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Suyo

Quando o Gelo Quebra

A luz alaranjada dos postes cortava o para-brisa do carro velho em intervalos ritmados, projetando sombras longas no interior silencioso. Tatsuyo mantinha as duas mãos firmes ao redor do volante, sentindo a vibração do motor cansado subir pelos pulsos. Ao seu lado, no banco do passageiro, Nico olhava fixamente para a tela do celular, o polegar deslizando freneticamente por mensagens que ela não tentou ler.

Eles dividiam uma casa vazia demais desde que os pais se foram. Sem heranças pomposas ou garantias, a responsabilidade de manter as contas pagas e a comida na mesa caíra pesada sobre os ombros de Tatsuyo, de dezoito anos. Nico, com seus dezesseis, parecia fugir daquele peso em cada esquina. O refúgio dele era a pista de hóquei da escola, onde corria até a exaustão, tentando moldar-se à imagem dos garotos mais velhos. Especialmente de Kuro, o atacante brilhante que dominava o gelo com uma frieza cirúrgica e cuja reputação brilhava entre todos os novatos. Nico idolatrava Kuro, copiava suas jogadas e desejava, mais do que qualquer coisa, ser aceito naquele círculo.

E ser aceito, para Nico, significava afastar qualquer detalhe que o fizesse parecer fraco ou deslocado. Inclusive Tatsuyo.

— Você não precisava ficar me olhando assim — murmurou Nico, sem erguer os olhos da tela. A voz soava defensiva, quase áspera. — Eu só pedi uma carona. Você sabe que eu não posso dirigir ainda.

— Eu não disse nada, Nico — respondeu ela, com a voz mansa. Tatsuyo tinha cabelos pretos, longos e ondulados que batiam em sua cintura, contrastando com a pele parda. Seus olhos escuros pareciam sempre carregar uma névoa de cansaço. Na escola, seu jeito quieto e retraído a tornava um alvo fácil. Os corredores eram cruéis, as risadas zombeteiras eram diárias, e Nico, temendo ser manchado pelo estigma da irmã "esquisita", aprendera a fingir que mal a conhecia quando outros alunos estavam por perto.

— Mas pensou — rebateu ele, guardando o aparelho no bolso quando o carro dobrou a esquina da rua de Hidan. A música alta já fazia vibrar as janelas das casas vizinhas. — Olha, você... você não precisa ir embora direto. Fica por perto. Vai que a festa fica chata e eu queira sair mais cedo.

Tatsuyo franziu o cenho, surpresa com o pedido. O plano inicial era apenas deixá-lo e voltar para buscá-lo de madrugada.

— Tem certeza? Achei que você não quisesse que ninguém visse a gente junto.

Nico desviou o olhar, o maxilar tenso sob a pele morena clara.

— Deixa de drama. Só fica por aí, sei lá. Entra um pouco, bebe uma água. Tanto faz.

O carro estacionou a uma quadra da residência barulhenta de Hidan, um dos veteranos mais populares e arrogantes do terceiro ano. Ao descerem, o vento frio da noite atingiu Tatsuyo, fazendo-a cruzar os braços sobre o peito. Eles entraram pela porta entreaberta, onde o calor dos corpos, o cheiro forte de álcool barato e a fumaça doce de cigarros eletrônicos criavam uma névoa sufocante.

Logo na entrada, Nico soltou-se dela como se Tatsuyo queimasse. Um grupo de rapazes do time de hóquei acenou da cozinha, e o garoto de dezesseis anos correu até eles, assumindo uma postura relaxada que ele claramente forçava. Tatsuyo permaneceu perto do corredor de entrada, encolhida, sentindo-se invisível e, ao mesmo tempo, desconfortavelmente exposta.

Foi então que ela o viu.

Do outro lado da sala, encostado na parede perto da escada, estava Kuro. Ele tinha os cabelos brancos, curtos e repicados, que se destacavam sob as luzes vermelhas que piscavam no teto. Com um metro e oitenta de altura e ombros largos forjados nos treinos pesados de hóquei, ele exalava uma presença magnética sem precisar fazer esforço algum. Seus olhos castanhos escuros varriam o ambiente com indiferença, até que pousaram nela.

