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O Legado das Flores de Cerejeira

A paz em Konoha nunca fora tão barulhenta. Dois anos haviam se passado desde que a misteriosa névoa do Lótus Carmesim alterara o destino de dez shinobis, e o que antes era um segredo guardado sob selos de confidencialidade máxima, agora corria livremente pelas ruas da vila na forma de gargalhadas, choros e o som de pequenos pés apressados.

No distrito Uchiha, a reconstrução não era mais apenas de paredes e telhados, mas de uma linhagem que muitos julgaram perdida. Naruto Uzumaki estava sentado no degrau da varanda, observando Daisuke, um pequeno furacão de cabelos negros e olhos azuis intensos, tentar desesperadamente ativar um Sharingan inexistente enquanto perseguia uma borboleta.

— Daisuke, cuidado com o vaso da sua mãe! — gritou Naruto, antes de se corrigir rapidamente ao sentir o olhar gélido vindo de dentro da casa. — Quer dizer, do seu pai! Cuidado com o vaso do Sasuke!

Sasuke apareceu na porta, cruzando os braços. Ele não usava mais a capa de viagem; preferia uma túnica leve que facilitava o movimento, especialmente quando precisava capturar um filho hiperativo.

— Ele tem a sua coordenação motora, Naruto — comentou Sasuke, a voz mantendo o tom seco, embora seus olhos traíssem uma ternura profunda. — Ou seja, nenhuma.

— Ei! Eu me tornei Hokage com essa coordenação! — Naruto levantou-se, abraçando Sasuke por trás e repousando o queixo em seu ombro. — Admita, ele é a mistura perfeita. Tem o seu talento e a minha... hã... energia.

— Ele tem o seu barulho — corrigiu Sasuke, mas ele não se afastou do toque. — Daisuke! Venha comer. Se você derrubar aquele vaso, eu vou te colocar para treinar com o Kakashi antes da hora.

O pequeno Uchiha parou na hora, olhando para o pai com uma expressão de seriedade cômica que era a cópia fiel de Sasuke.

— O Tio Kakashi disse que eu já sou um ninja de elite, papai! — exclamou o menino, correndo para os braços de Naruto.

Enquanto a família Uchiha-Uzumaki encontrava seu equilíbrio, o Hospital de Konoha vivia um dia de relativa calma. Sai estava sentado em um banco no jardim interno, desenhando em seu pergaminho. Ao seu lado, Shikadai, um bebê de dois anos com um olhar perpetuamente entediado, tentava imitar os movimentos do pai com um giz de cera.

Shikamaru aproximou-se, carregando dois copos de chá. Ele parecia mais relaxado do que em toda a sua vida adulta. O término com Temari era agora uma lembrança respeitosa, uma parte de sua história que abrira caminho para a família que ele nunca soube que precisava.

— Ele ainda está tentando desenhar aquele cervo? — perguntou Shikamaru, sentando-se e entregando o chá a Sai.

— Ele diz que o cervo é "muito trabalhoso" — respondeu Sai, com um sorriso leve. — Ele prefere desenhar nuvens. Diz que elas não exigem tanto esforço para ficar paradas.

Shikamaru soltou uma gargalhada curta.

— É, ele é definitivamente um Nara. Como está o seu fluxo de chakra hoje, Sai?

— Estável — disse o artista, fechando o pergaminho e encostando a cabeça no ombro de Shikamaru. — A Sakura disse que a ressonância da tinta finalmente se integrou ao meu sistema. Eu não me sinto mais como um desenho inacabado. Sinto-me... completo.

— Que bom — sussurrou Shikamaru, segurando a mão de Sai. — Porque eu não saberia o que fazer com esse pequeno preguiçoso se você não estivesse aqui para me lembrar de como ser humano.

Na Academia Ninja, o barulho era ainda maior. Iruka estava tentando organizar uma pilha de documentos quando sentiu um par de braços fortes o levantarem do chão.

