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Sultan

O Sangue no Jardim de Rosas

O sol da manhã banhava o Palácio de Topkapi com uma luz enganosamente pacífica. Luna caminhava pelos jardins privados, o farfalhar de sua seda azul-turquesa misturando-se ao som das fontes próximas. Seu traje era uma obra-prima da opulência otomana: uma caftã bordada com fios de ouro sobre uma túnica de seda fina, e em sua cabeça, uma pequena tiara adornada com safiras que combinavam com a intensidade de seu olhar. A jovem Sultana sentia-se inquieta. Os sussurros no harém sobre a guerra nas fronteiras pareciam mais altos naquele dia, e o peso da proteção de seu pai, o Sultão Jim, às vezes parecia uma redoma de vidro que ela desejava quebrar.

Ela se afastou das servas, buscando a solidão perto dos muros externos do jardim, onde as rosas selvagens cresciam com mais vigor. Luna gostava do perigo sutil das espinhas; elas a lembravam de que a beleza sem defesa era uma fraqueza que ela não podia se dar ao luxo de ter.

— Sou Luna, Luna Sultana, e o mundo deve se curvar diante de mim — murmurou para si mesma, um mantra de força que aprendera com sua mãe, Hurrem.

De repente, o silêncio do jardim foi estilhaçado. O som não veio do vento, mas do metal raspando na pedra. Antes que Luna pudesse se virar, quatro homens saltaram das sombras das árvores altas. Eles não vestiam as cores do império; suas armaduras eram rústicas, manchadas pelo sal do mar e pela poeira de terras estrangeiras. Eram assassinos, enviados pelos inimigos que Jim desafiara nos mares.

— A joia do Sultão — rosnou um deles, desembainhando uma cimitarra curvada. — Vamos ver como o Magnífico governará quando entregarmos a cabeça da filha em uma bandeja de prata.

Luna não gritou imediatamente. Seu primeiro instinto foi o de uma guerreira. Ela tentou recuar, mas um dos homens a agarrou pelo braço, rasgando o tecido delicado de sua manga. Com um empurrão violento, ela foi jogada ao chão. O mármore frio atingiu seus joelhos, e o medo, uma sensação que ela raramente permitia, subiu por sua garganta como um gosto amargo.

— Toquem em mim e eu garanto que suas linhagens serão apagadas da história! — Luna cuspiu as palavras, mesmo caída, seus olhos brilhando com o fogo de Bloom.

O assassino riu, erguendo a lâmina. Luna fechou os olhos por um breve segundo, esperando o golpe final, preparando sua alma para o encontro com os ancestrais.

Mas o golpe nunca veio.

Um grito gutural, selvagem e estranhamente melódico, ecoou pelo ar. Uma sombra passou sobre Luna como um falcão mergulhando para a caça. Puma, o príncipe nativo, surgiu do nada. Ele não usava o aço pesado dos otomanos, mas movia-se com uma agilidade que desafiava a visão humana. Com um movimento fluido, ele interceptou a cimitarra do assassino com uma faca de osso reforçada e um machado de pedra polida.

— Atrás de mim, Sultana! — rugiu Puma.

A luta que se seguiu foi uma dança de morte. Puma não lutava como os guardas do palácio; ele era instintivo, brutal e eficiente. Ele se moveu entre os invasores como um espírito da floresta, usando o peso dos próprios inimigos contra eles. Luna, ainda no chão, observava boquiaberta enquanto o estrangeiro que ela tanto provocara arriscava a vida por ela.

— Matem o selvagem! — gritou o líder dos invasores.

Puma esquivou-se de um golpe lateral, cravando sua faca no ombro de um atacante e usando o corpo do homem como escudo. Mas eram quatro contra um, e o círculo estava se fechando.

Foi então que o chão pareceu tremer. Um rugido de fúria absoluta, mais alto que qualquer trovão, ecoou das portas principais do jardim.

— INFIEIS! CÃES MALDITOS! — A voz de Jim, o Sultão Magnífico, cortou o ar como um chicote de fogo.

