Sombras
O Labirinto das Sombras e o Veneno da Memória
A fumaça do bilhete queimado ainda dançava no ar gélido do dormitório quando Wandinha se sentou diante de sua máquina de escrever. O som das teclas martelando o papel era o único metrônomo que acalmava sua mente em ebulição. Cada clique era uma sentença, cada parágrafo uma autópsia do que estava por vir. Ela não precisava de visões para saber que o perigo agora tinha um novo aroma: não era mais apenas o cheiro de lírios podres, mas o de algo antigo, preservado em formol e rancor.
— Você está digitando mais rápido que o normal — observou Enid, sentada na beira de sua cama multicolorida, roendo as unhas pintadas de tons neon. — Isso geralmente significa que alguém vai morrer ou que você descobriu um novo tipo de tortura medieval.
Wandinha parou o movimento dos dedos por um segundo, mas não desviou os olhos da folha em branco.
— As duas coisas não são mutuamente exclusivas, Enid — respondeu ela, a voz desprovida de qualquer emoção, embora o latejar em seu baixo ventre servisse como um lembrete constante de sua humanidade recém-reivindicada. — Alguém acredita que pode me enviar correspondências perfumadas com ameaças de linhagem. É uma falta de etiqueta que só pode ser punida com a erradicação total.
— Mas quem mandaria isso? — Enid se levantou, aproximando-se da linha divisória entre o arco-íris e o abismo que definia o quarto. — Laurel Gates está morta. Eu vi você... bem, eu vi o que aconteceu.
— A morte é um inconveniente temporário para famílias com obsessões históricas — disse Wandinha, voltando a digitar. — Os Gates são como ervas daninhas em solo cemiterial. Você corta a flor, mas as raízes continuam a se alimentar da decomposição.
Ela arrancou a folha da máquina com um movimento brusco. Precisava ver Tyler. Não por uma necessidade sentimental — ela repetia para si mesma como um mantra —, mas porque o Hyde era a peça central desse tabuleiro. Se havia um novo mestre espreitando, o elo que ela forjara com sangue e vontade na noite anterior seria o primeiro alvo.
— Vou sair — anunciou Wandinha, pegando seu sobretudo preto.
— Agora? — Enid olhou para o relógio. — As aulas de Botânica Carnívora começam em dez minutos!
— As plantas podem esperar. Os monstros, não.
Wandinha cruzou os jardins da Academia Nunca Mais com a invisibilidade de um espectro. Ela conhecia cada ponto cego das câmeras de segurança e cada trilha que os monitores evitavam. O caminho até a garagem de Tyler parecia diferente agora; as árvores pareciam se inclinar em sua direção, como se reconhecessem a nova autoridade que ela carregava.
Ao chegar à garagem, o silêncio era absoluto, exceto pelo som rítmico de metal contra metal. Ela entrou sem bater, encontrando Tyler sob o capô de um carro velho, as mãos sujas de graxa, os músculos das costas tensos sob a camiseta branca que ela mesma havia ajudado a remover poucas horas antes.
— Você não deveria estar aqui — disse Tyler, sem se virar. O olfato do Hyde já o havia alertado sobre a presença dela muito antes de seus pés tocarem o concreto.
— Eu não sigo cronogramas, Tyler. Especialmente quando recebo correspondências de admiradores póstumos.
Tyler soltou a chave de fenda e se virou, limpando as mãos em um pano encardido. Seus olhos encontraram os dela, e por um momento, a máscara de sedutor manipulador caiu, revelando o homem que fora batizado pela dor e pelo prazer sob o comando de Wandinha.
— O que aconteceu? — perguntou ele, a voz baixando de tom, a postura ficando alerta, pronta para o combate.
Wandinha entregou-lhe as cinzas que restaram no bolso de seu casaco, embora soubesse que ele não precisava ler para entender o perigo.
— Um bilhete. Selado com um lírio. Falava sobre criadores e possessão.
