Star 5
O Peso da Herança e o Cheiro do Ramen
Três meses haviam se passado desde a noite em que a névoa purpúrea do Lótus Carmesim envolveu Konoha, e a vila nunca pareceu tão pequena para os dez homens cujas vidas foram viradas do avesso. O que antes era uma lenda esquecida agora se manifestava em mudanças físicas inegáveis e uma montanha-russa emocional que nenhum treinamento ninja poderia preparar.
No distrito Uchiha, o silêncio matinal foi quebrado pelo som seco de alguém engasgando. Sasuke Uchiha estava debruçado sobre a pia do banheiro, o rosto pálido e o cenho franzido em uma expressão de puro ódio contra o próprio corpo.
— Droga... — resmungou Sasuke, limpando a boca com as costas da mão enluvada. — Isso é ridículo.
— Sasuke? Você está bem? — A voz de Naruto veio do corredor, soando irritantemente preocupada e, pior ainda, cheia de energia.
Naruto entrou no banheiro com um sorriso pequeno, mas seus olhos brilhavam com uma calma que Sasuke considerava um insulto pessoal. O loiro estendeu uma toalha limpa, mas o Uchiha a arrancou de sua mão com grosseria.
— A culpa é sua, Naruto — sibilou Sasuke, os olhos faiscando. — Se você não fosse tão... você, não estaríamos nessa situação. Eu sou um shinobi de elite, o último do meu clã, e agora não consigo sentir o cheiro de peixe grelhado sem querer colocar minhas entranhas para fora.
— Ei, não seja assim! — Naruto riu baixo, cruzando os braços. — Eu também estou envolvido nisso, sabe? Mas o Kurama diz que é um processo natural, mesmo que seja... bem, nada natural para a gente.
— Natural? — Sasuke se aproximou, o dedo em riste no peito de Naruto. — Eu tenho desejos por tomates cobertos com mel, Naruto. Com mel! Se você contar isso para alguém, eu juro que o Amaterasu será a última coisa que você verá.
Naruto apenas balançou a cabeça, mantendo a paciência. Ele sabia que a frieza de Sasuke era apenas um escudo para o medo de perder o controle sobre sua própria vida.
— Tudo bem, "teme". Vou comprar seus tomates. Mas depois temos que passar no hospital para ver o Sai. Shikamaru me disse que as coisas estão complicadas por lá.
Enquanto isso, no Hospital de Konoha, o clima era consideravelmente mais sombrio. Shikamaru Nara estava sentado em uma cadeira de madeira no corredor, com a cabeça baixa e as mãos entrelaçadas. Suas olheiras eram profundas. O término com Temari ainda era uma ferida aberta, uma sombra que o impedia de se entregar totalmente à nova realidade.
Lá dentro, Sai estava deitado em uma maca. Sua pele, normalmente pálida, parecia quase translúcida. A gestação de Sai era, de longe, a mais difícil entre todos os afetados pelo jutsu. O chakra do desenho e a manipulação de tinta pareciam entrar em conflito com a nova vida que crescia em seu ventre, causando dores agudas e desmaios constantes.
— Você deveria estar descansando em casa, Sai — disse a enfermeira, mas foi interrompida pelo próprio rapaz, que tentava se sentar.
— Eu estou bem — mentiu Sai, com o sorriso falso de sempre, embora estivesse ofegante. — Shikamaru tem problemas demais com o clã e com a papelada do Hokage. Não quero ser mais um fardo "problemático" para ele.
Shikamaru, ouvindo a conversa pela porta entreaberta, sentiu uma pontada de culpa que superava qualquer cansaço. Ele entrou no quarto, o passo lento.
— Você é um idiota, Sai — disse Shikamaru, aproximando-se da maca. — Como pode dizer que é um fardo?
— Você ainda chora à noite por ela, Shikamaru — Sai disse com sua franqueza característica, sem filtro. — Eu não tenho as habilidades sociais para competir com uma memória. Então, prefiro lidar com a dor física sozinho.
Shikamaru suspirou, sentando-se na beira da cama. Ele pegou a mão gélida de Sai, surpreendendo o outro.
— É complicado, sim. Mas eu estou aqui agora. Esqueça a Temari. Esqueça o trabalho. Só... tente respirar, está bem? Eu vou cuidar de você, mesmo que eu seja um desleixado.
Do outro lado da vila, na residência Hatake, a atmosfera era o oposto do drama de Shikamaru. Kakashi parecia ter esquecido que um dia foi o "Ninja Copiador" temido por nações. Ele estava ajoelhado no chão da cozinha, lendo um livro sobre nutrição pré-natal enquanto Iruka tentava, sem sucesso, pegar uma simples chaleira.
— Kakashi, pelo amor de todos os deuses, é só chá! — exclamou Iruka, com as mãos na cintura.
— Nem pensar, Iruka-sensei — Kakashi levantou o olhar por cima do livro, os olhos brilhando com uma empolgação quase infantil. — O nível de cafeína pode afetar o desenvolvimento do sistema nervoso. E você subiu em um banco ontem para pegar um livro na prateleira de cima. Eu quase tive um ataque cardíaco.
— Eu sou um chunin, Kakashi! Eu pulo de telhados para viver! — Iruka riu, mas seu coração derretia ao ver o Sexto Hokage tão dedicado.
— Agora você é um tesouro nacional — Kakashi se levantou e envolveu Iruka em um abraço cuidadoso, encostando a testa na dele. — Eu nunca tive uma família de verdade, Iruka. Eu não vou arriscar nada. Me deixe ser babão. Eu gosto disso.
Iruka suspirou, rendendo-se ao abraço.
