Sombras
O Eco das Cinzas e o Peso do Ferro
A manhã em Jericho não trouxe a clareza que o sol costuma prometer; em vez disso, uma névoa densa e acinzentada rastejava pelas frestas da garagem, como se a própria atmosfera estivesse de luto pelos segredos enterrados na noite anterior. Wandinha acordou antes que a primeira luz pudesse ser considerada funcional. Seus olhos abriram-se com a precisão de uma armadilha de urso se fechando.
Ela não se moveu imediatamente. O peso do braço de Tyler sobre sua cintura era uma âncora estranha, uma sensação física que desafiava sua política vital de isolamento. O calor que emanava dele era constante, quase febril, um lembrete de que, sob aquela pele, pulsava a biologia caótica de um predador. Ela observou o teto descascado da garagem, sentindo a leve rigidez em seus músculos e o eco da dor que ele havia mencionado na noite anterior. Para Wandinha, aquela dor era um troféu — a prova de que ela havia tomado o controle de uma narrativa que Laurel Gates tentara corromper.
Tyler soltou um suspiro pesado durante o sono, seu rosto pressionado contra a curva do pescoço dela. Ele parecia mais jovem assim, desarmado, as linhas de tensão que geralmente marcavam sua testa suavizadas pela exaustão. Mas Wandinha sabia que a paz dele era uma ilusão temporária. O Hyde não desaparecia; ele apenas se recolhia para as sombras, esperando o próximo gatilho.
Cuidadosamente, ela deslizou para fora da cama, substituindo seu corpo por um travesseiro para não despertá-lo. Seus pés descalços tocaram o chão frio, um choque térmico que ela recebeu com um prazer sombrio. Ela se vestiu com a eficiência de um soldado, recuperando suas roupas pretas que haviam sido descartadas em um momento de urgência visceral.
Enquanto abotoava os punhos de sua camisa, Wandinha parou diante do pequeno espelho manchado sobre a pia de metal. Sua aparência era a mesma de sempre — as tranças impecáveis, a pele de mármore —, mas havia algo em seu olhar, uma centelha de possessividade que ela raramente permitia aflorar. Ela não apenas salvara Tyler; ela o havia reclamado. E, em seu código de ética distorcido, o que pertencia aos Addams era protegido com uma ferocidade que beirava a aniquilação.
O som de metal rangendo a fez girar. Tyler estava sentado na beira da cama, os cabelos castanhos bagunçados, observando-a com uma mistura de adoração e medo.
— Você ia embora sem dizer nada? — perguntou ele, a voz ainda rouca de sono.
— Despedidas são para pessoas que acreditam na finalidade das coisas — respondeu ela, ajustando sua gola. — Eu estava apenas garantindo que você não tivesse se transformado em uma poça de arrependimento sentimental durante a noite.
Tyler deu um sorriso curto e triste, levantando-se e caminhando até ela. Ele parou a uma distância respeitosa, mas seus olhos examinavam cada centímetro do rosto dela, buscando sinais de que ela havia mudado de ideia.
— Eu não me arrependo — disse ele, dando um passo à frente, diminuindo o espaço. — Mas o mundo lá fora não mudou, Wandinha. Eu ainda sou o monstro que eles querem enforcar, e você ainda é a garota que todos esperam que resolva o problema.
— O mundo é um lugar terrivelmente previsível — retrucou ela, cruzando os braços. — Eles querem vilões e heróis porque não têm estômago para a ambiguidade. Mas nós não somos personagens de um conto de fadas moralista. Somos a anomalia.
Tyler estendeu a mão, tocando levemente a ponta de uma das tranças dela.
— E o que acontece se eu perder o controle de novo? Se o cheiro dela voltar e eu não conseguir encontrar o caminho de volta?
Wandinha segurou o pulso dele com uma força surpreendente. Seus olhos fixaram-se nos dele com uma intensidade letal.
— Então eu serei a sua escuridão — afirmou ela. — Se os lírios daquela mulher tentarem florescer na sua mente, eu os sufocarei com terra e cinzas. Você não é mais o servo de uma morta, Tyler. Você é o meu Hyde. E eu não aceito que mexam nas minhas propriedades.