O rosto de Tyler empalideceu, e uma veia saltou em sua têmpora. O ar ao redor dele pareceu vibrar, um sinal de que a besta estava arranhando as paredes de sua consciência.
— Ela tinha um plano de contingência — rosnou ele, os dedos se fechando em punhos. — Laurel sempre disse que, se ela falhasse, o "Legado de Sangue" continuaria. Achei que fosse apenas um delírio de grandeza dela.
— Delírios de grandeza são a especialidade dos nossos inimigos — disse Wandinha, aproximando-se dele até que o cheiro de óleo de motor e pele quente a envolvesse. — Diga-me, Tyler. Você sente algo? Algum chamado? Algum puxão nas correntes que eu rompi?
Tyler olhou para as próprias mãos, que começavam a tremer levemente.
— Eu sinto... um ruído de fundo. Como uma estação de rádio mal sintonizada. Não é ela, Wandinha. É algo mais velho. Mais frio.
Ele deu um passo em direção a ela, sua mão suja de graxa parando a centímetros do rosto pálido dela, temendo manchá-la, mas desejando o contato como um náufrago deseja terra firme.
— Você disse que eu era seu — sussurrou ele, a voz carregada de uma urgência sombria. — Você ainda sustenta isso? Mesmo que o mundo inteiro venha reivindicar o monstro?
Wandinha não hesitou. Ela segurou a mão dele, ignorando a graxa que agora marcava sua pele, e pressionou a palma de Tyler contra sua própria bochecha. O contraste entre a frieza dela e o calor febril dele era um choque elétrico.
— Eu não compartilho meus pertences, Tyler. E eu certamente não permito que fantasmas brinquem com minhas armas — disse ela, seus olhos escuros perfurando os dele. — Se alguém acredita que pode retomar o controle sobre você, terá que passar por cima do meu cadáver. E, como você sabe, eu tenho uma relação muito íntima com a morte. Ela raramente me vence.
Tyler soltou um suspiro quebrado e a puxou para um beijo desesperado. Não havia a lentidão da noite anterior; era um beijo de guerra, um selo de proteção contra o abismo que se abria sob seus pés. Wandinha sentiu o gosto de ferro e determinação. Ela o guiava, suas mãos subindo para a nuca dele, ancorando-o na realidade que eles haviam construído sobre as cinzas de Laurel.
— O que faremos? — perguntou ele, afastando-se apenas o suficiente para respirar, sua testa encostada na dela.
— O Xerife Galpin — disse Wandinha, sua mente analítica já processando os próximos passos. — Ele sabe mais sobre o passado da família Gates do que admitiu. Os arquivos da polícia de Jericho têm lacunas que só podem ser preenchidas por alguém que viveu a história, não apenas a investigou.
— Meu pai não vai falar — disse Tyler, balançando a cabeça. — Ele quer esquecer que minha mãe existiu, quer esquecer que eu sou o que sou.
— Ele falará — afirmou Wandinha, um brilho impiedoso em seus olhos. — Todo homem tem um ponto de ruptura. E eu sou excelente em encontrar fissuras em estruturas aparentemente sólidas.
Eles foram interrompidos pelo som de um motor se aproximando. Era a viatura do Xerife.
— Vá — disse Tyler, empurrando-a gentilmente em direção à saída dos fundos. — Se ele te vir aqui agora, vai ligar os pontos mais rápido do que podemos lidar.
— Eu não fujo, Tyler.
— Não é fuga. É estratégia — disse ele, dando-lhe um olhar que era metade súplica, metade comando. — Por favor. Deixe-me lidar com ele primeiro. Eu te encontro no cemitério à meia-noite. Perto da cripta dos Crackstone.
Wandinha assentiu, uma única vez. Ela desapareceu nas sombras da floresta segundos antes de a porta da garagem ser aberta pelo Xerife Galpin.
