← Voltar ao resumo

sombras e espinhos

O Gosto Amargo da Ambrósia

O ar da enfermaria da Casa Grande tinha um aroma peculiar de folhas de louro esmagadas, canela e o cheiro antisséptico de hospitais comuns. Era um contraste desorientador com a tempestade que ainda açoitava os campos de morangos do lado de fora.

Jungkook depositou Lilly sobre um dos leitos alvos com uma delicadeza que ninguém no Acampamento Meio-Sangue esperaria de um filho da morte. Suas mãos, calejadas pelo cabo áspero de sua espada e pelo treinamento implacável, demoraram um segundo a mais para se soltarem do tecido úmido do vestido de linho dela. No ponto exato onde a pele de Lilly havia tocado seu pescoço, o ar parecia ter ficado mais quente, deixando uma marca fantasma de calor que resistia à sua frieza habitual.

— Costelas trincadas, mas nada que uma dose de néctar e uma tala não resolvam até o amanhecer — anunciou Quíron, a parte equina de seu corpo ocupando metade do espaço do consultório enquanto ele examinava Alex. O centauro voltou os olhos experientes para a garota desacordada. — E ela? Jeon, você disse que ela empunhou sua lâmina?

— Direto no olho da mantícora — respondeu Jungkook, dando dois passos para trás e afundando as mãos nos bolsos da jaqueta escura. Ele se encostou no batente da janela, onde a escuridão parecia se adensar ligeiramente ao seu redor, buscando a segurança das sombras. — Sem luvas. Sem treinamento prévio. Ela simplesmente... puxou da minha mão.

— O Ferro Estígio devia ter sugado a alma dela antes mesmo que ela tocasse o chão — murmurou Annabeth, os braços cruzados sobre a camiseta laranja do acampamento. O olhar cinzento da filha de Atena era afiado como uma lâmina, examinando o rosto plácido de Lilly com um misto de fascínio e profunda cautela. — Mortais ou semideuses normais entram em choque catatônico só de segurar uma arma forjada no Submundo. Como ela sequer conseguiu correr?

— Porque ela é uma York — disse Kely em um suspiro trêmulo, sentada em uma banqueta ao lado da irmã enquanto segurava um copo de papel com chá de ervas. Os cabelos ruivos da caçula estavam grudados na testa, mas a energia frenética começava a voltar. — Lilly nunca perde. Mesmo quando tudo ao redor dela desmorona, ela não sabe como perder. É quase irritante.

— Isso não é apenas determinação fraterna, Kely — advertiu Annabeth, virando-se para a garota mais nova. — O ferro de Hades não se curva à força de vontade humana. Há algo de muito errado ou muito raro acontecendo aqui.

— Ela não fez de propósito, Chase — interveio Alex, sibilando quando um dos filhos de Apolo apertou a faixa de contenção ao redor de seu torso. Ele lançou um olhar significativo para Annabeth e depois para o amigo encostado na parede. — Lilly só viu a Kely em perigo. Minha irmã não pensa duas vezes quando se trata da gente.

Jungkook continuou em silêncio. De seu canto escuro, ele observava o peito de Lilly subir e descer em um ritmo compassado. O gládio de Ferro Estígio estava sobre a mesa de metal, limpo das cinzas douradas do monstro, mas ainda emanando aquela névoa sutil de morte que fazia os outros campistas manterem distância. No entanto, quando Lilly a segurou, a lâmina não reagiu com sua voracidade habitual. Jungkook sentira o puxão em seu âmago — uma ressonância subterrânea, como se a terra sob seus pés reconhecesse a autoridade daquela garota tanto quanto respeitava a dele. Era desconcertante. Perturbador, até.

Na cama, os cílios longos e acobreados de Lilly estremeceram.

O quarto silenciou de imediato. Lilly não acordou assustada, não se sentou em pânico nem começou a gritar como a maioria dos novatos fazia após seu primeiro encontro com monstros mitológicos. Ela simplesmente abriu os olhos. Eram orbes verdes, límpidos e calculistas, que examinaram o teto de madeira, a disposição das lâmpadas e a posição exata de cada pessoa no recinto antes que ela fizesse o menor movimento.

Sua mente, afiada pelos dons involuntários de Nike, mapeou o ambiente em três segundos: saídas de emergência, possíveis ameaças, objetos perfurocortantes ao alcance e a postura corporal dos presentes. Quando seus olhos finalmente encontraram os de Alex e Kely, a tensão imperceptível em sua mandíbula cedeu.

— Vocês estão inteiros — constatou Lilly. Sua voz saiu um pouco rouca, carregada com o leve sotaque francês que ela suavizava quando falava inglês, mas a entonação permaneceu impecavelmente calma.

