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Stranger

O Elo de Sangue e Cinzas

A neve de Ravka não era apenas fria; era uma barreira física que tentava punir Clara a cada passo que ela dava para longe de Os Alta. Seus pulmões ardiam, e o peso em seu ventre parecia aumentar a cada quilômetro percorrido, não por causa do bebê, mas pela exaustão que começava a cobrar seu preço. Ela estava escondida em uma pequena estalagem na periferia de uma vila esquecida pelos cartógrafos, um lugar onde o cheiro de pinho e cerveja barata era a única coisa que preenchia seus sentidos.

Clara sentou-se na cama rangente, as mãos trêmulas enquanto tentava desamarrar as botas molhadas. Ela sentia-se segura. Havia corrido por dias, usando seu poder para distorcer a percepção de quem cruzava seu caminho, criando pequenas dobras na gravidade para que seus rastros fossem apagados pelo próprio vento. Ela acreditava, com a ingenuidade de quem ainda não conhecia toda a extensão da perversidade de Alexander, que havia escapado.

O que ela não lembrava — ou talvez o que seu trauma tivesse enterrado profundamente — era a noite do equinócio, semanas atrás. Alexander a levara para o altar de pedra nos jardins suspensos. Ele cortara a palma da mão dele e, com uma adaga de osso, fizera o mesmo na dela. "Para que nossas almas nunca se percam", ele dissera na época, enquanto seus sangues se misturavam sob o luar. Para Clara, fora um pacto romântico. Para o Darkling, fora uma âncora.

A quilômetros dali, no Pequeno Palácio, Alexander Kirigan estava parado diante da janela de seu gabinete, ignorando os mapas espalhados pela mesa. Seus olhos estavam fechados, e sua respiração era lenta, quase inexistente. Ele não precisava de batedores. Ele não precisava de rastreadores.

Ele sentia o coração dela.

Era uma pulsação rítmica, um eco constante no fundo de sua mente. Ele sentia o frio que ela sentia, a pontada de dor em suas costas e, acima de tudo, a nova vida que pulsava entre eles. Alexander abrira os olhos, e neles não havia a fúria cega que seus generais esperavam. Havia uma calma gélida e uma possessividade que transcendia a razão.

Ele soubera do bebê antes dela. O sangue Grisha deles, unido pelo pacto, revelara a mudança na fisiologia de Clara no momento em que a concepção ocorreu. Ele sentira a divisão das células, o surgimento de uma nova gravidade dentro dela. E agora, ele sentia a exaustão dela.

— General? — Ivan entrou na sala, a expressão tensa. — Os rastreadores perderam o sinal dela perto de Tsibeya. Acreditamos que ela possa ter usado o poder para...

— Deixem-na — interrompeu Alexander, sua voz soando como o estalar de gelo fino.

Ivan piscou, confuso.

— Senhor? Ela é... o senhor disse que ela era a prioridade absoluta.

Alexander virou-se, as sombras ao seu redor agitando-se como cães de guarda.

— Ela está cansada, Ivan. Ela precisa de repouso. O corpo dela está sustentando algo muito mais valioso do que a sua lealdade momentânea.

— Mas se os *drüskelle* a encontrarem...

— Eles não a encontrarão — afirmou Alexander, aproximando-se da mesa e apontando para um ponto vago no mapa. — Eu sei exatamente onde ela está. E eu saberei se um único fio de cabelo dela for tocado. Agora saia.

Quando ficou sozinho, Alexander sentou-se e fechou os olhos novamente. Ele se concentrou no elo. Ele podia sentir Clara se deitando, o alívio que ela sentia ao fechar os olhos, achando que estava livre. Ele sentiu uma pontada de ironia. Ela achava que o poder da gravidade a tornava independente, mas era o sangue dele que a mantinha ancorada à realidade.

Na estalagem, Clara mergulhou em um sono agitado. Em seus sonhos, ela não estava em uma cama de palha, mas de volta ao Pequeno Palácio. Ela sentia as mãos de Alexander em sua cintura, o calor de seu hálito em seu pescoço.

