← Voltar ao resumo

sombras e espinhos

Entre Sombras e Coroas de Louros

— Parecem tão tímidas quanto o dono — completou Lilly com um brilho divertido nos olhos claros, observando os fios de escuridão rodopiarem ao redor das tiras de suas sandálias sem queimá-la com o frio habitual do Érebo.

Jungkook estancou no meio da trilha. O ar noturno pareceu congelar em seus pulmões. Ninguém no Acampamento Meio-Sangue ousava falar sobre seus poderes com tanta leviandade, muito menos insinuar que o filho do Deus dos Mortos era tímido. As sombras sob seu comando eram feitas de rancor, terra revirada e o pesar das almas esquecidas no Tártaro; campistas experientes recuavam metros quando ele perdia a concentração, tomados por calafrios e náuseas involuntárias.

No entanto, Lilly York estava ali, a menos de meio metro de distância, com as mãos delicadas entrelaçadas à frente do corpo e uma expressão de serena curiosidade. As sombras não apenas a poupavam da agonia gélida, mas pareciam estranhamente calmas, ondulando ao redor da barra de sua calça como cães de caça descansando junto a uma lareira.

— Elas não são tímidas — retrucou ele, a voz saindo mais rouca do que pretendia, pigarreando para afastar o desconforto que subia por seu pescoço. — Elas só estão... confusas. O Ferro Estígio deixou resíduos na sua energia.

Lilly ergueu uma sobrancelha perfeitamente delineada, um sorriso tênue e enigmático desenhando-se em seus lábios.

— Se você diz, Jeon. Longe de mim contradizer o especialista no além-túmulo.

Jungkook balançou a cabeça em silêncio, retomando a caminhada com passos mais pesados para mascarar a sensação inquietante que ainda formigava em suas mãos. Havia uma linha invisível estendendo-se entre os dois desde o instante em que a segurara na lama da colina. Não era mágica visível, nem uma bênção dos deuses; era algo mais primitivo, uma ressonância sutil que fazia a terra sob seus pés parecer mais sólida e as sombras menos amargas.

Eles contornaram a fogueira central, onde brasas carmesins ainda estalavam sob a guarda de alguns sátiros sonolentos, e se aproximaram da fileira de chalés mais recentes. A construção correspondente ao chalé dezessete se erguia com colunas de mármore branco encimadas por entalhes de asas abertas e coroas de louros dourados. Lá dentro, mesmo àquela hora tardia, a luz brilhava intensamente pelas janelas.

Antes que Jungkook pudesse bater, a porta de carvalho se escancarou.

— Até que enfim! — exclamou Kely, já vestindo um blusão largo e com os cabelos ruivos presos em um coque desajeitado. A garota puxou Lilly para dentro sem cerimônia, analisando a irmã mais velha de cima a baixo como se procurasse membros quebrados. — Eu já estava quase indo arrastar você da enfermaria. O Alex não parava de andar de um lado para o outro resmungando que você ia tentar fugir a pé para Manhattan.

— Eu sou racional, Kely, não suicida — respondeu Lilly, permitindo que a mais nova a abraçasse com força antes de afagar os ombros dela com carinho medido. — Manhattan está a quase duas horas de distância e eu não tenho um centavo no bolso desta camisa chamativa.

Alex apareceu no corredor interno do chalé, segurando uma maçã e exibindo um curativo reforçado sobre as costelas. Seu rosto abriu-se no sorriso largo e confiante que sempre acalmava qualquer ambiente.

— Eu avisei que ela ia reclamar da camisa — disse Alex, piscando para a irmã e, em seguida, voltando-se para o rapaz na soleira. — Entra aí, JK. A gente guardou pizza do almoço.

— Eu preciso voltar para o meu chalé — respondeu Jungkook, mantendo-se do lado de fora, a postura rígida habitual voltando a tomar conta de seus ombros. — O toque de recolher já passou.

— Desde quando você liga para o toque de recolher? — Alex riu, dando um passo à frente e puxando o filho de Hades pelo braço com a familiaridade descarada de quem não temia absolutamente nada vindo dele. — Você é de casa, cara. Além do mais, se as harpias de limpeza tentarem te comer vivo, você transforma elas em ossos de galinha. Entra logo.