— Graças a você — disse Kely, inclinando-se para frente e segurando a mão da irmã mais velha. — Você foi insana, Lil! Desceu a colina que nem um raio e... puf! Mantícora virou purpurina.

Lilly fechou os olhos por um segundo, assimilando o peso da realidade. Memórias fragmentadas invadiram sua cabeça: a criatura invadindo o apartamento novo na Quinta Avenida, a porcelana cara quebrada, o olhar de despedida de Charlotte.

— Charlotte? — perguntou ela, a voz endurecendo ligeiramente.

— Ela está segura — apressou-se Alex em dizer, aproximando-se da cama com a mão apoiada na costela enfaixada. — Ela tem amuletos, Lilly. Contatos no mundo mortal. Nossos rastros atraíram o bicho para fora da cidade. Ela sabe como se esconder até que tudo se acalme.

Lilly soltou o ar devagar pela boca, recusando-se a demonstrar o turbilhão de mágoa que se revirava em seu estômago.

Ela não culpava Charlotte. Charlotte era a mulher que havia tirado três crianças sujas de um orfanato frio em Marselha, que lhes dera amor, pianos de cauda, lições de idiomas e um teto seguro. Charlotte era a mãe de verdade. A raiva de Lilly, densa e amarga, estava reservada para a outra. A criatura dourada que os irmãos chamavam de “mãe divina”.

Abandonar os próprios filhos em um orfanato mortal para depois exigir que eles sangrassem pela glória do Olimpo não era maternidade. Era covardia mascarada de majestade. Lilly sentia o mesmo desprezo visceral que certos heróis guardavam pelos caprichos dos deuses, mas ela era racional demais para quebrar vasos ou gritar impropérios. O silêncio e o desdém eram armas muito mais elegantes.

— Beba um pouco disso — instruiu Quíron suavemente, estendendo um pequeno cálice de cerâmica com um líquido dourado e vaporoso. — É ambrósia diluída em néctar. Vai restaurar as forças que o metal drenou de seu corpo.

Lilly encarou o líquido. Ela não queria nada que viesse daquele panteão arrogante. Mas, ao tentar mover os braços, percebeu que seus dedos estavam entorpecidos pelo toque da espada negra. Ela precisava de força se quisesse proteger seus irmãos. Racionalidade acima do orgulho.

Ela pegou o cálice e tomou um gole pequeno.

O gosto inundou seu paladar imediatamente. Tinha o sabor de brioches recém-saídos do forno, manteiga salgada da Normandia e o café expresso que Charlotte costumava preparar nas manhãs de domingo em Paris. Um calor reconfortante desceu por sua garganta, dissipando a frieza cadavérica de seus membros. Mas, apesar do conforto físico, o sabor da infância apenas intensificou o amargor em seu coração. Aquele mundo tentava seduzi-la com ilusões doces, mas ela conhecia a crueldade da realidade.

— Obrigada — disse ela com frieza polida, devolvendo o cálice a Quíron.

Annabeth deu um passo à frente, os olhos fixos nela.

— Você segurou uma arma de Ferro Estígio. Como se sente?

Lilly sustentou o olhar analítico da loira. Sentiu a faísca invisível que sempre surgia quando duas inteligências afiadas se cruzavam em uma sala.

— Como se tivesse mergulhado as mãos em um rio congelado — respondeu Lilly, medindo cada palavra. — Nada que uma boa xícara de chá e repouso não resolvam. Senhorita...?

— Annabeth. Filha de Atena — apresentou-se a garota, sem desarmar a postura defensiva. Havia uma rivalidade histórica e ancestral entre Atena e Nike; ambas deusas da estratégia e do triunfo bélico, mas que frequentemente disputavam a primazia no campo de batalha. Annabeth farejava essa proximidade instintiva. — E aquilo lá fora não foi sorte de principiante. Você calculou o ponto cego da mantícora no meio de uma tempestade.

— Eu vi minha irmã em perigo — retrucou Lilly com serenidade gelada, ajeitando uma mecha ruiva desgrenhada atrás da orelha com naturalidade intocável. — Não calculei nada além do necessário para que ela continuasse respirando. A física e a anatomia básica funcionam para a maioria dos predadores, mesmo os que têm asas de morcego.

Percy, que até então estava quieto perto da porta, soltou uma risada baixa e impressionada.

— Gostei dela. Me lembra você quando chegamos aqui, Annabeth. Menos os termos franceses e a pose de quem acabou de sair de um desfile de moda.

Annabeth lançou um olhar fulminante para o namorado, mas a tensão diminuiu um grau. Lilly, no entanto, não relaxou. Seus olhos verdes deslizaram pela sala até pararem na figura silenciosa perto da janela.

