Stranger
O Labirinto de Vidro e Sangue
O ar no Pequeno Palácio parecia ter se tornado mais espesso, carregado com o aroma de lírios e o cheiro metálico da neve que começava a cair sobre Os Alta. Para Clara, no entanto, o mundo havia se reduzido a um pequeno cômodo e a uma sensação avassaladora de náusea que a visitava todas as manhãs, antes mesmo de o sol de Alina tocar o horizonte.
Ela estava sentada à beira da cama, as mãos espalmadas sobre o ventre ainda plano. O conhecimento pulsava ali, um segredo mais profundo do que qualquer manipulação de matéria ou gravidade. Ela era Grisha, e seu corpo, agora sintonizado com as vibrações mais sutis da existência, não mentia. Havia uma nova vida ali, uma centelha de energia que não pertencia apenas a ela, mas também ao homem que a mantinha escondida como um tesouro proibido.
— Um filho — sussurrou ela para o silêncio do quarto.
Um misto de terror e uma alegria desesperada floresceu em seu peito. Alexander sempre disse que ela era única, que ela era a substância que mantinha o mundo unido. Agora, eles haviam criado algo juntos. Ela imaginou o rosto dele ao receber a notícia; imaginou a frieza de seus olhos negros derretendo-se em algo que, finalmente, ela pudesse chamar de amor puro, sem as sombras da guerra ou da política.
Clara levantou-se, ignorando a tontura. Ela precisava vê-lo. Precisava contar que o isolamento dela agora tinha um propósito maior. Ela se vestiu com pressa, escolhendo um vestido de lã escura que Alexander lhe dera, e saiu de seus aposentos. Os guardas, já acostumados à sua presença silenciosa e às ordens do General para deixá-la circular apenas por certas alas, não a impediram.
Ela sabia onde ele estaria. O gabinete de Alexander era o coração do palácio, o lugar onde os mapas de Ravka eram redesenhados sob a luz de velas que nunca pareciam se apagar.
Ao se aproximar da pesada porta de carvalho, Clara ouviu vozes. Ela parou, a mão pairando sobre a maçaneta.
— O progresso com a Conjuradora do Sol é satisfatório — a voz de Alexander soou, fria e precisa como uma lâmina de gelo. — Ela acredita em cada palavra. O afeto dela é a chave para o controle total da Dobra.
— E a outra? — A voz era de Baghra, a velha instrutora, carregada de um desdém que fez o sangue de Clara gelar. — A garota que você esconde nas sombras como um animal de estimação?
Houve uma pausa. Clara prendeu a respiração, o coração batendo tão forte que ela temeu que as paredes pudessem sentir a vibração.
— Clara é necessária por outros motivos — respondeu Alexander. — O poder dela sobre a massa e a gravidade é a garantia de que, se Alina falhar ou se rebelar, eu terei como esmagar qualquer resistência. Ela é a minha apólice de seguro, Baghra. E a melhor parte é que ela é fácil de manejar. Basta um pouco de atenção, alguns elogios à sua "beleza única", e ela se entrega como uma criança faminta.
— Você está brincando com forças que não entende, meu filho — sibilou Baghra. — Manipular o coração de uma mulher com esse poder é como segurar uma estrela em colapso nas mãos.
— Eu entendo perfeitamente — disse Alexander, e Clara pôde quase ver o sorriso cruel que ele costumava dar quando estava sozinho. — Ela me ama. E enquanto ela me amar, ela fará o que eu ordenar. Ela é gorda, insegura e solitária; eu sou tudo o que ela sempre quis. Ela nunca me deixará.
Clara sentiu como se o chão tivesse desaparecido. A gravidade, sua aliada constante, pareceu traí-la, tornando seu corpo insuportavelmente pesado. Ela recuou, os olhos arregalados, as mãos cobrindo a boca para abafar um grito que nascia no fundo de sua alma.
Ela não entrou. Não confrontou. Com o coração em pedaços, ela correu. Não para o seu quarto, mas para a biblioteca particular de Alexander, um lugar onde ele guardava tomos antigos que ela fora proibida de tocar "pelo seu próprio bem".
