Star 5
Entre Sombras, Tintas e Tomates
A manhã em Konoha nasceu com um cheiro metálico de chuva iminente, mas para Sasuke Uchiha, o mundo tinha cheiro de algo muito pior: arroz amanhecido. O aroma, que antes seria imperceptível, agora subia as escadas do distrito Uchiha como um ataque direto aos seus sentidos aguçados.
— Naruto! — o grito de Sasuke ecoou, embora tenha terminado em um som abafado enquanto ele corria para o banheiro.
Segundos depois, Naruto apareceu na porta, coçando a nuca e com um avental que dizia "O Melhor Cozinheiro de Ramen do Mundo". Ele viu a figura curvada de Sasuke e sentiu uma mistura de pena e divertimento que sabia que não deveria demonstrar.
— Sasuke, eu só estava tentando fazer um café da manhã reforçado... — começou Naruto, aproximando-se cautelosamente.
— Eu vou matar você — sibilou Sasuke, limpando o rosto com água gelada. Ele se virou, os olhos levemente avermelhados pelo esforço. — Eu sou um vingador, o herdeiro do Sharingan... e estou aqui, sendo derrotado por uma tigela de arroz. A culpa é toda sua e desse seu chakra barulhento que bagunçou o meu!
Naruto deu um passo à frente, ignorando a aura assassina.
— Tá bom, tá bom. Eu limpo tudo e abro as janelas. O que você quer comer? Eu busco qualquer coisa.
Sasuke desviou o olhar, o rosto pálido ganhando uma coloração rosada que não tinha nada a ver com febre. Ele hesitou, as mãos apertando a borda da pia.
— Eu quero... — ele começou, a voz tão baixa que Naruto teve que se inclinar. — Eu quero tomates. Mas eles têm que estar gelados. E com canela. Muita canela.
Naruto piscou, processando a combinação bizarra.
— Tomate com... canela? Sasuke, isso soa horrível, dattebayo!
— Agora, Naruto! — Sasuke rugiu, e o loiro saiu disparado pela porta antes que um Chidori fosse conjurado por puro estresse gestacional.
Enquanto isso, no Hospital de Konoha, o silêncio era interrompido apenas pelo som rítmico de um monitor de chakra. Sakura Haruno revisava os prontuários de Sai com uma expressão preocupada. Ela olhou para o amigo pálido na cama e depois para a porta, onde Shikamaru Nara deveria estar, mas não estava.
— Como está se sentindo hoje, Sai? — perguntou Sakura, ajustando o soro de nutrientes.
Sai tentou sorrir, mas o gesto não alcançou seus olhos. Suas mãos, antes firmes para desenhar, tremiam levemente sobre o lençol. A gestação de Sai era a mais instável; seu corpo parecia lutar contra a intrusão de uma vida que não seguia as regras de sua fisiologia moldada pela Raiz.
— Eu me sinto... ineficiente — respondeu Sai. — O "Pequeno Humano" está drenando meu chakra de uma forma que meus pergaminhos não conseguem compensar.
Sakura suspirou e puxou uma cadeira.
— Onde está o Shikamaru? Ele deveria estar aqui para a infusão de suporte.
— Ele tem muito trabalho na torre — disse Sai rapidamente, desviando o olhar para a janela. — E ele ainda está... processando as coisas. O término com a Temari foi um evento de alto impacto emocional. Eu entendo que ele precise de espaço.
Sakura cerrou os punhos. Ela conhecia Shikamaru. Sabia que ele estava sofrendo, mas vê-lo se distanciar justamente quando Sai mais precisava era inaceitável.
— Ele não precisa de espaço, Sai. Ele precisa de um choque de realidade — Sakura se levantou. — Eu volto logo. Não saia dessa cama.
No corredor, Sakura encontrou Shikamaru encostado em uma parede, observando o teto com um cigarro apagado entre os lábios. Ele parecia exausto, como se carregasse o peso de todas as nações elementares nas costas.
— Shikamaru! — a voz de Sakura chicoteou o ar.
— Ah, Sakura... é um saco, eu sei — murmurou ele, sem olhar para ela.
