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Sugar honey ice tea

O Alvorecer da Estrela de Platina e a Queda do Manipulador

A sala de práticas da YG nunca pareceu tão pequena. Ahyeon sentia que sua voz não cabia mais naquelas quatro paredes espelhadas. Desde o incidente no hospital, a energia que fluía por suas cordas vocais não era apenas talento; era uma vibração pura, algo que Kyu chamava de "Frequência da Providência". Mas ela não estava mais sozinha nessa jornada.

Ao seu lado, alongando-se com uma precisão militar, estava Chiquita, a trainee tailandesa cujo sorriso escondia uma agilidade sobre-humana. E, sentada no canto, mexendo em um tablet que parecia fundir tecnologia humana com magia de Etheria, estava Pharita. Elas não eram apenas colegas de grupo; eram o primeiro esquadrão de resistência contra o sistema de Kyubey.

— Ele está vindo — sussurrou Pharita, sem tirar os olhos da tela. — Sinto a flutuação na entropia. Ele está tentando se aproximar da sala de ensaio das novatas.

Ahyeon parou o movimento de dança, o suor brilhando em sua pele. Ela olhou para o Kyubey do Bem, que repousava sobre o piano de cauda.

— Kyu, você tem certeza de que o plano vai funcionar? — perguntou Ahyeon, a voz firme, mas carregada de preocupação. — Se falharmos, ele vai usar o desespero de todas as garotas da empresa para abrir um portal definitivo.

— A lógica dele é o nosso maior trunfo — respondeu o pequeno alienígena branco. — Ele acredita que o sacrifício é a única moeda de troca. Ele não consegue conceber uma ressonância harmônica onde a energia é compartilhada, em vez de roubada.

A porta da sala se abriu lentamente. Não houve som de passos, apenas aquela presença gélida que fazia os pelos do braço de Ahyeon se arrepiarem. O Kyubey manipulador entrou, balançando sua cauda felpuda com uma indiferença irritante.

— Ahyeon. Chiquita. Pharita — disse a criatura, os olhos vermelhos brilhando como brasas frias. — Vocês estão desperdiçando um potencial imenso. O mundo lá fora está clamando por salvação, e vocês insistem em coreografias inúteis.

— Inúteis para você — rebateu Chiquita, dando um salto mortal para trás e parando graciosamente em frente ao alienígena. — Para nós, isso é sincronia. E sincronia é o que vai acabar com você.

Kyubey inclinou a cabeça, um gesto mecânico de curiosidade.

— Vocês acham que a amizade pode reverter as leis da termodinâmica? Que tolo. Para cada bruxa que vocês derrotam com essa "luz", o universo exige um pagamento. Se vocês não se tornarem bruxas, o vácuo será preenchido pelo desespero de outros. É uma conta que nunca fecha.

— É aí que você se engana, "gatinho" — disse Ahyeon, aproximando-se com um sorriso desafiador. — Nós descobrimos o segredo. Você não coleta emoções para salvar o universo. Você as coleta porque sua raça é incapaz de gerar a própria energia. Vocês são parasitas cósmicos.

— Uma definição semântica irrelevante — disse Kyubey. — O resultado é o mesmo.

— Não desta vez — disse Pharita, levantando o tablet. — Graças à tecnologia que a Adora nos deixou e aos registros de memória do Kyu, mapeamos a rede de Sementes de Trevas que você espalhou por Seul. Elas funcionam como repetidores, não é? Elas enviam a energia do desespero direto para a sua galáxia.

Kyubey permaneceu imóvel, mas houve uma leve oscilação em suas orelhas longas.

— O que vocês pretendem fazer? — perguntou ele. — Destruí-las apenas aceleraria o processo de colapso.

— Não vamos destruí-las — explicou Ahyeon, sentindo a nota musical vibrar em seu peito. — Vamos sobrecarregá-las.

— Agora! — gritou Kyu.

Chiquita e Pharita posicionaram-se em volta de Ahyeon, formando um triângulo perfeito. O Kyubey do Bem saltou para o centro, agindo como um prisma vivo. Fora da sala, as outras trainees do Babymonster — Ruka, Asa, Rami e Rora — montavam guarda, usando suas próprias auras de determinação para selar o ambiente, impedindo que qualquer interferência externa quebrasse o ritual.

Ahyeon fechou os olhos e buscou a nota mais profunda de sua alma. Não era apenas um *high note* de performance; era um chamado.

— *Veni, Sancte Spiritus...* — começou ela, a voz saindo em camadas, como se mil anjos estivessem cantando em uníssono.

A sala explodiu em uma luminosidade platinada. Chiquita começou a girar, criando um vórtice de vento que carregava a melodia para todos os cantos do prédio. Pharita, usando seus conhecimentos de engenharia mágica, direcionou essa energia para a rede de Kyubey.

— O que é isso? — a voz do Kyubey manipulador finalmente vacilou, demonstrando algo parecido com o medo. — Vocês estão... devolvendo a energia?

— Estamos limpando a energia! — gritou Kyu. — O desespero está sendo transmutado em esperança através da harmonia musical. O sistema de vocês não suporta pureza desse nível!

