sombras e espinhos
O Peso da Calmaria
O tecido da camiseta era áspero, de um algodão grosso e lavado vezes demais, tingido em um tom de laranja que beirava o fluorescente. Nas costas, lia-se *Acampamento Meio-Sangue* sob o desenho em preto de um pégaso alado.
Lilly segurou a peça entre os dedos finos, examinando a estampa com uma sobrancelha suavemente erguida. O vestido de linho marfim que ela usara na viagem estava irremediavelmente arruinado pela lama e pelo sangue seco da mantícora, descansando em um cesto de descarte no canto da enfermaria.
— É a única cor disponível no estoque — disse Quíron, em tom quase apologético, enquanto guardava os frascos de unguento na bancada. — Apolo insiste que o laranja ajuda a manter a moral elevada, embora eu suspeite que seja apenas para facilitar o resgate na floresta caso alguém se perca.
Lilly soltou uma risada baixa, um som melodioso e genuíno que pareceu amaciar a atmosfera esterilizada da enfermaria.
— Bem, se o objetivo for garantir que nenhum monstro me confunda com a vegetação, acho que a estratégia é brilhante — comentou ela, com uma leveza bem-humorada.
Ela não fez escândalo, não reclamou da costura torta e nem lamentou suas roupas de alfaiataria deixadas para trás na Quinta Avenida. Havia uma praticidade inerente em suas atitudes; reclamar de uma camiseta quando se acabara de sobreviver ao ataque de uma quimera mitológica seria uma futilidade que Charlotte jamais toleraria. Com gestos serenos, Lilly vestiu a camiseta por cima do tronco limpo, ajeitou a gola e dobrou as mangas duas vezes com precisão cirúrgica, conferindo à peça exageradamente grande um caimento surpreendentemente elegante. Ela colocou de volta seus brincos de pérola e ajustou as mechas ruivas sobre os ombros, intocável até mesmo sob o tecido brilhante de um acampamento grego.
Jungkook ainda estava parado perto da porta de saída, os braços cruzados sobre o peito. Ele a observava em silêncio. Havia algo de quase desconcertante no modo como ela se adaptava sem perder um único milímetro de sua calma natural. A maioria dos semideuses recém-chegados passava dias em choque, gritando, chorando ou exigindo voltar para casa. Lilly York apenas ajustava as mangas e encontrava graça no tom berrante do uniforme.
— Ficou... bom em você — murmurou Jungkook, a voz grave quebrando a quietude. Ele pareceu se arrepender da frase no segundo seguinte, desviando os olhos escuros para as próprias botas gastas, uma leve sombra de constrangimento passando por seu rosto. Jungkook não tinha o hábito de tecer elogios, muito menos a garotas que ele acabara de resgatar na chuva.
Lilly virou-se para ele, os lábios curvados em um sorriso calmo e acolhedor, desprovido de qualquer ironia.
— Obrigada pelo voto de confiança, Jeon. Duvido que a alta-costura parisiense aprove, mas parece resistente o bastante para sobreviver ao que quer que vocês façam por aqui.
— Você vai descobrir amanhã — respondeu ele, descruzando os braços e pigarreando de leve. — Alex e Kely estão no chalé dezessete. Eu posso te levar até lá, se você já conseguir andar sem tropeçar.
— Minhas pernas respondem perfeitamente agora, graças ao néctar do senhor Quíron — disse ela, inclinando a cabeça respeitosamente em direção ao centauro. — Boa noite, diretor. E obrigada pelos cuidados.
— Descanse, minha jovem — respondeu o velho sábio, fitando-a com olhos calorosos e atentos. — Você enfrentou um batismo de fogo e tanto. O chalé de sua mãe lhe dará o repouso necessário.
Lilly não respondeu à menção da deusa. Seu silêncio foi polido, mas a ausência de calor em sua expressão quando o nome de Nike foi subentendido não passou despercebida por Jungkook.
