Stranger
O Eco do Sangue e a Mentira da Luz
O ar em Novokribirsk era cortante, mas Clara mal sentia o frio. Ela estava escondida em um canto escuro de uma taverna de beira de estrada, o capuz do seu manto pesado cobrindo o rosto, enquanto tentava passar despercebida. Suas mãos, agora um pouco mais firmes do que na época em que apenas amassava massas de pão em Keramzin, apertavam uma caneca de chá quente. O ventre, embora ainda não denunciasse a gravidez para olhos leigos, era um peso constante em sua consciência.
A taverna estava cheia de soldados do Primeiro Exército e viajantes ansiosos. O assunto, como sempre, era a Conjuradora do Sol.
— Dizem que o General Kirigan não sai do lado dela — comentou um soldado de rosto avermelhado, batendo a caneca na mesa de madeira bruta. — Eles estão sempre juntos nos jardins do Pequeno Palácio. Dizem até que ele vai dar a ela o colar de dentes de cervo, o amplificador lendário.
— É mais do que política — outro homem riu, uma risada suja que fez o estômago de Clara revirar. — Vi um criado que veio de Os Alta. Ele disse que o General olha para a Starkov como se ela fosse a única estrela no céu. Eles são o par perfeito: as sombras e a luz, finalmente unidos. Estão dizendo que o casamento será anunciado assim que a Dobra for destruída.
Clara sentiu o mundo girar. Cada palavra era como um estilhaço de vidro entrando em seu coração. Ela se lembrou dos beijos de Alexander, das promessas sussurradas em seu ouvido enquanto ele traçava as curvas de seu corpo que ela tanto odiava. "Você é a única que eu vejo", ele dizia. "Alina é apenas uma ferramenta".
Mas as ferramentas não ganham olhares de adoração. Ferramentas não ganham promessas de casamento diante de toda Ravka.
A dor da traição foi tão aguda que a gravidade ao redor de Clara vacilou. As canecas nas mesas vizinhas começaram a vibrar, e o líquido dentro delas ondulou de forma não natural. Ela respirou fundo, fechando os olhos, tentando conter a fúria que ameaçava implodir o lugar. Ela precisava sair dali. Precisava desaparecer antes que seu poder a denunciasse.
Ela deixou algumas moedas sobre a mesa e saiu para a noite gélida. A neve caía suavemente, mas dentro dela havia uma nevasca de insegurança. "É claro", pensou ela, as lágrimas congelando em suas bochechas. "Quem iria querer a ajudante de cozinha gordinha quando se tem a salvadora do mundo? Eu fui apenas um passatempo, um experimento para testar até onde o poder de uma órfã excluída poderia ir".
Ela caminhou até o limite da floresta, onde o frio era mais intenso, e desabou contra o tronco de uma árvore antiga. A solidão era um manto pesado. Ela se sentia pequena, feia e, acima de tudo, usada.
— Você mentiu — sussurrou ela para a escuridão, sabendo que ele, de alguma forma, podia ouvi-la através daquele elo de sangue maldito. — Você sempre mente.
De repente, a pulsação em seu pulso, onde a cicatriz do pacto residia, começou a queimar. Não era uma dor física comum; era uma invasão.
Alexander, no silêncio de seus aposentos em Os Alta, sentira o ápice do sofrimento de Clara. Ele sentira a dúvida dela, o ciúme corrosivo e a forma como ela se diminuía em seus próprios pensamentos. Aquilo era inaceitável. Ele não permitiria que ela pensasse, nem por um segundo, que qualquer outra pessoa no mundo ocupava o lugar que era dela.
Ele fechou os olhos e, pela primeira vez, não apenas observou através do elo. Ele se abriu. Ele permitiu que o fluxo de suas próprias emoções, aquelas que ele guardava sob sete chaves de gelo e sombra, corresse livremente em direção a ela.
Clara arqueou as costas contra a árvore, soltando um suspiro entrecortado. A conexão de sangue explodiu em cores e sensações. Ela não ouviu palavras, mas sentiu a verdade crua de Alexander.
Ela sentiu a náusea que ele sentia toda vez que precisava tocar a mão de Alina para manter as aparências. Sentiu o tédio profundo e o desprezo que ele nutria pela "luz" da Conjuradora do Sol, que para ele era apenas um brilho irritante comparado à densidade magnífica do poder de Clara.
Mas, acima de tudo, ela sentiu a obsessão.
Era um sentimento vasto e sombrio, como a própria Dobra. Clara sentiu a forma como Alexander pensava nela durante cada reunião do conselho, cada marcha militar. Ela sentiu a ansiedade sufocante que o consumia por não saber se ela estava bem alimentada, se estava aquecida, se o bebê estava seguro. Ela sentiu a fome possessiva dele — não apenas pelo poder dela, mas pelo calor de sua pele, pelo peso de seu corpo contra o dele, pela forma como ela era a única pessoa em séculos que conseguia silenciar os fantasmas da sua mente milenar.
— O que é isso? — soluçou ela, apertando o peito.
