Stranger things omegaverso
A Fenda, a Garota e as Luzes de Natal
A bruma persistente da manhã seguinte parecia carregar o peso da notícia devastadora que se espalhara por Hawkins: o corpo de Will Byers havia sido encontrado. Para a maioria, era o fim da busca, a confirmação de um destino trágico. Para Joyce Byers, era o início de uma batalha desesperada contra a aceitação. Ela havia visto o corpo, mas algo em seu íntimo, aquela intuição primal de uma mãe ômega, gritava que não era seu filho. O cheiro, a textura, a sensação... algo estava errado.
Jonathan, tentando ser a voz da razão para a mãe, mas com o coração em pedaços, observava Joyce com uma mistura de preocupação e impotência. Ele a via se agarrar a cada fio de esperança, por mais tênue que fosse, e sabia que, de certa forma, era a única coisa que a mantinha de pé.
– Mãe, – ele tentou, sua voz embargada, – a gente precisa... a gente precisa aceitar.
– Não! – Joyce balançou a cabeça veementemente, seus olhos vermelhos e inchados, mas com um brilho de desafio. – Eu sinto, Jonathan. Eu sinto que não é ele. Meu Will... meu ômega... ele está vivo. Eu sei que está.
Ela andava pela casa, suas mãos tremendo, seu olhar fixo no telefone. Ela ligava para a polícia, para Hopper, repetindo a mesma história, a mesma negação, a mesma súplica.
– Eu não sei como explicar, Xerife, – ela dizia ao telefone, sua voz um fiapo de emoção, – mas não é meu filho. Eu conheço o cheiro dele, a forma como... como ele respira. Não é ele.
Hopper, do outro lado da linha, ouvia com uma mistura de ceticismo e uma estranha pontada de reconhecimento. Ele havia visto a dor de Joyce, sentira a intensidade de sua negação. E, embora a evidência fosse esmagadora, havia algo na sua total certeza que o intrigava. Ele havia notado a rigidez incomum do corpo, o fato de que ele parecia... diferente. Mas ele atribuíra isso ao afogamento e ao tempo na água. A insistência de Joyce, no entanto, começou a plantar uma semente de dúvida.
Enquanto isso, no porão dos Wheeler, a atmosfera era de luto e confusão. O noticiário local anunciava a morte de Will, e a cidade se preparava para o funeral. Mike, Lucas e Dustin estavam em choque, mas a presença de Onze, a garota misteriosa, mantinha uma estranha tensão no ar.
Onze, sentada em um canto, observava os meninos com seus olhos grandes e curiosos. Ela não falava muito, mas sua presença era inegável. Mike, sentindo uma responsabilidade crescente por ela, tentava protegê-la, alimentá-la, entender o que ela queria.
– Então... o que a gente vai fazer com ela? – Lucas perguntou, apontando para Onze. – A polícia vai procurar por ela.
– A gente não pode entregar ela, – Mike respondeu, sua voz firme. – Ela está com medo. E ela sabe de alguma coisa sobre o Will.
Dustin, sempre o mais perspicaz do grupo, se aproximou de Onze.
– Você... você viu o Will? O nosso amigo?
Onze assentiu lentamente, seus olhos fixos nos de Dustin.
– Monstro, – ela sussurrou, sua voz rouca. – Demogorgon.
Os meninos se entreolharam, um arrepio percorrendo suas espinhas. As palavras de Onze confirmavam seus piores medos. O Demogorgon não era apenas um monstro do D&D. Era real.
Mike sentiu uma onda de fúria e determinação.
– A gente tem que encontrar o Will. E ela pode nos ajudar.
Eles começaram a questionar Onze, usando um tabuleiro de D&D para se comunicar. Ela apontava para as figuras, para os mapas, tentando traduzir o que havia visto. Ela indicou que Will estava em um lugar escuro, frio e assustador. Um lugar que ela chamava de "Mundo Invertido".
