entendido?

— Você está sendo possessivo demais, Asher — ela sussurrou, embora seus olhos brilhassem com o desafio. — Eu sou gentil com as pessoas, é quem eu sou.

— Seja gentil com as velhinhas na rua — ele rosnou, inclinando-se para dar um beijo possessivo nela, um beijo que não se importava com as dezenas de olhares que se voltavam para eles. — Comigo, seja apenas minha.

O choque no pátio foi quase palpável. Samara, a menina "perfeita" e doce, sendo beijada daquela forma pelo "rebelde" obcecado que todos temiam ou desejavam de longe. Quando eles se separaram, Asher manteve o braço sobre os ombros dela, guiando-a para dentro do prédio como se estivesse desfilando com um troféu conquistado em batalha.

As primeiras aulas foram um borrão. Samara sentia os olhares queimando suas costas. No intervalo, ela se refugiou em uma mesa mais afastada, mas não demorou para que sua melhor amiga, a dona da festa de aniversário, se aproximasse com os olhos arregalados.

— Samara! O que foi aquilo no estacionamento? E... meu Deus, o que é isso no seu pescoço? — a amiga exclamou, baixando a voz no final.

Samara sentiu o rosto queimar, mas antes que pudesse inventar uma desculpa gentil, a cadeira ao seu lado foi puxada com brutalidade. Asher se sentou, ignorando completamente a presença da outra garota. Ele colocou um suco de maracujá na frente de Samara.

— Você não comeu nada no café — ele disse, ignorando a amiga dela como se fosse fumaça. — Beba.

— Asher, eu estou conversando com a minha amiga — Samara tentou intervir, sentindo a tensão subir.

Ele finalmente olhou para a garota, um olhar tão frio e cortante que a menina recuou um passo.

— A conversa acabou — Asher disse de forma simples. — Samara tem coisas mais importantes para se concentrar agora.

A amiga, ofendida e assustada, saiu apressada. Samara suspirou, sentindo aquela velha vontade de se isolar, de correr para algum lugar onde pudesse chorar por estar magoando as pessoas ao seu redor. Ela começou a se levantar, mas a mão de Asher a prendeu no lugar.

— Não — ele disse, a voz subitamente suave, mas firme. — Lembre-se da promessa, Sam. Você não vai se esconder. Se você está brava comigo, grite comigo. Se quer chorar, chore aqui. Mas não saia de perto de mim.

— Você está afastando todo mundo, Asher! — ela explodiu em um sussurro sofrido. — Eu não sou um objeto que você pode trancar em uma caixa.

— Eu sei que não é — ele respondeu, aproximando o rosto do dela, a intensidade de seus olhos pretos quase a fazendo esquecer como se respira. — Um objeto não me faria perder o sono. Um objeto não me faria sentir essa fome constante. Eu estou te protegendo do que eles são, e me protegendo do que eu sou capaz de fazer se alguém te tirar de mim.

— Isso é loucura — ela murmurou, mas sua mão subitamente buscou a dele por baixo da mesa, entrelaçando seus dedos.

— É a nossa loucura — ele sorriu, aquele sorriso quebrado e lindo.

O resto do dia seguiu um padrão de confronto silencioso. Asher não a deixou sozinha por um segundo. Ele a esperava na porta de cada sala de aula, marcando território com sua simples presença física. No final do dia, quando o sinal tocou, Samara sentia-se exausta emocionalmente, mas havia algo de libertador em não ter que manter a fachada de "garota perfeita" para ninguém.

Ao chegarem ao carro, Asher não deu partida. Ele ficou olhando para o volante por um longo tempo, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o couro.

— O que foi? — perguntou Samara, tocando o braço dele.

— Eu vi — ele disse, a voz carregada de uma fúria contida. — Na aula de literatura. Aquele moleque, o Miller. Ele ficou olhando para a marca no seu ombro. Ele estava imaginando como ela foi feita.