O poder dela, impulsionado pela fúria e pela dor, fez a fechadura da biblioteca ceder com um estalo seco. Ela entrou, as sombras da sala parecendo rir de sua ingenuidade. Clara começou a vasculhar as prateleiras, derrubando livros, buscando por algo, qualquer coisa que explicasse o homem que ela pensava amar.
Seus dedos tocaram uma lombada de couro humano, gasta pelos séculos. O título estava em uma língua antiga, mas o poder dela permitia que ela sentisse a intenção das palavras. Era um diário, um registro de eras passadas.
Ela abriu o livro e começou a ler. As páginas falavam de um homem que buscava o poder absoluto, um homem que não temia criar abominações para atingir seus fins. Ela viu ilustrações da *Nichevo’ya*, monstros feitos de puro nada. E então, ela encontrou o nome.
*O Herege Negro.*
Aquele que criara a Dobra das Sombras. Aquele que mergulhara Ravka na escuridão por centenas de anos. Não era um antepassado de Alexander. Era o próprio Alexander.
— Não... — sussurrou ela, as lágrimas caindo sobre o papel amarelado. — Não pode ser.
Ela continuou lendo, as palavras se tornando borrões de dor. Ele descrevia como manipular Grishas poderosos, como "cultivar" lealdade através da sedução e da dependência emocional. Havia notas sobre a importância de isolar o alvo, de fazê-lo sentir que o manipulador era o único porto seguro em um mundo hostil.
Era um manual. E ela era o experimento mais bem-sucedido.
— Ele nunca me viu — disse ela para as estantes vazias. — Ele só viu uma arma.
Ela fechou o livro com força, o som ecoando como um tiro na biblioteca silenciosa. A náusea voltou, mas desta vez não era pela gravidade ou pela gravidez. Era o nojo de si mesma, por ter acreditado que as mãos que causaram tanta morte poderiam carregar qualquer tipo de ternura.
A porta da biblioteca se abriu suavemente. Alexander entrou, as sombras de seu *kefta* negro dançando ao seu redor como servos fiéis. Ele parou ao ver Clara, os olhos percorrendo o livro em suas mãos e a bagunça ao seu redor.
— Clara? O que está fazendo aqui? — Sua voz ainda era aquela seda perigosa, mas havia um fio de tensão nela.
Ela se virou lentamente. O rosto dela estava pálido, desprovido da adoração que ele estava acostumado a ver.
— Eu estava procurando a verdade — disse ela, sua voz soando estranhamente calma, embora o ar ao redor dela estivesse começando a vibrar com uma frequência destrutiva. — E eu a encontrei, Alexander. Ou devo chamá-lo de Herege Negro?
O rosto de Alexander não mudou, mas seus olhos escureceram até se tornarem dois abismos sem fundo. Ele deu um passo à frente, as mãos estendidas em um gesto de apaziguamento.
— Clara, você não entende o contexto dessas histórias. O mundo é cruel com os nossos. Eu fiz o que foi necessário para a sobrevivência Grisha.
— Você fez o que foi necessário para o seu próprio poder! — gritou ela, e uma prateleira de carvalho à direita deles simplesmente implodiu, os livros sendo reduzidos a pó sob a pressão súbita. — Você me usou. Você me isolou, me fez sentir pequena para que só você pudesse me fazer sentir grande. Você mentiu sobre Alina, mentiu sobre o Rei... mentiu sobre o que sente por mim.
Alexander parou. Ele sentia a pressão da gravidade aumentando em seu peito, dificultando sua respiração. Ele nunca a vira assim. O poder dela não era mais uma corrente controlada; era um oceano em tempestade.
— Eu nunca menti sobre o que sinto quando estamos juntos — disse ele, e por um momento, houve uma nota de desespero genuíno em sua voz. — Você é a única que me alcança, Clara. A única que não me teme.
— Eu não te temia porque eu não conhecia o monstro — rebateu ela, dando um passo em direção a ele. O chão de pedra sob seus pés começou a rachar. — Você disse que eu era a substância do mundo. Mas você é o vazio. Você é o nada que consome tudo o que toca.
