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Sultan

O Beijo da Traição e o Pacto das Sombras

O sol do meio-dia castigava os pátios de mármore do Palácio de Topkapi, mas dentro dos aposentos privados do Sultão Jim, o ar era frio, quase gélido. Luna Sultana mantinha-se de pé, a postura impecável, enquanto observava o pai examinar alguns mapas de guerra. Ao lado dela, Puma permanecia como uma estátua de bronze, sua presença silenciosa sendo uma constante fonte de segurança.

— Meu pai, você precisa me ouvir — disse Luna, sua voz carregada de uma urgência que ela raramente demonstrava. — A Sultana Hatice não veio a Istambul apenas para uma visita familiar. Eu a vi, eu senti o veneno em suas palavras. Ela está conspirando com Mustafa. Eles buscam o momento de fraqueza na sua sucessão.

Jim levantou os olhos dos mapas. O Sultão Magnífico parecia exausto, as linhas ao redor de seus olhos azuis mais profundas do que no dia anterior. Ele soltou um suspiro pesado e fez um gesto impaciente com a mão, cortando a fala da filha.

— Luna, basta — disse Jim, o tom de voz final. — Hatice é minha irmã. Ela pode ser amarga, pode ter o coração endurecido pelos anos de isolamento na província e pode não ter amor por sua mãe, mas ela é do meu sangue. Hatice não é uma santa, eu sei disso melhor do que ninguém, mas ela jamais me trairia. Ela conhece o peso do nome Otomano.

— O sangue muitas vezes é o que mais cega, meu Sultão — interveio Puma, sua voz profunda ecoando pelo salão.

Jim lançou um olhar severo ao genro, mas não o repreendeu. Havia um respeito mútuo ali, mas a teimosia do Sultão era uma muralha intransponível.

— Luna, não insista — repetiu Jim. — Eu tenho uma campanha para liderar. A Igreja está fortalecendo suas defesas no Norte e eu partirei em dois dias. Preciso de paz dentro destas muralhas, não de caça às bruxas contra minha própria família.

Luna sentiu uma queimação de frustração na garganta. Ela olhou para o pai, querendo gritar que a lealdade dele era o que os destruiria, mas conhecia Jim. Quando ele decidia algo, nem mesmo Hurrem conseguia demovê-lo facilmente.

— Como desejar, meu pai — respondeu ela, fazendo uma reverência curta e rígida. — Que Alá proteja seus passos na guerra, pois temo que os perigos no campo de batalha sejam menores do que os que ficam para trás.

Ela virou-se e saiu, seguida por Puma. Assim que as portas se fecharam, Luna parou no corredor, os punhos cerrados.

— Ele não vê, Puma. Ele se recusa a ver a cobra que dorme aos seus pés — sibilou ela.

— Então nós seremos os olhos que ele fechou — respondeu Puma, colocando a mão no ombro dela. — Se a víbora está no jardim, nós a encontraremos antes que ela dê o bote.

Enquanto isso, em uma ala isolada do harém, Hatice Sultana não perdia tempo. Ela estava sentada em um divã de veludo, sussurrando com uma jovem serva de olhos baixos e mãos trêmulas.

— Você entende o que deve fazer, Elif? — perguntou Hatice, sua voz sendo um fio de seda venenosa. — Você entrará nos aposentos de Hurrem e do Sultão. Quero saber cada palavra dita sobre a sucessão. Quero saber se Jim deixou ordens seladas para Marymard antes de partir para a guerra. Se você falhar, o Bósforo será o seu túmulo. Se conseguir, terá ouro suficiente para comprar sua liberdade.

A espiã assentiu, aterrorizada, e desapareceu nas sombras dos corredores. Hatice sorriu, um gesto sem vida. Ela já havia se aliado a Mustafa e aos vizires descontentes. O plano estava em marcha: enquanto Jim lutava contra a Igreja, o palácio seria tomado por dentro.

Dois dias depois, o Sultão partiu. O som das trombetas e o bater dos cascos dos cavalos dos Janízaros preencheram o ar de Istambul. Bloom (Hurrem) observava da sacada, o coração apertado por uma premonição que não a deixava descansar.

Luna, porém, não estava chorando a partida do pai. Ela estava caçando.

