Sombras
O Batismo da Agonia e a Redenção da Carne
A escuridão de Vermont não era silenciosa; ela sibilava. O vento lá fora fustigava as janelas do apartamento decrépito, mas o som que realmente perturbava Wandinha era o da respiração errática de Tyler na sala ao lado. Ela estava sentada em sua escrivaninha, tentando catalogar os segredos químicos do Círculo de Sangue, mas sua mente analítica estava sendo sabotada por uma irritação que ela não conseguia classificar.
Tyler estava bebendo. Ela sentia o cheiro acre do uísque barato atravessar a fresta da porta, misturando-se ao odor metálico de raiva e desespero que emanava dele desde o confronto no galpão. Wandinha sabia que a mente dele era um campo de batalha, mas ela desprezava a autodestruição como uma forma de protesto. Para ela, a dor deveria ser uma ferramenta de precisão, não um espetáculo desordenado.
Um estrondo de vidro quebrado ecoou, seguido por um silêncio absoluto e pesado.
Wandinha levantou-se. Seus passos eram leves, quase inexistentes, enquanto ela abria a porta da sala. A cena que encontrou desafiou sua compostura de mármore. Tyler estava sentado no chão, encostado no sofá velho. Uma garrafa estilhaçada jazia ao seu lado, mas não era o uísque que manchava o assoalho de madeira.
Era o sangue.
Um corte horizontal, profundo e cruel, rasgava o antebraço esquerdo de Tyler. Não era um arranhão de hesitação; era uma incisão feita com a força bruta de quem buscava silenciar o monstro interior através da mutilação da carne. O sangue bombeava ritmicamente, um jato escarlate que denunciava a gravidade da lesão.
— Tyler — o nome dele saiu como um suspiro quebrado, algo que Wandinha nunca permitiu que sua voz produzisse.
Ela se ajoelhou ao lado dele com uma urgência que nada tinha de clínica. Seus dedos pálidos mergulharam no sangue quente enquanto ela pressionava o corte com as mãos nuas. Tyler tinha a cabeça pendida para trás, os olhos vidrados em um delírio alcoólico e traumático.
— Eu só queria... que parasse — sussurrou ele, a voz arrastada, quase inaudível. — O Hyde... ele não para de rir de mim, Wandinha. Ele diz que eu sou apenas um erro... que você vai me descartar.
— Cale a boca — ordenou ela, e pela primeira vez, havia medo em sua voz. Não o medo de uma ameaça externa, mas o pavor visceral de que a luz nos olhos dele se apagasse para sempre. — Você não vai morrer. Eu não dou permissão para que você morra.
Wandinha sentiu uma pontada aguda em seu próprio peito, uma sensação física de estiramento que a fez perder o fôlego. Naquele momento, todas as suas teorias sobre o "vácuo emocional" e o "investimento estratégico" desmoronaram. Ver a vida de Tyler escorrer por entre seus dedos não era uma perda de patrimônio. Era a perda de si mesma. Ela percebeu, com o horror de uma epifania indesejada, que o amava. Não como os poetas românticos descreviam, mas como uma Addams ama: com uma possessividade que preferia a morte à separação, e uma devoção que via na escuridão do outro o seu único lar.
— Mão! — chamou ela, a voz firme apesar do pânico interno. — Traga o kit médico e toalhas limpas. Agora!
Com a ajuda da mão decepada, Wandinha improvisou um torniquete para estancar a hemorragia. Tyler estava empalidecendo, a pele tornando-se fria sob o toque dela. Ela o segurou pelo rosto, forçando-o a olhar para ela.
— Olhe para mim, Tyler Galpin. Se você fechar os olhos, eu juro que vou ao inferno buscar a sua alma apenas para torturá-la pessoalmente.
— Isso... soa adorável — murmurou ele, um sorriso pálido e trágico surgindo em seus lábios antes de sua cabeça pender para o lado.
Ela não perdeu tempo. Com uma força nascida do puro desespero, Wandinha o arrastou para o banheiro. O ambiente era pequeno e úmido, mas era o único lugar onde ela poderia conter a carnificina. Ela o sentou na beirada da banheira de ferro e começou a encher o reservatório com água morna.
— Você precisa ficar acordado — disse ela, enquanto retirava a camisa dele, agora encharcada e pesada. — A perda de sangue está induzindo um choque hipovolêmico.
Ela começou a lavar o ferimento. O corte era tão profundo que ela conseguia ver o brilho branco do osso e o feixe dos tendões. Wandinha pegou agulha e fio de sutura, seus dedos tremendo levemente — uma fraqueza que ela nunca se perdoaria.
— Vai doer — avisou ela.
— Nada dói mais do que a sua indiferença, Wandinha — respondeu ele, a consciência oscilando.
