Suyo
Cicatrizes na Alvorada
O cheiro penetrante de desinfetante hospitalar e o zumbido monótono das lâmpadas fluorescentes pareciam drenar qualquer resquício de calor do corredor da ala de recuperação. Duas horas e quarenta minutos haviam se arrastado como um pesadelo sem fim desde que as portas duplas de metal se fecharam, engolindo a maca onde Tatsuyo jazia ensanguentada e desfalecida.
Kuro não havia se sentado um único segundo após lavar o sangue seco das próprias mãos. Ele permanecia encostado na parede de azulejos brancos, os braços musculosos cruzados sobre o peito arfante, os olhos castanhos cravados na maçaneta de acesso restrito. A camiseta preta que vestia estava amarrotada e levemente úmida da chuva; seu cabelo branco, curto e repicado, caía em mechas desordenadas sobre a testa tensa. Sob a casca rígida de atleta implacável, o peito de Kuro ardia com uma fúria destrutiva que ele mal conseguia conter. Cada minuto de espera alimentava o desejo primal de caçar Hidan e quebrar cada osso daquele desgraçado.
No chão, a poucos passos dali, Nico continuava encolhido. O garoto de dezesseis anos mantinha os joelhos colados ao peito e as mãos enterradas nos cabelos pretos curtos, soluçando em silêncio. A pele morena clara estava lívida, manchada por lágrimas secas. O remorso o sufocava como um nó corrediço. A cada respiração, a lembrança da própria mensagem no celular — a futilidade daquela "brincadeira" combinada com veteranos para ser aceito no grupo — cravava-se em sua consciência como um estilhaço de vidro podre.
O clique pesado da fechadura magnética cortou a tensão.
Uma médica de meia-idade, com olheiras profundas e uma prancheta de metal presa sob o braço, surgiu no corredor, puxando a máscara cirúrgica para baixo. Kuro desencostou da parede imediatamente, o corpo de um metro e oitenta avançando com urgência contida. Nico ergueu o rosto inchado e cambaleou para ficar de pé.
— Familiares de Tatsuyo? — perguntou ela, o olhar experiente avaliando o estado deplorável dos dois rapazes.
— Eu sou o irmão dela — balbuciou Nico, a voz rouca e esganiçada. — E ele... ele é um amigo. Como ela tá? Pelo amor de Deus, doutora...
A médica suspirou, o semblante carregado de uma gravidade serena.
— A cirurgia terminou bem. Nós conseguimos conter a hemorragia ativa e realizamos a sutura das lacerações internas na parede vaginal e no colo do útero. A violência física causou traumas profundos na mucosa, o que gerou a perda considerável de sangue, mas não houve perfuração de órgãos vitais. Administramos profilaxia contra infecções e analgésicos intravenosos potentes para controlar a dor.
Kuro soltou o ar que parecia preso em seus pulmões desde a rua de trás daquela festa maldita. Ele fechou os olhos por uma fração de segundo, os punhos cerrados ao lado do corpo até tremerem.
— Ela tá acordada? — perguntou Kuro, a voz profunda e áspera. — Ela tá sentindo dor?
— Ela acordou da sedação há cerca de vinte minutos — respondeu a médica, direcionando a atenção para ele. — O efeito dos anestésicos gerais passou. Ela está totalmente lúcida, consciente e orientada. A dor aguda foi suprimida pelos medicamentos, mas o desconforto e o peso da recuperação física serão longos. A equipe psicológica do hospital já foi notificada para o protocolo de violência sexual, e a polícia foi informada como exige a lei. Vocês podem vê-la por alguns minutos, um de cada vez ou os dois juntos, mas peço prudência. O choque emocional é imenso.
— Obrigado — murmurou Kuro, a mandíbula ainda rígida.
A médica assentiu e abriu caminho, indicando o quarto 104 logo no início do corredor reservado.