Lilly observou a dinâmica com atenção calculista. Alex não apenas confiava em Jungkook; ele o tratava como um irmão de sangue, com uma lealdade natural que os três haviam cultivado desde os anos de orfanato. E, para sua surpresa, o garoto de olhos escuros e jaqueta de couro não ofereceu resistência real. Ele apenas suspirou, derrotado pela insistência de Alex, e cruzou a soleira do chalé de Nike.

O interior do chalé era uma ode extravagante ao sucesso. Troféus de bronze, coroas de louro emolduradas, estandartes de competições passadas e armas polidas decoravam as paredes de mármore. Havia uma energia vibrante no ar, uma pulsação constante que incentivava o movimento, a corrida, o triunfo. Para outros semideuses, aquele lugar podia parecer motivador. Para Lilly, tinha o cheiro estéril de uma galeria de troféus sem alma.

Ela aproximou-se de uma das camas vazias, tocando a colcha com a ponta dos dedos.

— Os outros filhos dela estão dormindo? — perguntou Lilly, a voz baixa.

— A maioria dos nossos meio-irmãos foi dormir cedo por causa do treino de amanhã — explicou Alex, jogando-se em uma poltrona de couro e entregando a maçã pela metade para Kely, que a pegou sem pestanejar. — Eles são legais, Lil. Meio competitivos demais, apostam até quem escova os dentes mais rápido, mas têm sangue bom. Vão adorar você.

Lilly não respondeu. Ela sentou-se na beirada do colchão, ajeitando a dobra da calça com extrema meticulosidade.

— Não quero que me adorem, Alex. Só quero entender quanto tempo precisamos ficar aqui até que Charlotte nos mande um sinal.

O silêncio que se abateu sobre o quarto foi instantâneo. Kely parou de mastigar a maçã, e Alex perdeu um pouco do brilho despreocupado do olhar.

— Lilly... nós não podemos simplesmente voltar para o apartamento — disse Alex, a voz adotando um tom protetor, mas cauteloso. — Charlotte nos manteve escondidos por anos com amuletos e magia oculta, mas agora que os monstros sentiram o nosso cheiro juntos, o mundo mortal se tornou uma armadilha. Este acampamento é o único lugar onde a barreira mágica impede que sejamos devorados vivos durante o jantar.

— Eu compreendo a logística — rebateu Lilly, mantendo o tom suave, a voz tão serena que tornava impossível acusá-la de histeria. — O que não compreendo é o fervor com que vocês parecem ter aceitado isso tudo.

Seus olhos verdes varreram as paredes douradas, fixando-se no grande símbolo da vitória gravado no teto.

— Passamos fome no inverno de 2012 em Marselha, Alex. Kely quase morreu de bronquite enquanto as freiras nos trancavam no dormitório sem aquecimento. Onde estavam as asas douradas da senhora deste chalé naquela época? Onde estava a 'glória' de sua linhagem quando Charlotte teve que gastar metade das economias dela em advogados para que não nos separassem na adoção?

Alex baixou a cabeça, incapaz de contestar os fatos. Ele e Kely sabiam muito bem de onde tinham vindo.

— Ela é uma deusa, Lil — murmurou Kely, a voz pequena, sentando-se no chão aos pés da irmã mais velha e apoiando a cabeça em seu joelho. — Eles não vivem sob as nossas regras. Não é como se ela pudesse simplesmente descer e nos buscar em um carro mortal.

— Então que também não espere que eu preste continência para a estátua dela — concluiu Lilly com tranquilidade absoluta. Ela acariciou os cabelos ruivos da irmã mais nova com ternura infinita, o único momento em que sua armadura parecia ceder. — Não estou brava com vocês. Fico feliz que encontrem consolo em saber sua origem. Mas minha mãe se chama Charlotte York. É a ela que devo respeito, e é por ela que vou voltar para Manhattan assim que for seguro.

No canto da sala, encostado em uma pilastra sombreada, Jungkook assistia à cena sem emitir um único som. Seus olhos negros captavam cada nuance daquela garota. A maioria dos semideuses que guardava rancor dos deuses sucumbia à amargura descontrolada, quebrando coisas ou desertando para o lado dos titãs em busca de vingança cega. Mas Lilly não tinha veneno; tinha apenas uma clareza moral cirúrgica. Ela não odiava por fraqueza, mas por lealdade à mortal que a amara de verdade.