A imagem de Alina surgiu no elo, mas estava distorcida, cinzenta e sem vida. Em seguida, a imagem de Clara inundou seus sentidos. Mas não era a Clara que ela via no espelho. Através dos olhos de Alexander, ela se viu banhada em uma luz de ébano, majestosa, cada curva de seu corpo sendo celebrada como uma obra de arte esculpida pela própria natureza. Ele não a via como "gordinha"; ele a via como abundante, como uma rainha da terra cujas formas eram o próprio berço da criação.
O elo transmitiu um desejo tão violento que Clara perdeu o fôlego. Alexander estava obcecado por cada detalhe dela, desde a cicatriz em seu dedo até a forma como ela mordia o lábio quando estava concentrada. Ele não queria Alina. Ele queria Clara de joelhos diante dele, ou ele de joelhos diante dela — ele já não sabia mais a diferença.
— Você é minha — a voz dele ecoou, não nos ouvidos dela, mas no próprio sangue. — Alina é o sol que se põe. Você é a gravidade que impede que eu flutue para o vazio. Nunca duvide do que você é para mim.
Clara tremia, o coração disparado. A intensidade daquela possessão era aterrorizante, mas, ao mesmo tempo, era o que ela sempre desejara: ser vista. Ser amada não apesar de quem era, mas por causa de cada fragmento de sua existência.
— Se você me ama tanto... por que me deixa aqui? — perguntou ela em voz alta, sua voz sumindo no vento.
A resposta veio através do elo como uma onda de frustração e necessidade. Alexander queria buscá-la. Ele queria queimar cada vila entre Os Alta e Novokribirsk para encontrá-la. Mas ele sentia o medo dela, e ele sabia que, se a forçasse agora, ela usaria o poder para se destruir antes de se entregar. Ele estava esperando. Ele estava sofrendo com a distância de uma forma que ela nunca imaginara ser possível para um ser tão frio.
Clara sentiu a agonia dele. Era real. O General Negro, o homem que comandava exércitos com um gesto, estava sendo reduzido a cinzas pela ausência de uma ajudante de cozinha.
— Eu não sou bonita como ela — sussurrou Clara, uma última resistência de sua insegurança.
O elo respondeu com uma imagem mental de Alexander quebrando um espelho que refletia a imagem de Alina. Para ele, a beleza de Alina era comum, frágil e sem graça. Clara era o abismo; ela era o mistério que ele levaria mil vidas para desvendar. Ele desejava o peso dela sobre ele, o calor que só ela emanava.
A conexão começou a enfraquecer, pois manter tal nível de intimidade através de quilômetros estava esgotando ambos. Mas antes de se fechar, Alexander enviou uma última sensação: o toque de sua mão em seu ventre, um reconhecimento da vida que eles haviam criado. Foi um toque de adoração absoluta.
Clara ficou sentada na neve por muito tempo depois que o elo silenciou. Seu coração não estava mais em pedaços, mas estava envolto em sombras. Ela sabia agora que não era apenas uma ferramenta. Ela era a obsessão de um deus.
Ela se levantou, limpando a neve do manto. A dúvida sobre Alina havia sumido, substituída por uma compreensão muito mais perigosa.
— Você é um monstro, Alexander — disse ela, olhando para a direção de Os Alta. — Mas você é o meu monstro.
Ela não voltaria para ele ainda. Ela precisava que seu filho nascesse longe das intrigas do palácio. Mas a fuga não era mais sobre medo. Era sobre preparação. Se Alexander era obcecado por ela, ela usaria essa obsessão. Ela deixaria que ele a protegesse das sombras, que zelasse por seu sono e que sofresse com sua ausência.
Pela primeira vez, Clara sentiu o verdadeiro poder que tinha sobre ele. Não era a gravidade. Era o fato de que ela era a única âncora de um homem que possuía o mundo, mas que não possuía a si mesmo.
Ela caminhou de volta para a taverna, mas não entrou. Ela seguiu para o estábulo, comprou um cavalo com as últimas joias que ele lhe dera e partiu para o sul.
No Pequeno Palácio, Alexander Kirigan caiu de joelhos em seu gabinete, o suor escorrendo por seu rosto pálido. O esforço de abrir sua alma para ela o deixara exausto, mas ele sorria. Ele sentira a aceitação dela. Ele sentira o momento em que ela parou de se comparar à Conjuradora do Sol e aceitou seu lugar como sua igual nas sombras.
— Corra, Clara — sussurrou ele, limpando um filete de sangue que escorria de seu nariz. — Corra o quanto quiser. Mas saiba que cada batida do seu coração é um chamado para mim. E eu irei. Quando você estiver pronta, eu irei buscar o que é meu.
Ele se levantou, recuperando sua máscara de frieza. Alina Starkov o esperava nos jardins para mais uma lição de luz. Ele foi até ela, mas sua mente estava em uma floresta distante, sentindo o peso e a glória da única mulher que realmente importava.
A guerra por Ravka continuava, mas a guerra pelo coração de Clara estava apenas começando, e Alexander estava disposto a ser o vilão de todas as histórias para garantir que, no final, ela estivesse ao seu lado, reinando sobre as cinzas do que quer que tentasse separá-los.
Clara, cavalgando sob a lua, sentiu um último eco do elo. Uma promessa silenciosa de que, não importa o quão gorda, excluída ou perdida ela se sentisse, para o homem mais poderoso do mundo, ela era o universo inteiro. E, pela primeira vez na vida, ela acreditou.