Nico deu um passo à frente, mas suas pernas fraquejaram; ele quase desabou contra a parede, tomado por uma covardia avassaladora. Ele encarou a porta entreaberta com os olhos pretos transbordando pavor.
— Eu não consigo... — sussurrou o garoto, a respiração presa na garganta. — Kuro... o que eu vou falar pra ela? Como eu vou olhar pra cara dela depois do que eu fiz?
Kuro virou-se devagar, seus olhos castanhos faiscando com um desprezo cortante.
— Você vai entrar lá porque ela merece ver o covarde que você foi — sibilou Kuro, puxando o garoto pela gola e empurrando-o de leve em direção à entrada. — Você vai encarar as consequências da sua imbecilidade. Anda.
O quarto estava em meia-luz, iluminado apenas pelo brilho fraco do monitor cardíaco e pela lâmpada amarelada instalada sobre a cabeceira. O ar ali dentro cheirava a soro fisiológico e gaze esterilizada.
Sobre a cama hospitalar elevada, Tatsuyo repousava sob um lençol branco imaculado.
Ela vestia a camisola cirúrgica padrão de algodão azul-claro. Seus cabelos pretos, longos e ondulados até a cintura, estavam espalhados sobre o travesseiro, contrastando com a pele parda que recuperara minimamente a cor, embora ainda guardasse a palidez do choque. Havia um acesso venoso no dorso de sua mão esquerda e hematomas arroxeados muito visíveis na curva do pescoço e ao redor de seus pulsos miúdos — marcas cruéis da força de Hidan.
No entanto, o delírio havia desaparecido.
Tatsuyo não abraçava mais os joelhos em espasmos de pavor. Ela estava deitada de costas, as pernas estendidas e imóveis sob a proteção do cobertor, o olhar negro focado na fresta da janela que começava a revelar os primeiros tons acinzentados da alvorada lá fora. Não havia loucura ou confusão em suas feições; havia uma lucidez gélida, cortante, a clareza devastadora de quem havia descido ao inferno e retornado com a alma em pedaços.
Ao ouvir o rangido da porta, ela virou lentamente a cabeça.
Ao ver Kuro cruzar o limiar, o peito de Tatsuyo subiu em uma respiração funda. Uma fração minúscula daquela tensão em seu rosto pareceu ceder. Quando os olhos dela deslizaram para trás dele e encontraram Nico, porém, seus lábios se fecharam em uma linha rígida e sem vida.
Kuro aproximou-se da lateral da cama com passos cautelosos. Ele parou a uma distância respeitosa, mantendo as mãos visíveis e o tom de voz mais brando do que qualquer um já ouvira sair de sua boca.
— Oi — disse ele baixinho, os olhos escuros percorrendo cada detalhe do rosto dela, buscando assegurar-se de que ela ainda estava inteira. — A médica disse que a cirurgia deu certo. Como você tá se sentindo?
Tatsuyo engoliu em seco, a garganta áspera emitindo um som baixo e cansado.
— Tá dormente — respondeu ela, a voz fraca, mas perfeitamente articulada e firme, sem os murmúrios desconexos de antes. — Os remédios... tão fazendo efeito. A dor parou de queimar daquele jeito. Mas eu ainda sinto... ainda sinto o peso do que aconteceu aqui dentro.
Ela desviou o olhar para o próprio abdômen por um segundo, os dedos da mão direita apertando o tecido do lençol com amargura.
— Kuro... — ela voltou a encará-lo, seus olhos pretos encontrando os dele com uma vulnerabilidade que fez o coração do atacante doer no peito. — Você me tirou daquela casa. Você me trouxe até aqui.
— Eu nunca ia te deixar lá, Tatsuyo — respondeu ele com firmeza inabalável, dando um meio passo à frente, mas contendo o impulso de segurar a mão dela sem permissão. — Eu só queria ter chegado cinco minutos antes. Eu devia ter subido aquela escada mais cedo. Me perdoa por isso.
