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Sombra de amor

O Eclipse da Vontade

A carruagem negra, ostentando o brasão da águia de duas cabeças, atravessou os portões do Pequeno Palácio sob um céu carregado de nuvens cinzentas. Para Aleksander Kirigan, aquela fora a semana mais longa de sua existência centenária. Sete dias no acampamento militar, cercado pelo cheiro de pólvora, suor e a incompetência de generais comuns, haviam testado o limite de sua sanidade. Sem o calor de Clara, sem o aroma de baunilha que emanava de sua pele e sem a paz que só o corpo macio dela lhe proporcionava, as sombras dentro dele haviam se tornado famintas e erráticas.

Ele desceu da carruagem antes mesmo que o lacaio pudesse abrir a porta. Seus olhos, no entanto, não buscaram as janelas de Clara de imediato. Atrás dele, soldados escoltavam uma figura pequena, envolta em um casaco militar grande demais para ela, com olhos arregalados de puro terror. Alina Starkov. A Conjuradora do Sol que os rastreadores finalmente haviam capturado.

Aleksander sentia o poder dela pulsando, uma nota aguda e dissonante, mas tudo o que ele queria era o silêncio de seus aposentos. Ele caminhou a passos largos, a capa negra esvoaçando como as asas de um corvo, ignorando as saudações dos Grishas que se curvavam à sua passagem.

— Levem-na para a sala de audiências privada — ordenou ele a Ivan, sua voz ríspida como gelo quebradiço. — E tragam comida. Ela parece que vai desmaiar a qualquer momento.

Ele não esperou resposta. Subiu as escadas em direção à ala leste, o coração martelando contra as costelas. Quando abriu a porta do quarto, o alívio foi tão intenso que ele quase cambaleou. Clara estava sentada perto da janela, um livro esquecido no colo, observando a movimentação no pátio. Ao vê-lo, ela se levantou, e o sorriso tímido que iluminou seu rosto arredondado foi o bálsamo que ele tanto buscava.

— Você voltou — sussurrou ela.

Aleksander cruzou o quarto em um instante, envolvendo-a em um abraço desesperado. Ele enterrou o rosto na curva do pescoço dela, inalando profundamente.

— Eu quase enlouqueci — murmurou ele contra a pele dela. — O mundo é um lugar insuportável quando não estou com você.

Clara retribuiu o abraço, sentindo a tensão nos ombros dele. Ela sabia que ele trouxera a outra garota. Ela vira a escolta lá de cima. Mas, por enquanto, ela apenas o segurou, sentindo o pequeno segredo ainda não revelado pulsando em seu próprio ventre. Ela ainda não estava pronta para contar sobre o bebê, nem sobre a explosão de luz na sala do conselho. Queria que ele a visse apenas como Clara por mais alguns instantes.

***

Uma hora depois, a realidade se impôs. Aleksander precisava apresentar Alina ao palácio, mas a garota estava em um estado de choque catatônico, recusando-se a comer ou falar. Em um gesto de rara concessão, ele permitiu que Clara o acompanhasse até a antecâmara onde Alina estava detida.

Quando as portas se abriram, Alina deu um salto, recuando até as sombras de um canto. Seus olhos saltavam de Aleksander para Clara, cheios de uma desconfiança selvagem.

— Alina — disse o General, sua voz recuperando o tom de comando que fazia Ravka tremer. — Esta é Clara. Ela cuidará para que você seja instalada adequadamente.

Alina não respondeu. Ela olhava para Clara, notando as curvas suaves da mulher, o vestido de seda que parecia confortável demais para aquele ambiente de guerra e a forma como o General Kirigan mantinha uma mão possessiva na cintura dela.

— Aleksander — disse Clara, sua voz doce, mas firme. — Deixe-nos sozinhas por um momento. Ela está assustada.

O General franziu o cenho. As sombras ao redor de seus dedos se agitaram levemente.

— Eu tenho muito a discutir com ela, Clara. O tempo é curto.

Clara virou-se para ele, colocando uma mão em seu peito, sobre o bordado de eclipse. Ela o olhou nos olhos, sem um pingo de medo, com uma autoridade silenciosa que deixou os guardas na porta boquiabertos.

— Saia do quarto, Aleksander. Vá tomar um banho, beba um vinho e descanse. Eu cuido disso. Agora.

Houve um silêncio mortal na sala. Ivan, que observava da porta, prendeu a respiração, esperando que o General explodisse. Mas, para a surpresa de todos, as sombras de Aleksander se recolheram. Ele suspirou, uma expressão de rendição suavizando suas feições duras. Ele inclinou-se e beijou a testa de Clara com uma ternura quase devocional.

— Como desejar, minha querida — disse ele em voz baixa. — Estarei nos meus aposentos. Não demore.

Ele se virou e saiu, fazendo um sinal para que os guardas o seguissem e fechassem as portas.

Alina Starkov estava paralisada. Ela olhava para a porta fechada e depois para Clara, como se estivesse vendo um fantasma.

— Você... você mandou o Herege Negro sair — sussurrou Alina, a voz falhando. — E ele... ele obedeceu.