Jim surgiu como uma visão de guerra. Ele não estava com suas vestes de seda leve para o conselho; ele estava com a armadura de batalha, sua capa vermelha esvoaçando atrás dele como sangue em movimento. Em sua mão, a espada lendária do império brilhava com uma sede de justiça. Atrás dele, uma legião de Janízaros avançava, mas o Sultão estava à frente de todos.

— Ninguém toca no meu sangue! — gritou Jim, seus olhos azuis agora transformados em fendas de puro gelo e ódio.

O Sultão avançou sobre o primeiro invasor que se atreveu a olhar em sua direção. Com um único movimento ascendente, a espada de Jim decepou o braço do homem. Sem parar para respirar, ele girou, a lâmina descrevendo um arco perfeito que separou a cabeça do segundo assassino de seus ombros. O sangue espirrou nas rosas brancas, tingindo-as de um carmesim horroroso.

Puma, percebendo que o Sultão havia assumido a linha de frente, recuou rapidamente para o lado de Luna. Ele se ajoelhou diante dela, mas não para prestar homenagem, e sim para protegê-la.

— Não olhe, Luna — sussurrou Puma, sua voz subitamente suave, contrastando com a carnificina ao redor.

Ele colocou suas mãos grandes e calejadas sobre os olhos da Sultana, puxando a cabeça dela contra o seu peito forte. Luna sentiu o cheiro de terra, couro e adrenalina que emanava dele. Ela queria protestar, queria ver seu pai destruir aqueles que ousaram ameaçá-la, mas o abraço de Puma era um refúgio que ela não sabia que precisava. O mundo lá fora era gritos e metal, mas ali, no peito do príncipe nativo, havia uma batida de coração constante e protetora.

Jim continuava seu massacre. Ele não era apenas um governante; era o sobrevivente de uma dinastia de lobos. Cada golpe de sua espada era uma mensagem para qualquer um que ousasse conspirar contra sua família. Ele cortou, perfurou e destruiu até que o último invasor estivesse caído, transformado em nada mais do que carne inerte sobre o mármore do palácio.

— Limpem este lixo! — ordenou Jim aos seus guardas, sua respiração pesada, a espada ainda pingando. Ele se virou para onde Puma e Luna estavam.

O Sultão caminhou até eles, seu rosto suavizando-se apenas quando viu que sua filha estava inteira. Puma retirou as mãos dos olhos de Luna e ajudou-a a se levantar, mas manteve-se por perto, como uma sombra vigilante.

— Meu pai... — Luna começou, sua voz tremendo levemente pela primeira vez na vida.

Jim a envolveu em um abraço esmagador, ignorando o sangue que manchava sua própria armadura.

— Você está segura, minha pequena joia. Pelos céus, se um fio de seu cabelo tivesse sido arrancado, eu teria queimado o continente deles até as cinzas.

Ele olhou por cima do ombro de Luna para Puma. O príncipe nativo inclinou a cabeça, um sinal de respeito mútuo entre guerreiros.

— Você a protegeu — disse Jim, sua voz profunda e carregada de um reconhecimento raro. — O Império Otomano tem uma dívida com você, Puma.

— Eu protegi o que é precioso, Sultão — respondeu Puma com simplicidade. — Em minha terra, não deixamos que as flores sejam pisoteadas por lobos.

Enquanto o jardim era limpo, a notícia da emboscada correu pelos corredores do palácio como fogo em palha seca. Nos aposentos da Sultana Hurrem, o clima de tranquilidade foi substituído pelo pânico.

Bloom estava sentada à sua mesa, escrevendo cartas de diplomacia, quando uma serva entrou correndo, caindo de joelhos e soluçando sobre o ataque a Luna. A cor fugiu do rosto de Bloom instantaneamente. Seus olhos azuis se arregalaram e ela levou a mão ao coração, sentindo uma pontada aguda de dor física. O trauma de seu próprio passado, de ser capturada e ver a violência de perto, voltou como uma onda avassaladora.

— Luna... minha Luna... — Bloom sussurrou, sua respiração tornando-se curta e errática.

Ela tentou se levantar, mas suas pernas fraquejaram. O mundo começou a girar. O medo por sua filha era um veneno mais forte do que qualquer um que suas inimigas no harém pudessem ter preparado.