— Tudo bem... mas eu ainda quero meu chá de hortelã. Sem cafeína, prometo.
Enquanto Konoha tentava encontrar um equilíbrio, nos alojamentos diplomáticos, o caos tinha nome e sobrenome: Deidara.
— EU VOU EXPLODIR VOCÊ! — gritou Deidara, apontando para o próprio abdômen ligeiramente protuberante. — VOCÊS! POR QUE SÃO DOIS? UMA EXPLOSÃO JÁ É O BASTANTE, DUAS É EXCESSO DE ZELO!
Gaara permanecia parado à porta, segurando uma bandeja com frutas e pães frescos. Ele observava Deidara discutir com a própria barriga como se estivesse diante de um inimigo no campo de batalha.
— Deidara, você precisa comer — disse Gaara com sua voz monótona e calma, embora houvesse um brilho de confusão em seus olhos claros.
— Comer? Eu quero é vomitar até minha alma sair pela boca, hm! — Deidara se jogou na cama, os cabelos loiros bagunçados. — E você, Kazekage de araque... por que está me olhando assim? Com essa cara de areia molhada?
— Eu não sei como me expressar bem, você sabe disso — Gaara caminhou até ele e colocou a bandeja na mesa de cabeceira. — Mas eu sinto o chakra deles. São fortes. Como você.
Deidara parou de gritar por um segundo. Ele olhou para Gaara e depois para a comida. O ódio que sentia por estar "preso" naquela situação às vezes vacilava diante da paciência infinita do ruivo.
— Eles estão chutando, hm. Parece que estão tentando esculpir argila lá dentro. É irritante.
— Talvez eles só queiram atenção — sugeriu Gaara, arriscando-se a sentar na beira da cama.
— Não encosta em mim! — Deidara rosnou, mas não se afastou quando a mão de Gaara pairou hesitante sobre o lençol. — Está bem... só um pouco. Mas se você contar para o Sasori que eu estou sendo carinhoso, eu transformo essa vila em pó.
Gaara permitiu-se um micro-sorriso. Ele não entendia muito de sentimentos, mas a proteção que sentia por aquele loiro explosivo era algo que ele cultivava com o mesmo rigor com que protegia Suna.
Longe dali, nos campos de treinamento que agora serviam apenas para caminhadas leves, Rock Lee estava praticamente flutuando de alegria.
— Neji! Veja esta flor! Ela tem a cor da juventude e da vitalidade! — Lee exclamou, correndo em volta de Neji Hyuuga. — Eu li que cores vibrantes ajudam na formação do caráter do bebê!
Neji caminhava com sua elegância habitual, embora seus passos estivessem mais lentos e ele ocasionalmente colocasse a mão nas costas para aliviar a pressão. Ele mantinha a expressão séria, os olhos Byakugan focados no horizonte.
— Lee, é apenas uma flor silvestre. E por favor, pare de correr. Você está me deixando tonto.
— Oh, mil perdões, Neji! — Lee parou instantaneamente, o rosto cheio de culpa. — Eu deveria ser mais atencioso. Quer que eu o carregue? Eu posso fazer mil agachamentos com você nas costas!
— Não seja ridículo — Neji desviou o olhar, as pontas das orelhas ficando levemente vermelhas.
Eles continuaram andando em silêncio por alguns minutos até chegarem a um banco sob uma árvore de cerejeira. Neji sentou-se com um suspiro de alívio. Lee sentou-se ao seu lado, observando-o com uma adoração que nunca escondia.
— Lee... — chamou Neji, a voz baixa.
— Sim, Neji-san?
— Está frio.
Lee não precisou de mais nada. Ele se aproximou e envolveu Neji em um abraço lateral apertado, oferecendo todo o calor de seu corpo treinado. Neji, que sempre pregava a independência e o destino, inclinou a cabeça no ombro de Lee e fechou os olhos.
— Não conte ao Guy-sensei que eu estou sendo... mole — murmurou Neji.
— Seu segredo está seguro comigo nas chamas da juventude! — Lee sussurrou de volta, abraçando-o com ainda mais força.
A noite caiu novamente sobre Konoha, mas desta vez não havia névoa mágica. Havia apenas a realidade nua e crua de dez homens tentando entender o que significava criar uma vida.
Sasuke, em sua casa, finalmente aceitou os tomates com mel que Naruto trouxe, comendo-os com uma voracidade que o fez corar de vergonha enquanto Naruto o observava com carinho.
Shikamaru não saiu do lado de Sai no hospital, segurando sua mão enquanto o outro finalmente conseguia dormir um sono sem dor, monitorado de perto por Sakura e Tsunade.
Kakashi e Iruka compartilharam o chá de hortelã, planejando como transformar o escritório do Hokage em um lugar seguro para uma criança.
Gaara permaneceu no quarto de Deidara, lendo em voz alta sobre a história das artes para acalmar os gêmeos inquietos, enquanto o loiro fingia que não estava ouvindo, embora tivesse um sorriso inconsciente nos lábios.
E Neji e Lee permaneceram sob as estrelas, o gênio e o trabalhador esforçado unidos por algo que nenhum destino poderia ter previsto.
A gestação era um território desconhecido, cheio de enjôos, humores instáveis e desejos bizarros. Mas, enquanto as luzes de Konoha se apagavam uma a uma, ficava claro que, apesar de todas as reclamações e confusões, nenhum deles enfrentaria aquele caminho sozinho. O Lótus Carmesim poderia ter sido uma armadilha, mas o que florescia a partir dele era algo que nem o mais poderoso jutsu poderia replicar: a construção de algo novo, nascido do caos, mas mantido pelo afeto.