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Suyo

Estilhaços no Silêncio

O ar quente expelido pelas saídas do painel soprava em vão contra a pele de Tatsuyo. Nenhum calor parecia capaz de alcançar o abismo de gelo que havia se instalado em seu peito.

Encolhida sobre o banco de couro do passageiro, ela mantinha os joelhos colados contra o peito, abraçando as próprias pernas com uma força tão desesperada que a ponta dos dedos já perdia a cor. O queixo estava cravado entre as rótulas, os olhos negros arregalados e fixos no para-brisa escuro, refletindo apenas as sombras trêmulas da rua deserta. As lágrimas não vinham em soluços ruidosos; rolavam contínuas, pesadas e ardentes por suas bochechas pálidas, manchando a gola volumosa da jaqueta de hóquei que Kuro colocara sobre ela.

Cada batimento cardíaco enviava uma onda lancinante de dor para a parte inferior do seu corpo. Não era apenas o latejar das marcas roxas deixadas nos pulsos ou a pressão sufocante que ainda parecia pesar sobre sua traqueia. Era uma dor crua, cortante, que vinha de dentro. Na parte interna, no fundo da vagina, a sensação era de uma laceração viva, um ardor que queimava como ácido a cada respiração superficial. Qualquer contração involuntária dos músculos pélvicos, castigados pelo choque e pela violência bruta, arrancava-lhe espasmos de agonia silenciosa. Sentia-se dilacerada por dentro, manchada por um sangue que parecia queimar sua carne como fogo.

No banco do motorista, Kuro mantinha os punhos cerrados sobre as pernas, a respiração entrecortada pela fúria mais atroz que já havia experimentado na vida. Com seu metro e oitenta de músculo forjado nas pistas de gelo, ele parecia grande demais para o espaço do carro, uma tempestade contida por um fio invisível. Os nós de seus dedos estavam brancos. Os olhos castanhos escuros, normalmente firmes e inescrutáveis sob a franja branca repicada, agora queimavam em uma mistura torturante de pavor e ódio assassino.

Ele virou o rosto para observá-la. Ver Tatsuyo — aquela garota tímida, de cabelos ondulados e olhar sereno, por quem ele secretamente nutria um sentimento tão profundo quanto silencioso — naquele estado de ruína absoluta arrancava o ar de seus pulmões.

— Tatsuyo... — chamou ele, a voz quebrando em um tom tão suave quanto conseguia produzir, estendendo a mão grande com cautela em direção ao ombro dela.

No instante em que a ponta dos dedos de Kuro roçou de leve o tecido da jaqueta, Tatsuyo estremeceu de forma violenta, como se tivesse levado uma descarga elétrica. Ela se retraiu com tamanha força contra a porta do passageiro que sua cabeça bateu levemente no vidro, os dentes batendo em um ritmo incontrolável.

— Não... não... a chave... tava trancada... — a voz de Tatsuyo saiu áspera, num fio de ar desprovido de lógica, os olhos pretos completamente desorientados, sem fitar nada além da escuridão lá fora. — O teto... tava girando... para, Nico, o chão tá molhado... dói... por dentro... tá queimando...

— Sou eu, Tatsuyo. Não vou encostar em você, tá bom? Eu tirei a mão — disse Kuro, recolhendo os braços imediatamente e abrindo as palmas no ar, engolindo em seco a dor de vê-la reagir a ele como se fosse um carrasco. — Ninguém vai encostar em você. Respira... por favor, só tenta respirar.

Ela não parecia registrar as palavras. O corpo miúdo continuava tremendo em convulsões sutis, o suor frio misturando-se às lágrimas na linha de sua mandíbula parda. Seus lábios rachados moviam-se em sussurros inaudíveis, repetindo fragmentos desconexos do pesadelo que ainda se desenrolava por trás de suas pálpebras abertas. A dor interna pontuava cada frase, fazendo-a arquear as costas de leve e soltar um gemido agudo e sufocado, cravando as unhas nas próprias coxas cobertas pela calça de moletom que Kuro havia lhe arranjado.

Foi nesse momento que passos rápidos e hesitantes ecoaram no cascalho da calçada.

Pelo retrovisor lateral, a figura de Nico surgiu sob a luz fraca de um poste distante. O garoto de dezesseis anos caminhava com as mãos enfiadas nos bolsos da calça jeans, o passo vacilante de quem bebera além da conta, mas com a postura curiosa e ligeiramente defensiva. Tinha o cabelo preto curto revolto pelo vento noturno e os traços herdados dos mesmos pais que Tatsuyo, a pele morena clara destacada pelo casaco escuro.

Kuro não hesitou. Ele destravou a porta e saltou para fora do carro, o impacto de seus coturnos no asfalto soando como um tiro no silêncio da madrugada.

