Sultan
O Veneno da Serpente e o Rugido da Onça
O harém do Palácio de Topkapi era um labirinto de seda, incenso e sussurros venenosos. Para muitos, era um lugar de beleza e repouso, mas para Luna Sultana, era um campo de batalha onde as armas eram sorrisos falsos e palavras de duplo sentido. Naquela tarde, o sol filtrava-se pelas janelas em treliça, criando padrões geométricos no chão de mármore, enquanto um grupo de concubinas se reunia perto da fonte central, rindo com uma malícia que não combinava com a serenidade do ambiente.
No centro do grupo estava Safiya, uma concubina de olhos astutos que ainda guardava rancor pela ascensão de Bloom. Ela segurava um pedaço de pergaminho delicado, lendo em voz alta com um tom de escárnio que atraía a atenção das outras.
— "Minha luz, meu horizonte... seus olhos são como as águas do Bósforo sob o luar" — recitou Safiya, soltando uma gargalhada aguda. — Vejam só, o filho do Paxá realmente acredita que pode domar a filha da "Escrava Ruiva". Ele escreve como se Luna fosse uma flor delicada, e não uma criatura feita de espinhos e arrogância.
As outras mulheres riram, cobrindo a boca com os leques. Elas se sentiam seguras na ausência momentânea de Hurrem, acreditando que a jovem Sultana fosse apenas uma sombra da mãe.
Luna, que entrava no pátio naquele exato momento, parou. Seus cabelos azul-escuros, herdados do pai, pareciam absorver a luz, e seus olhos azuis, herdados da mãe, tornaram-se duas pedras de gelo. Ela não hesitou. O som de seus passos firmes silenciou o ambiente antes mesmo que ela chegasse ao círculo.
— Parece que a alfabetização no harém serviu apenas para que as servas pudessem bisbilhotar a correspondência da família real — disse Luna, sua voz um chicote de veludo que fez Safiya empalidecer.
— Sultana... — Safiya tentou esconder a carta atrás das costas, mas Luna foi mais rápida.
Com um movimento que misturava a graça de uma dançarina e a violência de um falcão, Luna agarrou o pulso da mulher. O pergaminho caiu ao chão. Antes que a concubina pudesse reagir, Luna avançou, cravando os dedos no queixo de Safiya com uma força que a fez arquejar. Ela forçou a cabeça da mulher para trás, obrigando-a a olhar diretamente em seus olhos.
— Você se esquece de quem eu sou — sussurrou Luna, a poucos centímetros do rosto da outra. — Eu não sou apenas a filha do Sultão. Eu sou o sangue de Hurrem. A mulher que vocês chamam de bruxa porque ela sobreviveu onde todas vocês teriam apodrecido.
O silêncio no harém era absoluto. As outras concubinas recuaram, aterrorizadas pela súbita manifestação de poder.
— Sou Luna, Luna Sultana, e eu não perdoo insultos, nem mãos impuras em meus pertences — continuou ela, apertando ainda mais o queixo de Safiya antes de empurrá-la com desprezo. A concubina tropeçou e caiu contra a borda de mármore da fonte. — Se eu ouvir meu nome ou o da minha mãe saindo dessa sua boca novamente, eu farei questão de que você nunca mais consiga pronunciar palavra alguma.
Luna pegou a carta do chão, limpou a poeira invisível do papel e saiu do pátio sem olhar para trás. Seus ombros estavam eretos, mas por dentro, seu coração martelava. Ela odiava a vulnerabilidade que aquela carta representava.
Enquanto Luna reafirmava seu domínio no harém, em uma ala isolada e sombria do palácio, uma conspiração muito mais perigosa tomava forma. Mahidevran, a antiga consorte que fora deixada de lado pelo amor avassalador de Jim por Bloom, estava sentada diante de uma mesa de carvalho. Ao lado dela, um jovem de olhar sombrio e postura rígida: Mustafa, o filho mestiço de Jim de um relacionamento anterior, que se sentia preterido pela linhagem de Hurrem.
— O tempo de Jim está chegando ao fim — murmurou Mahidevran, suas mãos adornadas com anéis antigos tremendo levemente. — Ele está cego pela ruiva. Ele permite que um estrangeiro selvagem ande pelos jardins e que seu filho Marymard se prepare para um trono que, por direito de primogenitura, deveria ser seu, Mustafa.
Mustafa olhou para a janela, observando os Janízaros no pátio.
— O exército respeita meu pai, mas teme a influência de Hurrem — disse o príncipe, sua voz carregada de ressentimento. — Eles dizem que o império está se tornando um joguete nas mãos de uma estrangeira. Se agirmos agora, com o apoio dos vizires descontentes, podemos tomar o poder antes que Marymard seja formalmente nomeado.
— Precisamos de um golpe limpo — disse Mahidevran, aproximando-se do filho. — Jim não sobreviverá a uma traição vinda de dentro. E quando ele cair, a ruiva e seus filhotes de lobo cairão com ele.
A aliança estava selada no ódio. Eles não sabiam que, nas sombras, os espiões de Hurrem sempre ouviam, mas a teia de traição estava sendo tecida com cuidado extremo.
Longe das intrigas políticas, Luna buscou refúgio nos jardins mais afastados, onde o ar era mais puro e menos carregado de perfume barato. Ela se sentou em um banco de pedra, tentando acalmar a raiva que ainda fervia em suas veias.
— Você luta bem com as palavras, mas seus dedos ainda tremem — disse uma voz profunda, vinda de cima.
