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Sultan

O Veneno no Cálice e o Grito da Alcateia

A manhã no palácio de Topkapi tinha um brilho cruel. O sol refletia nas cúpulas douradas, mas o ar parecia denso, como se o destino estivesse prendendo a respiração. Luna caminhava pelos corredores de mármore com a postura de uma rainha que já nascera coroada. Seu vestido, uma obra-prima de seda azul-noite bordada com fios de prata, flutuava ao redor de seus tornozelos a cada passo firme, as camadas de tecido parecendo asas de uma borboleta noturna em pleno voo.

Ao dobrar o corredor que dava para os jardins internos, ela encontrou a figura que mais desprezava. Mustafa estava encostado em uma coluna, observando-a com um sorriso que não chegava aos olhos, um sorriso carregado de um veneno que ele não se dava mais ao trabalho de esconder.

— Ora, vejam só — disse Mustafa, desencostando-se da coluna e bloqueando o caminho de Luna. — Há poucos dias, você era a imagem da desolação, uma noiva infeliz sendo entregue a um bárbaro para salvar o pescoço do nosso querido irmão. Mas hoje... hoje você caminha como se o mundo estivesse aos seus pés.

Luna parou, mantendo uma distância gélida. Seus olhos azuis, tão profundos quanto os de Bloom, fixaram-se nos dele com um desprezo cortante.

— O mundo está aos meus pés, Mustafa. Você é que parece pequeno demais para perceber a diferença entre submissão e poder.

Mustafa soltou uma risada rouca, dando um passo à frente, diminuindo o espaço pessoal de Luna.

— O poder mudou de cor, irmãzinha? — Ele inclinou a cabeça, a voz baixando para um tom sugestivo e insultuoso. — Parece que o selvagem está te comendo bem. O calor das terras dele finalmente derreteu o gelo da Sultana?

O rosto de Luna não vacilou. Ela não lhe deu o prazer da raiva ou do rubor. Em vez disso, ela se aproximou ainda mais, até que o cheiro do incenso dele se misturasse ao perfume de rosas dela.

— Puma é um príncipe de sua nação, Mustafa. Ele possui uma força que homens que vivem de conspirações e sombras, como você, jamais compreenderão. — Ela sorriu, um gesto lento e letal. — Se você está tão interessado na minha vida íntima, talvez seja porque a sua própria existência é vazia. Agora, saia da minha frente. Eu tenho um império para ajudar a governar, enquanto você só tem inveja para cultivar.

Ela passou por ele sem esperar resposta, o farfalhar de sua seda soando como um insulto final. Mustafa ficou para trás, o rosto vermelho de fúria contida, observando-a desaparecer na curva do corredor.

Luna sentia o coração acelerado, mas mantinha a fachada de ferro. Ela precisava encontrar Marymard. O irmão mais velho era o seu porto seguro, e a tensão política no palácio estava atingindo um ponto de ruptura. No entanto, enquanto caminhava em direção à ala leste, uma sensação estranha começou a rastejar por sua espinha. O corredor, geralmente patrulhado, parecia deserto. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo som de sua própria respiração.

Ela parou. Seus instintos, aguçados pelos treinos com Puma, gritaram "perigo". Luna tentou se virar, mas foi lenta demais.

Mãos fortes e calejadas a envolveram por trás, imobilizando seus braços. Antes que pudesse gritar, um pano embebido em um líquido de cheiro doce e nauseabundo foi pressionado contra seu nariz e boca. Luna lutou, chutando e tentando morder a mão do agressor, mas a substância era poderosa. Sua visão começou a escurecer, as colunas de mármore girando como fumaça.

— Sou Luna... Luna Sultana... e eu não... — Suas pernas fraquejaram. O mundo apagou-se em um abismo negro.

***

Enquanto Luna era arrastada para fora das muralhas do palácio por capangas contratados, escondida em uma carroça de suprimentos, uma tragédia ainda maior se desenrolava no coração do harém.

Bloom, a Sultana Hurrem, estava sentada em seus aposentos, bordando um lenço para Jim, quando um grito lancinante rasgou o ar. Não era um grito de raiva, era o som da alma de alguém sendo destruída.