Enquanto os meninos tentavam decifrar as informações de Onze, Joyce estava em sua própria batalha. Ela começou a perceber que as luzes de sua casa agiam de forma estranha. Elas piscavam, ligavam e desligavam sozinhas. Ela pensou que estava enlouquecendo, mas a frequência e a intensidade dos eventos a fizeram questionar.
– O que está acontecendo aqui? – ela murmurou para si mesma, observando as luzes da sala piscarem em um padrão errático.
De repente, ela ouviu uma voz. Fraca, distante, mas inconfundível. Era Will.
– Mamãe...?
Joyce congelou.
– Will?! – ela gritou, correndo para a direção da voz. – Will, é você?
A voz sumiu, e as luzes pararam de piscar. Joyce, desesperada, começou a ligar e desligar as luzes, como se pudesse reativar a conexão. Ela estava convencida de que Will estava tentando se comunicar com ela através da eletricidade.
Jonathan, preocupado com a sanidade da mãe, tentou acalmá-la.
– Mãe, por favor, você precisa descansar. Você está exausta.
– Não! – Joyce o afastou, seus olhos fixos nas luzes de Natal que ela havia pendurado na sala. – Ele está aqui, Jonathan. Ele está tentando falar comigo.
Ela teve uma ideia. Ela pegou uma caneta e um papel, e começou a escrever as letras do alfabeto em cada lâmpada das luzes de Natal. Se Will pudesse manipular a eletricidade, ele poderia se comunicar com ela.
No dia seguinte, o funeral de Will Byers foi um evento sombrio e melancólico. A cidade de Hawkins se reuniu para prestar suas últimas homenagens ao ômega desaparecido. Joyce, com seu coração apertado, observava o caixão, ainda recusando-se a acreditar que seu filho estava ali dentro. Ela sentia que era uma farsa, uma ilusão.
Hopper, presente no funeral, observava Joyce com uma nova perspectiva. A negação dela, antes vista como desespero, agora parecia ter um fundamento. Ele se lembrou da rigidez do corpo, da forma como ele parecia... "falso". Ele decidiu que investigaria o necrotério por conta própria.
Enquanto o funeral se desenrolava, os meninos estavam em sua própria missão. Eles haviam levado Onze para a escola, onde ela tinha acesso a um rádio amador mais potente. Eles esperavam que ela pudesse usar seus poderes para se comunicar com Will, para localizá-lo.
– Will...? – Mike chamou no rádio, sua voz cheia de esperança. – Will, você está aí?
Onze, sentada em frente ao rádio, fechou os olhos e se concentrou. Ela sentiu uma conexão, uma energia que a guiava. Ela estendeu a mão, seus poderes se manifestando, e o rádio começou a chiar.
De repente, a voz de Will, fraca e distorcida, ecoou pelo rádio.
– Mike...?
Os meninos congelaram. Era Will. Ele estava vivo.
– Will! – Mike gritou, sua voz embargada pela emoção. – Onde você está?
– Escuro... frio... – a voz de Will respondeu, interrompida por estática. – Monstro...
Onze, exausta, desmaiou, o nariz sangrando. Os meninos, chocados, perceberam a gravidade da situação. Will estava vivo, e Onze era a chave para encontrá-lo.
Hopper, enquanto isso, invadiu o necrotério. Com a ajuda de um de seus oficiais, ele abriu o caixão de Will. E o que ele encontrou confirmou as suspeitas de Joyce. O corpo dentro do caixão não era o de Will. Era um manequim, preenchido com algodão e areia.
– Meu Deus, – ele sussurrou, o choque se misturando com a raiva. – O que está acontecendo aqui?
Ele sabia que estava lidando com algo muito maior do que um simples desaparecimento. O governo estava envolvido. O Laboratório Nacional de Hawkins. Ele se lembrou dos rumores, dos experimentos secretos.
De volta à casa dos Byers, Joyce estava em um frenesi de comunicação. As luzes de Natal estavam piscando, formando palavras.