O silêncio que se seguiu foi carregado de uma eletricidade perigosa. Tyler sentiu o peso daquelas palavras. Não era uma declaração de amor no sentido convencional e enjoativo; era um pacto de sangue. Ele inclinou a cabeça, encostando a testa na dela, fechando os olhos enquanto absorvia a frieza reconfortante que ela emanava.
— Você é aterrorizante — sussurrou ele, um tom de admiração em sua voz manipuladora e, ao mesmo tempo, vulnerável.
— Obrigada — respondeu ela, permitindo-se um breve momento de contato antes de se afastar. — Agora, temos assuntos mais urgentes. O Xerife Galpin não vai demorar a notar sua ausência prolongada, e eu tenho uma investigação sobre os remanescentes da família Gates que exige minha atenção total.
Tyler suspirou, voltando à realidade opressiva de sua existência.
— Meu pai... ele acha que eu estou em um caminho de recuperação. Ele não faz ideia de que a única coisa que me mantém são as memórias de como é rasgar a garganta de alguém.
— O autoengano é o mecanismo de defesa favorito dos fracos — disse Wandinha, caminhando em direção à porta da garagem. — Deixe que ele acredite no que quiser. Isso nos dá tempo.
Ela parou com a mão na trava de metal.
— Tyler — chamou ela, sem olhar para trás.
— Sim?
— Lave os lençóis. A evidência biológica da noite passada é um detalhe estético que prefiro que permaneça privado.
Um lampejo de diversão cruzou o rosto de Tyler, o primeiro brilho de humanidade real em dias.
— Sim, mestra — brincou ele, embora a palavra "mestra" tivesse agora um peso completamente diferente, despido da servidão forçada e revestido de uma escolha deliberada.
Wandinha saiu para a névoa de Jericho, sentindo o ar úmido em seus pulmões. Ela caminhava com uma confiança renovada, cada passo ecoando como um veredito. Enquanto cruzava a floresta em direção à Academia Nunca Mais, sua mente já estava traçando planos, decifrando enigmas e antecipando movimentos.
Ela sabia que a calmaria não duraria. Laurel Gates era apenas um sintoma de uma doença mais profunda que assolava aquela cidade e sua história. Mas agora, ela tinha uma arma que ninguém mais possuía. Ela tinha o monstro, e o monstro tinha uma âncora.
Ao chegar aos portões da escola, Wandinha encontrou Enid, que parecia ter passado a noite em claro, andando de um lado para o outro com seu casaco rosa vibrante que parecia uma ofensa visual ao clima nublado.
— Wandinha! Onde você estava? — exclamou a lobisomem, correndo em sua direção. — Eu quase liguei para o Mão, mas ele sumiu também! Eu achei que... eu achei que o Hyde tinha pegado você de novo!
— Suas preocupações são, como sempre, exageradas e coloridas demais para o meu gosto — respondeu Wandinha, passando por ela sem diminuir o passo. — Eu estava apenas conduzindo um experimento de campo sobre a resiliência de traumas psicológicos.
Enid parou, franzindo a testa enquanto tentava processar a resposta. Ela olhou para Wandinha e notou algo diferente. Não era nada óbvio — Wandinha ainda parecia uma estátua fúnebre —, mas havia uma aura de satisfação sombria que a rodeava.
— Você está... com o cabelo despenteado? — perguntou Enid, apontando para uma pequena mecha que escapara de uma das tranças, algo que normalmente seria um pecado capital para a Addams.
Wandinha levou a mão ao cabelo, prendendo a mecha com uma frieza mecânica.
— A natureza é caótica, Enid. Às vezes, o vento não respeita a ordem.
— Sei... o vento — murmurou Enid, desconfiada, mas logo voltando ao seu estado de pânico habitual. — Enfim, você precisa ver isso. Alguém deixou um envelope no nosso quarto. É preto, com um selo de cera que parece... um lírio.