O dia passou como um funeral prolongado. Wandinha não conseguia se concentrar nas lições de esgrima ou na retórica sobre excluídos. Sua mente estava no cemitério, no sangue que manchara o lençol e na mancha de graxa que ainda permanecia em sua mão, a qual ela se recusara a lavar. Era sua marca de guerra.
À meia-noite, a névoa em Jericho era tão espessa que as lápides pareciam flutuar em um mar de cinzas. Wandinha esperava junto à estátua de um anjo decapitado, sua presença fundindo-se com a escuridão.
Tyler surgiu da neblina, mas não estava sozinho. Ele carregava uma caixa de madeira antiga, reforçada com ferro. Seu rosto estava marcado por um corte recente na bochecha, e seus olhos tinham um brilho amarelado que ele lutava para suprimir.
— Ele não queria me dar — disse Tyler, colocando a caixa no chão. — Tive que... ser convincente.
— Você o machucou? — perguntou Wandinha, sem qualquer rastro de julgamento.
— O Hyde machucou. Eu apenas assisti — respondeu ele, a voz desprovida de remorso. — Estava escondido no porão, atrás de uma parede falsa. São os diários de Francoise, minha mãe. E algo mais.
Wandinha ajoelhou-se diante da caixa. O cheiro de menta e decomposição emanou dela assim que Tyler forçou a tampa. Dentro, além de papéis amarelados, havia um frasco de vidro contendo um líquido negro e viscoso, e uma fotografia antiga.
Na foto, uma jovem Laurel Gates sorria ao lado de uma mulher que Wandinha nunca vira, mas cujos olhos tinham a mesma frieza abissal que os seus. Atrás delas, um homem alto, com o rosto queimado e obscurecido pelas sombras.
— Não era apenas Laurel — sussurrou Wandinha, pegando o frasco. — Havia um culto. O Círculo de Sangue de Joseph Crackstone. Eles não queriam apenas limpar a cidade de excluídos; eles queriam criar o "Excluído Perfeito" para servi-los.
— E esse seria eu? — Tyler perguntou, sua voz tremendo de ódio.
— Não — disse Wandinha, olhando para o líquido negro. — Você foi o protótipo. Este frasco contém a essência do primeiro Hyde, o que foi criado por alquimia, não por genética. Eles não querem você de volta para servi-los, Tyler. Eles querem usar seu sangue para despertar o que está dentro deste frasco.
De repente, um estalo de galho quebrado ecoou pelo cemitério. Das sombras, figuras encapuzadas começaram a emergir, cercando-os. Eles não usavam máscaras de monstros, mas mantos de seda fina, ostentando o brasão dos fundadores de Jericho.
— Wandinha Addams — disse uma voz feminina, vinda de trás do grupo. — Você sempre teve uma curiosidade mórbida. É uma pena que ela vá levá-la à mesma cova que seus antepassados cavaram.
Uma mulher de meia-idade, vestida com uma elegância impecável que contrastava com o cenário fúnebre, deu um passo à frente. Era a prefeita de uma cidade vizinha, uma figura que Wandinha vira em jornais como uma defensora da "pureza histórica".
— O monstro pertence à linhagem — continuou a mulher, apontando para Tyler. — Laurel foi fraca. Ela se deixou levar por vinganças pessoais. Nós buscamos a Ordem. Entregue o frasco e o rapaz, e talvez sua morte seja rápida o suficiente para não virar um capítulo em seus livros de terror.
Tyler deu um passo à frente de Wandinha, seus ombros se expandindo, o som de ossos estalando preenchendo o silêncio. Seus olhos agora eram completamente amarelos, as pupilas transformadas em fendas predatórias.
— Você ouviu a senhora, Wandinha — rosnou Tyler, mas suas palavras eram direcionadas aos encapuzados. — Eles querem o monstro.