Jungkook conhecia aquele sentimento. Seu pai, Hades, o deixara à própria sorte nas ruas úmidas de Seul e depois nos becos frios do Brooklyn antes que o cheiro da morte atraísse cães infernais para o apartamento modesto de sua mãe. Ele compreendia a náusea de ser considerado apenas uma ferramenta de guerra para seres imortais.

Alex suspirou, quebrando o clima pesado com um estalar de dedos.

— Bom, ninguém vai te obrigar a rezar para a Nike, Lil. Mas amanhã cedo você tem que se apresentar na arena. Quíron quer ver do que você é capaz depois do showzinho com a mantícora.

— Um show que só aconteceu porque peguei uma ferramenta emprestada — disse Lilly, lançando um olhar de soslaio para a sombra onde Jungkook estava. — O dono dela fez questão de me lembrar disso.

Jungkook descruzou os braços, saindo da penumbra.

— Apenas me certifiquei de que você soubesse o risco — disse ele, a voz firme e grave cortando o espaço entre eles. — O Ferro Estígio mata semideuses despreparados. Você teve sorte.

— Eu não acredito em sorte, Jeon — ela respondeu com um meio sorriso elegante, sustentando o olhar penetrante dele sem vacilar. — Apenas em eficácia.

— Veremos amanhã na arena — rebateu ele, virando-se para a porta com um aceno rápido de cabeça para Alex. — Vou indo. Descansem.

— Valeu por trazer ela, JK! — gritou Alex enquanto a porta se fechava atrás do filho de Hades. O rapaz ruivo virou-se para a irmã, com uma expressão maliciosa no rosto. — Ele gosta de você.

Lilly revirou os olhos com a graça indiferente de uma princesa francesa.

— Ele mal me conhece, Alexsander. Não seja ridículo.

— Ele não fala três frases seguidas com ninguém que não seja eu ou o Percy, Lilly — pontuou Alex, apontando um dedo acusador. — E você acabou de desafiar o cara no território dele. Eu durmo tranquilo sabendo que você não vai morrer amanhã. Mas que vai ser divertido ver você tentar desarmar ele de novo, ah, vai.

***

A manhã no Acampamento Meio-Sangue nasceu límpida, com o sol projetando sombras longas sobre os campos de morangos.

O pavilhão de jantar era uma estrutura aberta, sustentada por colunas gregas com vista panorâmica para o Estreito de Long Island. O cheiro de panquecas quentes, frutas frescas e fumaça de incenso pairava no ar fresco da alvorada. Lilly caminhou ao lado dos irmãos, mantendo sua postura impecável mesmo trajada na camiseta laranja e em uma calça de linho escuro que Kely havia conseguido emprestada com uma das filhas de Afrodite.

Quando chegou o momento da oferenda matinal à fogueira central, Lilly observou os campistas queimarem porções de suas melhores comidas para seus respectivos pais divinos. Alex e Kely jogaram morangos brilhantes e fatias de waffle com mel, murmurando preces agradecidas à deusa alada da vitória.

Lilly aproximou-se do braseiro. Sob os olhares atentos de Quíron e dos filhos de Nike, ela segurou uma uva entre os dedos finos. Olhou para as chamas dançantes e jogou a fruta com indiferença calculada.

— Por Charlotte — murmurou ela em francês, tão baixo que apenas o crepitar do fogo ouviu. — Que ela continue segura longe deste circo.

Ao virar-se para a mesa, seus olhos cruzaram com os de Annabeth Chase. A filha de Atena estava sentada à mesa do chalé seis, acompanhada por Percy Jackson. Annabeth observara o gesto minimalista de Lilly com seus olhos cinzentos e avaliadores, compreendendo instantaneamente a ausência total de reverência divina naquela oferenda.

Minutos depois, quando Lilly se dirigia aos campos de treinamento, Annabeth emparelhou o passo ao lado dela.

— Você não gosta dela — afirmou a loira sem rodeios, cruzando os braços sobre o peitoral de couro que usava para o treino. — Da sua mãe divina.

Lilly não desacelerou o passo, mantendo o olhar fixo no horizonte de terra batida da arena.

— Admirar quem nos colocou no mundo apenas pelo título que carrega é um hábito que nunca cultivei, senhorita Chase. Respeito se conquista com presença, não com mitos empoeirados.

Annabeth franziu a testa por um breve momento, mas uma faísca de aprovação brilhou em suas íris tempestuosas.