– R-U-N, – ela soletrou, seus olhos fixos nas luzes. – RUN. Corra.
E então, as luzes formaram outra palavra.
– H-I-D-E. – Esconda.
Joyce sentiu um arrepio. Will estava avisando-a. Ele estava em perigo. E ela precisava encontrá-lo.
Ela pegou um machado e começou a derrubar a parede da sala, seguindo as instruções de Will. Ela sabia que estava enlouquecendo, mas a voz do filho a guiava, a força da sua intuição ômega a impulsionava. Ela sentia que, de alguma forma, Will estava atrás daquela parede, em algum lugar entre as dimensões.
Jonathan, ao ver a mãe destruindo a parede, tentou pará-la.
– Mãe! O que você está fazendo?
– Ele está aqui, Jonathan! – ela gritou, seus olhos cheios de lágrimas. – Ele está tentando vir para casa!
Enquanto Joyce lutava para encontrar Will, Hopper estava no Laboratório Nacional de Hawkins. Ele usou sua insígnia para entrar, mas foi rapidamente interceptado por agentes do governo. Ele sabia que estava em território inimigo, mas a verdade sobre Will era mais importante.
Ele foi levado ao Dr. Brenner, que o recebeu com um sorriso frio e calculista.
– Xerife Hopper, – Brenner disse, sua voz suave, mas com um tom de ameaça. – O que o traz ao nosso humilde laboratório?
– O desaparecimento de Will Byers, – Hopper respondeu, seus olhos fixos nos de Brenner. – E o corpo falso no necrotério.
Brenner não se abalou.
– Não sei do que você está falando, Xerife.
– Eu acho que sabe, – Hopper retrucou, sua voz baixa e perigosa. – Eu acho que você sabe muito bem o que aconteceu com Will Byers. E eu vou descobrir.
Brenner, percebendo que Hopper não recuaria, ordenou que ele fosse detido. Hopper lutou, mas foi dominado pelos agentes. Ele foi amarrado e levado para uma sala escura.
No porão dos Wheeler, os meninos tentavam entender o que Onze havia lhes mostrado. Eles sabiam que o "Mundo Invertido" era uma dimensão paralela, um lugar de escuridão e perigo.
– A gente tem que ir lá, – Mike declarou, sua voz cheia de convicção. – A gente tem que salvar o Will.
Lucas, sempre o mais cauteloso, hesitou.
– Mas como? É muito perigoso.
– A Onze pode nos ajudar, – Dustin interveio, olhando para a garota, que ainda se recuperava do esforço. – Ela nos mostrou como.
Onze, com a cabeça baixa, assentiu lentamente. Ela sentia que era sua responsabilidade ajudar Will, o ômega que ela havia visto em suas visões.
Mike, com uma nova determinação, olhou para seus amigos.
– A gente vai encontrar o Will. E a gente vai trazê-lo para casa.
Eles sabiam que a jornada seria perigosa, que eles estavam entrando em um mundo que eles mal compreendiam. Mas a amizade, a lealdade e a promessa de resgatar Will, o ômega que eles tanto amavam, os impulsionava.
Naquela noite, enquanto Joyce continuava sua comunicação frenética com Will através das luzes de Natal, e Hopper estava preso no laboratório, os meninos se preparavam para sua própria aventura. Onze, com seus poderes e seu conhecimento do Mundo Invertido, era a única esperança de Will.
Enquanto a cidade de Hawkins dormia, alheia aos perigos que a cercavam, uma fenda entre as dimensões estava se abrindo, e o destino de um ômega, de uma garota misteriosa e de um grupo de amigos estava prestes a colidir com as forças mais sombrias do universo. O cheiro metálico e putrefato, que Will havia sentido na noite de seu desaparecimento, agora permeava a cidade, um lembrete constante da ameaça que espreitava nas sombras. E no meio de tudo, o laço entre Mike e Will, um laço de amizade que se aprofundava a cada dia, seria a força motriz para a busca, a esperança de um reencontro, a promessa de um futuro.