O garoto coreano ainda não havia dito uma palavra desde que ela acordara. Ele a observava com a intensidade de quem vigiava uma anomalia perigosa. Seus cabelos pretos desciam um pouco sobre os olhos escuros, a jaqueta de couro conferindo-lhe uma presença pesada, quase sufocante para quem fosse sensível à morte. Mas Lilly não sentia medo. Havia algo no isolamento dele que ela reconhecia muito bem: o peso de ser colocado em uma caixa da qual não se pediu para fazer parte.

— Era a sua espada — declarou Lilly, não como uma pergunta, mas como uma constatação.

Jungkook desencostou da parede, dando um passo relutante para mais perto da luz do candeeiro.

— Era.

— Peço desculpas pela falta de formalidade ao tomá-la emprestada — disse ela, mantendo a educação impecável de sua criação parisiense, embora houvesse uma centelha de desafio calculista no fundo de seu olhar. — Mas o senhor parecia excessivamente hesitante para a urgência da situação.

Alex engasgou ao lado da cama, tentando disfarçar a tosse de susto. Kely arregalou os olhos. Percy soltou outro assobio baixo. Ninguém no acampamento falava com Jeon Jungkook daquele jeito; o garoto era conhecido por erguer guerreiros esqueléticos da terra quando alguém o tirava do sério.

Jungkook congelou por uma fração de segundo. Sua mandíbula travou, mas, em vez de fúria, seus lábios se curvaram em um meio sorriso quase imperceptível, bruto e intrigado.

— Eu não estava hesitante — respondeu ele, a voz ressoando com a profundidade do solo úmido. — Estava esperando o ângulo certo para não transformar a sua irmã em cinzas junto com o monstro. Mas você foi mais rápida.

— A vitória favorece os rápidos — pontuou ela, citando involuntariamente um dos preceitos mais antigos de sua mãe divina.

— Não no meu território — rebateu Jungkook, dando mais um passo. Ele estendeu a mão em direção à mesa, e o gládio de Ferro Estígio tremeu, deslizando pelo metal até repousar na palma de seus dedos com um estalo seco. — No meu domínio, o tempo não importa. Todos acabam caindo no final.

Lilly não desviou o olhar. Pelo contrário, ela sustentou a frieza do filho de Hades com uma calma imperial. No ar entre eles, uma vibração quase magnética pulsou — invisível para os outros, mas palpável para os dois. O toque anterior ainda ecoava; para Lilly, a presença sombria dele não causava o pavor que fazia os outros campistas recuarem. Parecia apenas uma noite de inverno bem conhecida: fria, mas estranhamente reconfortante. E para Jungkook, o olhar verde e inflexível da ruiva parecia puxar suas sombras para fora do abismo, forçando-as a se curvarem.

— Bem! — interrompeu Alex com pressa, colocando-se estrategicamente no meio da linha de visão dos dois para quebrar o clima denso. O rapaz passou um braço pelos ombros de Jungkook com a intimidade de quem o conhecia há anos. — Pelo visto a Lilyzinha já está no auge de sua arrogância habitual, o que significa que o cérebro dela não virou mingau. JK, meu irmão, obrigado por não deixar a cabeça dela estourar na lama lá fora.

Jungkook desviou o olhar de Lilly, encarando Alex com uma expressão ligeiramente suavizada.

— Ela pesa quase nada, Alex. Teria sido mais difícil segurar você.

— Ei! Eu tenho músculos muito bem esculpidos, tá legal? — protestou Alex, arrancando uma risadinha reprimida de Kely.

O filho de Hades olhou de soslaio para Lilly mais uma vez. Ela já estava recolocando os anéis finos que haviam sido tirados para o exame médico, deslizando o ouro delicado pelos dedos compridos com movimentos precisos, quase hipnóticos. Mesmo machucada, descalça e presa naquele lugar que claramente desprezava, Lilly York parecia uma rainha que acabara de conceder audiência a camponeses.

— O chalé de Nike está pronto para receber vocês três — anunciou Quíron, quebrando a pequena trégua. — Annabeth, você e Percy poderiam acompanhar Alex e Kely para se acomodarem? Creio que Lilly precisa de mais alguns minutos de observação para garantir que a energia do Ferro Estígio não volte a se manifestar.

— Eu posso ficar — ofereceu-se Kely de imediato.

— Não precisa, petite — interveio Lilly, a voz suavizando em um afeto genuíno que ela não demonstrava para mais ninguém além dos irmãos. Ela tocou o rosto de Kely com a ponta dos dedos. — Vá tomar um banho e trocar essas roupas sujas. Eu já estou bem. Alex, certifique-se de que ela coma alguma coisa.