— Você não pode fugir de si mesma, Clara — a voz dele ecoava em sua mente, suave e aterrorizante.

Ela acordou sobressaltada, o suor frio escorrendo por seu rosto. O quarto estava escuro, iluminado apenas pela luz pálida da lua que entrava pela fresta da cortina. Ela levou a mão ao ventre, sentindo um calafrio. Por um momento, ela teve a nítida sensação de que Alexander estava ali, observando-a das sombras do canto do quarto.

— Alexander? — sussurrou ela, a voz falhando.

Não houve resposta, apenas o som do vento uivando lá fora. Mas a sensação de ser vigiada não desapareceu. Era uma presença constante, um peso invisível que não vinha de seu próprio poder, mas de uma conexão externa.

Ela se levantou e caminhou até o pequeno espelho de metal polido na parede. Suas curvas, que ela tanto odiara e que Alexander aprendera a usar como arma de sedução, pareciam diferentes agora. Ela não se via mais como a "garota gordinha da cozinha". Ela se via como um receptáculo de algo imenso. Mas a dúvida a corroía: o bebê seria um monstro como o pai ou uma vítima como a mãe?

— Eu vou te proteger — murmurou ela para o reflexo. — Mesmo que eu tenha que rasgar o mundo ao meio.

No palácio, Alexander sentiu a determinação dela. Ele sorriu, um gesto sombrio e solitário. Ele admirava a força que ela estava demonstrando. A manipulação dele fora tão eficaz que ele criara uma rainha, não apenas uma serva. O fato de ela ter coragem de fugir dele só a tornava mais preciosa em seus olhos.

Ele se levantou e caminhou até uma pequena caixa de sândalo. Dentro, repousava a adaga de osso com a qual haviam selado o pacto. Ele tocou a lâmina, e uma onda de dor e prazer percorreu o elo.

— Durma, minha pequena gravidade — sussurrou ele para o vazio. — Descanse enquanto pode. O mundo ainda não está pronto para o que nós criamos.

Os dias se transformaram em semanas. Clara mudava de vilarejo em vilarejo, sempre em direção ao sul, tentando alcançar a fronteira com Shu Han, onde esperava desaparecer entre as montanhas. Ela se tornou especialista em passar despercebida, usando roupas largas e mantos pesados. Ela trabalhava em troca de comida, lavando pratos em tavernas ou ajudando na colheita, sempre sentindo aquela presença estranha no fundo de sua mente.

Ela começou a notar algo peculiar. Sempre que encontrava perigo — um grupo de soldados bêbados ou uma matilha de lobos na floresta —, algo acontecia antes que ela precisasse usar seu poder. Os soldados subitamente decidiam mudar de direção, ou os lobos fugiam ganindo como se tivessem visto um demônio.

Clara atribuía isso à sorte, ou ao seu próprio poder agindo de forma subconsciente. Ela não percebia que, a centenas de quilômetros, Alexander passava noites sem dormir, enviando sombras através do elo, manipulando o ambiente ao redor dela como um mestre de marionetes invisível.

— Ela está ficando mais forte — comentou Baghra uma noite, entrando no gabinete de Alexander sem ser convidada. A velha olhava para o filho com uma mistura de pena e asco. — Mas você está se desgastando, Alexander. Manter esse elo a essa distância, protegendo-a sem que ela perceba... isso vai acabar com você.

— É um preço pequeno a pagar — respondeu ele, sem desviar os olhos do nada. — Ela carrega o futuro.

— Ela carrega uma criança que você vai destruir, assim como destruiu tudo o que já tocou — retrucou Baghra, batendo o cajado no chão. — Deixe-a ir. Se você realmente sente algo por ela, deixe que ela tenha uma vida comum.

Alexander riu, um som seco e sem alegria.

— Uma vida comum? Para Clara? Ela é a gravidade, Baghra. Ela é a força que mantém as estrelas em seus lugares. Não existe "comum" para ela. E não existe mundo para ela onde eu não esteja presente.

— Você é um tolo — disse a velha, virando as costas. — Você acha que o sangue a mantém presa, mas o ódio dela será a sua ruína.