Por um breve segundo, o olhar de Kuro suavizou-se de uma maneira imperceptível para qualquer outra pessoa. Ele a encarou como se enxergasse exatamente através daquela barreira invisível que Tatsuyo erguia ao redor de si. Ela sentiu o coração acelerar, mas logo desviou a atenção para os próprios sapatos, tomada pela vergonha. Kuro era inacessível. O atacante estrela, o atleta invejado, alguém que jamais olharia para uma garota desajeitada e marginalizada como ela. Tatsuyo guardava aquele sentimento em segredo absoluto, enterrado sob camadas de insegurança.

Enquanto isso, perto do balcão de bebidas, Hidan se aproximou de Nico. Hidan tinha um sorriso enviesado e um copo vermelho na mão.

— E aí, pirralho — disse Hidan, dando um tapinha pesado nas costas do garoto. — Vi que sua irmã esquisita veio junto.

Nico deu uma risadinha nervosa, engolindo em seco para parecer imperturbável.

— Ela só veio me trazer. Já deve estar querendo ir embora.

— Nada disso — Hidan inclinou-se, baixando o tom com uma cumplicidade maliciosa. — A gente podia pregar uma peça nela, não acha? Só uma zoadeira de leve, para ela aprender a se soltar um pouco. O que custa?

— Uma brincadeira? — Nico hesitou, os olhos vagando rapidamente até onde Tatsuyo estava. Ele queria parecer desapegado, o tipo de cara durão que não se importava com a irmã mais velha, o tipo de parceiro que os caras do time respeitariam. — Que tipo de brincadeira?

— Nada demais, pô. Manda uma mensagem para ela subir no meu quarto, diz que você esqueceu algo lá ou que tá passando mal. Ela sobe, a gente assusta ela, dá um banho de cerveja ou tranca ela no closet uns dez minutos. Coisa de festa. Não vai bancar o irmãozinho protetor agora, vai?

A provocação bateu direto no ego frágil de Nico. Ele não queria ser o garoto infantil do time. Não queria que Hidan o chamasse de covarde.

— Claro que não — Nico deu de ombros, fingindo tédio. — Por mim, tudo bem. Faz o que você quiser, ela nem liga.

Com os dedos trêmulos, sem medir a gravidade do que estava fazendo, Nico tirou o celular do bolso e digitou: *Tatsuyo, sobe aqui no quarto do Hidan, no fim do corredor. Acho que passei mal, vem logo.*

Do outro lado da sala, Tatsuyo sentiu a vibração no bolso do casaco. Ao ler a mensagem, o pânico familiar de responsabilidade tomou conta de seu peito. Esqueceu Kuro, esqueceu o desconforto, esqueceu as risadas dos outros. Pensou apenas no irmão mais novo.

Apressada, subiu a escada de madeira que levava ao segundo andar. O barulho da música abafou ligeiramente, substituído por um corredor mal iluminado e portas fechadas. Ela caminhou até o final, onde uma fresta de luz denunciava o quarto de Hidan.

— Nico? — chamou ela, empurrando a porta de madeira maciça.

O quarto estava em penumbra. Antes que pudesse processar que Nico não estava ali, um braço forte a puxou pelo pulso para dentro. A porta bateu com força atrás de si.

O trinco não chegou a ser virado, mas o corpo pesado de Hidan bloqueou a saída imediatamente. O cheiro de álcool puro que emanava dele era avassalador.

— O que você... Cadê o Nico? — A voz de Tatsuyo falhou, o ar sumindo de seus pulmões.

— O Nico tá lá embaixo, docinho — Hidan sorriu, um brilho perverso e predatório nos olhos. — Ele me emprestou a irmãzinha dele.

