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Sombra de amor

O Eco do Sol no Abismo

O silêncio da madrugada no Pequeno Palácio era, geralmente, o único momento em que a mente de Clara encontrava paz. O peso do corpo de Aleksander ao seu lado, o calor que emanava de sua pele e a cadência rítmica de sua respiração eram a sua âncora. Naquela noite, porém, o frio a despertou.

Ela estendeu a mão, tateando o lado esquerdo da cama, esperando encontrar o linho aquecido e a musculatura firme do General. Em vez disso, seus dedos encontraram apenas o vazio e lençóis que já começavam a esfriar. Clara abriu os olhos, piscando contra a penumbra. A porta dos aposentos estava entreaberta, um fio de luz pálida das tochas do corredor cortando a escuridão do quarto.

Ele se fora. De novo.

Nos últimos dias, a ansiedade de Clara vinha crescendo como uma maré silenciosa. Seu corpo parecia estranho; seus sentidos estavam aguçados demais, e uma náusea leve, acompanhada de flutuações de humor que ela não conseguia controlar, a deixava constantemente à beira de um colapso. O fato de Aleksander estar obcecado com as notícias de Keramzin — a busca pela tal órfã que poderia ser a nova Conjuradora — só piorava a sensação de que ela estava sendo deixada de lado, ou pior, protegida como um objeto frágil que não serve para o combate.

A raiva, um sentimento que raramente a dominava, borbulhou em seu peito. Ele prometera que a noite seria deles. Ele prometera descanso.

Ela se levantou, ignorando o roupão de seda e vestindo apenas uma camisola de algodão fino que marcava suas curvas generosas, os pés descalços contra o mármore frio. Ela não pensou nas consequências; a insegurança, misturada com uma irritação irracional e hormonal, a impulsionava.

Clara atravessou os corredores desertos, seguindo o rastro quase imperceptível de sombras que Aleksander deixava para trás quando estava tenso. Ela sabia para onde ele tinha ido: a Sala do Conselho, o lugar onde o destino de Ravka era traçado em mapas manchados de sangue.

Ao se aproximar das grandes portas de carvalho, ela ouviu vozes baixas e urgentes.

— ...os rastreadores confirmaram, General. Ela está em trânsito. Se Fjerda souber o que ela representa antes de cruzarmos a Dobra, perderemos a única chance em séculos — a voz de Ivan era tensa, desprovida de sua habitual calma clínica.

— Eu não me importo com os riscos — a voz de Aleksander cortou o ar como uma lâmina. — Tragam-na para cá. Viva. Se um único fio de cabelo daquela garota for tocado pelos drüskelle, eu mesmo farei com que os responsáveis implorem pela morte.

Clara empurrou as portas com uma força que não sabia que possuía. O estrondo do metal contra a parede ecoou pelo salão, interrompendo a reunião abruptamente.

Lá estavam eles: Aleksander, sentado à cabeceira, cercado por Ivan, Zoya e dois outros oficiais de alto escalão. O General levantou o olhar, a expressão de comando endurecida em seu rosto, mas, ao ver Clara, seus olhos se arregalaram em choque e uma preocupação imediata.

— Clara? O que está fazendo aqui? — perguntou ele, levantando-se rapidamente.

— Você saiu — disse ela, a voz trêmula, ignorando os olhares desdenhosos de Zoya e a surpresa de Ivan. — Você saiu sem dizer nada. De novo.

— É um assunto de segurança nacional, Clara — disse Zoya, cruzando os braços, os olhos azuis faiscando de irritação. — O General tem responsabilidades que vão além de aquecer sua cama.

O insulto atingiu Clara como um chicote. Por semanas, ela engolira o veneno de Zoya, a sensação de ser "a mulher gorda e inútil" que o General mantinha por capricho. Mas hoje, algo dentro dela se rompeu. A pressão no peito, aquele pássaro enjaulado que Baghra mencionara, não apenas bateu as asas; ele quebrou a gaiola.

— Cale a boca, Zoya — sibilou Clara.

— Como disse? — Zoya deu um passo à frente, o ar ao redor dela começando a girar com a pressão do vento.

— Eu disse... para calar... a boca! — gritou Clara.

No momento em que o grito escapou de sua garganta, a Sala do Conselho foi inundada por uma luz branca e cegante. Não era o brilho suave de uma manhã de primavera; era o clarão de uma supernova, uma explosão de energia pura que emanou do corpo de Clara.

Os mapas sobre a mesa entraram em combustão instantânea, transformando-se em cinzas. Zoya foi lançada para trás pela onda de choque, e Ivan teve que cobrir os olhos, desviando o rosto do brilho insuportável. Aleksander, porém, permaneceu imóvel. Ele não usou as sombras para se proteger; ele apenas observou, hipnotizado, a beleza terrível da mulher que amava manifestando o poder que ela tanto temia.

O brilho durou apenas alguns segundos, mas pareceu uma eternidade. Quando a luz finalmente se dissipou, a sala estava mergulhada em uma penumbra esfumaçada, com o cheiro de papel queimado pairando no ar.

Clara caiu de joelhos, ofegante. Suas mãos tremiam violentamente, e ela olhou para as próprias palmas, que ainda emitiam pequenos fios de fumaça dourada. O horror a atingiu como uma avalanche.

