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Sugar honey ice tea

O Eco da Fé e a Lâmina Amaldiçoada

A manhã em Seul nasceu cinzenta, abafada por uma névoa que não parecia vir do clima, mas de algo muito mais denso e sinistro. Ahyeon mal conseguia manter os olhos abertos durante a aula de coreografia na YG. Cada fibra de seu corpo doía, não apenas pelo esforço físico, mas pela tensão constante de saber que, a qualquer momento, o mundo ao seu redor poderia se despedaçar em um labirinto de bruxas.

— Ahyeon, você está fora do tempo — repreendeu o instrutor, batendo palmas secas. — Foco! Se você quer o *debut*, precisa estar aqui de corpo e alma.

— Desculpe, senhor — ela respondeu, curvando-se rapidamente.

Ela queria gritar que sua alma era exatamente o que ela estava tentando proteger. No canto da sala, invisível para todos os outros, o Kyubey do Bem — que ela agora chamava de "Kyu" para diferenciar daquele monstro manipulador — a observava com seus grandes olhos redondos. Ele balançou a cauda levemente, um sinal de alerta.

Assim que o ensaio terminou e as outras garotas saíram para o almoço, Ahyeon correu para o vestiário. Kyu saltou para o banco de madeira ao lado dela.

— As notícias estão se espalhando rápido entre os fluxos de energia, Ahyeon — disse Kyu, sua voz soando urgente em sua mente. — No distrito de Dobong-gu, ao norte, os desaparecimentos triplicaram. Não são apenas bruxas comuns. Há relatos de um Labirinto que está devorando quarteirões inteiros durante a noite.

— O norte da cidade... — Ahyeon murmurou, pegando sua mochila. — Meus pais mencionaram que o Johny teria uma consulta médica por lá hoje à tarde. Se essa coisa atacar enquanto eles estiverem na rua...

— Então não temos tempo a perder — Kyu saltou para o ombro dela. — Mas seja cautelosa. O Kyubey original está observando. Ele quer que você se sinta impotente para que o contrato pareça a única saída.

Ahyeon saiu do prédio da empresa, ignorando os olhares curiosos. Ela pegou o metrô em direção ao norte, sentindo a temperatura cair à medida que se aproximava da zona de perigo. Quando saltou na estação final, a visão era de pesadelo. O céu não era mais cinza; era de um tom de vinho podre. As pessoas caminhavam como zumbis, com o "Beijo da Bruxa" marcado em seus pescoços — uma marca negra que sugava a vontade de viver.

— Está ali — Kyu apontou com a orelha para um antigo hospital abandonado que parecia estar se contorcendo, as paredes de concreto derretendo em formas que lembravam órgãos humanos.

— Eu não consigo fazer isso sozinha — confessou Ahyeon, sentindo o medo subir pela garganta. — Minha voz... e se eu falhar? E se eu não atingir a nota?

— Você não está sozinha.

Uma voz fria e cortante veio do topo de um poste de luz. Uma garota estava lá, observando o caos. Ela usava um uniforme escolar escuro, mas carregava uma aura de autoridade que Ahyeon nunca vira em ninguém de sua idade. Seus cabelos negros voavam ao vento e ela segurava um escudo circular no braço esquerdo.

— Akemi Homura? — Kyu sussurrou, surpreso. — Uma viajante do tempo aqui?

A garota saltou, pousando sem fazer barulho diante de Ahyeon. Seus olhos eram como poços de gelo, carregados de uma dor milenar.

— Eu ouvi o seu grito na noite passada, Ahyeon — disse Homura, ajustando o escudo. — Foi... impressionante. Mas bruxas deste calibre não morrem apenas com música. Elas precisam de destruição total.

— Você veio nos ajudar? — perguntou Ahyeon, os olhos brilhando de esperança.

— Eu vim impedir que mais uma garota cometa o erro de vender a alma — Homura olhou para Kyu com um desprezo profundo antes de se voltar para o hospital. — Fique atrás de mim. Se o seu irmão está lá dentro, vamos tirá-lo. Mas se prepare: o que você vai ver não é para corações fracos.