Alexander não respondeu. Ele sentiu, naquele momento, que Clara havia parado de caminhar. Ela estava em um campo aberto, olhando para as estrelas. Ele se concentrou, fechando os olhos, tentando projetar sua consciência através do elo.

Naquela noite, sob o céu estrelado de Ravka, Clara sentiu uma mudança no ar. A presença constante tornou-se mais densa, quase sólida. Ela se sentou em uma pedra, o cansaço da gravidez finalmente vencendo sua vontade de continuar.

— Eu sei que você está aí — disse ela para o vento. — Eu não sei como, mas eu sei que você está me vendo.

O silêncio foi a única resposta, mas ela sentiu uma súbita onda de calor envolver seu corpo, como se um manto invisível tivesse sido colocado sobre seus ombros. O cansaço em suas pernas diminuiu, e a náusea matinal que a perseguia desapareceu instantaneamente.

— Por que não me leva de volta? — perguntou ela, as lágrimas começando a cair. — Se você sabe onde eu estou, por que me deixa fugir?

Longe dali, Alexander apertou os punhos sobre a mesa. A dor dela era a dele. Ele queria dizer a ela que ela precisava de força. Que o bebê precisava que ela estivesse calma. Mas ele sabia que, se falasse, o feitiço de proteção se quebraria. Ele precisava que ela acreditasse que estava segura, mesmo que fosse uma mentira.

— Porque você precisa aprender a ser o que nasceu para ser, Clara — murmurou ele, embora ela não pudesse ouvir. — E porque eu amo ver você lutar.

Clara soluçou, abraçando os próprios joelhos. Ela sentia a conexão, o fio de sangue que a ligava ao monstro no palácio. Ela percebera, finalmente, que não era sorte o que a protegia. Era ele. E essa percepção era a pior das torturas. Ele não a estava deixando ir; ele a estava criando em um ambiente controlado, permitindo que ela "fugisse" apenas para que ela se fortalecesse.

— Eu te odeio — sussurrou ela.

Alexander sentiu a palavra como uma punhalada no peito, mas ele aceitou a dor com um sorriso sombrio.

— O ódio também é uma forma de conexão, meu amor — disse ele.

Naquela noite, Clara não fugiu. Ela dormiu sob as estrelas, protegida pelas sombras de um homem que não conseguia deixá-la partir. Ela sonhou com um futuro onde seu filho teria os olhos negros do pai, mas a alma livre da mãe. E Alexander, no Pequeno Palácio, velou o sono dela através do sangue, sentindo cada respiração, cada batida do coração, esperando pacientemente pelo dia em que a gravidade traria sua rainha de volta para casa.

Pois ele sabia, melhor do que ninguém, que tudo o que sobe, um dia tem que cair. E Clara, com todo o seu poder, ainda era a âncora que o prendia à terra, assim como ele era a escuridão que a definia.

— Descanse, Clara — sussurrou ele, enquanto o sol começava a nascer em Os Alta. — A nossa guerra está apenas começando.

E no campo distante, Clara acordou com o sabor de sândalo nos lábios, sabendo que, não importa o quão longe corresse, ela sempre estaria caminhando em direção às sombras. O elo de sangue era eterno, e o bebê em seu ventre era a prova final de que Alexander Kirigan nunca perdia o que considerava seu.

Ela se levantou, limpou as lágrimas e começou a andar novamente. Mas desta vez, ela não corria de medo. Ela caminhava com a certeza de que, um dia, ela usaria a própria força que ele a ajudara a cultivar para silenciar as sombras de uma vez por todas. O jogo de manipulação mudara; agora, ela sabia que era vigiada, e usaria essa vigilância como sua maior arma.

Alexander sentiu a mudança na determinação dela e, pela primeira vez, sentiu um lampejo de dúvida. Ele a queria poderosa, mas talvez estivesse criando algo que nem mesmo ele poderia conter. E era exatamente isso que o deixava mais obcecado.

— Magnífico — murmurou ele, observando o nascer do sol. — Simplesmente magnífico.