— Kakashi! O que eu já disse sobre me carregar na frente dos alunos? — protestou Iruka, embora estivesse rindo.

— Eu sou o Sexto Hokage aposentado, Iruka. Eu faço o que eu quiser — respondeu Kakashi, a máscara curvada pelo sorriso por baixo dela. — E Sakumo está com o Guy agora. Ele disse que o menino tem o "brilho da juventude" nos olhos.

Iruka empalideceu levemente.

— O Guy? Kakashi, nosso filho tem dois anos! Se ele começar a usar collants verdes agora, eu vou pedir o divórcio.

— Fique tranquilo — Kakashi o colocou no chão, beijando-lhe a testa. — Sakumo herdou a sua sensatez. Ele apenas usou um Jutsu de Substituição para fugir do treino de flexões e ir comer dangos.

Iruka suspirou, aliviado, e encostou-se no peito de Kakashi.

— Ele é tão parecido com você, Kakashi. Às vezes, eu olho para ele e vejo toda a história que você recuperou.

— E eu vejo o futuro que você me deu — respondeu o Hatake, abraçando-o com força.

Longe dali, sob o sol escaldante de Suna, a dinâmica era, como sempre, intensa. Deidara estava no pátio do palácio, tentando ensinar Akari e Katsu a moldar argila, enquanto Gaara observava de uma distância segura, pronto para intervir com sua areia caso as coisas ficassem literais demais.

— NÃO, KATSU! A EXPLOSÃO TEM QUE SER SIMÉTRICA, HM! — gritava Deidara, gesticulando freneticamente. — E Akari, pare de tentar fazer flores! Flores murcham! A arte é o momento do estrondo!

Akari, uma menina de cabelos ruivos e olhos azuis brilhantes, olhou para o pai com um beicinho.

— Mas o papai Gaara disse que as flores são bonitas, hm!

Deidara virou-se para Gaara, que estava sentado em seu trono de areia, lendo relatórios.

— Você está estragando a visão artística dela, Gaara! — reclamou o loiro. — Flores? Sério?

Gaara levantou o olhar, a expressão serena.

— Eu disse que a beleza pode ser encontrada na persistência do que cresce no deserto. Como elas. Como nós.

Deidara bufou, mas o rubor em suas bochechas era evidente. Ele sentou-se na areia, puxando os dois gêmeos para perto.

— Tá, tanto faz. Mas se eles crescerem e quiserem ser diplomatas em vez de artistas, a culpa é sua, hm.

Gaara fechou o pergaminho e caminhou até eles, sentando-se na areia quente. Ele colocou a mão sobre o ombro de Deidara, um gesto que ainda custava a acontecer em público, mas que agora era natural.

— Eles serão o que quiserem ser. E nós estaremos aqui para protegê-los.

Deidara resmungou algo sobre "sentimentalismo de areia", mas encostou a cabeça no ombro do Kazekage, observando os filhos brincarem.

De volta a Konoha, no campo de treinamento 7, o som de risadas ecoava entre as árvores. Rock Lee estava fazendo paradas de mão, enquanto o pequeno Hizashi tentava imitá-lo, caindo repetidamente e levantando-se com uma determinação feroz.

Neji observava tudo debaixo da cerejeira, o Byakugan desativado, apenas aproveitando a visão.

— Ele tem o seu espírito, Lee — comentou Neji, quando o companheiro finalmente parou para descansar.

— E a sua precisão, Neji-san! — exclamou Lee, limpando o suor da testa com o polegar levantado. — Veja como ele posiciona os pés! É a perfeição da juventude!

Neji estendeu a mão, e Lee sentou-se ao seu lado, entrelaçando seus dedos.

— Eu estava com medo no começo — confessou Neji, a voz baixa. — Medo de que o destino dele estivesse selado pelo meu sobrenome. Mas, olhando para ele agora... eu vejo que o Lótus Carmesim não nos deu apenas filhos. Ele nos deu a chance de quebrar as correntes.