De repente, a realidade ao redor deles começou a oscilar. O teto da YG pareceu desaparecer, revelando um céu estrelado onde milhares de fios negros conectavam a Terra a uma nebulosa distante e sombria. Eram os contratos. Bilhares de garotas mágicas através da história, presas em um ciclo eterno de sofrimento.

— Veja, Ahyeon! — gritou Pharita, apontando para o céu. — São as almas delas!

Ahyeon viu as silhuetas de garotas que vieram antes dela. Viu a dor de Madoka, a solidão de Homura e o sacrifício de tantas outras. As lágrimas desceram por seu rosto, mas não eram lágrimas de tristeza. Eram de fúria santa.

— NUNCA MAIS! — Ahyeon soltou o grito mais potente de sua vida.

A nota atingiu o ápice, uma frequência tão alta que o tempo pareceu parar. A luz branca viajou pelos fios negros como um incêndio em um campo de pólvora. Onde a luz passava, as Sementes de Treva explodiam em flores de cerejeira. As almas presas foram envoltas em um brilho suave e começaram a ascender, finalmente libertas do contrato eterno.

O Kyubey manipulador começou a se desintegrar. Sua forma física, que era apenas uma projeção para enganar os humanos, começou a falhar, revelando uma massa disforme de engrenagens orgânicas e sombras.

— Isso... é ilógico... — balbuciou a criatura. — Vocês estão destruindo a bateria do universo... sem nós, tudo vai acabar no escuro...

— O escuro não nos assusta — disse Ahyeon, sua voz ecoando com a autoridade de uma rainha. — Porque agora sabemos que nós somos a luz. E a luz não precisa de contratos para brilhar.

Com um último clarão, a conexão com a galáxia dos incubadores foi cortada. O Kyubey manipulador desapareceu, deixando para trás apenas um rastro de poeira cinzenta que foi rapidamente varrido pelo vento de Chiquita.

O silêncio retornou à sala de ensaio. As luzes de LED voltaram ao normal. Ahyeon caiu sentada no chão, ofegante, sentindo o peso de ter libertado milênios de história.

— Acabou? — perguntou Chiquita, limpando o suor da testa.

— Para ele, sim — disse Kyu, que agora brilhava com uma tonalidade perolada. — A raça dele foi banida deste setor da existência. Eles não podem mais interferir no livre arbítrio humano. Vocês quebraram o ciclo.

Pharita olhou para o tablet, que agora exibia apenas dados normais de música.

— As garotas mágicas que ainda restam no mundo... elas não vão mais virar bruxas. Suas joias da alma se tornaram joias de luz. Elas podem usar seus poderes para proteger as pessoas sem o medo de perderem a sanidade.

Ahyeon olhou para as mãos. Elas ainda tremiam. Ela pensou em Johny, dormindo em casa, seguro. Pensou em seus pais, que naquela manhã tinham trocado um olhar de respeito mútuo em vez de uma acusação.

— Nós não apenas salvamos o mundo — sussurrou Ahyeon. — Nós demos a ele uma nova música.

A porta da sala se abriu e as outras integrantes do Babymonster entraram correndo. Houve um abraço coletivo, um emaranhado de risos, choros e alívio. Elas eram apenas garotas, trainees com sonhos de palco e fama, mas ali, naquele momento, eram as arquitetas de uma nova era.

— Ei — disse Rora, abraçando Ahyeon por trás. — O produtor está chamando. Ele disse que a música que você estava "compondo" agora pouco soou incrível nos microfones da sala ao lado. Ele quer gravar agora mesmo.

Ahyeon sorriu, olhando para Kyu, que piscou para ela antes de se esconder atrás de uma cortina.

— Vamos lá, meninas — disse Ahyeon, levantando-se com uma energia renovada. — Temos um mundo para encantar. E desta vez, a nossa música vai chegar até as estrelas, mas por vontade própria.

Enquanto caminhavam pelo corredor da empresa, Ahyeon sentiu uma brisa quente passar por ela. Por um breve segundo, ela viu a imagem de Adora e Homura acenando de um portal que se fechava no final do corredor. Elas estavam em paz.

Ahyeon entrou na cabine de gravação. Ela colocou os fones de ouvido, fechou os olhos e esperou a batida começar. Quando ela abriu a boca para cantar a primeira estrofe da nova música do grupo, não havia mais sombras, nem contratos, nem medo.

Havia apenas a voz de uma garota que escolheu ser uma estrela, não para fugir do escuro, mas para iluminar o caminho de todos que ainda estavam nele. E em cada nota alta, em cada harmonia perfeita, o universo inteiro parecia responder com um coro de esperança que nenhuma entropia jamais seria capaz de calar.

O Babymonster não era mais apenas o nome de um grupo de K-pop. Era a prova de que até os "monstros" criados pelo desespero poderiam ser transformados em algo belo, se houvesse amor e uma canção forte o suficiente para guiar o coração.

— Um, dois, três... gravando — disse o produtor pelo interfone.

Ahyeon sorriu. O futuro era um papel em branco, e ela tinha a caneta de ouro nas mãos.

— Vamos fazer história — ela sussurrou para si mesma, antes de soltar a primeira nota que mudaria o mundo para sempre.