Ela correu em direção aos aposentos de Marymard, seu coração batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado. Ao chegar à porta, ela encontrou os guardas em estado de choque e as servas chorando histericamente.

No centro do quarto, deitado sobre o divã onde costumava ler seus tratados de diplomacia, estava Marymard. Seu rosto, geralmente cheio de vida e inteligência, estava pálido, com veias azuladas marcando as têmporas. Um cálice de ouro jazia caído no chão, uma pequena poça de vinho tinto espalhada pelo tapete.

— Marymard! — Bloom caiu de joelhos ao lado do filho, pegando suas mãos. Elas estavam frias. — Meu filho, abra os olhos! Chamem os médicos! Agora!

— Sultana... — o médico do palácio aproximou-se, a voz trêmula. — É tarde demais. O veneno foi fulminante. Não houve tempo para antídotos.

Bloom soltou um grito que pareceu ecoar por toda Istambul. Ela abraçou o corpo inerte do filho, o seu primogênito, o herdeiro que ela tanto lutara para proteger. O menino que ela carregara no ventre, que sobrevivera a tantas intrigas, agora fora silenciado por um covarde.

A porta se abriu e Mahidevran, a antiga consorte e mãe de Mustafa, apareceu ao fundo, observando a cena com uma frieza calculada. Seus olhos encontraram os de Bloom por um breve segundo, e o brilho de triunfo ali foi o estopim.

Bloom levantou-se lentamente. As lágrimas ainda corriam, mas seu rosto se transformou em uma máscara de fúria divina. Ela não era mais a concubina capturada; ela era a Fênix que renascia das cinzas do próprio filho.

— Você... — Bloom apontou o dedo trêmulo para Mahidevran. — Você matou o meu sol. Você tirou a vida do meu Marymard para dar o trono ao seu filho bastardo de lealdade.

— O destino decide quem governa, Hurrem — disse Mahidevran com um sorriso gélido. — Talvez o sangue estrangeiro não fosse forte o suficiente para o vinho otomano.

Bloom avançou como uma leoa.

— Eu vou queimar este palácio, Mahidevran. Eu vou caçar cada um de seus aliados. E quando eu terminar, você implorará pela morte, mas eu a manterei viva apenas para que você veja o seu filho ser reduzido a nada. Eu sou Hurrem! E hoje, o seu sangue será o meu vinho!

***

Longe dali, em uma cabana úmida e escura na periferia mais afastada do império, Luna despertou com um balde de água gelada no rosto. Ela estava acorrentada a uma viga de madeira, seus pulsos sangrando sob o peso do ferro.

Diante dela, três homens rudes, mercenários que não serviam a bandeiras, apenas ao ouro, sorriam com dentes podres.

— A Sultana é mais bonita de perto — disse um deles, segurando um ferro em brasa. — Mustafa disse que podíamos nos divertir, desde que você ainda estivesse viva para ver o fim da sua linhagem.

Luna cuspiu no rosto do homem, apesar da dor que irradiava de suas costelas.

— Vocês são cadáveres que ainda respiram — disse ela, a voz rouca, mas firme. — Meu marido virá. E quando ele chegar, vocês desejarão que o inferno fosse o seu destino.

O homem rugiu e pressionou o ferro contra o ombro de Luna. O grito dela foi abafado pelas paredes de pedra, mas em algum lugar da floresta próxima, um par de olhos escuros e ferozes captou o som.

Puma estava rastreando-os desde o momento em que encontrara o lenço de seda azul de Luna caído perto do portão dos fundos. Ele não chamara os Janízaros. Ele não precisava de exércitos. Ele era o príncipe da natureza, e sua esposa fora levada.

Ele se movia pelas árvores como uma sombra, o machado de pedra em uma mão e a faca de osso na outra. Quando ouviu o grito de Luna, o sangue de Puma ferveu com uma fúria ancestral. Ele não era mais o diplomata no palácio; ele era o predador.

Lá dentro, os mercenários continuavam a tortura, rindo da resistência de Luna.

