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Sombras

O Altar da Carne e o Silêncio das Lâminas

A chuva de Vermont não era como a de Jericho. Era uma cortina gélida, impiedosa, que parecia carregar o peso de séculos de segredos enterrados sob o granito. Dentro do apartamento alugado, o ar estava saturado com o cheiro de mofo e a eletricidade estática de uma tempestade que não acontecia lá fora, mas entre as quatro paredes descascadas.

Wandinha estava sentada à mesa, a luz fraca de uma lâmpada solitária esculpindo sombras profundas em seu rosto pálido. Ela limpava uma de suas adagas com um pedaço de seda preta, um movimento rítmico e hipnótico. Tyler estava parado junto à janela, observando o reflexo distorcido de si mesmo no vidro embaçado. O silêncio era uma corda de piano esticada até o limite da ruptura.

— Você não disse uma palavra desde que saímos daquela delegacia — começou Tyler, a voz rouca, quase um sussurro. — Eu matei três daqueles homens, Wandinha. Eu rasguei a garganta do último porque ele ia atirar em você. E você nem sequer me olhou.

— O que você esperava? — perguntou ela, sem desviar os olhos da lâmina. — Um soneto de gratidão? Uma medalha por eficiência mecânica? Você cumpriu a função para a qual foi designado. O Hyde é uma extensão da minha vontade, Tyler. Quando a minha faca corta, eu não agradeço ao aço.

Tyler virou-se lentamente. O âmbar em seus olhos brilhava com uma intensidade febril, uma luz que não pertencia a um ser humano, mas a dor gravada em suas feições era puramente mortal.

— Eu não sou aço, Wandinha — disse ele, dando um passo à frente. — Eu sou um homem. Um homem que entrega cada pedaço de sanidade que lhe resta para garantir que você continue respirando. Eu amo você. E isso está me destruindo mais do que a Laurel jamais conseguiu.

Wandinha parou o movimento da seda. Ela levantou o olhar, e o vazio em suas pupilas era tão vasto que Tyler sentiu um vertigem física.

— Amor é uma alucinação química — sentenciou ela, a voz desprovida de qualquer inflexão. — É o refúgio dos fracos que não conseguem encarar a vacuidade da existência. Eu não pedi pelo seu amor, Tyler. Eu pedi pela sua lealdade e pela sua força bruta. Você é um ativo, um objeto de poder que eu reivindiquei. Nada mais.

— Um objeto? — Tyler soltou uma risada seca que se transformou em um soluço sufocado. — Depois de tudo? Depois daquela noite na garagem? Depois de você ter sentido o meu coração bater contra o seu? Você me usou para apagar a marca dela, mas colocou a sua no lugar. Você me fez acreditar que eu tinha um propósito que não fosse a servidão!

— Seu propósito é ser a sombra que eu projeto — retrucou ela, levantando-se. — Se você buscou calor humano em um cadáver, o erro de cálculo foi seu. Você é o meu Hyde. Minha arma. Meu monstro. Tentar ser algo além disso é uma perda de tempo e de recursos.

— Eu odeio você — sussurrou Tyler, as mãos tremendo, as unhas começando a se alongar enquanto o Hyde rugia por libertação. — Eu odeio você por me fazer sentir que eu era algo além de uma besta. Você é pior do que a Laurel, Wandinha. Ela queria o meu corpo, mas você... você quer a minha alma só para poder jogá-la no lixo depois.

— Então vá embora — disse ela, a voz fria como o gelo de Vermont. — Se a sua utilidade está comprometida pelo seu sentimentalismo patético, você não passa de um estorvo. Saia da minha vista antes que eu decida descartar o objeto permanentemente.

O pânico atingiu Tyler como um impacto físico. O oxigênio pareceu desaparecer do quarto. Seus pulmões arderam, e ele começou a ofegar, as mãos agarrando o próprio peito. O mundo começou a girar, as paredes fechando-se sobre ele.