— Asher, ele estava apenas olhando...

— Ele estava cobiçando o que é meu! — Asher gritou, batendo no volante. O som ecoou no espaço fechado do carro. — Eu quero arrancar os olhos dele, Samara. Eu quero que ninguém mais te veja.

Samara sentiu um arrepio. A obsessão de Asher era um monstro que ela tinha despertado, e agora não sabia se podia controlá-lo. Ela se inclinou, pegando o rosto dele entre as mãos, forçando-o a olhá-la. Os olhos dele estavam vermelhos, uma mistura de desejo e demência.

— Olhe para mim, Asher — ela pediu, a voz gentil e firme. — Ele pode olhar o quanto quiser, mas ele não sabe como é o seu toque. Ele não sabe o que você sussurra para mim no escuro. Só você tem isso. Só você me tem.

Asher pareceu desinflar sob o toque dela. Ele fechou os olhos, encostando a testa na dela, a respiração pesada.

— Eu sou doente por você, Sam — ele confessou, a voz quebrada. — Eu não sei ser de outro jeito. Eu passei anos te querendo em silêncio, e agora que eu te provei... eu sinto que vou morrer se você se afastar um centímetro.

— Eu não vou a lugar nenhum — ela prometeu, embora uma parte dela soubesse que aquele amor era uma corda bamba sobre um abismo. — Mas você precisa me deixar respirar. O favor que você me pediu... de não chorar sozinha... eu vou cumprir. Mas você tem que me prometer que vai tentar não destruir tudo ao nosso redor.

Asher deu um riso amargo e a beijou com uma urgência que dizia que ele não podia prometer nada. Ele ligou o carro e, em vez de levá-la para casa, dirigiu em direção à estrada que levava ao mirante da cidade, um lugar isolado e cercado por árvores densas.

— O que estamos fazendo aqui? — Samara perguntou quando ele estacionou em um recuo escondido pela vegetação.

— Faltam dez minutos para o intervalo de meia hora que eu estabeleci — ele disse, a voz voltando àquele tom safado e perigoso que a desarmava completamente. — E eu não acho que consigo esperar até chegarmos ao meu apartamento.

Ele puxou o banco dela para trás com um solavanco e, antes que Samara pudesse protestar, ele já estava sobre ela, as mãos grandes explorando as curvas que ele agora conhecia de cor. A saia do uniforme foi levantada com impaciência, e o som da chuva que começava a cair novamente no teto do carro criou uma sinfonia de isolamento.

— Aqui? Asher, alguém pode ver... — ela gemeu, mesmo enquanto suas pernas se envolviam na cintura dele.

— Que vejam — ele rosnou contra os lábios dela. — Que vejam que você é o meu vício. Que vejam que eu não consigo passar uma hora sem te possuir.

Naquele momento, envolta pelo cheiro de estofado de carro, chuva e o perfume amadeirado de Asher, Samara compreendeu que sua vida anterior tinha acabado. Não havia mais espaço para a garota que se escondia para sofrer. Agora, ela era o centro do universo de um homem que a amava com uma violência poética, uma obsessão que a consumia e a libertava ao mesmo tempo.

E enquanto o carro balançava sob o peso de sua entrega, Samara percebeu que, por mais perigoso que Asher fosse, ela nunca se sentira tão viva. O desafio do "verdade ou consequência" não fora apenas uma brincadeira; fora o início de um eclipse, onde a luz dela e a escuridão dele se fundiam em algo novo, algo que nenhum deles estava disposto a deixar morrer.

— Trinta minutos, Samara — ele arfou, enterrando-se nela com uma força que a fez ver estrelas sob o céu nublado. — O tempo nunca para quando se trata de você.

E ela, agarrando-se aos ombros largos dele, só pôde concordar, perdida no prazer e na certeza de que, para o bem ou para o mal, ela agora pertencia ao caos delicioso que era ser amada por Asher.