— Atena e Nike sempre lutaram lado a lado nas guerras antigas — explicou Annabeth, a voz adquirindo o tom professoral característico, embora despido de arrogância. — A estratégia precisa da vitória para se concretizar, e a vitória é cega sem um plano estratégico. Seus irmãos são excelentes no ataque direto, mas você... você luta como se estivesse jogando xadrez.

— Eu não luto por esporte — respondeu Lilly com polidez firme. — Se preciso erguer uma arma, é para encerrar o conflito no menor tempo possível e garantir que os meus fiquem vivos. Se Atena aprova isso, ótimo. Se não, não fará diferença nos meus métodos.

Percy apareceu trotando atrás das duas, segurando Contracorrente em sua forma de caneta e com um sorriso descontraído no rosto bronzeado.

— Não liga para ela, Lilly. A Annabeth tenta analisar até a física das panquecas antes de colocar a calda. Você foi incrível ontem à noite. O Jungkook quase nunca deixa alguém chegar a menos de dois metros daquela espada sinistra dele, muito menos arrancar ela da mão dele no meio de uma corrida.

— Eu estava motivada — disse Lilly, oferecendo um sorriso brando a Percy, sentindo a aura acolhedora e descomplicada do rapaz, que lembrava muito a energia solar de Alex.

— Bem, o teste real começa agora — disse Annabeth, apontando para o centro da arena.

Lá dentro, entre bonecos de palha estraçalhados e alvos de ferro perfurados, Jeon Jungkook já estava em movimento. Ele não vestia armadura pesada; apenas uma regata preta que deixava à mostra os braços esculpidos e as veias saltadas pelo esforço, manchados de terra e suor. O gládio de Ferro Estígio cortava o ar com uma precisão mortal, zunindo em arcos perfeitos enquanto ele despachava três manequins de treino com golpes secos e brutais. A terra ao redor de seus pés tremia levemente a cada impacto, pequenos pedregulhos flutuando antes de caírem pulverizados pelo poder subterrâneo que ele mal continha.

Alex já estava na lateral da arena, ajustando as correias de um escudo redondo de bronze.

— Vai lá, Lil! — incentivou o irmão mais velho com entusiasmo barulhento. — Mostra para o Jungkook que o sangue de Marselha não enferruja fácil!

Jungkook parou o movimento de sua lâmina no ar, ouvindo a voz do amigo. Ele girou sobre os calcanhares, a respiração ligeiramente acelerada, o cabelo preto caindo molhado sobre os olhos. Quando avistou Lilly caminhando até o suporte de armas na borda do tablado, seu semblante fechado endureceu ainda mais, embora seus olhos guardassem uma intensidade quase magnética.

Lilly ignorou os escudos pesados e as lanças compridas. Seus dedos deslizaram sobre uma fileira de espadas até encontrarem uma espada curta de bronze celestial, de empunhadura leve e lâmina equilibrada, quase idêntica às espadas de duelo que ela praticara em seus verões em Florença.

Ela entrou na terra batida da arena sem pressa, ajeitando a postura.

— Espero que tenha descansado, Jeon — disse ela, a voz clara e cristalina ecoando pelo espaço aberto. — Porque não pretendo devolver nada do que eu conquistar nesta manhã.

Jungkook fincou o gládio negro no chão à sua frente, apoiando as duas mãos sobre o pomo com uma pose bruta e desafiadora. Um meio sorriso quase invisível surgiu no canto de seus lábios.

— Se conseguir me fazer dar dois passos para trás, York, você pode escolher o que quiser do arsenal.

— Trato feito — respondeu Lilly, assumindo a posição de guarda com a elegância impecável de quem nasceu para o triunfo.

Percy e Alex encostaram-se na mureta, prontos para assistir ao espetáculo, enquanto Annabeth estreitava os olhos, pronta para registrar cada movimento.

No instante em que Lilly avançou, rápida como um raio de sol matinal e precisa como uma lâmina de cirurgião, Jungkook sentiu a terra abaixo deles vibrar em uma frequência diferente. Suas sombras não se ergueram para atacá-la; em vez disso, abriram passagem para o avanço da garota ruiva.

A batalha pelo controle daquele terreno estava apenas começando, mas o pacto silencioso forjado entre a luz dourada da vitória e o abismo frio da morte já havia sido selado.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.