Graças aos contatos de Puma com os guardas de elite e à sua própria rede de informantes leais entre as servas, Luna interceptou Elif saindo dos aposentos reais com um pequeno rolo de pergaminho escondido no corpete. A intercepção foi rápida e silenciosa. Em uma sala de interrogatório nos subsolos do palácio, Luna não precisou de tortura física. Sua presença, a adaga de prata brincando entre seus dedos e o olhar sombrio de Puma parado à porta foram suficientes.

— Diga-me quem a enviou e talvez você veja o sol amanhã — disse Luna, a voz fria como o aço.

— Foi a Sultana Hatice! — confessou a serva, caindo de joelhos e soluçando. — Ela queria as ordens de sucessão! Ela disse que Mustafa seria o novo Sultão assim que as notícias da frente de batalha chegassem... notícias que ela mesma planejava manipular!

Luna sentiu um calafrio. Era pior do que ela imaginava. Hatice não estava apenas espionando; ela estava preparando um golpe de Estado.

— Puma, leve-a para uma cela segura. Ninguém deve saber que a pegamos — ordenou Luna. — Eu tenho um convite a fazer.

Naquela tarde, Luna enviou um convite formal para que a Sultana Hatice se juntasse a ela para um chá nos jardins privados. Hatice, acreditando que Luna estava tentando uma reconciliação agora que o Sultão partira, aceitou com um ar de triunfo superior.

Quando Hatice chegou ao pavilhão de mármore, encontrou Luna sentada com uma elegância que exalava perigo. Puma estava de pé, logo atrás dela, com os braços cruzados sobre o peito largo.

— Que bom que veio, tia — disse Luna, vertendo o chá em xícaras de porcelana fina. — Estava pensando no que meu pai disse. Sobre como a família é o nosso bem mais precioso.

— Fico feliz que tenha recuperado o juízo, Luna — respondeu Hatice, sentando-se e pegando a xícara com desdém. — Com Jim longe, você precisará de proteção. Bloom é uma estrangeira, ela não entende as tradições. Eu posso guiá-la.

Luna deu um pequeno gole em seu chá e sorriu de uma forma que fez os pelos do braço de Hatice se arrepiarem.

— Ah, mas eu já tenho toda a orientação de que preciso. Inclusive, recebi uma "mensagem" de uma serva chamada Elif. Você a conhece?

Hatice congelou. A xícara de porcelana tremeu levemente em seus dedos.

— Não sei de quem você está falando.

— Estranho. Porque ela tinha muito a dizer sobre você, Mustafa e os planos para o trono — Luna inclinou-se para frente, a máscara de cortesia caindo por completo. — Eu tenho a confissão dela assinada. E tenho algo mais.

Luna puxou um pergaminho da manga.

— Esta é uma carta que acabei de escrever para o meu pai. Ela irá com o meu selo pessoal e com a prova da traição de Elif. Você conhece o Sultão Jim, tia. Ele é magnífico, mas ele não tem piedade de traidores, mesmo que sejam do seu próprio sangue. Quando ele ler isso, sua cabeça será colocada nos portões da cidade antes que o sol se ponha na frente de batalha.

Hatice empalideceu, a arrogância sumindo para dar lugar a um terror puro.

— Você... você não ousaria. Jim me ama!

— Meu pai ama o império acima de tudo — retrucou Luna. — Mas, como eu sou justa, e como você ainda carrega o nome do meu pai, eu lhe darei uma escolha. Você sairá deste palácio em uma hora. Levará apenas o que puder carregar em uma pequena carruagem. Você será escoltada até a fronteira mais distante e nunca, jamais, colocará os pés em solo otomano novamente. Se eu vir seu rosto ou ouvir seu nome em qualquer conspiração, a carta será enviada.

— Você está me exilando? — Hatice estava trêmula de fúria e medo.

— Estou poupando sua vida, algo que você não faria por mim ou por Marymard — Luna levantou-se, sinalizando que a conversa terminara. — Vá agora. Puma a escoltará até seus aposentos para que você arrume suas trouxas. E reze para que eu nunca mude de ideia.