Wandinha levantou-se, segurando o frasco com uma mão e sua adaga de prata com a outra. Ela olhou para as figuras encapuzadas com um desprezo que gelaria o sangue de qualquer ser vivente.
— Vocês cometem o erro clássico de todos os vilões de segunda categoria — disse ela, a voz cortante como uma lâmina. — Vocês acreditam que o medo é uma arma que só vocês podem empunhar. Mas eu nasci no medo. Eu me alimento dele. E este monstro...
Ela colocou a mão livre nas costas de Tyler, sentindo a vibração da transformação iminente.
— ...este monstro não é uma ferramenta de ordem. Ele é o caos que eu escolhi. E eu não tenho a menor intenção de ser rápida com vocês.
— Matem-nos! — ordenou a mulher, recuando.
O ataque foi coordenado, mas Tyler foi mais rápido. Ele se transformou no ar, um borrão de fúria e garras que rasgou o primeiro encapuzado antes que ele pudesse sacar uma arma. O Hyde não estava apenas lutando por sobrevivência; ele estava lutando por posse. Cada golpe era um tributo à mulher que o aceitara em sua forma mais sombria.
Wandinha movia-se com a graça de uma bailarina da morte. Sua adaga encontrava brechas em armaduras e gargantas com uma precisão cirúrgica. Ela não sentia pânico; sentia uma clareza absoluta. O sangue que espirrava em seu rosto era quente, um contraste com a névoa fria.
No meio do caos, Wandinha viu a mulher tentando fugir com um segundo frasco que retirara de uma bolsa.
— Tyler! — gritou ela.
O Hyde rugiu, lançando-se sobre os últimos defensores e bloqueando o caminho da mulher. Ele a cercou, rosnando, a saliva pingando de suas presas enormes. Ele olhou para Wandinha, esperando o comando.
Wandinha caminhou lentamente até a mulher, que agora tremia no chão, cercada pelos corpos de seus aliados. Ela pegou o segundo frasco da mão trêmula da prefeita.
— A pureza é um conceito superestimado — disse Wandinha, olhando para o líquido. — A mistura, no entanto... a mistura é onde reside o verdadeiro poder.
Ela abriu o frasco e o derramou sobre a terra do cemitério, observando o solo borbulhar e murchar. Depois, olhou para Tyler, que ainda estava em sua forma monstruosa, mas cujos olhos procuravam os dela com uma inteligência dolorosa.
— Acabe com isso — ordenou ela.
O Hyde não hesitou. O grito da mulher foi curto, abafado pelo som da noite.
Quando o silêncio retornou ao cemitério, Tyler voltou à sua forma humana, exausto e coberto de sangue que não era seu. Ele caiu de joelhos, respirando com dificuldade. Wandinha aproximou-se e limpou o rosto dele com o lenço preto de seu bolso.
— Eles vão mandar outros — disse Tyler, a voz quebrada. — Isso nunca vai parar, não é?
Wandinha olhou para o horizonte, onde a primeira luz do amanhecer começava a lutar contra a névoa.
— Provavelmente não — respondeu ela, ajudando-o a se levantar. — Mas agora eles sabem o que acontece quando tentam retomar o que eu conquistei. Nós não somos apenas monstros, Tyler. Somos o pesadelo que os outros monstros temem.
Ela o puxou para perto, sentindo o coração dele batendo contra o seu peito. O sangue no chão do cemitério era um novo batismo, um compromisso mais profundo do que qualquer palavra poderia expressar.
— Vamos voltar para a escola — disse ela. — Temos lençóis para lavar e um novo capítulo para escrever. E desta vez, eu serei a única a ditar o final.
Enquanto caminhavam para fora do cemitério, de mãos dadas entre as sombras e os mortos, Jericho parecia menor, mais frágil. Wandinha Addams e seu Hyde haviam acabado de declarar guerra ao mundo dos homens e ao mundo dos monstros. E, no fundo de sua alma escura, Wandinha nunca se sentira tão viva.