— Um saco? — ela se aproximou, a voz baixa e perigosa. — O Sai está lá dentro achando que é um fardo. Ele está tentando passar por uma gestação de alto risco sozinho porque você está muito ocupado sentindo pena de si mesmo pelo que aconteceu com a Temari!
Shikamaru finalmente baixou o olhar. Seus olhos estavam nublados.
— Não é isso, Sakura. É que... toda vez que eu olho para ele, eu lembro que minha vida tomou um rumo que eu nunca planejei. Eu não sei como cuidar dele sem sentir que estou falhando com todo mundo. Com ela, com ele, com o bebê. Eu sou um estrategista que perdeu o controle do tabuleiro.
— Então mude a estratégia, idiota! — Sakura deu um peteleco na testa dele, forte o suficiente para estalar. — O Sai não é uma peça de Shogi. Ele é seu companheiro. E ele está com medo.
Shikamaru ficou em silêncio por um longo tempo. As palavras de Sakura perfuraram sua inércia. Ele olhou para a porta do quarto de Sai e, pela primeira vez em semanas, a nuvem de apatia pareceu diminuir.
Enquanto isso, em uma ala mais isolada, o som de algo quebrando indicava que Deidara estava acordado.
— EU JÁ DISSE QUE NÃO VOU COMER ESSA SOPA DE AREIA, HM! — Deidara arremessou uma colher em direção a Gaara.
O Kazekage não se moveu. Uma pequena parede de areia surgiu e bloqueou o talher com precisão cirúrgica.
— Não é areia, Deidara. É um caldo de legumes nutritivo — explicou Gaara, mantendo a voz num tom monocórdico que irritava o loiro profundamente. — Você precisa de energia. Os gêmeos estão agitados hoje.
Deidara bufou, cruzando os braços sobre a barriga que já começava a marcar a túnica larga.
— Eles estão sempre agitados! Parece que estão tentando explodir um ao outro lá dentro. É uma arte incompreendida, eu sei, mas está acabando com as minhas costas!
Gaara deu um passo à frente, hesitante. Ele nunca soube lidar bem com as complexidades das emoções humanas, e Deidara era um vulcão em constante erupção.
— Eu posso... ajudar com a dor — disse Gaara. — Se você permitir.
— E como você faria isso, hm? Vai me transformar em um caixão de areia?
— Não. Massagem. Eu li que ajuda.
Deidara semicerrou os olhos, desconfiado, mas a dor lombar falou mais alto.
— Está bem! Mas se você tentar qualquer coisa engraçada, eu juro que uso o C4 em você assim que eu recuperar meu chakra total!
Gaara sentou-se atrás de Deidara na cama e começou a mover as mãos com uma delicadeza surpreendente. O calor da areia que ele manipulava sutilmente através das palmas começou a relaxar os músculos do loiro. Deidara soltou um suspiro involuntário, sua cabeça caindo para trás, encostando no ombro de Gaara.
— Você é... menos pior do que eu pensava, Kazekage — murmurou Deidara, os olhos fechando.
— Você também é menos explosivo quando está com sono — respondeu Gaara, permitindo-se um raro e quase imperceptível sorriso.
Longe dali, no telhado da Academia Ninja, Kakashi e Iruka aproveitavam o horário de almoço. Ou melhor, Iruka tentava aproveitar, enquanto Kakashi o cercava de cuidados.
— Iruka, não se incline tanto para frente. O centro de gravidade muda na décima segunda semana — alertou Kakashi, segurando o braço do professor.
— Kakashi, eu estou sentado em um banco de madeira, não em um penhasco! — Iruka riu, mas aceitou a mão do outro. — Você está mais empolgado que eu, sabia?
— Eu passei a vida perdendo pessoas, Iruka — Kakashi disse, sua voz ficando suave por trás da máscara. Ele colocou a mão sobre a mão de Iruka. — Ver algo novo crescendo... algo que é nosso... é o maior milagre que eu já presenciei. Mais que qualquer jutsu.
Iruka sentiu os olhos marejarem. Ele inclinou a cabeça no ombro de Kakashi, observando as nuvens passarem.
— Eu amo ver esse seu lado, Kakashi. Mas você ainda vai ter que me deixar dar aulas até o mês que vem.