O coração de Wandinha não acelerou — ela não permitia tais fraquezas —, mas sua mente disparou. O fantasma de Laurel Gates era persistente, ou talvez, o legado da família Gates fosse mais ramificado do que ela imaginara.
— Onde está? — perguntou ela, sua voz baixando para um tom quase imperceptível de ameaça.
— Na sua mesa. Eu não toquei nele, juro! Ele cheira a... menta e algo podre.
Wandinha não esperou por mais explicações. Ela subiu as escadas da torre de Ophelia com uma urgência silenciosa. Ao entrar no quarto, o contraste entre o lado technicolor de Enid e o seu abismo monocromático nunca pareceu tão gritante. Sobre sua escrivaninha, ao lado de sua máquina de escrever, repousava o envelope.
O cheiro era inconfundível. Mesmo após a noite de purificação com Tyler, o rastro de Laurel Gates parecia querer infectar seu espaço pessoal.
Ela pegou seu abridor de cartas de prata em forma de adaga e rompeu o selo com a precisão de um carrasco. Dentro, havia apenas um pedaço de papel envelhecido com uma única frase escrita em caligrafia elegante e arcaica:
*"O que o sangue une, o fogo não separa. O monstro não pertence a quem o beija, mas a quem o criou. Estamos observando, pequena Addams."*
Wandinha apertou o papel entre os dedos. Um pequeno sorriso, quase imperceptível e terrivelmente perigoso, surgiu em seus lábios. Ela caminhou até a lareira apagada e, com um fósforo, ateou fogo à mensagem. Observou as chamas consumirem as palavras, transformando a ameaça em cinzas inúteis.
— Eles cometem um erro fundamental — sussurrou ela para o quarto vazio.
Enid entrou logo atrás, hesitante.
— O que dizia? É ruim?
Wandinha virou-se, seus olhos negros brilhando com uma determinação que faria o próprio diabo hesitar.
— É um convite, Enid. Alguém acredita que pode reivindicar o que é meu. Eles acham que o passado tem poder sobre o presente.
— E o que nós vamos fazer? — perguntou a lobisomem, sentindo o peso da atmosfera.
Wandinha caminhou até a janela, olhando para a floresta onde, em algum lugar, Tyler estava tentando recompor os pedaços de sua alma sob sua proteção.
— Nós vamos fazer o que os Addams fazem melhor — declarou ela. — Vamos desenterrar os segredos, expor as feridas e garantir que, desta vez, não sobrem cinzas para contar a história. Se eles querem guerra por causa do meu Hyde, eles descobrirão que eu sou muito mais perigosa do que qualquer monstro que eles possam imaginar.
Ela sentiu a leve pontada em seu ventre novamente, o lembrete físico da entrega de Tyler e de sua própria escolha. Aquilo não era uma fraqueza; era combustível. Ela havia selado um pacto na escuridão daquela garagem, e não deixaria que ninguém, vivo ou morto, quebrasse sua posse.
— Enid, prepare-se — disse Wandinha, pegando seu violoncelo. — O réquiem para a família Gates ainda não terminou. Eu apenas comecei o segundo movimento.
Enquanto as primeiras notas sombrias do violoncelo ecoavam pela torre, Wandinha sabia que a batalha que se aproximava seria sangrenta. Mas, pela primeira vez, ela não estava apenas lutando contra um inimigo externo. Ela estava lutando por algo que, contra todas as probabilidades, ela decidira manter.
Lá na garagem, Tyler olhou para os lençóis limpos e depois para as próprias mãos. Ele ainda sentia o toque de Wandinha, o frio dos lábios dela e a força de sua vontade. O Hyde rugiu em sua mente, mas não era um rugido de dor ou de submissão a Laurel. Era um reconhecimento.
Ele tinha uma dona agora. E ela era muito mais aterrorizante do que qualquer mestre que ele já tivera. E, estranhamente, isso era a única coisa que o fazia se sentir, pela primeira vez, verdadeiramente livre.
A guerra estava chegando a Jericho, e ela teria o rosto de uma menina de tranças e o rugido de uma besta libertada. E Wandinha mal podia esperar para ver o mundo queimar sob seu comando.