— A culpa não foi sua — disse ela, a voz carregada de uma serenidade dolorosa, quase surreal para quem acabara de passar por uma cirurgia de emergência. — Você foi a única pessoa que se importou de verdade. O único que me viu quando ninguém queria ver.
Um nó subiu pela garganta de Kuro. Ele, que nunca hesitava nos ringues de hóquei, que derrubava adversários sem pestanejar, sentia-se desarmado diante da força silenciosa que aquela garota de um metro e sessenta e três demonstrava mesmo após ser destroçada.
Um soluço estrangulado quebrou o silêncio no pé da cama.
Nico não aguentou. As pernas do garoto cederam e ele caiu de joelhos sobre o piso frio do quarto, apoiando a testa contra a barra de ferro da cama hospitalar. Os ombros dele tremiam violentamente, as mãos magras tentando desesperadamente agarrar a barra de proteção como se buscasse ancorar-se a algo no meio de seu próprio abismo.
— Tats... Tatsuyo... — gemeu Nico, as palavras saindo truncadas pelo choro infantil e desesperado. — Me perdoa... por tudo que é mais sagrado, me perdoa! Eu não sabia... o Hidan disse que era só uma zoação, uma brincadeira idiota... eu não imaginei que ele fosse... que ele fosse fazer essa monstruosidade! Eu sou um lixo, Tatsuyo! Me bate, me odeia, mas não fica em silêncio... por favor...
Tatsuyo moveu os olhos para baixo, encarando o topo da cabeça do irmão mais novo. Não havia ódio explícito em seu semblante, nem histeria. Havia algo muito mais pesado: uma desilusão fria e irremediável.
— Levanta daí, Nico — ordenou ela, a voz baixa, mas cortante como uma lâmina de gelo.
Nico ergueu a cabeça devagar, os olhos vermelhos e o rosto banhado em lágrimas e ranho, encarando a irmã com um vislumbre patético de esperança.
— Você achou que era uma brincadeira? — continuou Tatsuyo, cada palavra pesando uma tonelada no quarto silencioso. — Você achou que trancar a sua irmã no quarto de um cara como o Hidan era uma brincadeira? Desde quando você me odeia tanto a ponto de me jogar na mão dele?
— Eu não te odeio! — protestou Nico aos prantos, erguendo o tronco trêmulo. — Eu nunca te odiei, Tats! Eu só... eu queria que eles gostassem de mim! Eu queria fazer parte do time, queria que eles me achassem maneiro! Eu fui burro, fui um covarde, mas eu nunca quis que você se machucasse! Eu juro, eu juro pela memória dos nossos pais!
— Não ouse falar deles — Tatsuyo interrompeu, com uma autoridade gélida que fez o garoto calar a boca no mesmo instante. Seus olhos negros faiscaram. — Mamãe e papai não deixaram uma herança pra gente, Nico. Eles deixaram uma casa e deixaram você sob a minha responsabilidade. Eu passei os últimos dois anos trabalhando dobrado, limpando chão e aguentando humilhação pra você não passar fome, pra você ter material escolar, pra você poder jogar hóquei na porra daquele time!
As lágrimas voltaram a deslizar pelas bochechas de Tatsuyo, mas não eram lágrimas de medo; eram o sangramento da dignidade traída.
— E no primeiro momento em que você teve a chance de se sentir importante na frente daqueles garotos — continuou ela, o peito subindo e descendo com esforço sob a camisola —, você me vendeu. Você usou a minha preocupação com você. Eu subi aquela escada porque a sua mensagem dizia que você tava passando mal. Eu achei que meu irmão precisava de mim. E quando eu entrei naquele quarto...
A respiração dela falhou por um breve segundo, a lembrança do peso sufocante de Hidan e da dor lancinante entre suas pernas ameaçando invadir sua mente. Mas Tatsuyo cerrou os dentes e segurou a própria estabilidade com unhas e dentes. Ela olhou diretamente nos olhos de Nico.
— O Hidan me destruiu por fora, Nico. Mas foi você quem me quebrou por dentro.