O terror gelou a espinha de Tatsuyo. Ela tentou dar um passo para o lado, alcançar a maçaneta, mas Hidan avançou. Ele segurou o rosto dela com uma violência bruta, os dedos afundando em suas bochechas enquanto prensava a boca dele contra a dela à força. Tatsuyo mordeu, debateu-se, bateu as mãos contra o peito dele, mas a disparidade física era esmagadora.

— Quieta! — rosnou ele, empurrando-a com força contra a cama.

O mundo girou em uma espiral de choque e desespero. Tatsuyo tentou gritar, mas a música alta do andar de baixo engolia qualquer som de socorro. Embaixo, ninguém ouvia. Nico, distraído tentando parecer interessante para outros rapazes na cozinha, não fazia ideia da monstruosidade que havia facilitado com uma simples mensagem. Para ele, era apenas uma zoação imatura; para Hidan, era uma oportunidade cruel e deliberada.

O ataque foi implacável, destituído de qualquer resquício de humanidade. As lágrimas de Tatsuyo mancharam os lençóis enquanto ela tentava lutar até o último músculo perder as forças. A dor física e a humilhação rasgaram sua alma em pedaços. Quando tudo finalmente terminou, o silêncio que se instalou no quarto era sufocante.

Hidan ajeitou as próprias roupas sem sequer olhar para ela. Deixou-a largada sobre o colchão desarrumado, a parte inferior do corpo exposta, ensanguentada e marcada por hematomas brutais. Ele abriu a porta com indiferença e saiu, descendo as escadas para se misturar novamente aos risos embriagados da festa, como se nada tivesse acontecido.

Tatsuyo ficou imóvel, encarando o teto com os olhos vazios. Não conseguia respirar direito. Cada centímetro do seu corpo parecia quebrado, violado. O sangue escorria lentamente, manchando sua pele e o tecido do edredom. As lágrimas secavam em seu rosto, presas na garganta em soluços mudos.

Alguns minutos se arrastaram como séculos.

A porta, que ficara entreaberta, rangeu. Uma silhueta alta bloqueou a luz do corredor.

Era Kuro.

Ele havia subido para usar o banheiro ou talvez procurar um refúgio da futilidade lá embaixo, mas o rastro de desordem chamara sua atenção. Ao olhar para dentro do quarto, seus olhos castanhos se arregalaram. A frieza habitual de Kuro se desfez instantaneamente em uma máscara de horror puro e devastador.

— Tatsuyo... — O nome saiu em um sussurro estrangulado.

Ele entrou em dois passos largos, caindo de joelhos ao lado da cama. Ver aquela garota — a mesma garota quieta que ele observava de longe nos treinos, a garota por quem ele alimentava um amor silencioso e protetor que nunca tivera coragem de confessar — naquele estado despedaçou o peito de Kuro de uma forma que nenhum choque no gelo jamais conseguiria.

Tatsuyo encolheu-se instintivamente, um gemido de pavor escapando de seus lábios partidos, tentando se cobrir com os próprios braços magros.

— Não... por favor... não me toca... — implorou ela, trêmula, a voz rouca e sem fôlego.

— Sou eu. Sou eu, Tatsuyo — disse Kuro, com a voz embargada, mantendo as mãos abertas no ar para não assustá-la ainda mais. — É o Kuro. Ele já foi. Ninguém vai te encostar de novo. Eu juro por Deus que ninguém vai.

Ao reconhecer o rosto dele e o tom desesperado de quem realmente se importava, Tatsuyo desabou. Um choro convulsivo tomou conta de seu corpo, e ela não conseguiu mais se mover.

Kuro agiu com uma delicadeza que contrastava brutalmente com sua força física. Ele olhou em volta, pegou uma calça de moletom limpa que estava dobrada sobre uma cadeira e, com movimentos extremamente cuidadosos e respeitosos, cobriu a parte inferior dela. Em seguida, ele tirou sua própria jaqueta pesada — a jaqueta esportiva com o emblema do time — e a envolveu com cuidado sobre os ombros miúdos de Tatsuyo, fechando o zíper até o queixo para esconder a pele machucada e aquecer o corpo que tremia violentamente de frio e choque.