Eles saíram juntos pela varanda da Casa Grande. A noite havia assentado uma calmaria fresca sobre o vale de Long Island; a chuva cessara por completo, deixando o aroma de terra molhada e folhas de pinheiro pairando no ar. Ao longe, Lilly pôde vislumbrar o semicírculo de chalés dispostos em torno de uma grande fogueira central, cujas chamas crepitavam em um tom azul-esverdeado suave.
O silêncio acompanhou os passos dos dois pela trilha de cascalho. Jungkook mantinha um passo compassado, adaptando-se à passada tranquila dela sem perceber. Ele costumava andar rápido, como uma sombra que cortava o vento, mas Lilly caminhava com a postura ereta e paciente de quem passeava pelos jardins das Tulherias.
— Você não perguntou nada — comentou Jungkook após alguns minutos, mantendo as mãos nos bolsos da jaqueta.
— Sobre o quê, exatamente? — Lilly olhou para o céu estrelado. Havia constelações brilhando de um jeito que nunca vira em Paris ou Nova York, traços antigos gravados no firmamento.
— Sobre os monstros. Sobre o meu pai. Sobre este lugar — ele deu de ombros, um gesto contido. — Alex passou os primeiros três dias aqui tentando me convencer a ensinar ele a invocar guerreiros de osso, e Kely quase incendiou a arena de arco e flecha de tanta empolgação. Você parece... em paz demais.
Lilly soltou uma respiração lenta, o ar fresco desenhando uma névoa tênue diante de seus lábios.
— Não confunda calma com paz, Jeon — disse ela com brandura, a voz musical soando muito próxima dele no escuro. — Fazer perguntas agora não vai mudar o fato de que essas criaturas existem e que nos atacaram. Alex e Kely são intensos, vivem as emoções no momento em que elas chegam. Eu prefiro entender o terreno antes de dar o próximo passo.
— Racional demais.
— Uma sobrevivente, talvez — ela sorriu de lado, fitando-o. — E, pelo que Alex sempre me escreveu sobre você nas cartas durante as férias, sei que você também não é do tipo que gasta palavras à toa. Ele fala de você como um irmão.
Jungkook sentiu uma fisgada suave no peito. A amizade de Alex era uma das poucas coisas sólidas que ele possuía naquele acampamento. O filho mais velho de Nike o puxara para a luz tantas vezes nos últimos verões que Jungkook perdera a conta; Alex nunca tivera medo das sombras de Hades, nunca o tratara como uma maldição ambulante. Saber que Lilly já ouvira falar dele antes mesmo daquela noite mudava o peso daquele encontro.
— Alex fala demais — retrucou Jungkook, mas havia um tom afetuoso por baixo da aspereza costumeira. — Mas ele é leal. Daria a vida por você e pela Kely.
— Eu sei. E eu faria o mesmo por ele.
Enquanto desciam a colina em direção aos chalés, o vento soprou mais frio vindo da direção da floresta. Foi ali que algo incomum aconteceu. Uma névoa densa e escura, que costumava brotar da terra sempre que o humor de Jungkook vacilava, começou a subir do solo úmido ao redor dos tornozelos dos dois. Era a energia do Submundo, o frio gélido dos mortos que habitualmente afastava qualquer campista comum com arrepios e náuseas.
Jungkook parou, prestes a pedir desculpas e controlar os próprios poderes com esforço habitual.
No entanto, a névoa não se comportou como de costume. Em vez de avançar ou congelar o cascalho, a sombra simplesmente roçou a bainha da calça de Lilly e recuou suavemente, ondulando ao redor dos pés dela como se encontrasse um porto seguro, quase submissa. Lilly olhou para o chão, intrigada, e depois olhou para Jungkook. Ela não recuou um único milímetro. Não houve tremor, nem repulsa.
— Suas sombras são bem educadas — comentou ela, com uma pitada sutil de humor. — Parecem tão tímidas quanto o