— Wandinha... eu não... eu não consigo respirar... — ele gemeu, caindo de joelhos.

Ela permaneceu imóvel, observando a crise de pânico dele com uma curiosidade clínica que era, em si, um ato de tortura.

— Respire, Tyler. Ou morra. A escolha é sua.

Tyler olhou para ela uma última vez, buscando qualquer vestígio de compaixão, qualquer rachadura na máscara de porcelana preta. Não encontrou nada. Com um grito que foi metade rugido e metade lamento, ele se levantou e atravessou a porta, correndo para a escuridão da tempestade, deixando para trás o único lugar que ele chamara de lar e a única pessoa que ele aprendera a adorar.

***

Duas semanas se passaram.

Wandinha continuou sua busca pelos remanescentes do Círculo de Sangue em Vermont, mas a eficiência de seu trabalho estava comprometida. O silêncio do apartamento era pesado demais. O Mão gesticulava constantemente, perguntando sobre Tyler, mas Wandinha o ignorava com uma ferocidade que beirava a obsessão. Ela dizia a si mesma que era apenas a perda de uma ferramenta valiosa, mas a irritação em seu peito era uma ferida que não cicatrizava.

Ela o encontrou em um armazém abandonado nos arredores de Burlington, um lugar que cheirava a ferro velho e desespero. O Mão havia farejado o rastro dele — um cheiro de sangue e Hyde que pairava no ar como uma promessa de morte.

Quando Wandinha entrou no galpão, a luz da lua filtrava-se pelo teto quebrado, iluminando uma cena que fez até mesmo o seu coração gélido vacilar.

Tyler estava sentado em um canto, cercado por fragmentos de vidro e metal. Ele estava sem camisa, e sua pele, outrora a cor do bronze quente, estava pálida e manchada. Mas não era a palidez que a chocou.

Eram as marcas.

Sulcos profundos e irregulares decoravam seu peito e abdômen, cortes que ainda sangravam, formando um mapa de agonia sobre seus músculos. Seus pulsos estavam envoltos em trapos imundos, saturados de um vermelho escuro. Havia cortes em seu pescoço, quase atingindo a jugular, e suas coxas estavam retalhadas como se ele tivesse tentado arrancar a própria carne.

Ele segurava um pedaço de metal afiado, a mão tremendo enquanto ele o pressionava contra uma nova parte de sua pele.

— Tyler — a voz de Wandinha saiu mais baixa do que ela pretendia.

Ele não se virou. O Hyde estava lá, mas estava acuado, gemendo dentro dele, incapaz de curar feridas que eram infligidas pela própria vontade do hospedeiro.

— Você disse que eu era um objeto — Tyler sussurrou, a voz quebrada, sem olhar para ela. — Eu estava tentando ver... se havia algo mais dentro. Se eu cortasse fundo o suficiente, talvez eu encontrasse o que você queria. O metal. O vazio. Mas só tem sangue, Wandinha. Só tem essa dor que não para.

Wandinha caminhou em direção a ele, seus passos ecoando no concreto. A cada passo, ela via a extensão da destruição. Ele não estava tentando se matar; ele estava tentando se desumanizar, punindo a carne por ter a audácia de sentir amor por alguém que não tinha nada a oferecer em troca.

— Pare com isso — ordenou ela, parando a um metro dele.

Tyler riu, um som seco que terminou em um acesso de tosse. Ele finalmente olhou para ela, e o que Wandinha viu naqueles olhos a fez recuar um passo. Não havia Hyde. Não havia raiva. Havia apenas um deserto de tristeza absoluta.

— Por que você veio? — ele perguntou, deixando o metal cair no chão com um tilintar fúnebre. — Veio ver se a sua arma ainda está afiada? Ou veio terminar o serviço e me jogar no lixo de vez?

— Eu vim... — Wandinha começou, mas as palavras, as ferramentas que ela sempre dominara com tanta precisão, falharam.