Alexander sentiu uma pontada de agonia. Ele queria abraçá-la, queria usar as palavras que sempre funcionavam, mas ele via nos olhos dela que o feitiço estava quebrado. Ele perdera o controle sobre ela, e isso era mais aterrorizante do que qualquer exército.
— O que você vai fazer? — perguntou ele, as sombras começando a se agitar ao redor de seus dedos, instintivamente se preparando para um ataque. — Vai me entregar ao Rei? Vai fugir com a Conjuradora do Sol?
Clara olhou para ele. Ela sentiu a vida pulsando dentro de si, o segredo que ela estivera prestes a revelar momentos antes. Ela imaginou o que Alexander faria se soubesse do filho. Ele o usaria. Ele transformaria a criança em uma extensão de sua própria sombra, uma arma ainda mais terrível do que ela mesma.
Ela colocou a mão sobre o ventre, um gesto protetor que ele não percebeu, focado como estava na ameaça de seu poder.
— Não — disse ela, a voz firme como o aço. — Eu não vou fazer nada disso.
— Então fique — implorou ele, dando mais um passo. — Podemos governar juntos. Com o seu poder e a minha visão, não haverá mais guerras, não haverá mais perseguição aos Grishas. Nós seremos eternos.
Clara sentiu uma náusea profunda. A eternidade com ele parecia o pior dos infernos.
— Eu prefiro ser nada do que ser sua — disse ela.
Em um movimento brusco, ela liberou uma onda de pressão gravitacional que empurrou Alexander para trás, lançando-o contra a parede oposta. O impacto foi forte o suficiente para deixá-lo sem fôlego por alguns segundos.
Clara não esperou. Ela correu para a saída secreta da biblioteca, uma passagem que ela descobrira em suas explorações solitárias. Ela sabia que ele a caçaria. Sabia que o Pequeno Palácio se tornaria uma prisão de segurança máxima em questão de minutos.
Mas ela tinha algo que ele não tinha: um motivo para sobreviver que ia além do egoísmo.
Enquanto corria pelos túneis úmidos e escuros sob o palácio, Clara sentia o peso do mundo em seus ombros, mas não era o peso da opressão de Alexander. Era o peso da responsabilidade.
— Ele nunca vai saber de você — sussurrou ela para o próprio ventre, enquanto emergia na noite fria de Os Alta, longe das luzes do palácio. — Ele nunca vai tocar em você.
Nas sombras da floresta, Clara olhou para trás uma última vez. As torres do Pequeno Palácio pareciam agulhas negras contra o céu estrelado. Ela podia sentir a presença de Alexander, uma mancha de escuridão que buscava por ela com uma intensidade febril. Ele estava furioso, sim, mas ela também sentia a dor dele — uma dor possessiva e tóxica de alguém que perdera seu brinquedo favorito.
Ela virou as costas para o palácio e para o homem que fora seu mundo. A neve começou a cair mais forte, cobrindo seus rastros.
Alexander Kirigan ficaria no palácio, manipulando sua Conjuradora do Sol, sonhando com o dia em que recuperaria sua "apólice de seguro". Ele passaria noites em claro, sufocado pela ausência do corpo de Clara e pela vibração de seu poder. Ele se convenceria de que ela voltaria, porque ele a fizera acreditar que ela não era nada sem ele.
Mas Clara, caminhando em direção ao desconhecido, sentia-se, pela primeira vez, leve. Ela era gorda, era órfã, era uma traidora de Ravka. Mas ela era poderosa. E ela carregava o único segredo que o General Negro nunca seria capaz de arrancar dela.
O amor que ela sentira por ele morrera na biblioteca, esmagado pelo peso da verdade. O que restava era uma força nova, uma gravidade que não buscava destruir, mas proteger.
— Vamos — disse ela para o silêncio da neve. — Temos um mundo para nos esconder.
E enquanto ela desaparecia na vastidão branca de Ravka, no Pequeno Palácio, Alexander Kirigan gritava para as sombras, percebendo, com um horror crescente, que pela primeira vez em centenas de anos, ele estava verdadeiramente sozinho. E o pior de tudo: ele não sabia que o que ele mais desejava — a continuação de sua própria essência — estava caminhando para longe dele, protegido pelo coração da mulher que ele pensou ter quebrado.