Sombra de amor
O Peso da Coroa de Luz
O Pequeno Palácio parecia respirar em uníssono com o humor de seu mestre, e naquela manhã, a atmosfera estava carregada de uma eletricidade estática que fazia os pelos dos braços dos Grishas se arrepiarem. Aleksander Kirigan não caminhava; ele deslizava pelos corredores como uma tempestade contida, suas sombras chicoteando as paredes conforme ele passava. Desde que Clara revelara a gravidez e a extensão de seu poder contido, o General havia se transformado. A proteção que ele oferecia antes, que já era obsessiva, tornara-se uma redoma asfixiante.
Ele entrou nos aposentos reais sem bater, encontrando Clara sentada à mesa de café. Ela parecia mais radiante do que nunca, a pele viçosa e os olhos brilhantes, mas havia um cansaço sutil em seu sorriso ao vê-lo entrar com aquele olhar de quem estava pronto para travar uma guerra contra o próprio destino.
— Você não deveria ter se levantado da cama sem me chamar — disse ele, aproximando-se e colocando as mãos sobre os ombros dela, apertando-os com uma urgência quase dolorosa.
— Aleksander, eu estou grávida, não doente — respondeu Clara, cobrindo as mãos dele com as suas. — E o sol ainda está aqui, bem guardado. Não houve mais explosões.
— Não é com a luz que eu me preocupo agora — murmurou ele, ajoelhando-se diante dela e encostando a testa em seu ventre, ainda discreto sob o tecido do vestido de seda. — É com o esforço. O seu corpo está sustentando duas vidas Grishas imensamente poderosas. Eu sinto o consumo de energia daqui, Clara. Eu sinto você se desgastando para manter esse disfarce.
Clara suspirou, acariciando os cabelos negros dele. Era verdade. Manter o poder do Sol suprimido enquanto seu corpo nutria o herdeiro das sombras era como tentar segurar um vulcão com as mãos nuas. Mas ela preferia o desgaste à alternativa de ser a peça central nos planos militares de Ravka.
— Eu estou bem — insistiu ela. — Como está a garota? Alina?
O rosto de Aleksander escureceu instantaneamente.
— Teimosa. Incompetente. Ela luta contra o próprio dom como se fosse uma maldição, enquanto o tempo se esgota. Os rastreadores de Fjerda estão cada vez mais ousados. Eu preciso que ela evoque a luz, Clara. Eu preciso que ela seja o que você se recusa a ser, para que eu possa terminar isso e trancar você e nosso filho longe de todo esse caos.
— Você está sendo duro com ela — ponderou Clara. — Ela é apenas uma órfã que nunca soube o que era.
— Eu não tenho o luxo da paciência! — exclamou ele, levantando-se abruptamente. As sombras no canto do quarto cresceram, tornando-se garras negras. — Cada dia que ela falha em seu treinamento é um dia a mais que você corre risco. Se ela não servir como o escudo de Ravka, o mundo virá atrás de você. E eu queimarei este continente inteiro antes de deixar que encostem um dedo em você.
Clara estremeceu. O amor de Aleksander era um oceano profundo, mas suas águas eram escuras e violentas. Ele não a amava apesar de sua insegurança ou de seu corpo; ele a amava com uma fome que consumia qualquer outra moralidade. O bebê apenas intensificara esse instinto.
***
Enquanto isso, nos jardins do palácio, Alina Starkov observava a varanda dos aposentos do General com uma mistura de exaustão e ressentimento. Seu corpo doía devido às horas de treinamento com Baghra e aos testes exaustivos de Aleksander. Ela se sentia como um animal de exposição, uma ferramenta que estava sendo afiada contra a própria vontade.
— Você olha para lá como se esperasse que o prédio desabasse — disse uma voz ríspida atrás dela.
Alina virou-se e encontrou Zoya Nazyalensky. A Conjuradora do Vento parecia irritada, como de costume, mas havia algo diferente em seu olhar hoje — uma pontada de escárnio que não era direcionada a Alina.
— Eu só queria entender por que ele me pressiona tanto enquanto ela fica lá em cima, cercada de luxo e protegida como se fosse feita de vidro — desabafou Alina, as palavras saindo carregadas de amargura. — Clara é gentil, eu sei, mas ela é apenas... uma acompanhante. Por que eu tenho que carregar o peso do mundo enquanto ela vive em um conto de fadas?