Enquanto Hatice era levada, humilhada e derrotada, Puma teve que lidar com o último suspiro da resistência daquela ala. Ao sair do pavilhão, ele foi emboscado por Mustafa nos corredores externos. O irmão mestiço de Luna, cego de raiva ao saber que seus planos estavam ruindo, avançou contra Puma com uma cimitarra.

— Você destruiu tudo, seu cão selvagem! — gritou Mustafa.

A luta foi breve, mas intensa. Mustafa lutava com a técnica da guarda otomana, mas Puma lutava com a ferocidade da sobrevivência. Ele desarmou o príncipe com um movimento de alavanca que quase quebrou o pulso de Mustafa e o jogou contra a parede de pedra.

— Eu não sou um cão — rosnou Puma, a ponta de sua faca de osso encostada na garganta de Mustafa. — Sou o escudo da Sultana. Se você tentar algo contra ela novamente, eu não esperarei por ordens de exílio. Eu o caçarei como caçamos predadores na floresta.

Puma deixou Mustafa caído, ofegante e desmoralizado, e voltou para junto de Luna.

O dia fora longo e exaustivo. Quando a noite finalmente caiu sobre o palácio, o silêncio retornou, mas era um silêncio de vitória. Luna e Puma retiraram-se para seus aposentos. A tensão dos últimos dias, o medo da guerra e a adrenalina da conspiração desmascarada pesavam sobre eles.

Luna sentou-se na beira da cama, retirando sua tiara de safiras com mãos trêmulas. Puma aproximou-se, ajoelhando-se diante dela e pegando suas mãos.

— Acabou por hoje, Luna — disse ele suavemente. — Você salvou o seu irmão. Você salvou o seu pai.

Luna olhou para ele, e toda a armadura de "Sultana implacável" desmoronou por um momento. Ela se jogou nos braços dele, buscando o calor e a realidade daquele homem que se tornara seu mundo. O beijo que trocaram foi carregado de alívio, uma necessidade desesperada de sentir que estavam vivos, que eram mais do que apenas peças em um tabuleiro de poder.

Puma a levantou com facilidade, levando-a para o centro da cama. Ali, entre os lençóis de seda, a dinâmica de poder mudou. Luna era a Sultana, mas nos braços de Puma, ela se permitia ser conduzida. Ele a despiu com uma reverência quase religiosa, seus olhos escuros devorando cada curva de seu corpo.

— Você é a minha lua — sussurrou ele contra a pele do pescoço dela. — E eu sou o céu que a envolve.

O sexo que se seguiu foi uma celebração de sobrevivência. Puma não usou apenas a força bruta que o caracterizava nas batalhas; ele foi um explorador atento. Seus dedos e lábios percorreram o corpo de Luna, encontrando pontos de prazer que a faziam arquear as costas e perder o fôlego. Ele a conhecia agora, sabia onde tocar para fazê-la esquecer o peso da coroa.

Em um momento de êxtase, Luna sentiu como se estivesse flutuando, a sensação de leveza contrastando com a intensidade do homem sobre ela. Puma a elevava, não apenas fisicamente, mas emocionalmente, mostrando que ele sempre tentava aprender novas formas de adorá-la. Ele a marcou com beijos e pequenas mordidas, deixando rastros de sua posse em seus ombros e seios, uma tatuagem invisível de lealdade.

Quando o clímax os atingiu, Puma a segurou com força, enterrando-se profundamente nela e liberando sua semente, um pacto silencioso de que o futuro deles estava agora entrelaçado de forma irrevogável. Ele a marcou por dentro e por fora, reivindicando-a como sua, não por um contrato assinado por Bloom, mas por uma escolha feita na paixão.

Luna deitou-se no peito dele, ouvindo o bater compassado do coração de Puma.

— Hatice se foi — murmurou ela, o sono começando a vencê-la. — Mustafa está contido.

— E eu estou aqui — respondeu Puma, beijando o topo de sua cabeça. — E sempre estarei.

Naquela noite, a Sultana da Lua dormiu em paz, sabendo que, embora o mundo lá fora estivesse em guerra, dentro daquele quarto, ela encontrara a única verdade que importava: ela não estava mais sozinha na escuridão. O fogo de Hurrem continuava vivo nela, mas agora, ela tinha o escudo do lobo para garantir que aquela chama nunca se apagasse.

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