— Veremos sobre isso — Kakashi murmurou, já planejando como subornar a diretoria da escola para dar uma licença remunerada antecipada ao companheiro.
De volta ao hospital, Shikamaru finalmente entrou no quarto de Sai. O artista estava desenhando em um pequeno bloco, mas parou assim que viu o moreno.
— Shikamaru? Aconteceu algo com os relatórios do Hokage? — perguntou Sai, a voz carregada de uma neutralidade defensiva.
Shikamaru caminhou até a cama e, sem dizer nada, sentou-se na beira e puxou Sai para um abraço. Foi um gesto desajeitado, mas firme. Sai congelou, os pincéis caindo no chão.
— Me desculpa — sussurrou Shikamaru contra o pescoço de Sai. — Eu fui um covarde. Eu estava fugindo porque não sabia como lidar com o fato de que eu me importo com você.
Sai piscou, as lágrimas que ele vinha reprimindo finalmente escapando.
— Eu pensei que você quisesse que eu desaparecesse. Como se eu fosse um erro do jutsu.
— Você nunca foi um erro — Shikamaru se afastou o suficiente para olhar nos olhos dele. — O jutsu pode ter forçado a situação, mas o que eu sinto agora... a vontade de proteger você e esse bebê... isso é meu. Só meu.
Sai sorriu, e desta vez foi um sorriso verdadeiro, pequeno e trêmulo.
— Isso é... logicamente reconfortante, Shikamaru.
Enquanto isso, Neji Hyuuga tentava manter sua dignidade enquanto Rock Lee o seguia pelo mercado de Konoha.
— Neji! Eu comprei estes pesos de tornozelo em miniatura! Para quando o pequeno gênio nascer! — Lee exclamava, brilhando de entusiasmo.
— Lee, o bebê não vai treinar Taijutsu nos primeiros meses — disse Neji, suspirando, embora sua mão estivesse firmemente entrelaçada na de Lee.
— Mas a juventude não espera! — Lee parou e olhou para Neji com olhos brilhantes. — Você está cansado? Eu sinto que seu chakra está flutuando. Quer que eu o carregue no estilo noiva até o clã Hyuuga?
Neji olhou ao redor, vendo vários aldeões observando a cena. Sua face esquentou.
— Se você fizer isso, eu juro que fecho todos os seus pontos de chakra por uma semana.
— Então um abraço de dez segundos! — propôs Lee.
Neji fingiu considerar, revirando os olhos, mas acabou se encostando no peito de Lee, permitindo que a energia vibrante do outro o envolvesse.
— Só dez segundos, Lee — murmurou Neji, fechando os olhos e aproveitando o calor que, secretamente, era a única coisa que acalmava seus enjôos matinais.
Ao final do dia, Naruto retornou para casa com uma sacola cheia de tomates e um vidro de canela. Ele encontrou Sasuke sentado na varanda, observando o pôr do sol. O Uchiha parecia mais calmo, embora ainda tivesse aquele ar de impaciência.
— Aqui está, "teme". O banquete dos campeões.
Sasuke pegou um tomate, polvilhou a canela com uma precisão ninja e deu uma mordida. Sua expressão relaxou instantaneamente, um suspiro de satisfação escapando de seus lábios.
— Não diga nada, Naruto — avisou Sasuke.
— Eu não disse nada! — Naruto riu, sentando-se ao lado dele. — Sabe, eu estava conversando com o Kurama. Ele disse que o bebê tem um chakra que parece uma mistura de nós dois. É... intenso.
Sasuke olhou para a própria barriga e depois para Naruto. A frieza em seus olhos derreteu por um momento, substituída por algo profundo e inabalável.
— É claro que é intenso — disse Sasuke, voltando a olhar para o horizonte. — Com pais como nós, ele não poderia ser nada menos que um problema para o mundo.
Naruto riu e passou o braço pelos ombros de Sasuke. O Uchiha não o afastou. Naquela noite, em Konoha, entre desejos estranhos, medos compartilhados e novos sentimentos, a vida seguia seu curso, provando que nem mesmo o mais frio dos shinobis era imune ao calor de um novo começo.