Nico cobriu o rosto com as duas mãos, soltando um gemido abafado e agudo, como um animal ferido de morte. As palavras da irmã caíam sobre ele como uma sentença eterna da qual ele jamais conseguiria escapar. Não havia desculpa no mundo capaz de apagar o fato de que a única razão pela qual Tatsuyo estivera naquela cama, com a carne suturada e a alma violada, fora a sua vaidade tola e egoísta.
Kuro permaneceu imóvel, observando a cena. A dor de Nico não comovia o rapaz de cabelos brancos nem por um milissegundo; pelo contrário, Kuro sentia que qualquer sofrimento que o garoto experimentasse ainda era pouco perto do inferno que Tatsuyo enfrentara.
— Eu dei meu depoimento pra médica — disse Tatsuyo, quebrando o silêncio pesado e voltando-se para Kuro. — A polícia vai vir aqui colher as provas assim que o plantão da delegacia da mulher abrir. Eu contei tudo. Dei o nome do Hidan. E dei o celular com as mensagens do Nico.
Nico estremeceu, mas não protestou. Ele abaixou a cabeça até o chão, aceitando o próprio destino sem erguer a voz.
— Você fez o certo — disse Kuro suavemente. O atacante deu mais um passo, aproximando-se da borda do colchão. Com uma delicadeza quase reverente, ele estendeu a mão grande e pousou os dedos sobre a mão livre de Tatsuyo. A pele dela estava morna novamente. — Aquele animal nunca mais vai pisar numa pista de gelo. Ele vai pra cadeia. Eu garanto a você que ele vai pagar por cada gota de dor que te causou. Pela lei... ou pelas minhas mãos se a justiça falhar.
Tatsuyo não puxou a mão. Ela virou a palma para cima, entrelaçando seus dedos finos aos de Kuro, encontrando na força firme do rapaz o único refúgio seguro que o mundo parecia lhe oferecer naquele momento.
— Não estrague o seu futuro por causa de um monstro, Kuro — pediu ela, os olhos suplicando com uma maturidade sofrida. — Fica aqui. Eu não quero mais violência. Eu só quero... que isso acabe.
Kuro sentiu um aperto doloroso no peito, engolindo a fúria cega para dar lugar ao compromisso solene de proteger aquela garota pelo resto de seus dias. Ele apertou a mão dela de volta, assentindo em silêncio.
— Eu vou ficar — prometeu ele, a voz firme e verdadeira. — Eu não vou a lugar nenhum.
Ela olhou mais uma vez para o pé da cama, onde Nico continuava prostrado, destruído pelo próprio peso de sua culpa irreparável.
— Saia do quarto, Nico — disse Tatsuyo, sua voz soando distante, selando um abismo definitivo entre os dois. — Eu não quero te ver agora. Vá pra casa. Se é que você ainda tem coragem de chamar aquele lugar de casa.
Nico ergueu-se com dificuldade, as pernas vacilando sob o corpo trêmulo. Ele fitou a irmã mais velha pela última vez, mas os olhos dela já haviam retornado para a janela, recusando-se a registrar sua presença. Sabendo que nada do que dissesse mudaria a verdade esmagadora de sua covardia, o garoto de dezesseis anos virou as costas e caminhou arrastado para fora do quarto, fechando a porta silenciosamente atrás de si.
O quarto voltou a ficar quieto, embalado apenas pelo bipe compassado do monitor.
Pela janela de vidro, os primeiros raios de sol começavam a romper a névoa escura da noite, banhando a cama com uma claridade fria e dourada. Tatsuyo continuava deitada, a dor física anestesiada nos tecidos suturados de seu corpo, mas plenamente lúcida sobre as cicatrizes que carregaria para sempre na alma.
Ao seu lado, Kuro não soltou a mão dela por um único instante, vigiando o amanhecer como uma sentinela inabalável, pronto para enfrentar as sombras que ainda estavam por vir.