Zoya soltou uma risada curta e amarga, aproximando-se de Alina.
— Você é realmente cega, não é, Starkov? Ou talvez o brilho da sua própria importância a tenha deixado estúpida.
— Do que você está falando? — perguntou Alina, franzindo o cenho.
— Você acha que o General Kirigan, o homem mais ambicioso e calculista que já pisou em Ravka, manteria uma mulher "comum" ao seu lado por puro sentimentalismo? — Zoya inclinou-se, a voz reduzida a um sussurro venenoso. — Clara não é uma acompanhante. Ela é o Sol. O verdadeiro Sol. Muito mais potente do que você jamais sonhou ser.
O mundo de Alina pareceu girar. Ela se lembrou do calor que sentira quando Clara a abraçara, da forma como a luz parecia segui-la pelos corredores, e de como Aleksander a olhava — não com expectativa, mas com uma reverência quase temerosa.
— Ela é uma Conjuradora? — sussurrou Alina, o choque dando lugar a uma fúria incandescente. — Então por que eu estou aqui? Por que ele me arrastou de Keramzin se ele já tinha o que precisava?
— Porque ele a ama — disse Zoya, e pela primeira vez, havia uma nota de inveja genuína em sua voz. — Ele a ama tanto que se recusa a deixá-la sofrer o fardo de ser uma Santa. Ele prefere sacrificar você, Ravka e a si mesmo do que ver Clara ter que usar o poder dela para a guerra. Ele está usando você como um escudo de carne para protegê-la.
Alina sentiu o sangue ferver. A humilhação de ser uma "substituta", uma ferramenta descartável para poupar a mulher que o General realmente valorizava, era demais para suportar. Sem pensar nas consequências, ela se virou e correu em direção ao palácio. Ela não foi para a sala de treinamento. Ela foi para os aposentos dele.
***
Clara estava sozinha quando a porta foi escancarada. Alina entrou, o rosto vermelho de raiva e esforço, as mãos faiscando com pequenos lampejos de luz descontrolada.
— É verdade? — gritou Alina, parando no meio do quarto.
Clara se levantou, assustada, colocando a mão instintivamente sobre o ventre.
— Alina? O que aconteceu? Onde estão os guardas?
— Os guardas me deixam passar porque acham que eu sou a salvação de Ravka! — Alina riu, uma nota histérica em sua voz. — Mas eu sou apenas um fantoche, não é? Você é a Conjuradora. Você tem o poder de destruir a Dobra, de acabar com essa guerra, de me deixar voltar para casa... e você fica aqui, escondida atrás dele!
Clara empalideceu. O segredo que ela tanto tentara preservar fora arrancado de forma brutal.
— Alina, escute... não é tão simples assim...
— Não é simples? — Alina deu um passo à frente, e a luz em suas mãos brilhou mais forte. — Eu estou sendo torturada todos os dias por aquela velha na caverna! Eu sou odiada pelas outras Grishas! O General me olha como se eu fosse um objeto que ele não vê a hora de usar e descartar! E tudo isso porque você é covarde demais para exercer o seu papel?
— Eu não sou covarde! — a voz de Clara subiu de tom, e o ar na sala começou a aquecer perigosamente. — Eu fiz uma escolha. Eu não quero ser uma arma! Eu não quero que minha vida seja definida pelo que eu posso destruir!
— Mas você deixa que a MINHA vida seja definida por isso! — rebateu Alina. — Você deixa que ele me use para que você possa continuar sendo a "queridinha" dele? Você sabe o que ele planeja fazer comigo? Ele vai me levar para a Dobra, ele vai me forçar a abrir um caminho... e ele faz tudo isso sorrindo porque sabe que VOCÊ está segura aqui, comendo uvas e lendo livros!
— Basta!
A voz não veio de Clara.
As sombras na sala se condensaram em um piscar de olhos, formando uma barreira sólida entre Alina e Clara. Aleksander surgiu do nada, sua presença preenchendo o quarto como uma névoa sufocante. Seus olhos estavam negros, desprovidos de qualquer vestígio de humanidade.
— Saia daqui, Alina — disse ele, sua voz um sussurro que prometia a morte.