Luna olhou para cima e viu Puma empoleirado em um galho baixo de uma figueira. Ele saltou com a leveza de um felino, aterrissando silenciosamente diante dela. Ele vestia uma túnica otomana aberta, que ele claramente achava desconfortável, revelando as tatuagens e cicatrizes de seu povo.
— O que você sabe sobre tremer, estrangeiro? — retrucou Luna, recuperando sua máscara de frieza. — Eu acabei de colocar o harém em seu devido lugar.
Puma deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal da Sultana de uma forma que nenhum outro homem ousaria.
— Você colocou medo nelas, mas não paz em si mesma — disse ele, encarando-a de frente. — No meu povo, não nos escondemos atrás de títulos quando estamos feridos. Uma onça não precisa rugir para provar que é rainha; ela apenas é.
Luna levantou-se, irritada pela audácia dele.
— Você não entende nada dos nossos costumes. Aqui, o poder é tudo o que temos.
— O poder é uma prisão de ouro, Luna — disse Puma, sua voz suavizando-se. Ele estendeu a mão e, para surpresa dela, não a tocou com violência, mas tocou levemente a safira em sua tiara. — Você se veste como uma divindade, mas se esquece de como é ser uma mulher. O que você deseja quando as luzes se apagam e não há ninguém para impressionar?
Luna sentiu sua base vacilar. A pergunta era direta demais, íntima demais.
— Eu desejo o que meu pai deseja: a grandeza do império — respondeu ela, embora sua voz soasse incerta.
Puma riu, um som rico e genuíno.
— Mentira. Você deseja ser vista. Não como a "Sultana Preciosa", mas como a alma que queima por trás desses olhos azuis.
Ele se aproximou mais, e Luna sentiu o calor que emanava dele. Era uma energia selvagem, algo que o palácio não conseguia domesticar.
— Deixe-me mostrar uma coisa — disse ele. — Esqueça os tapetes e as regras por um momento.
Ele pegou a mão dela. O contato fez um choque percorrer o braço de Luna. Ele a conduziu até uma pequena clareira onde a grama crescia livre.
— Sente-se — ordenou ele.
— Eu não vou sentar na terra, Puma. Meu vestido...
— O vestido pode ser lavado. A alma, se ficar suja de orgulho, demora mais — interrompeu ele, sentando-se cruzado no chão.
Relutante, Luna sentou-se à sua frente. Puma começou a falar sobre as florestas de sua terra, sobre como as mulheres de seu povo eram guerreiras e curandeiras, sobre como elas escolhiam seus companheiros não por linhagem, mas pela força do espírito. Ele falou sobre o desejo como uma força da natureza, não como um pecado ou uma moeda de troca política.
— Uma mulher deve desejar o sol no rosto e o fogo no coração — disse Puma, seus olhos fixos nos dela. — Você passa tanto tempo protegendo seu irmão e sua mãe que se esqueceu de que tem o direito de querer algo apenas para você.
Luna sentiu uma lágrima solitária escapar, algo que ela nunca permitiria que seus pais vissem. Puma estendeu o polegar e limpou a gota de água com uma ternura que a desarmou completamente.
— Você é implacável, Luna — sussurrou ele —, mas até a lua precisa de um céu escuro para brilhar. Não lute contra o que você sente.
Por um momento, o tempo parou. A Sultana e o Príncipe Nativo eram apenas dois jovens sob o céu de Istambul, as barreiras de cultura e status desmoronando diante da verdade crua de suas naturezas. Luna percebeu que, pela primeira vez, alguém não olhava para ela como um trunfo político ou uma joia a ser guardada, mas como uma tempestade que ele estava disposto a enfrentar.
— Eu... eu não sei como fazer isso — admitiu ela, sua voz mal passando de um sussurro.
— Comece sentindo o vento — disse Puma, sorrindo. — O resto, o seu coração já sabe.
Enquanto isso, nos aposentos do Sultão, Jim observava o horizonte. Ele sentia a mudança no ar. A traição de Mustafa e Mahidevran era um sussurro que ele ainda não conseguia identificar, mas sua intuição de pirata o alertava. Ele olhou para Bloom, que entrava no quarto com uma expressão preocupada.
— Jim, o harém está agitado — disse ela, aproximando-se dele. — Luna teve um confronto com Safiya. Nossa filha está se tornando uma chama muito alta, meu amor.
Jim a abraçou, beijando o topo de sua cabeça ruiva.
— Deixe que ela queime, Hurrem. O mundo precisa de luz. Mas temo que as sombras estejam se tornando longas demais. Marymard me disse que Mustafa tem se reunido com os Janízaros em segredo.
Bloom apertou os braços ao redor do marido.
— Se eles tentarem algo, Jim...
— Eles aprenderão por que eu sou o único que sobrou para usar esta coroa — disse o Sultão, sua voz voltando a ter o peso do aço. — Mas por agora, vamos proteger nossos filhos. Eles são o nosso único tesouro real.
A noite caiu sobre o Bósforo, trazendo consigo promessas de amor e ameaças de morte. Luna voltou para seus aposentos com o cheiro de terra de Puma ainda em seus sentidos, enquanto nos porões do palácio, espadas eram afiadas para um golpe que pretendia mudar o curso da história otomana. A dinastia de Bloom e Jim estava prestes a ser testada como nunca antes, e o sangue, mais uma vez, seria a tinta com que o destino seria escrito.