Ao ver o atacante estrela do time se aproximar com os ombros erguidos e a expressão obscurecida por uma ira primitiva, Nico congelou. O garoto deu meio passo para trás, o sorriso forçado morrendo em seus lábios.

— Kuro? Cara, que porra foi aquela ligação? Você me assustou, eu achei que...

Antes que pudesse terminar a frase, a mão de Kuro disparou para a frente, agarrando a gola da jaqueta de Nico com a força implacável de quem colidia contra as paredes de proteção de uma arena. O movimento foi tão rápido e violento que os pés de Nico quase saíram do chão quando ele foi empurrado contra a lataria do carro.

— Cala a porra da boca — sibilou Kuro, o rosto a centímetros do de Nico. A respiração do mais velho vinha quente e pesada, carregada de uma promessa explícita de destruição. — Não levanta a voz. Não aqui.

— O que você tá fazendo?! — gaguejou Nico, os olhos pretos arregalados de medo real, tentando puxar os pulsos do capitão para longe de seu pescoço. — Ficou maluco? Me solta!

— O que foi que você fez, Nico? — A voz de Kuro era um trovão contido, baixa e cortante como vidro quebrado. — O que caralhos você mandou ela fazer lá em cima?

— Ela quem? A Tatsuyo? — O garoto engoliu em seco, o pânico infantil começando a rachar a máscara de adolescente durão. — Eu só... a gente só tava brincando! O Hidan disse que ia pregar uma peça nela, jogar cerveja ou trancar no armário, sei lá! Só pra ela parar de ser tão estranha, pra ela se soltar! Eu só mandei a mensagem dizendo que tava passando mal no quarto dele...

O ar pareceu evaporar da rua.

A mandíbula de Kuro travou com tanta intensidade que um estalo ecoou no silêncio. Por um segundo, a mão livre do rapaz de cabelos brancos se fechou em um punho fechado, pronto para quebrar a face do garoto contra o teto do carro. Ele queria esmagar Nico. Queria fazê-lo engolir cada palavra daquela futilidade covarde. Mas, em vez disso, Kuro o empurrou bruscamente contra a lateral do veículo, girando-o para a janela aberta do lado do passageiro.

— Olha pra ela — rosnou Kuro, a voz falhando em um tremor de pura agonia. — Olha pro que a sua brincadeira fez com a sua irmã, seu desgraçado.

Nico cambaleou, recuperando o equilíbrio com o peito subindo e descendo freneticamente. Irritado e assustado, ele olhou para o interior do carro através da janela aberta, disposto a confrontar o exagero do veterano.

As palavras, no entanto, morreram presas em sua garganta.

Lá dentro, sob a penumbra da cabine e a luz morta do painel, estava Tatsuyo.

O horror da cena não precisava de explicações literais. A jaqueta de Kuro, que era pelo menos três números maior do que ela, a engolia, mas não escondia os hematomas profundos que já escureciam a lateral do pescoço pardo, as marcas arroxeadas de dedos impressas em sua pele. Havia um corte fino e ensanguentado no canto do lábio inferior dela. Seus cabelos longos, antes tão cuidados, estavam emaranhados, colados à testa por suor e lágrimas secas.

Ela estava dobrada em duas, com as pernas tão apertadas contra o peito que parecia tentar diminuir até sumir. E chorava. Um choro mudo, constante, com os olhos fixos na escuridão à frente, o peito sacudindo em tremores contínuos.

— Tatsuyo...? — balbuciou Nico, o tom de voz mudando drasticamente, caindo em um registro agudo, de uma criança perdida. O sangue fugiu de seu rosto, deixando-o cinzento sob a luz amarelada da rua.

Ele estendeu a mão em direção à abertura do vidro, dando um passo involuntário à frente.

— Tats... o que... o que aconteceu com você?

O som daquela voz, tão familiar e que antes representava o lar, pareceu despedaçar o último resquício de sanidade que mantinha Tatsuyo imóvel.

Ela virou o rosto na direção dele com um sobressalto desesperador. Seus olhos negros dilatados encontraram a silhueta de Nico e, instantaneamente, uma onda de pânico cru a consumiu. Tatsuyo começou a tremer de forma descontrolada, as mãos agarrando os próprios cabelos, as costas colidindo contra o console central enquanto tentava fugir para o banco do motorista, longe daquela voz.

— Não... você não... o corredor... a porta bateu... — os murmúrios de Tatsuyo tornaram-se mais rápidos, frenéticos, atropelando-se em uma cadência quebrada e doentia. — Você disse pra subir... tava escuro, Nico... o peso... ele não saía de cima... não... por favor, não empurra... tá doendo muito... tá doendo aqui dentro...

— Tatsuyo, sou eu! — Nico deu mais um passo, tocando o metal da porta com desespero crescente, as lágrimas inundando seus próprios olhos. — Sou eu, o Nico! O que fizeram com você?!