— Vou te tirar daqui agora — murmurou Kuro, os olhos queimando com uma fúria assassina que ele tentava sufocar para não a apavorar. — Consegue se apoiar em mim?

Ela mal conseguiu assentir. Kuro passou um braço forte por trás de suas costas e o outro sob seus joelhos, erguendo-a com extrema cautela, como se ela fosse feita do cristal mais frágil do mundo. Ele a puxou de encontro ao seu peito largo. O cheiro dele — sabonete neutro e a brisa fria da noite — foi a única coisa que impediu Tatsuyo de desmaiar naquele instante. Mesmo dilacerada, uma fagulha de dor no coração a lembrou de sua própria insignificância: *Por que alguém como ele está fazendo isso por mim?*

Kuro não usou a escada principal. Ele conhecia a planta da casa e desceu pela escada de serviço dos fundos, saindo diretamente para o quintal lateral escuro. Evitou a multidão, evitou os olhares curiosos, evitou qualquer um que pudesse transformá-la em espetáculo.

O ar gelado da rua atingiu os dois quando Kuro cruzou a calçada com passos firmes e rápidos até seu próprio carro, um utilitário preto estacionado sob a sombra de um salgueiro. Ele destravou a porta do passageiro, ajeitou o banco para trás e depositou Tatsuyo ali com infinita paciência.

— Respira, Tatsuyo. Você tá segura aqui dentro — ele disse em voz baixa, puxando o cinto de segurança sobre ela suavemente e ligando o aquecedor do veículo.

Tatsuyo encolheu as pernas contra o peito, a cabeça encostada no vidro, a respiração entrecortada. A jaqueta dele a envolvia inteira, grande demais para ela, mas oferecendo a única sensação de refúgio que tivera em horas.

Kuro deu a volta, entrou no banco do motorista e bateu a porta. O silêncio do carro foi quebrado apenas pelo sopro morno do ar-condicionado. As mãos de Kuro apertaram o volante com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram brancos. O maxilar dele estava travado, veias pulsando na têmpora enquanto ele tentava controlar a tempestade que rugia dentro de si. Ele olhou para Tatsuyo pelo canto do olho; ela mantinha o olhar fixo no vazio, lágrimas silenciosas escorrendo e se perdendo na gola de sua jaqueta.

Aquele amor que ele guardara em segredo por meses agora sangrava na forma de um desespero avassalador. Ele queria matar Hidan com as próprias mãos. Mas precisava cuidar dela primeiro.

E havia outro nome que precisava de respostas.

Kuro enfiou a mão no bolso da calça e puxou o próprio celular. Encontrou o contato de Nico na lista do time de hóquei. Seus dedos discaram o número com rispidez.

Chamou uma, duas, três vezes. Quando Nico finalmente atendeu, a música de fundo e as risadas ecoaram pela linha.

— Kuro? Cara, e aí! Você tá na fe...

— Sai dessa porra de casa agora — a voz de Kuro saiu baixa, cortante e terrivelmente sombria. Não era o capitão do time falando; era alguém à beira de perder o controle.

— Quê? Como assim? O que ro...

— Cala a boca e vem pro meu carro. Rua de trás, embaixo da árvore. Agora, Nico. Se você demorar um minuto sequer, eu vou entrar aí e arrancar você pelo pescoço.

Sem esperar por uma resposta, Kuro encerrou a ligação bruscamente.

Ele desligou a tela do aparelho com um clique seco e atirou o celular sobre o painel do carro. O visor escureceu, refletindo apenas as sombras da noite fria.

Ao seu lado, Tatsuyo tremia em silêncio sob o tecido grosso de sua jaqueta. Kuro apoiou os cotovelos no volante, os olhos fixos na esquina escura por onde Nico teria que passar, esperando.

A rua permanecia vazia. Nico ainda não havia chegado.

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