Stranger
Eclipse da Devoção
O Pequeno Palácio era um labirinto de opulência e segredos, e para Clara, ele se tornara uma gaiola dourada onde o tempo era medido pelos passos de Alexander no corredor. Nos meses que se seguiram à descoberta de seu poder, ela floresceu de uma maneira que nunca imaginou. Sua pele parecia ter um viço novo, e a força que antes a esmagava agora obedecia aos seus comandos mais sutis. No entanto, o isolamento começava a cobrar seu preço. Alexander a mantinha escondida, uma joia preciosa demais para ser exposta ao sol — ou ao Rei.
Mas o sol estava em toda parte. Alina Starkov, a Conjuradora do Sol, era o centro das atenções. E, ultimamente, Alexander parecia gravitar em torno desse centro com uma frequência que fazia o estômago de Clara se revirar em nós frios e dolorosos.
Da janela de seus aposentos no alto da torre leste, Clara observava. Ela viu Alexander caminhando pelos jardins com Alina. Ele não a tocava da mesma forma que tocava Clara, mas havia uma proximidade, uma inclinação de cabeça, um compartilhamento de confidências que Clara julgava serem apenas dela. Ela via Alina rir de algo que ele dizia, e o coração de Clara martelava contra as costelas, pesado como o chumbo que ela agora conseguia levitar sem esforço.
Naquela tarde, o céu de Ravka estava carregado, um cinza profundo que prometia uma tempestade. Clara sentia a eletricidade no ar, ou talvez fosse apenas o seu próprio poder reagindo ao seu humor instável. Quando a porta de seu quarto finalmente se abriu e o perfume de sândalo e frio inundou o ambiente, ela não se virou.
— Clara? — A voz dele era baixa, melodiosa, capaz de desarmar qualquer defesa.
Ela continuou olhando para o jardim vazio, onde as sombras das árvores se alongavam como dedos acusadores.
— Você passou muito tempo com ela hoje — disse Clara, sua voz saindo mais trêmula do que pretendia. — Mais do que o normal.
Alexander parou atrás dela. Ele não a abraçou de imediato. Houve um silêncio tenso, um vácuo de comunicação que ele costumava preencher com manipulações perfeitas.
— Alina é uma peça necessária para o futuro de Ravka, você sabe disso — ele respondeu, aproximando-se o suficiente para que ela sentisse o calor de seu corpo, mas sem tocá-la. — O treinamento dela é complexo. Ela resiste à própria natureza.
Clara virou-se bruscamente, os olhos brilhando com uma intensidade perigosa. O ar na sala estalou. Um vaso de cristal sobre a mesa começou a vibrar violentamente.
— Não é apenas o treinamento, Alexander. Eu vejo como você olha para ela. Eu vejo como você a guia pelos jardins como se ela fosse a única pessoa que importa neste palácio.
Alexander estreitou os olhos. Por um momento, o pânico — um sentimento que ele raramente permitia que subisse à superfície — o atingiu. Será que ela tinha descoberto? Será que ela percebera que ele estava usando Alina para localizar o Cervo de Morozova? Que ele pretendia usar a luz de Alina para ampliar a Dobra? Se Clara descobrisse que ele era capaz de tal duplicidade, ela poderia se voltar contra ele. E Clara não era apenas uma Grisha; ela era a força fundamental da natureza. Se ela decidisse esmagar o Pequeno Palácio com um pensamento, ele não tinha certeza se conseguiria impedi-la.
— Você está sendo tola, Clara — disse ele, sua voz endurecendo, uma tática para mascarar sua própria ansiedade. — Meus planos exigem que ela confie em mim. Minha lealdade a Ravka exige sacrifícios de tempo e paciência.
— E a sua lealdade a mim? — rebateu ela, dando um passo à frente. O poder dela se expandiu, e Alexander sentiu o peso da gravidade aumentar na sala. Seus próprios pés pareciam mais pesados contra o tapete. — Ou eu sou apenas o seu segredo sujo? A garota gordinha da cozinha que você usa para se satisfazer quando está cansado de fingir ser um herói para a Conjuradora do Sol?
O insulto à própria imagem, algo que ela carregava como uma cicatriz, foi o estopim. As lágrimas começaram a descer por seu rosto, e o vaso de cristal explodiu em mil pedaços, não para fora, mas para dentro, implodindo sob a pressão da gravidade que ela exercia.
Alexander sentiu um frio genuíno percorrer sua espinha. Não era medo da morte — ele já vivera tempo demais para temê-la —, mas era o medo de perder o controle sobre a única coisa que o fazia se sentir vivo em séculos. Ele se aproximou rapidamente, ignorando a pressão crescente no ar que dificultava seus movimentos, e segurou o rosto dela com as duas mãos.
— Nunca mais diga isso — sibilou ele, os olhos negros fixos nos dela. — Alina é uma ferramenta. Ela é luz e barulho, nada mais. Mas você... você é a substância. Você é o que mantém este mundo unido.
— Então por que me esconde? — gritou ela, tentando se desvencilhar, mas ele a segurou com mais força. — Por que ela recebe os banquetes, os vestidos de seda azul e a adoração do povo, enquanto eu fico aqui, esperando por migalhas do seu tempo?