— Sempre — prometeu Alex, deixando um beijo rápido no topo da cabeça ruiva da irmã do meio. Ele olhou para o amigo de cabelos negros. — Jungkook, fica de olho nela por mim? Ela finge que é de ferro, mas acabou de descobrir que o mundo não faz sentido.

— Alex... — começou Lilly, com uma ponta de irritação pelo excesso de zelo do irmão.

— Eu fico — respondeu Jungkook de pronto, a voz cortando a reclamação dela antes que ela pudesse começar.

Percy e Annabeth trocaram um olhar carregado de significado. A filha de Atena claramente não estava satisfeita com as incógnitas que Lilly representava, mas sabia quando recuar.

— Estaremos no pavilhão de jantar se precisarem de nós — disse Annabeth, saindo da enfermaria junto com Percy e os dois irmãos mais velhos de Lilly.

A porta se fechou com um rangido leve, deixando apenas os dois a sós sob a luz fraca das lâmpadas da enfermaria.

O silêncio que se instalou foi pesado, mas não desconfortável. Lilly terminou de ajeitar seus brincos de pérola, sentindo o tecido áspero da maca hospitalar sob suas pernas. Ela olhou para a janela, onde a chuva começava a diminuir, revelando os contornos das colinas escuras do acampamento.

— Você odeia isso aqui — disse Jungkook de repente, quebrando a quietude. Ele havia guardado a espada na bainha em suas costas e agora estava encostado na mesa de cabeceira, a poucos palmos de distância dela.

Lilly não se virou de imediato.

— Não odeio o lugar. Odeio a premissa.

— A premissa de que temos sangue divino correndo nas veias?

— A premissa de que deveríamos agradecer por isso — respondeu ela, voltando os olhos frios para ele. — Minha mãe está escondida em Manhattan porque seres mitológicos decidiram que nós somos presas aceitáveis. Fomos deixados em um orfanato para passar fome e frio até que uma mortal nos salvasse. E agora me dizem que pertenço a este vale porque uma mulher com asas de ouro decidiu ter filhos e esquecer que eles existiam. Isso não é um privilégio. É uma piada de péssimo gosto.

Jungkook a encarou. Pela primeira vez desde que ela cruzara a barreira, ele não viu o reflexo da deusa da vitória nela. Viu apenas a garota mortal que havia sido arrancada de sua vida construída com tanto esmero.

Para a maioria dos campistas, a revelação vinha acompanhada de medo ou fascínio infantil. Para ele, havia sido um pesadelo de fantasmas, sombras e o estigma permanente de ser o filho do senhor dos mortos. Mas a frieza consciente com que Lilly processava a injustiça divina era algo novo. Era a mesma revolta silenciosa que Percy Jackson carregava, mas filtrada através de uma compostura calculada, gélida e refinada.

— A maioria dos deuses não se importa — admitiu Jungkook, com sua habitual sinceridade desprovida de rodeios. — O meu pai passa a eternidade em um palácio de obsidiana contando almas. Ele não manda cartões de aniversário. Se você esperar justiça do Olimpo, vai morrer esperando.

Lilly inclinou a cabeça levemente, estudando as feições dele: a cicatriz sutil em sua bochecha, a escuridão sem fundo de suas íris, os nós dos dedos calejados. Havia uma honestidade brutal naquele garoto que contrastava drasticamente com a hipocrisia dourada que ela imaginava reinar entre os semideuses.

— Eu não espero justiça — retrucou ela, com a voz baixa e firme. — Espero sobrevivência. E vou garantir que Alex e Kely continuem inteiros, mesmo que eu tenha que empunhar a sua espada de novo para isso.

Jungkook sentiu um calor estranho no peito, algo que raramente experimentava fora da companhia leal de Alex. Ele deu meio passo à frente, diminuindo a distância entre eles.

— Se você tentar roubar minha arma de novo, York — disse ele, a voz descendo uma oitava, com um tom áspero que carregava um aviso que não soava exatamente como uma ameaça —, vou garantir que você pague por ela em um duelo de treino amanhã de manhã.

Lilly sustentou o olhar dele sem pestanejar. Pela primeira vez naquela noite horrível, um lampejo de divertimento autêntico cruzou seus lábios, transformando a perfeição intocável de seu rosto em algo vibrante e perigosamente belo.

— Esteja preparado para perder, então, Jeon. Eu não sei brincar de outra forma.

Jungkook não respondeu, mas não quebrou o contato visual. Do lado de fora, a terra pareceu se acalmar sob a fundação da Casa Grande, e a tempestade finalmente cessou, deixando no ar apenas a promessa silenciosa de uma aliança forjada nas cinzas da guerra.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.