— Onde está o seu brilho agora, Sultana? — perguntou o líder, erguendo um chicote de couro.

De repente, o teto da cabana pareceu explodir. Puma caiu do alto, caindo sobre o primeiro mercenário e cravando a faca de osso diretamente em seu crânio antes mesmo que o homem pudesse gritar.

Os outros dois desembainharam suas espadas, mas Puma era um borrão de movimento. Ele esquivou-se de um golpe lateral e, com um movimento giratório, o seu machado atingiu o peito do segundo agressor, partindo costelas e pulmões.

O líder dos mercenários, aterrorizado, tentou colocar a espada na garganta de Luna.

— Dê um passo e ela morre, selvagem!

Puma parou. Seus olhos estavam negros, as pupilas dilatadas pela adrenalina.

— Você cometeu um erro — disse Puma, a voz soando como o rosnado de um lobo. — Você tocou no que é meu.

Antes que o mercenário pudesse reagir, Puma lançou sua faca de osso com uma precisão sobrenatural. A lâmina atingiu o olho do homem, que caiu para trás, soltando a espada. Puma avançou e, com as próprias mãos, terminou o serviço, garantindo que o homem sofresse cada segundo antes de expirar.

Ele correu até Luna, quebrando as correntes com a força bruta do machado.

— Luna... meu amor... — Ele a segurou antes que ela caísse, envolvendo-a em seus braços fortes.

— Puma... — Luna soluçou, enterrando o rosto no peito dele, sentindo o cheiro de terra e sangue que a confortava. — Eles... eles disseram que o Marymard...

Puma a apertou mais forte, o rosto sombrio.

— Nós vamos voltar, Luna. E vamos terminar o que eles começaram.

***

O retorno ao palácio foi marcado pelo luto e pelo ódio. Luna, ferida e exausta, entrou no salão principal apoiada em Puma. Quando viu o corpo de Marymard coberto por um manto branco, ela caiu de joelhos. O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som dos soluços de Bloom e pelo olhar de Jim, que acabara de retornar da fronteira ao receber a notícia.

O Sultão Jim estava parado diante do corpo do filho, sua armadura ainda manchada pela poeira da estrada. Ele olhou para Luna, ferida e torturada, e depois para Bloom, que parecia uma deusa da vingança.

— Quem? — perguntou Jim, sua voz baixa, mas carregada com a promessa de um apocalipse.

— Mahidevran e Mustafa — respondeu Luna, levantando-se com a ajuda de Puma. — Eles me levaram, pai. Eles mataram o meu irmão. Eles queriam o seu trono.

Jim fechou os olhos por um momento, e quando os abriu, a bondade que Luna conhecia havia desaparecido. Restava apenas o Sultão Magnífico, o conquistador de terras.

— Puma — disse Jim, sem desviar o olhar do filho morto. — Leve a minha filha para ser tratada. E depois, prepare os seus homens.

— E quanto a Mustafa, meu senhor? — perguntou Puma.

Jim olhou para Bloom, que assentiu com um olhar de puro gelo.

— Mustafa não é mais meu sangue — declarou Jim. — Ele é apenas um traidor. E traidores não têm lugar sob o meu sol. Hurrem, minha rainha... o que você deseja?

Bloom caminhou até o marido, colocando a mão sobre o peito dele.

— Eu quero que o nome deles seja apagado da história — disse Bloom. — Eu quero que Mahidevran veja o fim de tudo o que ela ama, assim como eu vi o fim do meu Marymard.

Luna deu um passo à frente, apesar da dor.

— Sou Luna, Luna Sultana, e eu não perdoo — disse ela, sua voz ecoando com uma força implacável. — A caçada começou.

Naquela noite, o Palácio de Topkapi não era mais um lugar de luxo, mas uma fortaleza de guerra. O sangue de Marymard exigia justiça, e a aliança entre a Fênix, o Sultão e o Lobo Nativo estava prestes a desencadear uma tempestade que mudaria o Império Otomano para sempre. O veneno fora servido, mas seriam os conspiradores que beberiam a taça final.

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