— Não... não, não, não — soluçou ela, cobrindo o rosto com as mãos. — O que eu fiz? Aleksander, eu sinto muito... eu não queria...

Ela começou a chorar convulsivamente, o corpo sacudido pelo choque. O silêncio na sala era absoluto, interrompido apenas pelos soluços dela. Zoya se levantava com dificuldade, a expressão de deboche substituída por um terror reverencial.

Aleksander atravessou a sala em dois passos e se ajoelhou à frente de Clara. Ele não a repreendeu. Ele não celebrou o fato de ela finalmente ter usado o poder. Ele simplesmente a envolveu em um abraço protetor, ignorando os outros presentes.

— Saiam todos — ordenou ele, sem desviar os olhos de Clara. — Agora!

Os oficiais e Grishas saíram apressadamente, fechando as portas e deixando os dois sozinhos entre as cinzas do que fora uma estratégia de guerra.

— Eu estraguei tudo — soluçou Clara contra o peito dele, as lágrimas molhando o kefta negro dele. — Eu queimei os mapas... eu quase machuquei aquelas pessoas... Aleksander, eu sou um monstro, eu sabia que isso ia acontecer...

— Shhh, olhe para mim — pediu ele, segurando o queixo dela com delicadeza, forçando-a a encarar seus olhos cinzentos, que agora estavam úmidos de uma emoção rara. — Você não é um monstro. Você é perfeita. O que aconteceu foi apenas o seu poder reagindo ao que você está sentindo.

— Mas eu não consigo controlar! — ela exclamou, a voz quebrada. — E esses sentimentos... eu ando tão irritada, tão triste, e meu corpo parece que não me pertence. Eu te odeio por me deixar sozinha, e depois me odeio por sentir isso... eu estou ficando louca, Aleksander.

Ele a puxou para mais perto, beijando o topo de sua cabeça. Ele percebera algo nas últimas semanas, algo que a própria Clara, em sua insegurança, ainda não notara. A mudança em seu cheiro, a sensibilidade de seus seios, a flutuação de seu humor e, agora, a explosão de um poder que antes estava adormecido e contido.

— Clara, meu amor... — ele sussurrou, afastando uma mecha de cabelo suado de sua testa. — Há quanto tempo você tem se sentido assim? Com essas náuseas e esse cansaço?

— Algumas semanas — respondeu ela, soluçando menos agora, mas ainda trêmula. — Por quê? Você acha que a luz está me deixando doente?

Aleksander soltou um riso baixo, um som cheio de uma maravilha que Clara nunca ouvira antes. Ele colocou a mão espalmada sobre o ventre dela, um gesto tão carregado de significado que o coração de Clara pareceu parar.

— A luz não está te deixando doente, Clara. Ela está protegendo o que está crescendo aqui dentro.

Clara congelou. Seus olhos castanhos se arregalaram, e ela olhou para a mão dele sobre seu corpo.

— O quê? Não... Aleksander, isso é impossível... Grishas raramente...

— Raramente, mas não nunca — corrigiu ele, a voz vibrando de orgulho e uma possessividade nova. — Eu sou um amplificador vivo, e você é o Sol. Criamos algo que o mundo nunca viu. Você não está perdendo o controle, querida. Você está apenas... expandindo. Para dois.

O peso da revelação fez a raiva de Clara desaparecer, substituída por um medo avassalador, mas também por uma estranha sensação de completude. Ela não era apenas uma mulher comum, e não era apenas uma Conjuradora. Ela era a mãe do herdeiro das sombras e da luz.

— É por isso que você está procurando a outra? — perguntou ela em um sussurro. — Para que eu possa... para que eu possa ter esse filho em paz?

Aleksander beijou as palmas das mãos dela, que ainda cheiravam a ozônio e sol.

— Sim. Eu preciso de uma ferramenta para a Dobra, para que você nunca precise ir para a guerra. Eu farei qualquer coisa, Clara. Destruirei nações ou construirei impérios, mas você e essa criança ficarão seguros. Eu te prometo.

Clara encostou a cabeça no ombro dele, sentindo-se exausta. A culpa pelo que fizera na sala ainda estava lá, mas o calor de Aleksander a acalmava.

— Me desculpe por ter invadido a reunião — murmurou ela. — Eu agi como uma criança.

— Você agiu como uma rainha defendendo o seu território — ele sorriu de lado, levantando-a nos braços com facilidade. — E, para ser sincero, ver Zoya perder a compostura daquele jeito valeu cada mapa queimado.

Ele a carregou de volta para os aposentos, o caminho agora iluminado não por tochas, mas pela promessa de um futuro que nenhum deles previra. Naquela noite, Aleksander não voltou para a Sala do Conselho. Ele ficou na cama, vigiando o sono de Clara e mantendo a mão sobre seu ventre, enquanto as sombras ao redor deles pareciam, pela primeira vez, dançar em harmonia com a luz que ela carregava.

A busca pela órfã de Keramzin continuaria, mas a prioridade do Herege Negro havia mudado. Ele tinha o seu sol, e agora, o seu sol estava gerando um novo amanhecer. Nada no mundo, nem a Dobra, nem os reis, nem os santos, impediria Aleksander Kirigan de proteger o que era seu.