Lee apertou a mão de Neji, os olhos brilhando.

— Nós somos as chamas que iluminam o caminho dele, Neji. Ele nunca estará no escuro.

A tarde caía, e todos os casais pareciam convergir, por instinto ou destino, para o Monumento Hokage. Era um dia de celebração, um festival para comemorar a paz duradoura.

Naruto e Sasuke foram os primeiros a chegar, com Daisuke dormindo nos ombros do pai loiro. Logo, Kakashi e Iruka apareceram, seguidos por Shikamaru e Sai, e Neji e Lee. Até mesmo uma projeção de areia de Gaara e Deidara, vinda de Suna, se fez presente através de um jutsu de comunicação avançado.

Eles se olharam, um grupo improvável de guerreiros que haviam enfrentado guerras mundiais, mas que agora carregavam bolsas de fraldas e brinquedos de madeira.

— Quem diria, hein? — comentou Naruto, olhando para os rostos de seus amigos. — A gente achou que aquela névoa era o fim do mundo, ou alguma armadilha inimiga.

— E foi uma armadilha — disse Sasuke, olhando para o filho adormecido. — Uma armadilha que nos forçou a parar de fugir do que sentíamos.

— É um saco admitir — Shikamaru bocejou, ajeitando Shikadai no colo —, mas eu não trocaria essa "complicação" por nenhuma missão de Rank S.

— A arte da vida é inesperada, hm — acrescentou a imagem de Deidara, enquanto Akari e Katsu faziam caretas para a câmera.

Kakashi, com a mão no ombro de Iruka, olhou para a vila abaixo.

— O Lótus Carmesim foi um jutsu de manipulação biológica, sim. Mas o que aconteceu depois... o cuidado, a aceitação e o amor que cada um de vocês demonstrou... isso não foi mágica. Foi escolha.

Iruka sorriu, apertando a mão de Kakashi.

— Nós escolhemos ser uma família. Todos nós.

Neji olhou para Hizashi, que agora brincava com as fitas do cabelo de Lee.

— O destino é como o vento — disse o Hyuuga. — Às vezes ele nos sopra para direções que não planejamos. O segredo é saber voar, não importa para onde ele aponte.

Naruto levantou o olhar para o céu, onde as primeiras estrelas começavam a brilhar.

— Sabe, Sasuke... eu acho que o Lótus Carmesim não mudou apenas nossos corpos. Ele curou nossos corações.

Sasuke não respondeu com palavras. Ele apenas encostou o ombro no de Naruto, um gesto de solidariedade e amor que valia mais que qualquer jutsu proibido.

A noite avançou com música e fogos de artifício. Em cada casa, as crianças foram colocadas na cama, protegidas por pais que eram heróis de guerra, mas que agora encontravam sua maior glória no simples ato de contar uma história de ninar.

O segredo da gestação masculina, que antes ameaçava causar escândalos políticos, tornara-se o símbolo de uma nova era. Uma era onde clãs não eram definidos por sangue ou selos, mas pela vontade de proteger o que é precioso.

E enquanto a névoa do passado se dissipava completamente, o perfume das flores de cerejeira permanecia, lembrando a todos em Konoha que, mesmo das situações mais estranhas e impossíveis, a vida sempre encontra um jeito de florescer, explosiva, calma, estratégica e, acima de tudo, eterna.

Naruto fechou a janela do quarto de Daisuke, dando um último beijo na testa do filho. Ao sair, encontrou Sasuke no corredor, observando a lua.

— Boa noite, Sasuke — sussurrou o Hokage.

— Boa noite, Naruto — respondeu o Uchiha, com um sorriso que poucas pessoas no mundo veriam, mas que era o único que realmente importava.

O Lótus Carmesim havia cumprido seu propósito. A paz, finalmente, tinha um rosto. E ele era o rosto de uma criança dormindo, sem medo do amanhã.