Elas entraram no Labirinto. O interior do hospital havia sido transformado em um carrossel de agulhas e prontuários médicos gigantes que voavam como pássaros de papel. O cheiro de éter e morte era insuportável.

— Ahyeon! — A voz de Johny ecoou, vinda de algum lugar nas profundezas das escadarias retorcidas.

— Johny! — ela gritou de volta, mas Homura a segurou pelo braço.

— É uma armadilha. A Bruxa usa os desejos e os medos das vítimas para atrair os incautos.

De repente, o Kyubey manipulador apareceu, sentado calmamente sobre uma maca flutuante.

— Akemi Homura... você sempre tentando mudar o inevitável — disse o alienígena frio. — Ahyeon, veja como sua amiga sofre. Ela repetiu esse ciclo centenas de vezes e nunca venceu a entropia. Por que você acha que seria diferente?

— Cale a boca! — Ahyeon gritou, sua voz vibrando, fazendo os vidros do hospital estilhaçarem.

— O desespero é a única constante — continuou Kyubey. — Mas eu tenho uma proposta nova. Se você aceitar o contrato agora, eu darei a você o poder não apenas de salvar seu irmão, mas de apagar a existência das bruxas para sempre. Não é isso que você quer?

— Ela não precisa de você! — Kyu interveio, saltando para a frente de Ahyeon. — Existe um caminho que você escondeu de todas nós, Kyubey. Um caminho que não depende de trocar almas por milagres temporários.

Homura parou, olhando para o Kyubey do Bem com desconfiança.

— Do que você está falando, criatura?

Kyu olhou para Ahyeon, seus olhos vermelhos brilhando com uma sabedoria que parecia vir de fora do tempo e do espaço.

— Eu recuperei memórias de uma dimensão onde a luz não era apenas energia termodinâmica. Ahyeon, você estuda em uma escola que tem raízes em corais de igreja, não é? Você conhece as histórias que seus avós contavam.

Ahyeon franziu a testa, confusa.

— Você quer dizer... sobre Deus? Sobre a fé?

— O Kyubey e sua raça são seres de lógica pura — explicou Kyu rapidamente enquanto Homura disparava contra uma horda de familiares que se aproximava. — Eles não entendem o conceito de Sacrifício Divino. Eles acham que a energia deve ser trocada, um por um. Mas existe uma fonte de poder que é infinita porque não vem da humanidade, mas do Criador. O Cristianismo fala de uma luz que as trevas não podem compreender.

O Kyubey manipulador soltou um som que poderia ser uma risada seca.

— Religião? Mitos humanos para confortar mentes fracas? Isso não tem base científica.

— A fé não precisa de base, ela precisa de entrega! — rebateu Kyu. — Ahyeon, se você cantar não apenas para si mesma, ou para sua carreira, mas como uma oração... se você invocar a proteção daquele que venceu a morte, você pode quebrar a lógica da entropia.

A Bruxa finalmente se revelou. Era uma criatura colossal feita de correntes e espelhos, refletindo todas as vezes que Ahyeon sentiu que seus pais não a amavam o suficiente. A criatura levantou uma mão de metal para esmagá-las.

Homura ativou seu escudo, parando o tempo por alguns segundos. Ela plantou bombas ao redor da bruxa, mas quando o tempo voltou a correr, a criatura apenas absorveu a explosão, regenerando-se instantaneamente.

— Ela é forte demais! — gritou Homura, o suor descendo pelo rosto. — Ela se alimenta do vazio existencial desta cidade!

Ahyeon fechou os olhos. Ela lembrou-se das tardes de domingo na pequena capela que frequentava com a avó antes de se tornar trainee. Ela lembrou-se de uma música específica, um hino que falava sobre a luz que brilha na escuridão.

— Kyubey diz que minha alma vai virar uma semente de desespero — sussurrou Ahyeon para si mesma. — Mas minha alma não pertence a ele. E nem a mim.