Ela se ajoelhou diante dele, ignorando a sujeira e o sangue que manchavam seu vestido preto. Pela primeira vez em sua vida, a mente analítica de Wandinha Addams foi silenciada pela evidência bruta do sofrimento humano. Ela estendeu a mão, seus dedos pálidos pairando sobre o corte mais profundo em seu abdômen.

— Você é um idiota, Tyler Galpin — disse ela, a voz tremendo quase imperceptivelmente. — Um idiota sentimental e destrutivo.

— E você é um monstro — respondeu ele, as lágrimas finalmente transbordando e limpando rastros na sujeira de seu rosto. — Um monstro que eu amo. E isso é o meu fim.

Wandinha não respondeu com lógica. Ela não falou sobre química cerebral ou sobre a inutilidade do sofrimento. Ela simplesmente inclinou-se para frente e pressionou a testa contra a dele, permitindo que o calor da febre dele e o frio de sua pele se encontrassem.

— Eu não permitirei que você se destrua — sussurrou ela contra a pele dele. — Não porque você é minha propriedade. Mas porque o vazio... o vazio é muito maior sem o seu barulho.

Tyler soltou um soluço violento e desabou contra ela, enterrando o rosto em seu pescoço. Wandinha o segurou, suas mãos pequenas manchando-se com o sangue dele, abraçando o monstro que ela mesma havia retalhado com suas palavras.

— Dói, Wandinha... dói tanto... — ele gemia, seu corpo tremendo contra o dela.

— Eu sei — disse ela, fechando os olhos, permitindo-se, por um breve e terrível momento, sentir a dor dele como se fosse sua. — A dor é o batismo da realidade, Tyler. Mas você já foi batizado o suficiente.

Ela o ajudou a se levantar, servindo de âncora para o corpo quebrado dele. O Mão aproximou-se, gesticulando com urgência, pronto para ajudar. Enquanto caminhavam para a saída do galpão, Wandinha olhou para as mãos ensanguentadas de Tyler e depois para as suas próprias.

Ela havia dito que ele era um objeto. Mas, ao vê-lo naquele altar de carne e sofrimento, ela percebeu que nenhum objeto poderia sangrar daquela forma. Nenhum objeto poderia fazê-la sentir aquele peso insuportável no peito que a lógica não conseguia explicar.

— Nós vamos voltar — disse ela, enquanto o ajudava a subir na motocicleta, que Tyler havia deixado escondida nas proximidades. — E eu vou costurar cada um desses cortes. E se você ousar pegar em uma lâmina contra si mesmo novamente, eu farei questão de que a sua morte seja muito mais interessante do que este espetáculo deplorável.

Tyler apoiou a cabeça nas costas dela, as mãos enfaixadas segurando sua cintura com uma fraqueza que partia o que restava da alma de Wandinha.

— Você ainda me odeia? — ele perguntou, a voz sumindo no vento de Vermont.

Wandinha acelerou o motor, o som rugindo através do galpão abandonado.

— O ódio é uma emoção muito forte para ser desperdiçada com você, Tyler — respondeu ela, mas seu tom não era cortante. Era quase... protetor. — Mas eu admito que a sua existência é a única coisa que torna este mundo suportável para mim.

Enquanto a motocicleta rasgava a noite, deixando para trás o altar de sangue, Wandinha Addams tomou uma decisão silenciosa. Ela não seria a cura de Tyler — ela não sabia como ser isso. Mas ela seria a escuridão que o envolveria, a sombra que o esconderia do próprio sofrimento.

Ela era Wandinha Addams, e ele era o seu Hyde. E, se o preço para mantê-lo ao seu lado fosse aceitar a humanidade que ela tanto desprezava, ela pagaria. Não por amor — ela ainda se recusava a usar essa palavra — mas por uma lealdade que era escrita com sangue, suor e o silêncio das lâminas que, finalmente, haviam sido deixadas para trás.