Ela começou a costurar. Cada ponto era um ato de contrição. Ela, que sempre pregara a beleza da dor, agora odiava cada espasmo que percorria o corpo de Tyler. Ela odiava que ele tivesse chegado a esse ponto para provar que era humano. Quando o último ponto foi dado e o ferimento devidamente enfaixado, ela soltou um suspiro longo, sentindo o peso de mil anos sobre seus ombros.
Tyler estava coberto de sangue, suor e o cheiro de álcool. Ele parecia um anjo caído que fora atropelado pela realidade.
— Venha — disse ela, a voz agora suave, quase terna. — Você precisa se limpar.
Ela o ajudou a entrar na banheira. A água morna rapidamente tornou-se rosada, lavando a sujeira e o trauma da pele dele. Wandinha ajoelhou-se ao lado da banheira, pegando uma esponja. Seus movimentos eram lentos e cuidadosos, como se estivesse manuseando o artefato mais valioso e frágil do mundo.
— Por que você está fazendo isso? — perguntou Tyler, os olhos agora mais focados, observando-a com uma vulnerabilidade excruciante. — Você disse que eu era um objeto. Por que cuidar de algo quebrado?
Wandinha parou o movimento da esponja em seu ombro. Ela olhou para ele, e a máscara de mármore finalmente se partiu, revelando uma dor que era tão profunda quanto o corte no braço dele.
— Porque eu menti — confessou ela, a voz baixa, vibrando com uma honestidade brutal. — Eu menti para você e para mim mesma. Você não é um objeto, Tyler. Você é a única coisa que me faz sentir que o meu coração não é apenas um órgão mecânico bombeando sangue.
Tyler estendeu a mão sã e tocou o rosto dela, limpando uma mancha de sangue que respingara em sua bochecha pálida.
— Você me ama, não ama? — ele perguntou, a esperança lutando contra o cansaço em sua voz.
Wandinha fechou os olhos sob o toque dele, inclinando a cabeça levemente.
— Eu odeio o fato de que você se tornou essencial para a minha existência — disse ela. — Eu odeio que a ideia de perder você me cause um pavor que nenhuma tortura medieval jamais conseguiu. Se isso é o que chamam de amor, então é a maldição mais terrível que já caiu sobre a minha linhagem.
Tyler soltou uma risada fraca, puxando-a para mais perto. Wandinha não resistiu. Ela apoiou a testa contra a dele, ignorando a água que molhava suas roupas pretas.
— É a nossa maldição — sussurrou ele. — Prometa que não vai me deixar no escuro de novo. Mesmo que eu tente me destruir... não me deixe ir.
— Eu não deixaria você ir nem se o próprio Ceifador viesse reivindicá-lo — afirmou ela. — Você é meu, Tyler Galpin. Por direito de conquista, por pacto de sangue e por essa estupidez romântica que agora nos une. Se você tentar se machucar novamente, eu mesma o acorrentarei à minha cama para garantir que você permaneça intacto.
— Isso soa como uma promessa interessante — murmurou ele, o calor voltando ao seu corpo enquanto a água o envolvia.
Wandinha continuou o banho dele em silêncio, um ritual de purificação que parecia lavar não apenas o sangue, mas também as mentiras que os separaram. Ela lavou o cabelo dele, os dedos massageando o couro cabeludo com uma doçura que surpreenderia qualquer um que conhecesse a "garota de gelo" de Nunca Mais.
Quando terminou, ela o ajudou a sair e o envolveu em uma toalha grande. Ela o guiou de volta para o quarto, mas desta vez, não houve discussões sobre espaço. Ela o deitou na cama e deitou-se ao lado dele, permitindo que ele envolvesse sua cintura com o braço enfaixado.
— Wandinha? — chamou ele, o sono finalmente começando a tomá-lo.
— Sim?
— Obrigado por me salvar de mim mesmo.
— Durma, Tyler — respondeu ela, puxando o cobertor sobre ambos. — Amanhã, continuaremos nossa guerra contra o mundo. Mas hoje... hoje somos apenas dois monstros tentando sobreviver à noite.
Ela ficou acordada por muito tempo, ouvindo o ritmo da respiração dele, vigiando o sono do homem que ela agora aceitava como sua alma gêmea sombria. Wandinha Addams aprendera uma lição valiosa naquela madrugada: o vazio que ela tanto prezava era vasto, mas não era nada comparado à imensidão de um coração que decidira bater por outra pessoa.
Vermont continuava fria e indiferente lá fora, mas dentro daquele quarto pequeno, o fogo que Tyler acendera em Wandinha queimava com uma chama negra e eterna. Eles eram o eclipse, a união improvável entre o gelo e a febre, e nada — nem a morte, nem o Hyde, nem os segredos de sangue — poderia separá-los novamente.