Clara sorriu gentilmente e caminhou em direção à mesa onde uma bandeja de frutas e pães permanecia intocada.

— Ele é apenas um homem, Alina. Um homem cansado e, às vezes, um pouco dramático demais. Venha, você precisa comer.

Alina deu um passo cauteloso para a frente, mas parou, a expressão de pânico voltando.

— Não fale comigo. Se você falar comigo, se for legal comigo, ele vai matar você. Eu vi o que ele faz. Ele é um monstro, ele quer me usar... ele vai destruir você se achar que você está me ajudando.

Clara sentiu uma pontada de tristeza. Ela se aproximou de Alina, ignorando o aviso, e segurou as mãos frias e trêmulas da garota.

— Ele não vai me machucar, Alina. Eu prometo. Aleksander me ama. De uma forma que nem ele entende direito, mas ele me ama.

— Você não entende! — Alina puxou as mãos de volta. — Ele está atrás de uma Conjuradora do Sol. Ele disse que eu sou a única que pode salvar o reino, mas ele me olha como se eu fosse uma arma. Por que você está aqui? Você é uma prisioneira também?

Clara hesitou. Ela olhou para as próprias mãos, sentindo o calor da luz escondida sob sua pele, e pensou no filho que carregava, o herdeiro de toda aquela complexidade. Ela não podia contar a Alina quem ela era, nem o que podia fazer. Se fizesse isso, colocaria um alvo nas costas de seu bebê antes mesmo dele nascer.

— Eu estou aqui porque eu o amo — disse Clara, escolhendo as palavras com cuidado. — E porque eu sei que, por trás de toda essa escuridão e desses planos de guerra, existe um homem que só quer não estar mais sozinho. Ele não vai te machucar se você cooperar, Alina. Ele só quer destruir a Dobra.

— E a que custo? — perguntou Alina, as lágrimas começando a cair. — Ele me tirou de casa. Ele me tirou do meu melhor amigo.

Clara suspirou e puxou a garota para um abraço. Alina ficou rígida a princípio, mas o calor maternal de Clara e o conforto de seu corpo macio acabaram por quebrar a resistência da órfã. Alina chorou silenciosamente no ombro de Clara.

— Eu sei que parece o fim do mundo agora — murmurou Clara, acariciando os cabelos de Alina. — Mas você está segura aqui. Eu vou garantir que ninguém te pressione mais do que o necessário. Aleksander pode ser implacável com o mundo, mas ele me ouve.

Alina se afastou um pouco, limpando o rosto com a manga do casaco.

— Por que ele te ouve? Você não parece... — ela parou, corando, percebendo que ia comentar sobre a aparência de Clara.

Clara riu, um som leve e genuíno.

— Eu não pareço uma Grisha poderosa? Eu sei. Sou apenas uma mulher gordinha que gosta de livros e de paz. Mas, para ele, Alina, eu sou o lugar onde a guerra termina. Ele não precisa que eu seja uma Santa. Ele só precisa que eu seja dele.

Alina olhou para Clara com uma mistura de inveja e admiração. Ela vira a forma como o General olhara para aquela mulher — não com a ganância com que olhara para ela e seu poder, mas com uma vulnerabilidade que beirava a adoração.

— Você tem sorte — disse Alina baixinho.

— Sorte é uma palavra complicada no Pequeno Palácio — respondeu Clara, sentindo uma leve náusea retornar, um lembrete de que sua vida estava prestes a mudar drasticamente. — Mas eu vou te ajudar a passar por isso. Coma um pouco, descanse. Amanhã as coisas parecerão menos assustadoras.

Clara ajudou Alina a se sentar e a serviu de um pouco de chá. Ela ficou ali até que a garota terminasse de comer, conversando sobre coisas triviais, sobre as flores do jardim e a biblioteca do palácio, evitando qualquer menção a poderes ou profecias.

Quando Clara finalmente saiu do quarto, encontrou Aleksander encostado na parede do corredor, esperando por ela. Ele já havia trocado o kefta de viagem por um roupão de seda negra, os cabelos ainda úmidos do banho.

— Ela está mais calma? — perguntou ele, envolvendo a cintura de Clara e puxando-a para perto.

— Está. Ela é apenas uma criança assustada, Aleksander. Seja paciente.

— Eu não tenho paciência para o mundo, Clara. Só para você.

Ele a beijou com uma fome renovada, as mãos descendo pelas curvas de seus quadris com uma familiaridade que sempre fazia as pernas de Clara fraquejarem.

— Vamos para o quarto — murmurou ele contra os lábios dela. — Eu preciso sentir que você é real.

Enquanto ele a conduzia pelo corredor, Clara olhou uma última vez para a porta de Alina. Ela sabia que estava jogando um jogo perigoso. O General buscava a luz em Alina para poupar Clara, sem saber que a luz que ele tanto desejava já estava em seus braços, multiplicando-se em segredo.

Por enquanto, o segredo estava seguro. Mas Clara sabia que, quando o sol finalmente nascesse dentro dela, nem mesmo as sombras mais profundas de Aleksander seriam capazes de esconder a verdade. E ela só podia esperar que o amor que ele sentia pela mulher fosse forte o suficiente para perdoar a Santa.