— AFASTA! — gritou Kuro, empurrando o ombro de Nico com o antebraço, afastando o garoto de dezesseis anos para trás com força. — Não chega perto dela! Você não tá vendo o que tá fazendo com ela, porra?!

Tatsuyo soltou um lamento sufocado, escorregando de volta para o canto do passageiro. Ela curvou o corpo sobre as pernas, enfiando a cabeça entre os joelhos, enquanto uma mão descia instintivamente até a parte frontal do moletom, apertando o tecido contra a virilha com uma expressão de tormento puro. A dor interna era lancinante. Parecia que agulhas incandescentes haviam sido cravadas nas paredes de sua carne mais íntima; cada pequeno movimento de fuga que tentava fazer fazia o ardor disparar pelo abdômen, arrancando-lhe um arfar doloroso que quase a fez engasgar no próprio choro.

— O sangue... — balbuciou ela, encolhendo-se mais, a voz abafada contra os joelhos trêmulos. — Não para de queimar... mãe... tá rasgando... apaga a luz... por favor, apaga a luz...

Nico caiu de joelhos na calçada fria, as palmas das mãos arranhando o asfalto áspero. A ficha caíra com o peso de uma laje de concreto esmagando seu crânio.

*Ele me emprestou a irmãzinha dele.*

As palavras que Hidan dissera, o sorriso torto, a cerveja, o pedido casual para subir no quarto... Nico recordou tudo em uma fração de segundo. Ele havia vendido a própria irmã para ser aceito. Havia mandado a única pessoa que cuidava dele, que trabalhava para pagar as contas, que dirigira no meio da noite para lhe dar uma carona, diretamente para a jaula de um predador. Por causa de uma risada boba. Por causa de um tapinha nas costas de veteranos do time.

Um soluço dilacerado rompeu a garganta de Nico. Ele cobriu a boca com as duas mãos, olhando para a garota dentro do carro através da névoa de suas próprias lágrimas.

— Meu Deus... não... não, não, não... — Nico balançava a cabeça, as palavras saindo trôpegas e quebradas. — O Hidan... ele... ele não faria isso... ele disse que era só uma brincadeira... Tatsuyo... me perdoa... Tats, olha pra mim...

— Cale a boca — a voz de Kuro não passava de um sussurro agora, mas era mais ameaçadora do que qualquer grito. Ele estava de pé sobre Nico, os punhos ainda cerrados, o olhar fixo na miséria do garoto mais jovem. — Se você der mais um pio perto dela, eu juro que quebro a sua mandíbula aqui mesmo.

Kuro deu a volta no carro com passos medidos, tentando ao máximo não fazer movimentos bruscos. Ele abriu a porta do motorista devagar, mantendo a luz interna desligada para não agredir os sentidos destruídos de Tatsuyo. Quando se sentou no banco, ela estremeceu novamente, mas o cheiro familiar da jaqueta dele e a ausência de toque físico pareceram evitar outro surto imediato.

Ela continuava ali, pequena, quebrada, os olhos pretos vazios de qualquer esperança, murmurando frases que ninguém conseguia decifrar enquanto as lágrimas lavavam o sangue seco de seu queixo. A dor dentro dela era constante, uma presença física brutal que não a deixava esquecer por um único segundo o que havia sido arrancado dela naquele quarto escuro.

Kuro ligou o motor. O ronco suave do carro preencheu a cabine silenciosa. Ele colocou a mão sobre a alavanca de câmbio, mas seus olhos castanhos cravaram-se no retrovisor, onde Nico permanecia ajoelhado na calçada, chorando histericamente, com a cabeça quase encostada no chão em uma postura de súplica inútil.

— Entra no banco de trás — ordenou Kuro friamente, sem olhar para trás. — Agora.

Nico levantou-se com as pernas bambas, tropeçando nos próprios pés. Ele abriu a porta traseira com as mãos suadas e trêmulas e deslizou para dentro, encolhendo-se no canto oposto ao de Tatsuyo, com medo até mesmo de respirar o mesmo ar que ela. Seus olhos estavam vermelhos, inchados, e ele não ousava levantar o rosto, encarando o carpete escuro enquanto as lágrimas pingavam em suas calças.

Kuro engatou a marcha e acelerou, tirando o carro daquela rua maldita.

Enquanto os postes passavam em um ritmo cadenciado pelo vidro do passageiro, Tatsuyo soltou outro gemido rouco, as unhas cravadas no moletom cinza, a dor interna pulsando a cada solavanco suave da suspensão.

— Tá doendo... — ela sussurrou para o vazio da noite, a voz quebrando no silêncio da cabine. — ...por que tá doendo tanto?

Kuro apertou o volante com tanta força que o couro rangeu sob seus dedos, engolindo a bile amarga que subia por sua garganta. Ele não respondeu, pois qualquer palavra seria insuficiente. Ele apenas acelerou na direção do hospital mais próximo, enquanto a sombra daquela noite selava o destino de todos eles para sempre.

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