— Por que, General? — desafiou Alina, embora tremesse da cabeça aos pés. — Com medo de que eu conte para o resto do palácio que a sua "esposa" é a Santa que eles estão esperando? Com medo de que eles percebam que você está traindo Ravka para proteger um capricho pessoal?
Aleksander moveu a mão em um gesto cortante, e as sombras envolveram o pescoço de Alina, erguendo-a do chão.
— Aleksander, não! — gritou Clara, correndo até ele e segurando seu braço. — Solte-a! Você vai matá-la!
— Ela ousou ameaçar você — sibilou ele, sem desviar o olhar de Alina, que lutava por ar. — Ela ousou entrar aqui e despejar sua mediocridade sobre a mulher que eu amo. Eu deveria ter cortado a língua dela no momento em que a encontramos.
— Se você a matar, você perde tudo! — Clara implorou, as lágrimas escorrendo pelo rosto. — Por favor, Aleksander... pelo nosso filho. Não deixe que ele comece a vida cercado por um assassinato dentro de casa.
Ao ouvir a menção ao filho, a tensão nos ombros de Aleksander cedeu minimamente. Ele soltou Alina, que caiu no chão, tossindo e arquejando.
— Você vai voltar para o seu quarto — ordenou ele a Alina, sua voz agora mortalmente calma. — E se você abrir a boca para qualquer pessoa sobre o que sabe, eu não vou apenas matar você. Eu vou encontrar aquele rastreador, Malyen Oretsev, e vou torturá-lo lentamente diante dos seus olhos até que você implore para que eu termine com a vida dele. Você me entendeu?
Alina olhou para ele com um ódio puro, mas o medo pelo amigo foi maior. Ela assentiu, levantando-se com dificuldade e saindo do quarto sem olhar para trás.
Quando a porta se fechou, o silêncio que restou foi pesado e amargo. Aleksander virou-se para Clara, tentando tocá-la, mas ela recuou um passo.
— Ela tem razão, Aleksander — disse ela, a voz fraca. — Você está usando aquela menina.
— Eu estou protegendo a minha família — respondeu ele, aproximando-se novamente, desta vez com uma urgência febril. — Clara, entenda... o mundo é cruel. Se eles souberem de você, se souberem que você carrega um herdeiro meu... eles não verão uma Santa. Verão uma ameaça que precisa ser eliminada ou controlada. Alina é a distração perfeita. Ela é o alvo que eu ofereço ao mundo para que ninguém olhe para onde o verdadeiro tesouro está escondido.
— Mas a que custo? — perguntou ela, abraçando o próprio corpo. — Eu sinto que estou vivendo em uma mentira que fica cada vez mais perigosa.
Aleksander envolveu-a em seus braços, prendendo-a contra seu peito. Ele a apertou com uma força que demonstrava todo o seu pavor de perdê-la.
— Eu não me importo com o custo — sussurrou ele contra o ouvido dela. — Eu não me importo com Alina, com Ravka ou com as sombras. Eu só me importo com você. Eu aceito que você nunca use o seu poder, Clara. Eu aceito que você seja apenas minha. Mas, para isso, o mundo precisa de outra Conjuradora para odiar e seguir.
Ele a beijou com uma intensidade possessiva, um beijo que selava o destino de todos no palácio. Clara sentiu as sombras dele a envolverem, confortáveis e assustadoras ao mesmo tempo. Ela sabia que, a partir daquele momento, a proteção de Aleksander se tornaria uma prisão de ouro ainda mais rígida.
— Você é meu eclipse — murmurou ele, as mãos descendo para o ventre dela. — E ninguém vai tirar essa luz de mim.
Naquela noite, enquanto Aleksander dormia com a mão protetora sobre ela, Clara olhou para a escuridão do quarto. Ela podia sentir o bebê se mexendo, uma faísca de luz e sombra crescendo dentro dela. Ela amava o homem ao seu lado com cada fibra de seu ser, mas, pela primeira vez, ela se perguntou se o sol que ela carregava seria forte o suficiente para sobreviver ao homem que estava disposto a queimar o mundo apenas para mantê-la na sombra.
Lá fora, a Dobra das Sombras esperava. E no quarto ao lado, Alina Starkov planejava sua vingança. O jogo de espelhos de Aleksander Kirigan havia começado a rachar, e Clara sabia que, em breve, ela teria que escolher entre o amor que a protegia e a verdade que poderia libertar a todos.