— Porque eu sou egoísta! — Alexander rugiu, a verdade saindo de seus lábios misturada com a mentira que ele contava a si mesmo. — Se o Rei souber de você, ele a tirará de mim. Se os exércitos souberem, eles a transformarão em um monstro de cerco. Eu a mantenho aqui porque você é a única coisa que eu não suportaria ver corrompida pelo mundo lá fora.
Clara parou de lutar. O peso na sala diminuiu ligeiramente, mas a tensão ainda era palpável. Ela olhou para ele, buscando nos olhos escuros do Darkling alguma prova de que ela não era apenas mais um peão em seu tabuleiro.
— Você me ama, Alexander? Ou você só ama o que eu posso fazer?
A pergunta pairou no ar como uma sentença. Alexander sentiu o coração bater forte. Ele sabia a resposta que deveria dar para mantê-la sob seu comando, mas, pela primeira vez em centenas de anos, a resposta não era apenas uma ferramenta de manipulação. Era um vício.
— Eu não sei se "amor" é a palavra que homens como eu podem usar — ele sussurrou, encostando a testa na dela. — Mas eu sei que, quando estou longe de você, sinto como se estivesse sendo desfeito. Sinto que o mundo é vazio e que meus planos não têm sentido se você não estiver ao meu lado para ver o fim deles.
Ele a beijou com um desespero que a pegou de surpresa. Não era o beijo de um mestre para uma pupila, nem de um amante confiante. Era o beijo de um homem que estava se afogando e encontrara nela o seu único fôlego. Clara, faminta por esse afeto, entregou-se. Sua raiva, embora ainda presente, foi abafada pela necessidade avassaladora de ser validada por ele.
Ele a conduziu para a cama, e o ato de amor que se seguiu foi tingido por uma urgência quase violenta. Alexander a tocava como se quisesse marcar cada centímetro de sua pele, como se quisesse fundir seu ser sombrio às curvas generosas e ao poder indomável de Clara. Ele beijou as marcas que o espartilho deixara em sua cintura, sussurrando palavras de adoração que ela bebia como vinho.
— Você é perfeita — murmurava ele entre beijos. — Deixe que Alina tenha o sol. Você tem a mim. Você tem tudo o que eu sou.
Para Clara, aquelas palavras eram o bálsamo que curava anos de humilhação em Keramzin. Ela se sentia poderosa não por causa da gravidade, mas porque o homem mais temido de Ravka estava de joelhos diante dela, mesmo que apenas entre quatro paredes.
Horas depois, a tempestade finalmente desabou do lado de fora. Relâmpagos cortavam o céu, iluminando brevemente o quarto escuro. Clara estava adormecida, sua respiração calma e profunda, o corpo quente contra o de Alexander.
Ele, no entanto, não conseguia pregar o olho.
Alexander a abraçava com uma força possessiva, seu braço passando por cima da cintura dela, puxando-a para o mais perto possível. Ele sentia o cheiro de jasmim e pele dela, e a ansiedade que sentira mais cedo não havia desaparecido; ela apenas mudara de forma.
Ele olhou para o teto, ouvindo o som da chuva batendo nas vidraças. Ele sabia que a manipulação de Alina estava chegando a um ponto crítico. Logo, ele teria que levá-la para a Dobra. Ele teria que se ausentar por dias, talvez semanas. E a ideia de deixar Clara sozinha, com suas inseguranças e seu ciúme crescente, o aterrorizava.
E se ela decidisse ir embora? E se ela percebesse que ele estava mentindo sobre a importância de Alina?
Ele apertou o abraço, sentindo a maciez de Clara e a vibração latente de seu poder. Ela era a criatura mais perigosa que ele já conhecera, e a mais frágil em seu coração. Ele a criara para ser sua arma definitiva, mas, no processo, ele se tornara dependente da aceitação dela.
— Eu não vou perder você — sussurrou ele na escuridão, sua voz mal audível sobre o som do trovão. — Eu matarei cada pessoa neste palácio antes de deixar que você se afaste de mim.
Clara se mexeu durante o sono, murmurando o nome dele e se aninhando mais profundamente em seu peito. Alexander fechou os olhos, sentindo uma pontada de algo que se assemelhava à dor. Ele era o General Negro, o herdeiro de uma linhagem de poder sem fim, mas ali, agarrado a uma órfã que o mundo desprezara, ele se sentia vulnerável.
Ele sabia que o ciúme dela voltaria. Sabia que a luz de Alina continuaria a ser uma sombra entre eles. Mas naquela noite, enquanto a chuva lavava as pedras de Os Alta, ele se permitiu apenas sentir o peso dela sobre si — um peso que ele nunca desejaria aliviar.
Alexander Kirigan, o homem que nunca amara nada além do poder, adormeceu com medo. Não do Rei, não da Dobra, nem dos Volcra. Mas medo de que, ao amanhecer, os olhos de Clara vissem através da escuridão que ele chamava de alma e decidissem que ele não era digno da luz que ela, e somente ela, trazia para sua vida eterna.