Ela respirou fundo. Não era o ar viciado do labirinto que enchia seus pulmões, mas uma força renovadora. Ela abriu a boca e, em vez de um grito de guerra, soltou uma nota límpida, uma melodia sacra que parecia carregar o peso de milênios de esperança.

— *Kyrie Eleison...* — a voz de Ahyeon subiu, atingindo um *high note* que não era apenas técnico, era celestial.

Uma luz branca e dourada começou a emanar de seu peito. Não era a luz de uma garota mágica; era algo mais antigo, mais denso. Onde a luz tocava as paredes do hospital, as agulhas se transformavam em pétalas de lírio. As correntes da bruxa começaram a enferrujar e cair.

— O quê? — O Kyubey manipulador recuou, seus olhos brilhando em choque. — Essa frequência... ela está acessando uma fonte de energia externa ao sistema! Isso é impossível!

— Nada é impossível para quem crê! — gritou Kyu, sentindo a energia purificadora.

Ahyeon continuou a cantar, e a cada nota, ela via a imagem de Johny correndo em sua direção, livre das sombras. Ela viu seus pais, não mais como dois estranhos brigando, mas como seres humanos falhos que ainda podiam encontrar a paz.

Homura aproveitou a luz de Ahyeon, que parecia enfraquecer a barreira dimensional da bruxa. Ela carregou sua arma com uma determinação renovada.

— Se isso for um milagre — disse Homura —, eu vou garantir que ele não seja desperdiçado!

Com um disparo final, imbuído pela luz da canção de Ahyeon, Homura atingiu o núcleo da bruxa. Mas em vez de explodir em desespero, a criatura simplesmente se dissolveu em luz, como se tivesse sido perdoada por existir.

O labirinto ruiu.

Segundos depois, elas estavam de volta ao pátio do hospital abandonado. O sol de fim de tarde finalmente rompeu as nuvens, banhando tudo com um ouro verdadeiro. Johny estava sentado no chão, esfregando os olhos, confuso, mas seguro.

Ahyeon caiu de joelhos, exausta. Sua voz estava rouca, mas seu coração estava leve como nunca estivera.

— Você conseguiu — disse Kyu, aproximando-se e esfregando a cabeça na mão dela. — Você provou que a entropia tem um limite. A fé é a única coisa que esses alienígenas não podem calcular.

O Kyubey manipulador estava parado a alguns metros de distância, observando-as. Ele parecia menor, menos imponente.

— Você adiou o inevitável, Ahyeon — disse ele, embora houvesse uma nota de incerteza em sua voz monótona. — O universo ainda vai morrer. O desespero ainda vai voltar.

— Talvez — respondeu Ahyeon, levantando-se e pegando Johny no colo. — Mas enquanto houver uma canção de esperança e alguém para cantá-la, você não terá a minha alma. E você não terá este mundo.

Homura olhou para Ahyeon por um longo tempo. Pela primeira vez, um pequeno e quase imperceptível sorriso surgiu nos lábios da viajante do tempo.

— Você é diferente de todas as outras, Ahyeon. Talvez... talvez exista mesmo uma saída que eu não vi.

— Existe — afirmou Ahyeon com convicção. — Eu vou continuar treinando. Vou ser a maior estrela que este país já viu. E cada vez que eu subir no palco, vou usar minha voz para expulsar as suas bruxas, Kyubey.

A princesa Adora, que observava de longe, escondida nas sombras de um prédio próximo, sorriu e guardou sua espada. Ela sabia que Seul estava em boas mãos.

Ahyeon caminhou em direção ao metrô, carregando o irmãozinho. Ela ainda era uma trainee. Ela ainda tinha contas para pagar e uma família para tentar unir. Mas agora, ela tinha uma arma que nenhum alienígena poderia entender: uma canção que ecoava do céu e a certeza de que a luz sempre, inevitavelmente, venceria as sombras.

— Vamos para casa, Johny — ela sussurrou. — A música está apenas começando.