— Mãe! — A voz firme de Marymard ecoou pelo quarto.

O jovem príncipe, que estava a caminho dos treinos, entrou nos aposentos e amparou a mãe antes que ela atingisse o chão. Ele a carregou até o divã, gritando por água e essências de lavanda.

— Respire, mãe. Ela está bem. O pai chegou a tempo. Puma a protegeu — disse Marymard, segurando as mãos trêmulas de Bloom.

Bloom olhou para o filho, vendo nele a mistura perfeita de sua própria determinação e a força de Jim. Marymard tinha o semblante sério, a mandíbula cerrada em uma fúria contida que espelhava a do pai.

— Eu preciso vê-la, Marymard... se algo acontecer a ela, eu não suportarei — Bloom conseguiu dizer, as lágrimas finalmente correndo por seu rosto de porcelana.

— Nada vai acontecer, eu prometo — afirmou Marymard, sua voz carregada de uma autoridade que mostrava por que ele era o herdeiro do trono. — Se o pai não destruir aqueles que planejaram isso, eu mesmo o farei. Ninguém toca na nossa família e vive para contar a história.

Ele ficou ao lado dela, uma âncora de estabilidade enquanto o palácio fervilhava. Marymard sabia que o equilíbrio de seu pai dependia da saúde e da felicidade de Bloom. Se a Sultana Hurrem caísse em desespero ou doença, o Sultão Jim se tornaria uma força de destruição sem precedentes, capaz de levar o império à ruína apenas para vingar sua dor.

Horas depois, quando o sol começou a baixar, o encontro finalmente aconteceu nos aposentos de Bloom. Luna entrou correndo, seguida por um Jim ainda tenso e um Puma que permanecia à porta, observando tudo com seus olhos de águia.

Bloom abraçou a filha com uma força desesperada, verificando cada centímetro do rosto de Luna em busca de ferimentos.

— Estou bem, mamãe — disse Luna, tentando recuperar sua postura de Sultana implacável, embora seus olhos ainda estivessem úmidos. — Puma e o papai... eles foram incríveis.

Bloom olhou para Jim, e o olhar compartilhado entre os dois disse mais do que mil palavras. Era um juramento de guerra. Eles eram estrangeiros que conquistaram um império, e agora, o mundo estava tentando tirar deles o que era mais sagrado.

— Jim — disse Bloom, sua voz agora fria e cortante como uma lâmina de gelo —, quem enviou aqueles homens?

— O Reino do Norte — respondeu Jim, sua mão pousando no punho da espada. — Eles acham que podem me atingir através da minha família. Eles acham que eu sou apenas um homem em um trono.

— Mostre a eles, Jim — disse Bloom, levantando-se com a ajuda de Marymard, a força voltando ao seu corpo. — Mostre a eles que você é o Sultão Magnífico, e que eu sou a Sultana que não conhece a misericórdia quando se trata de seus filhos.

Luna, observando a determinação de seus pais, sentiu uma nova força crescer dentro de si. Ela olhou para Puma, que ainda guardava a entrada. O príncipe nativo encontrou o olhar dela e deu um aceno sutil de cabeça. Entre eles, algo havia mudado. O desafio agora era tingido de uma gratidão profunda e algo mais, um vínculo forjado no sangue e no perigo.

— Eles queriam dar um aviso ao Sultão — disse Luna, sua voz ecoando com uma autoridade que fez até os guardas no corredor se empertigarem. — Mas o único aviso que será dado hoje é o nosso. Eu sou Luna Sultana, e eu não perdoo. E a partir de hoje, o mundo aprenderá o que acontece quando se tenta apagar a chama da Fênix.

Marymard colocou a mão no ombro da irmã, o apoio silencioso do futuro sultão. A família real estava unida, e embora as sombras da traição ainda dançassem nos cantos escuros de Istambul, o fogo de Hurrem e a fúria de Jim queimavam mais forte do que nunca.

A guerra estava chegando, não apenas nas fronteiras, mas dentro dos próprios muros do palácio. Mas com Puma ao lado de Luna e Marymard protegendo o legado de Bloom, o Império Otomano estava prestes a ver do que uma linhagem nascida do amor e da sobrevivência era realmente capaz.

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